sábado, 10 de outubro de 2015

O amor traduzido, poema RCF






Visitei a casa do ciúme,
onde se supõe que cada sombra
esconde encontros lúbricos
atrás de portas que se multiplicam
como espelhos postos um diante do outro.
Pensei em gestos ensandecidos:
enforcamento por pasmo,
o arsênico da fome,
o gás do flagrante.

Vesti-me de todas as maneiras,
deixei o cabelo crescer;
cortei o cabelo,
usei bigode e fiz curso noturno.
Li poemas de Shakespeare,
no original,
porque o amor
é de difícil tradução.

 

 

(poema reescrito do livro de estreia Estrangeiro, Rio, Sette Letras, 1997)
 
 
 
 

 

A Academia Brasileira de Letras (ABL) e a Imprensa Oficial de São Paulo lançaram no dia 29 do mês passado, a partir das 18h30, na sede da ABL, 38 títulos da Série Essencial.


Composto por livros que oferecem informações básicas sobre os ocupantes das cadeiras da ABL ao longo de sua história, bem como sobre os patronos da instituição, cada volume apresenta ainda sucinta antologia dos imortais.

Acadêmicos e especialistas responsáveis pelos textos pretendem atingir um público amplo e diversificado. A intenção é que a obra desperte no leitor o interesse de se aprofundar no conhecimento da obra de todos aqueles que tiveram seus nomes vinculados à ABL.

Em formato de bolso, a obra será comercializada em kits, a R$ 100, ou separadamente, a R$ 10 a unidade. O kit contempla 15 livros.



Imortais e seus autores:

Afonso Arinos – Autor: Afonso Arinos, filho; Afrânio Coutinho – Autor: Eduardo Coutinho; Alberto de Oliveira- Autor: Sânzio de Azevedo; Alberto de Faria – Autora: Ida Vicenzia; Alcântara Machado – Autor: Marco Santarrita; Alfredo Pujol – Autor: Fabio de Sousa Coutinho; Álvares de Azevedo – Autora: Marlene de Castro Correia; Álvaro Moreyra – Autor: Mario Moreyra; Augusto de Lima – Autor: Paulo Franchetti; Austregésilo de Athayde – Autora: Laura Sandroni; Antonio José da Silva, o Judeu – Autor: Paulo Roberto Pereira; Bernardo Élis – Autor: Gilberto Mendonça Teles; Castro Alves – Autor: Alexei Bueno; Celso Cunha – Autora: Cilene da Cunha Pereira; Cyro dos Anjos – Autor: Sábato Magaldi; Coelho Neto – Autor: Ubiratan Paulo Machado; Domício da Gama – Autor: Ronaldo Costa Fernandes; Euclides da Cunha – Autor: José Maurício Gomes de Almeida; Gonçalves Dias – Autor: Ferreira Gullar; Graça Aranha – Autor: Miguel Sanches Neto; Gregório de Mattos – Autor: Adriano Espínola; Humberto de Campos – Autor: Benício Medeiros; José do Patrocínio – Autora: Cecilia Costa Junqueira; Josué Montello – Autor: Claudio Murilo Leal; João Cabral de Melo Neto – Autor: Ivan Junque; Júlio Ribeiro – Autor: Gilberto Araújo; Lafayette Rodrigues Pereira – Autor: Fabio de Sousa Coutinho; Luiz Edmundo – Autora: Maria Inez Turazzi; Mario de Alencar – Autora: Flávia Amparo; Magalhães de Azeredo ; Autor: Haron Jacob Gamal; Machado de Assis – Autor: Alfredo Bosi; Rachel de Queiroz – Autor: José Murilo de Carvalho; Raimundo Correia – Autor: Augusto Sérgio Bastos; Ribeiro Couto – Autora: Elvia Bezerra; Sergio Correa da Costa – Autora: Edla van Steen; Teixeira de Melo – Autor: Ubiratan Machado; Vianna Moog – Autor: Luís Augusto Fischer; e Visconde de Taunay – Autora: Mary del Priore



sexta-feira, 9 de outubro de 2015

A guerra, poema RCF




Cheguei a ter uma rosa dos ventos
que apenas floriu
nas cartas que jamais recebi.
Não posso negar que tenho a consistência
de um trem:
meu início pode ser meu fim
(basta que mude de lugar
a fornalha que arde meus loucos motivos).

Cheguei a crer-me medieval e encouraçado:
era apenas a Idade Média da adolescência.
Meu norte é fácil porque depende apenas
de um fonema: a morte.
Tenho nostalgias das pontes
e gosto da idéia de estar
suspenso entre duas margens.

Acordo sempre com a sensação
de não haver dormido.
E o sono, ao contrário da letargia,
tem sido apenas uma pitada errada
do sal da lucidez
que, exagerado,
maltrata antes que dá gosto.

Nenhuma arma
fere mais, mortal e decisiva,
como o fogo-fátuo das sensações.
Passo então o dia no mundo da lua:
Sou Jorge e o Dragão.




(Estrangeiro. Rio: 7Letras, 1997)




 

Em meu ofício ou arte taciturna, Dylan Thomas





Em meu ofício ou arte taciturna
Exercido na noite silenciosa
Quando somente a lua se enfurece
E os amantes jazem no leito
Com todas as suas mágoas nos braços,
Trabalho junto à luz que canta
Não por glória ou pão
Nem por pompa ou tráfico de encantos
Nos palcos de marfim
Mas pelo mínimo salário
De seu mais secreto coração.

