sábado, 18 de março de 2017

Hibiscos, poema RCF





Os hibiscos têm mãozinhas coloridas
e estiram o braço dos galhos
para apanhar cor nos meus olhos.
As flores levantam as saias
e mostram a coxa da manhã.
Quanta licenciosidade no jardim.




(Memória dos Porcos, 2012, 7Letras)

sexta-feira, 17 de março de 2017

A mesa, poema RCF


A mesa, silente,
ignorada e múltipla como um garçom,
não pode gemer seu intestino de cupins.

Art-nouveau, barroca, inglesa, manuelina,
a mesa,
com sua prisão de ventre de madeira,
vara o tempo.

A mesa pasta, por fim, o homem,
principal alimento,
enquanto o homem pensa
que nela se alimenta.



(do livro Andarilho, 7Letras, Rio, 2000)

imagem retirada da internet: botero

quinta-feira, 16 de março de 2017

Diálogo entre Setembro e Outubro, O difícil exercício das cinzas


Perguntei a Setembro por que ele era um mês triste.
E ele me respondeu que Fevereiro
tampouco é fanfarrão e antiescolástico,
pois se aqui é carnaval,
há seis meses de noite no norte do mundo,
que é uma árvore que parte do ano planta bananeira.

E ainda me disse Setembro:
os homens são meses, alegres ou tristes,
cumprindo o calendários das soturnidades,
faça domingo, faça dia de semana,
feriado do corpo ou útil da alma.
Assim Setembro se retirou,
como soe acontecer com os meses,
e fiquei pasmo a mirar  folhinha apática e muda
até quando Outubro surgiu túrgido e obeso
e cuspiu a exasperante interrogação sobre males e descampados.


(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)

quarta-feira, 15 de março de 2017

Campo das letras, poema RCF



Oh, espírito de Faulkner no campo de cidadezinhas imaginárias.
Oh, espírito devastado na terra poética de Eliot,
espargindo dull roots.
São cruzes no cemitério
da memória
do campo,
cada letra um grão
e cada palavra um pé de milho
– ali estão os escritores canaviais como Graciliano
na sua imensa plantação de vidas secas,
no latifúndio infindo dos livros,
escutando o violino do vento
afinando as cordas
                    para a sinfonia de som e fúria.



(do livro Terratreme, 1997)

imagem retirada da internet: portinari

terça-feira, 14 de março de 2017

Desclassificado poético, poema RCF

Imagem relacionada

Vende-se, troca-se, empresta-se
alma vazia, uso desmedido,
não necessita de muita manutenção,
um pouco de poesia,
dois dedos de beleza,
um pouco de amor, pelo amor de Deus.
Capaz ainda de espasmos,
lúcida, embora dolorida,
aparência de nova,
perspicaz e dolorosa,
pode ser usada em leitura,
sentimentos nobres permitidos,
outros ignóbeis também presentes.
Quem tiver interesse,
telefonar ou procurar
na portaria do corpo
bater à porta
do corpo que a transporta.
Exige-se sigilo.
E uma profunda humanidade.


(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)