Escrevo estas páginas de espuma

Não para o homem orgulhoso
Que se afasta da lua enfurecida
Nem para os mortos de alta estirpe
Com seus salmos e rouxinóis,
Mas para os amantes, seus braços
Que enlaçam as dores dos séculos,
Que não me pagam nem me elogiam
E ignoram meu ofício ou minha arte.



quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Queimada, poema RCF





A queimada
coloca a terra de cabeça
para baixo
deixando à mostra as raízes
retorcidas em seu gozo de fogo.

O fogo vai arando
com sua foice de línguas,
foice de lâmina mole
mais cortante que fio da navalha.

O campo todo é plantação
de navalhas.
Estou só, perdidamente só,
olhos incandescidos,
na visão fervente do inferno na terra.

Olha bem, são as chamas sentinelas
que, esgalgadas,
vão se esmiuçando
na tropa vermelha
da terra arada
pelos bois
de morte e fúria
que são a combustão
do homem desesperado.

Tudo se amiúda
e cobrem a terra
a coivara
e as sementinhas
negras do nada
das cinzas.
Há silêncio
e o crepitar atrasado
do borralho
– é a terra que se asfixia
dos restos de si mesma
com a capa de chuva negra
que desveste
quando deveria cobrir.


(do livro Terratreme, edição da Secretaria de Cultura do DF, prêmio Bolsa Brasília de Literatura, 1998)


 

A máquina das mãos por Euler Belém


Um livro para chamar de grande



Li, antes, o prosador. Tão complexo quanto Kafka e Beckett (Raymond Carver? Quem sabe). Minimalista, às vezes. A palavra instigante tem sido castigada pelos “críticos cientistas”, porque revela o leitor impressionista, o que sou. Portanto, como não estou entre os críticos cientistas, os anatomistas do texto, posso dizer que a prosa de Ronaldo Costa Fernandes é instigante. Por quê? Porque um texto puxa o outro. Queremos ver como o autor resolve o conto seguinte. Mas tal não ocorre tão-somente com o prosador. O poeta, que eu conhecia menos, ou nada, é surpreendente. Recomendo vivamente “A Máquina das Mãos” (Editora 7 Letras, 102 páginas).
Costa Fernandes é poeta moderno, só não é modernoso, e dialoga, de igual para igual, com a tradição, inclusive a filosófica. Não há o mínimo desleixo. Há rigor. Palavras devorando palavras certas nos lugares certos.
O que ele arranca da doença (câncer) de Jacques Derrida (o Jacques Dá ou Desce, segundo José Guilherme Merquior) é, deixado o que é triste de lado, até divertido, cômico. Poderíamos chamar o poema de “Aula de anatomia”, com um quê de grego e, mesmo (exageremos), surreal, mas o autor preferiu “Em torno a uma imagem de Derrida pouco antes de sua morte”.
Transcrevo o poema para mostrar a mestria cadenciada de Costa Fernandes: “Recuso a voz verde de Derrida,/os olhos de estanho,/a pele ausente que pode rasgar-se,/plumagem de pássaro último./O câncer está prestes a mudar sua pele/— esta, a plumagem de gesso envelhecido,/a pele de terno com que se veste o morto./Cada vez que respira,/a marreta do matadouro miúdo/ameaça o cérebro filósofo./Carrega consigo o pequeno cadáver/de fígado, rim ou pulmão/que morreu antes dele./Logo sairá do cinema da morte./Entramos numa grande sessão de cinema/que dura vinte, cinqüenta ou setenta/anos e, de súbito, em vez de as luzes/acenderem, tudo se apaga.” Pois é: Derrida somos nós. Hoje ou amanhã. A vida é a grande (curta, às vezes) sessão de cinema.
Nas lápides dos cemitérios deveria constar: “Amou [muito ou pouco, dependendo do sujeito] e odiou” [idem]. O homem ama e odeia às vezes na mesma proporção. Mas há os cultores da blasfêmia, talvez todos nós. Recomendo, pois, a leitura de “Tormenta dos caminhos”: “A blasfêmia se alimenta/de criadouro de ouvidos./O maldizer engorda em cativeiro,/até que se abra a gaiola/e o burburinho inche/seu papo amarelo de intriga.//Não há como arbitrar o limo./A língua tem lá suas escamas./Os cabelos das ondas/necessitam de cachos para espumar./As correntezas são outro/caminho de água/dentro da água.//Preciso de faca para escamar,/de secura para fugir do limo,/de imaginação para ser/um caminho entre caminhos”. Deixo os achados, múltiplos, para os leitores, mas como deixar de mencionar “os cabelos das ondas necessitam de cachos para espumar” ou “as correntezas são outro caminho de água dentro da água”?
Costa Fernandes homenageia, num poeta curto, “Samuel Rawet”, o escritor judeu que “assombrou” Brasília: “A angústia judia e imigrante de Rawet,/que vivia apenas em seu gueto de Sobradinho./Rawet morreu lendo, em sua cadeira de balanço,/e lá ficou três putrefatos dias./O gueto de Rawet era sua cadeira de balanço,/ o menor gueto do mundo”. A cadeira era mesmo seu gueto, mas havia outro, o interior, no qual Rawet certamente se livrava do exterior, o contato com os “muito” normais. Nós, os normais paranóicos.
É difícil, senão impossível, descobrir uma poema ruim neste livro de Costa Fernandes, o que prova, decerto, a seleção rigorosa de um poeta rigoroso, sua secura da elaboração não esmaece o vigor das sensações apuradas. A forma como usa as palavras para observar e descrever as coisas, a vida, o comportamento é um espetáculo à parte. Os poetas dizem aquilo que gostaríamos de dizer, mas não temos (as) palavras.


Euler Belém (Jornal Opção)

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Um homem é muito pouco 23


     
        Onde está minha cruz? Às vezes deito no chão. Ponho pé sobre pé. Abro os braços. Tento pensar como Cristo. Não sou Cristo. Nem sou cristo. É apenas um exercício. Tem gente que faz flexão; outros, abdominais. Minha flexão é mental. Minha abdominal é cerebral. Faço duzentas flexões mentais. Por outro lado, meu recorde é cento e vinte abdominais cerebrais. Uma delas é pensar como Cristo. O que Cristo pensou na hora em que estava na cruz? Doem-me as costelas, tenho um pulmão perfurado, vaza água dentro de mim. Há uma fileira de Cristos. Só eu ficarei na História. Se tivessem me matado com uma adaga, qual seria o símbolo da minha religião? Uma adaga turca? De envenenamento? De envenenamento o símbolo teria que ser abstrato. Eu criaria a primeira religião cujo símbolo é abstrato. Abstratos são o pão e o vinho. Se morresse envenenado poderia eleger a pimenta como símbolo da minha religião. Riam, riam. Ninguém consegue hoje pensar em Cristo e não pensar na cruz. A Bíblia teria sido reescrita: o vinho é o meu sangue, o pão é minha carne, e a pimenta será minha cruz. Não, não pode haver cruz. Então há de reescrever a última frase. Mas Cristo, na última ceia, não fala da cruz. Então não seria necessário reescrever a Bíblia.

            Quanto tempo passo como Cristo? Não sei. Às vezes estou na rua e também sou Cristo. Ninguém sabe que sou Cristo na fila do supermercado, na fila do banco, na feira livre. Ser Cristo na feira livre equivale a cinquenta flexões, o sujeito que consegue se concentrar numa feira livre faz muito mais esforço que se concentrar na antessala vazia de consultório de dentista. Meu exercício para ser Cristo é tremendo. Estou na fila do caixa do supermercado e me imagino ali com coroa de espinhos na cabeça, camisão branco, barba longa e escura. Ninguém vê minha coroa de espinho, meu camisolão branco e minha barba comprida. Um amigo meu não vê diferença entre mim e um hare krishna que canta mantras. Mas não é igual o meu Cristo a ser um budista de classe média de cidade grande no meio dos trópicos, no calor de quarenta graus do Rio de Janeiro no verão, onde até as ideias são bronzeadas de tanto esquentar o cérebro, mesmo na sombra. Um calor como esse não deve fazer bem aos nervos nem aos pensamentos.

Soneto 31, Garcilaso de la Vega






Dentro de mi alma fue de mí engendrado
un dulce amor, y de mi sentimiento
tan aprobado fue su nacimiento
como de un solo hijo deseado;

mas luego de él nació quien ha estragado
del todo el amoroso pensamiento:
que en áspero rigor y en gran tormento
los primeros deleites ha tornado.

¡Oh crudo nieto, que das vida al padre,
y matas al abuelo! ¿por qué creces
tan disconforme a aquel de que has nacido?


¡Oh, celoso temor! ¿a quién pareces?
¡que la envidia, tu propia y fiera madre,
se espanta en ver el monstruo que ha parido!


 

A voz de um poeta afegão

Poeta afegão dá forma ao metal e a palavras duras
 


Azam Ahmed
Em Khost, no Afeganistão
  • Christoph Bangert/The New York Times
    Matiullah Turab, um dos mais famosos poetas pashtuns do Afeganistão, na garagem onde ganha a vida consertando os coloridos caminhões de caravana paquistanesesMatiullah Turab, um dos mais famosos poetas pashtuns do Afeganistão, na garagem onde ganha a vida consertando os coloridos caminhões de caravana paquistaneses
O poeta passou uma tira de metal pelos cortadores de aço antigos, gerando triângulos brilhantes que caíam com um ruído monótono no chão da oficina.
Ao fundo, o ruído dos trabalhadores enchia o pátio: uma plaina trabalhando sobre uma longa viga, um gerador zumbindo; o gemido de um caminhão gigante a diesel em marcha lenta.
A música da dura jornada de trabalho brotava em torno de Matiullah Turab, um dos mais famosos poetas pashtuns do Afeganistão, na garagem onde ganha a vida consertando os coloridos caminhões de caravana paquistaneses, que transportam mantimentos para o campo.
A cadência de suas noites, no entanto, é própria: formatando uma poesia tão dura e penetrante quanto as ferramentas que usa durante o dia. A natureza e o romance não lhe despertam o menor interesse.
"O trabalho de um poeta não é escrever sobre o amor", rosnou, com sua voz potente misturando-se ao ruído da oficina. "O trabalho de um poeta não é escrever sobre flores. Um poeta deve escrever sobre o sofrimento e a dor das pessoas".
Com suas palavras resolutas, Turab, 44, oferece uma voz para os afegãos que se tornaram cínicos em relação à guerra e seus perpetradores: os norte-americanos, o Talibã, o governo afegão, o Paquistão.
A guerra se transformou em um comércio
Cabeças foram vendidas
Como se tivessem o peso do algodão,
Na balança estão os juízes
que experimentam o sangue, e então decidem o preço


Versões gravadas dos poemas de Turab se espalham de forma viral, especialmente entre os pashtuns, os quais ele defende descaradamente -- em uma afinidade tribal que aliena alguns tadjiques e hazaras. Sua estreita ligação com Hezb-i-Islami --meio partido político islâmico, meio grupo militante-- afasta outros.