segunda-feira, 13 de março de 2017

O ajudante, Robert Walser


Ronaldo Costa Fernandes



Walser encontrado morto na neve


Kafka gostava de Walser. Benjamin gostava de Walser. Estas duas opiniões fizeram com que Robert Walser, autor suíço do princípio do século XX, não fosse esquecido e, mais ainda, tivesse o aval de um transgressor e de um crítico de visão acuradíssima. Mas em Robert Walser, de O ajudante, não há a transgressão kafkneana. Seria o curioso caso de se perguntar por que razão Kafka, cuja literatura diverge da de Walser, vai abonar o escritor suíço. As respostas poderiam ser muitas. Mas causa estranheza que um romance “realista”, de costumes, possa ter agradado a quem via a realidade de uma maneira deformada, alegórica, destoante e fantástica.
A história de O ajudante tem por cenário uma bucólica região campestre, onde um empresário sonhador, Tobler, contrata para serviços de escritório um ajudante de nome Joseph. O narrador cola-se ao personagem principal e, embora conheça as reações e angústias dos outros personagens, aprofunda-se na mente do ajudante. Joseph é sonhador, ingênuo e frequentemente devaneia. Suas observações, embora corretas, são expressas numa forma cândida, como um menino grande. Esta é inclusive a forma de escrever de Walser: um estilo comedido, sem grandes arroubos ou construções, apenas restrito ao relato pueril de Joseph. O que dá certa graça ao romance é justamente o contraste entre a “empresa” do sr. Tobler que se afunda em dívida, o mundo real de sua família, e a visão idílica do seu secretário que vê beleza e encantamento até mesmo na névoa do rigoroso inverno.
Desconhecido do público brasileiro, Walser escreve até os cinquenta anos. Depois, até sua morte, em 1956, aos 78, ficará internado em clínicas psiquiátricas. É encontrado morto, no Natal, caído na neve. Embora com grande repercussão em sua época, Walser entrará num limbo na literatura de língua alemã, só mais recentemente redescoberto. É um resgate frutífero, desses que a crítica dizia não ocorrer mais, porque estavam aparelhados para não incorrer em preconceitos que fizeram renegar as vanguardas de todos os tempos.

O ajudante é um livro publicado em 1908 e poderia ser considerado uma novela longa, já que o narrador prende-se a um só personagem e, linearmente, o acompanha até o final, numa linha reta narrativa, desprovida de polifonias ou escritura mais elaborada. Walser apostou todas as cartas – talvez apostar não seja o termo para um escritor que não revia seus textos e era perseguido pela sombra familiar da loucura – todas suas cartas, repito, no vigor da narração pura e simples.
Joseph, o ajudante, aos poucos deseja fazer parte da família, sente-se integrante da natureza em volta, da casa aconchegante, intromete-se nos assuntos profissionais e familiares de modo pouco ortodoxo. Esta disfunção entre empregado da empresa e pretenso membro da família não assumido cria uma atmosfera de conflito sutil que conduzirá a trama a seu desfecho final. A ironia, sempre a ironia, é que vai desfazer o ar sério e de crítica à família burguesa que existe no romance, mas não nos parece o foco central do romance.
Joseph é um intruso na família burguesa. Um ser invasor na paz da família, mesmo derruída pelo adultério da mulher e falência financeira do marido. Este ser intestino que, ao final percebe a fragilidade do mundo que elegeu como ideal e pacífico, mostra uma certa perplexidade frente a um quadro que pintou e, afastando-se para ter uma melhor perspectiva, percebe que não é aquilo que projetou imprimir na tela.
O livro de Walser tem um lado moderníssimo: pouca trama. Mas é só. O romance se inicia com a chegada do ajudante na casa do Sr. Tobler e acaba quando, desiludido, o ajudante parte. Pouca coisa acontece para um romance de 1908. Não há fatos extraordinários, mudanças de clima ou enredo, peripécias. É uma narração monocórdia, linear e “ingênua”. Se Machado – contrariando um germanófilo que odeia a literatura brasileira – escrevesse em alemão, o seu Memorial de Aires (para alguns o livro mais fraco da segunda fase) talvez enlouquecesse mais ainda os leitores como Kafka. Mas Machado escreveu em língua periférica, num país periférico. Walser, pelo menos com seu O ajudante, se não é um dos grandes pré-modernos, encanta, existe aqui uma magia além do cânone.

imagens retiradas da internet

domingo, 12 de março de 2017

Poema sobre arames


Há mãos farpadas
que não ouso tocar
assim como algumas
barbas que é o ódio
que escorre
das comissuras da boca.

Há lençóis de arame farpado
na cama de dois
que não são mais um.

Ah coleção de línguas
que ao lamber a carne
abrem feridas.

Já o arame dos teus olhos
são farpas que nada cercam.
Tuas cercas, até mesmo tuas cercas,
são mais vivas que as minhas.

Farpada é minha mente
que me fere quando penso
o que pensar não deveria.



(do livro A máquina das mãos, 7Letras, 2009)

imagem retirada da internet: barbed wire