Apesar de suas afiliações estreitas e sectaristas, sua poesia tem apelo popular. Turab reserva sua caridade para os afegãos comuns, abatidos pela corrupção e o desapontamento que vieram a definir a última década de suas vidas.
Muitos veem seus poemas como uma forma de combater a versão dos fatos diariamente propagada pelo governo, diplomatas, líderes religiosos e a mídia. Alguns dos poemas foram traduzidos do pashtum para o inglês pelo "The New York Times".

Vocês, porta-bandeiras do mundo,
Que nos fizeram sofrer em nome da segurança
Gritam por paz e segurança,
e despacham armas e munições


Sentado em um banco improvisado, com o chapéu de lã pakol ligeiramente inclinado e roupas manchadas de graxa, Turab olhou para a noite para além de sua oficina de concreto, uma paisagem de panos, arames e lixo. O calor miserável era quebrado de forma intermitente por um ventilador de pé ligado a uma bateria de carro. Um vendedor vizinho martelava uma pedra de gelo, cortando pedaços para vender aos motoristas que passavam por ali.
"Não há nenhum político genuíno no Afeganistão", disse ele, abrindo um breve e raro sorriso. "Até onde eu sei, os políticos precisam do apoio do povo, e nenhum desses políticos têm isso. Para mim, eles são como acionistas de uma empresa: só pensam em si mesmos e em seus lucros".
Ele continuou: "O Talibã tampouco é a solução. Já se foram os tempos quando a maneira de o Talibã governar funcionava".
Ele não tem paciência para preciosismos em seu próprio trabalho ou no de outros. Ele é particularmente impiedoso com membros do governo. Ele os ridiculariza, dizendo que deveriam costurar três bolsos em seus casacos: um para coletar a moeda afegã, outro para coletar dólares norte-americanos e um terceiro para as rúpias paquistanesas.
Apesar de todo seu desprezo, no entanto, Turab continua popular em círculos influentes do governo, e o presidente Hamid Karzai convidou-o recentemente para o palácio presidencial em Cabul.
"O presidente gostou da minha poesia e disse que eu tinha uma excelente voz, mas eu não sei por que", disse ele. "Eu o critiquei".

Na verdade, ele é bastante requisitado. Embora ele prefira estar em casa em Khost, a agenda de viagens de Turab supera muito a dos outros ferreiros. As pessoas se reúnem para ouvir suas raras leituras pessoais e, quando novos poemas são postados no YouTube, rapidamente ficam entre os mais assistidos pelos afegãos.
Ele está planejando uma viagem a Moscou em breve para receber um prêmio de membros da diáspora afegã. E ocasionalmente ele se apresenta para o governador de Paktia, um amigo.
Turab é o mais recente de uma longa lista de poetas afegãos adorados, sendo o mais famoso o místico sufi Rumi, cujas obras de amor e fé permanecem populares em todo o mundo. Neste país, aforismos poéticos surgem nas conversas cotidianas, adotados por afegãos de todas as esferas da vida. Em partes de Cabul, não é raro ver homens amontoados transferindo arquivos de áudio de leituras poéticas de um telefone celular para o outro.
Embora a poesia seja amada, raramente é paga. Alguns escritores assumem empregos públicos, concluindo que o salário fixo e as responsabilidades modestas podem ser favoráveis ao seu trabalho. Turab, por sua vez, ficou em sua garagem suja na periferia da cidade de Khost.
"Esta é a minha vida, o que você vê aqui: bater no ferro, cortá-lo, alongá-lo", disse ele. "Eu ainda não me digo poeta".
Há outra coisa, porém, que até o franco Turab parece relutante em confessar: ele é quase analfabeto. Embora consiga, com dificuldade, ler uma cópia impressa, ele nem escreve nem lê a caligrafia dos outros, disse ele. Ele constrói sua poesia de cabeça, e confia na memória para retê-la e nos outros para gravá-la.
Turab cresceu em uma pequena aldeia da província de Nangarhar. Era pobre até mesmo para os padrões afegãos. Seu pai era agricultor e plantava apenas o suficiente para alimentar a família. Embora tivessem pouco, ele lembra com carinho de sua infância --particularmente dos dias que passava estudando com o poeta da aldeia, um homem que amava por suas palavras afiadas e sua honestidade.
Depois da invasão soviética em 1979, Turab, que era adolescente na época, mudou-se com a família para o Paquistão. Lá chegou a fase adulta, retornando ao Afeganistão apenas duas décadas mais tarde, com um comércio, uma esposa e um público modesto como poeta.
Ele continuou refinando sua arte depois de seu retorno, cultivando um público cada vez mais amplo. Sob o governo Talibã, ele se atreveu a publicar um livro com sua obra --um erro grave.
"O Talibã me bateu muito", disse ele, balançando a cabeça e em seguida abrindo um sorriso. "Depois disso, eu decidi que publicar não era uma boa ideia".
Embora ele seja declaradamente leal aos pashtuns, ele não tem amor pelos talibãs, estreitamente identificados com as tribos pashtuns. Ele diz que odeia o terror que cultivam e a forma como desestabilizaram o Afeganistão. E os criticam por serem tão ineptos e alienados quanto o governo apoiado pelo Ocidente.

Ó cemitério de caveiras e opressão
Rasgue a terra e reapareça
Eles me provocam com o seu sangue,
E vocês jazem intoxicados com pensamentos de virgens.

A estrada de terra diante de sua loja percorre todo o caminho até o Paquistão, e é uma salvação econômica. Há comerciantes ao longo de toda a estrada, vendendo de tudo, desde neve para evitar o calor escaldante até frutas da estação. Periodicamente passa um comboio de veículos americanos, quebrando o feitiço de uma cena totalmente afegã.
"Às vezes fico surpreso que as coisas não estejam caindo aos pedaços", disse ele, unindo as mãos enquanto reflete sobre os anos de guerra e de presença estrangeira. "Mas então percebo que há uma lei social aqui que mantém o país unido, mesmo que não haja nenhuma lei governamental".
Embora ele tenha sido crítico da ocupação norte-americana, ele nota o progresso que veio com ela: estradas, energia elétrica e escolas. São outras partes do legado ocidental no Afeganistão que o deixam preocupado.
"A democracia vai prejudicar e eliminar nossas leis tribais", disse ele. "O remédio prescrito pela democracia não foi adequado para a doença desta sociedade".
Tradutor: Deborah Weinberg
(fonte:uol)

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Um homem é muito pouco 35



            Pensei em matar Vicentino. Não iria entrar em confronto direto, medir forças. Iria usar a mesma funda de David nele: a traição. Viria por trás com cordão de náilon e enforcaria o bicho. Vicentino deveria ser um bicho desses difíceis de morrer. Ele mesmo contou que durante a guerra viu um vizinho ser crivado de balas, mais de dez, entrar em coma, depois delirar, costurar todas as vísceras e voltar à vida, andando e falando como se não carregasse com ele metade das balas que não puderam ser retiradas. Homens vazados e secos como Vicentino que tinha músculos nas vísceras eram difícil de matar. De súbito me dei conta de que não poderia me converter num Vicentino. Não poderia sair pela vida enterrando corpos, resolvendo diferenças enterrando mortos sob o ladrilho, haveria um momento em que tudo subiria à tona. Não era igual Vicentino e não queria ser igual a Vicentino. Não era angolano, não passara por nenhuma guerra civil, a não ser minha própria guerra.

Alice me contou que eu estava fora, ela estava dormindo. Vicentino abriu a porta para conversar comigo. Pensou que poderia me fazer ouvir suas queixas contra Ariana, o capitão Vaz, o gerente manco, o dinheiro que mais desfazia do que fazia, quando me chamou uma e duas vezes. Não respondi. Não podia ouvir Vicentino me chamar em Copacabana. Eu estava na Rua México. Ele abriu a porta do quarto. A luz pouca acabou mostrando a carne dormida e seminua de Alice. A carne de Alice com pouca roupa era carne cheia de desvios. Vicentino parou diante da estupefação da beleza substancial dela. O problema era que Alice não era mucama, já disse, mucama branca, mucama de Vicentino. Ele tocou na pele branda de Alice. Alice despertou e despertou em mim o ódio que nunca nutri contra Vicentino.

Os tambores de São Luís, de Josué Montello



Em Os tambores de São Luís, a ambientação épica se mescla com o drama individual de Damião. Ali está a saga do negro escravo no Maranhão e, por extensão, no Brasil Império. O horror da escravidão coloca a famosa frase do homem como lobo do homem num exemplo maior de degradação do homo sapiens. Josué Montello, assim como o Graciliano de São Bernardo, soube agregar o fator humano e psicológico ao grande drama coletivo. Ao mesmo tempo em que descreve o regime escravocrata em suas minúcias, com a lupa do historiador meticuloso, Josué também se adentra na psique de Damião, sua angústia individual, seu percurso cruel de negro foro que não encontra lugar na sociedade dos brancos. A saga individual de Damião é de grande força narrativa. Um personagem que supera o ambiente, impõe-se pela inteligência e cultura, mas definha e encurrala-se, escorraçado pelo meio mesquinho e amesquinhante. De certa forma, diria que Montello construiu uma fábula. Sua narrativa realista, que se aproxima dos grandes narradores do século XIX, é verdadeiramente verossímil e aposta tanto na realidade que, em certo sentido a supera, a narrativa passa a ser, inclusive porque está em outra época, uma narrativa de cunho quase mítico. Josué Montello, que com sua extensa obra, poderia ser classificado de o Balzac maranhense, também poderia levar outro título, com este Os tambores de São Luís. O do autor da Damiíada, ou seja, o poema homérico do negro brasileiro em sua epopéia de salvar um povo. Damião, assim como Ulisses, participa de uma verdadeira guerra dos quilombos. A partir da volta à fazenda onde era escravo, Damião empreende uma verdadeira viagem de retorno a sua casa. A casa de Ulisses era Ítaca. A casa de Damião é uma casa coletiva: o reencontro do negro com sua raça livre. Observe-se que durante todo o périplo de uma noite, Damião é perseguido por uma identidade sonora: os tambores de Mina que lhe dão a identidade afro-brasileira. Todo o livro é uma seqüência de lutas e de conquistas, de sereias que encantam e ilhas que na verdade são armadilhas como o clero e o magistério, de polifemos que o querem destruir. Dois tempos como na epopéia: o tempo do narrado e o tempo do narrador. Embora não haja o absurdo e o maravilhoso de Homero, existe aqui o homem em luta contra os elementos da natureza e das forças sociais que o fazem herói de sua raça. Para aqueles que estranham a comparação entre o romance de Josué Montello e a Odisséia, de Homero, lembremos que o Ulisses, de James Joyce, que se pretende uma narrativa homérica, valeu-se de apenas um dia do personagem Leopold Bloom para construir sua epopéia moderna.


O romance histórico não tem sua pertinência se não tocar em temas contemporâneos. Esta é a grande virtude e defeito do romance histórico. Se não for bem realizado, soa como coisa antiga, ultrapassada. Há de haver no bom romance histórico o diálogo com dois tempos: os problemas que afligem os de hoje com a trama e o tema de que trata a narrativa. Nesse sentido, Josué Montello realizou muito bem seu projeto estético ao construir Os tambores de São Luís. O problema social da discriminação racial ainda está presente na agenda das discussões do Brasil de hoje.

Quando criticaram Umberto Eco por colocar no romance O nome da rosa, ambientado na Idade Média problemas que não tinham sido aventados naquela época e que pertenciam às inquietações de hoje, Eco respondeu que não entendia o romance histórico de outra maneira, já que a reconstrução de uma época pura e simples de nada valia se não contivesse o germe do permanente e da inquietação do leitor moderno. Eterno e moderno parecem ser as duas palavras chaves do romance histórico.

Em Noite sobre Alcântara, Josué faz do romance um retrato de uma decadência de uma cidade. Na verdade, Natalino, o Major Natalino, herói da Guerra do Paraguai, que retorna à cidade natal é uma metonímia da cidade e a cidade, por sua vez, é a grande personagem da história. Natalino e Alcântara tanto se imiscuem que a infertilidade de um é a improdutividade de outra. Aqui está a cidade abandonada, entregue às suas ruínas e a seu passado faustuoso, às lembranças de tempo de bonança. Na figura balzaquiana do personagem comprador de antiguidades, o judeu Davi Cohen, Josué caracteriza a avidez dos que vivem da decadência alheia. Cohen não é apenas um comerciante, mas um personagem ávido por bens materiais que para seus antigos proprietários representavam valores afetivos e toda uma cultura doméstica que a ganância de Cohen, símbolo quem sabe do capital despersonalizado, desconhece. Junto com Os tambores de São Luís, neste livro Josué mapeia o imaginário maranhense de determinada fase da nossa cultura. Mostra o estágio da economia agrária que levaria a uma industrialização que tarda a chegar. Mostra um Maranhão, por outro lado, rico e majestoso em sua história e nos caminhos e descaminhos de sua cultura. O incêndio final na casa de Cohen vem fechar definitivamente um ciclo. O incêndio na casa do judeu não apenas acaba com suas peças valiosas ou de arte, mas também coloca cinza e ponto final, na passagem do século XIX para o XX, em sua festa de Ano Novo, quando os velhos habitantes retornam para a festividade, o incêndio na casa de Cohen, dizia eu, queima as últimas quimeras de um retorno a uma cidade que há muito deixou de existir.

É também simbólico o fato de Natalino, que se considerava estéril, descobrir, ao final da vida, que tinha gerado um filho. É simbólico porque o filho de Natalino também sugere o renascimento de Alcântara. Não mais com o fausto anterior, mas como promessa de outra vida, da continuidade da existência, da passagem do Natalino velho ao filho novo, ou ainda no plano simbólico, da velha e aristocrática Alcântara a uma promessa de uma vida que não se encerrou com a improdutividade da cidade que vivia da atividade agrária e da escravatura.

imagem retirada da internet

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

A pátria onde a fronteira se move


 
 
 
 
 
Emigrei da infância
– terra natal e minha língua materna –
para os campos de adulto.
Meu passaporte pela adolescência
está carimbado de desejos.
Ah, o mar morto em que banhei
minhas ambições.
Nunca mais me repatriei
e por isso vivo estrangeiro,
cujas fronteiras se movem
a depender do idioma
em que se fala futuro.
A 3 x 4 me deportam
para uma foto
que documenta minha pátria:
o contrabando dos anos
na última alfândega
lá onde a revista estampa
minha diáspora.
Vou indocumentado pelo anonimato,
atravesso a fronteira das ruas
onde nenhuma guarda meu passado.




(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)


imagem: radu belcin

Exilados, conto de Jádson Barros Neves

*Menção honrosa no concurso Guimarães Rosa da RFI em 1994


O navio era branco e deslizava na linha do horizonte, em mar ensolarado, sereníssimo, e desvaneceu-se com a lufada de ar que atingiu o rosto de Mábio. Então, Mábio descobriu-se na mesma cama onde dormira na noite anterior, com a mesma dor de cabeça e a mesma náusea de suas manhãs. Depois, embora plenamente acordado, não se sentia com ânimo para deixar o leito junto à janela aberta: o pequeno retângulo onde naufragava um pedaço de céu cinza e baixo, a plenitude da oitava manhã de chuva, a de domingo.
Do dia anterior, recordava muito pouco. A manhã, com uma espécie de sereno esfarinhado castigando o mundo, galopara velozmente. Depois do meio-dia, ainda sem comer nada, ele havia entrado no salão de sinuca e tomado a primeira dose de uísque. Lembrava-se de ter bebido mais cinco doses, antes de pegar o taco e aproximar-se dos homens que jogavam vida e dizer-lhes: “Também embarco nesta”. Vencera algumas partidas; depois começara a perder seguidamente, suando muito, ofuscado pela luz crua da lâmpada que iluminava o relvado da mesa de sinuca.
Numa hora incerta do final da tarde, aconteceu a algaravia dos homens e mulheres que assistiam às partidas, o mergulho inexorável da última bola na caçapa de alumínio, o olhar triste e vasto de Débora e a rajada de vestido azul, quando deixou o salão às pressas. Entre o instante de risos, quando tinha visto Horácio contar o dinheiro, e o instante em que aparecera no quarto, no útero da noite avançada (apoiando-se à porta, louco por cama e contra todo resmungo de Débora, que piscava por causa da luz acesa), havia uma enorme zona de silêncio.
Débora estava sentada diante do nublado espelho do guarda-roupa. Nua, de costas para Mábio e penteava o cabelo em silêncio. Quando viu o par de olhos chamejantes fixando-a do fundo do espelho, algo a trouxe da lembrança dos prados verdes e das tardes de mar para a manhã nublada. Então, voltou para a cama. Depois, invertida no espelho, Mábio via-lhe parte do cabelo negro esparramando-se sobre o ombro e o delicado leito da medula fundindo-se sutilmente às pequenas nádegas.
A barriga crescia vagarosamente. Provavelmente Mábio nem perceberia a mudança, de tão distraído. Barriga mínima: talvez herança da mãe. Ou talvez o fruto de Mábio fosse de parco caroço. Talvez isso. Apenas isso.
– É no que dá, passar a noite na chuva, como um cachorro sem dono, ela disse, limpando com a ponta dos dedos a maré dos olhos.
Jogada a um canto do quarto, havia uma valise de couro, que, surrada de tantas viagens inesperadas e arremessos súbitos em quartos de hotéis baratos, acabara por perder o brilho e exalava um cheiro de coisas antigas, quando aberta. Débora permaneceu agachada sobre ela o tempo indispensável para retirar o mercúrio, o esparadrapo e a gaze. Limpou a ferida da perna de Mábio e fez o curativo. Depois, foi ao banheiro. Arrumou sobre a pia o pedaço de sabonete, a lâmina de barbear e o espelho. "Pronto”, ela disse.
Auxiliado por ela, Mábio vestiu-se. Foi para o banheiro com uma toalha jogada sobre o ombro. "Vista-se também; é tarde para andar assim pelo quarto”. Encolhendo-se sobre o estômago, livrou-se do vômito que lhe causava ânsias desde cedo. Em seguida, por duas vezes tentou afinar o bigode, mas estragou uma das pontas e preferiu livrar-se dele. Vendo o olhar sério que o encarava do fundo do espelho, pensou na crosta de estragos invisíveis que o tempo vai deixando silenciosamente sobre os objetos e as pessoas. Lembrou-se da mãe, a essa hora da manhã costurando na sala, perto da janela que se abria para o quintal, onde nessa época do ano acontecia o incêndio das roseiras vermelhas. Falou sobre isso para Débora.
Ela não o ouviu, absorta na contemplação da paisagem. A maioria das casas próximas ao rio eram construídas sobre palafitas, portas e janelas cerradas. Na vasta desolação cinzenta, cinco araras vermelhas passaram gritando, quase roçando com as asas o céu que parecia feito de espuma. Depois ficou apenas o silêncio sobre o mundo. Mábio voltou do banheiro alisando o cabelo com os dedos.
– Pode demorar um pouco, Mábio, mas a enchente atingirá o hotel.
– Vamos, ele disse.
Caminharam ao longo do corredor escuro e úmido. Ele ia à frente, meio fatigado, claudicando a perna direita; ela tinha os olhos fixos na tênue poça de luz do final do corredor.
A coisa de que eu mais gostava lá em casa, nesta hora do dia, era ficar à mesa da cozinha, olhando a luz que se coava por uma telha de vidro e caía direto sobre a mesa. E eu me lembro bem das tardes em que chegava mais cedo da escola, andando pelos campos próximos, até nossa casa. Tirava os sapatos, corria por um estreito caminho entre palmeiras e ia me sentar na areia, ficando lá às vezes até o escurecer, quando então o céu inchava de estrelas e as últimas jangadas dos pescadores cortavam o horizonte. Poderei um dia mostrar isso à criança? Algum dia poderei?
– Passa da época de sairmos daqui, Mábio...
– Tão logo a chuva acabe, iremos embora.
– Tenho medo de você sumir novamente nos garimpos e eu ter que continuar cozinhado aqui também.
– Não desta vez.
– Antes você também prometeu. Já se passaram mais de dois anos. O que temos hoje, além do que possuíamos quando saímos de casa?
– Agora será diferente...
Chegaram à sala dos pássaros, que estava vazia. As gaiolas ficavam penduradas nas paredes, cobertas por panos escuros. Uma única lâmpada amarela brilhava no teto. Débora saiu por uma porta lateral e sumiu na cozinha.
Para enfrentar o dono do hotel, que fazia contas num caderno imaginário, Mábio tossiu e bateu com os nós dos dedos na mesa de recepção.
– Queria saber o que aconteceu com os pássaros, disse.
– A chuva faz com que murchem, o outro respondeu sorrindo e sem levantar os olhos.
Talvez por um simples costume do corpo, os homens e as mulheres já haviam se reunido no salão. A claridade das lâmpadas suspensas liquefazia-se no ambiente. Mesas de madeira dispunham-se em forma de semicírculo, de dois lados do salão onde se bebia e comia. A mesa de sinuca ficava no centro. Mábio ficou encostado à porta, reconhecendo os mesmos rostos do dia anterior. Horácio, branco e alto e com o cabelo vermelho assanhado, estava ao lado da porta da rua, atrás de algumas garrafas de cerveja. Perto dele, o capanga. Calados, os homens olharam Mábio, até que uma mulher pegou a bola branca e ficou jogando-a contra as tabelas. Em coro, os homens desviaram o olhar de Mábio para a mulher, e, em seguida, para a porta de entrada: na rua, a chuva recomeçava.
– Parece que vai chover o ano inteiro, suspirou a mulher que brincava com a bola.
– É o inverno, apenas começando, disse um dos homens.
– E nós, senhor Mábio, quando começamos?, perguntou o Horácio.
– Quando o inverno passar, eu creio, respondeu Mábio.
Uma gargalhada eclodiu pelo salão, quebrando o encanto da chuva. Mábio pediu uma dose de vermute. Às costas dele, a gaveta foi aberta. Podia imaginar a mão emborcada puxando violentamente a gaveta, abrindo-a, o choque ríspido das bolas sendo puxadas duas a duas, ou três a três, conforme a mão, e devia ser três a três e a mão devia ser de Horácio. E outra vez o choque das bolas sobre a mesa.
Os que contemplavam o vazio da rua descobriram o homem primeiro. Mábio o encontrou na curiosidade dos outros e na de Horácio, ele na porta, a mochila de couro presa às costas, gotejando chuva pela capa, derramando os olhinhos oblíquos e miúdos pelo salão. Houve um momento em que abandonou a atitude de pedra e sacudiu-se como um galo. Passou pelos homens, deixando atrás de si um pequeno desastre de chuva e lama. Disse guturalmente "Senhores”, com um leve cumprimento de cabeça, indo em seguida para a recepção.
Ficaram sabendo que o homem não viera para ficar, que pagara três diárias adiantadas, andara perguntando sobre farmácias, remédios e sobre parceiro para umas partidas de sinuca. Cerca de meia hora depois, reapareceu. Vestia uma camisa xadrez e usava o cabelo negro penteado para trás. Os olhos de índio espalharam-se novamente pelo recinto. Pediu uma dose de aguardente, que bebeu de um gole. Depois, ficou junto de Mábio, observando, até que, parecendo retornar de um país distante, anunciou:
– Dois dias a pé pela mata. Os homens estão morrendo de malária no acampamento. Nenhum avião tem descido. Tive que atravessar uma longa trilha caiapó, até chegar ao porto de um pequeno vilarejo e conseguir a embarcação.
– Você veio de barco?, perguntou Mábio.
– Não propriamente um barco, respondeu o homem, mas algo como uma canoa para quatro pessoas, com motor de popa. Acompanhava-me um sujeito que nunca dizia nada. Subimos o rio durante a noite inteira e um pedaço da manhã, debaixo de um chuvisco irritante, e ameaçados pelos troncos que flutuavam no rio.
– Então há barcos passando?, perguntou Mábio.
– Não, não há, eu consegui convencer o sujeito a me trazer gastando o dinheiro de mais de um mês de trabalho. Ele deve ficar aqui três dias, até conseguir remédios. Depois retornaremos.
Durante umas duas horas, contou sobre as noites e os dias no acampamento da selva; como a malária começara um mês antes e havia dizimado oito homens. Pediu uma garrafa de aguardente que esvaziou até a metade, porém conservava os mesmos olhinhos imperturbáveis, serenos, dois lagos escuros, num rosto de pouco mais de vinte e cinco anos, moreno e liso. Revelou também como tinha acordado em certa manhã remota de sua vida para encontrar morta a mãe, no quarto ao lado. Foi quando decidira sair pelo mundo. Falou quase ininterruptamente, acompanhado pela platéia atenta, silenciosa, até que sua voz se tornou cansada e pedregosa. Então se calou.
Débora aparecera duas vezes trazendo carne frita. Na terceira vez, servia uma mesa próxima à de Horácio, quando este a abraçou pela cintura, suspendendo-a __ um breve, agitado instante. Depois a soltou, dando-lhe uma palmada nas nádegas. Desfazendo-se do avental e cuspindo palavrões, ela correu para o quarto. Os homens acompanharam a cena calados, enquanto Horácio e o capanga riam. Mábio desceu do banco, pegou uma cadeira de ferro e caminhou para a mesa de Horácio, o rosto ultrajado, cego. Talvez fosse realmente bater com ela, mas o pararam a tempo.
– Acalme-se, disse o dono do hotel, colocando-se à frente de Mábio. __ Você não tem nenhuma chance, eles estão armados.
Mábio afastou a mão do homem e pousou a cadeira no piso. Foi para o quarto, fazendo o percurso de volta pela penumbra do corredor. Demorou alguns segundos, em pé, segurando o trinco da porta. Encontrou Débora deitada de bruços na cama. Aos soluços, ela mastigava um rosário de impropérios. Trancou a porta e deitou-se ao lado dela. Esteve falando sobre a dificuldade da vida de ambos e, como das outras vezes, prometeu irem embora logo que passassem as chuvas. Ela o ouviu sem contestar, porque algo na voz dele vinha murmurante como a água. Dizia que seria diferente, que em breve estariam outra vez ouvindo o mar. Ela terminou por se aquietar, dormindo com um braço atravessado sobre ele.
Ele também adormeceu, e acordou no meio da tarde, com a gritaria dos homens no salão, abafada pelo barulho da chuva que recrudescera no telhado de amianto. Levantou-se __ o braço de Débora caiu suavemente na cama. Saiu na ponta dos pés, encostando a porta. Horácio e o estranho jogavam. Havia apostas para os dois lados. As mulheres torciam pelo estranho. No final da partida, aproximando-se do companheiro de Horácio, Mábio disse:
– Aposto todo o meu dinheiro como seu patrão perde as partidas seguintes.
– Como tem tanta certeza?, o homem perguntou.
– Palpite.
– Aceito.
Agora que observava os dois jogando, uma espécie de ansiedade de águas incertas havia ancorado nele. Apostara o único dinheiro que lhe restava. Se perdesse, já imaginava que teria de mandar Débora embora primeiro, seguindo-a depois. Sentia ferver dentro de si um enorme desejo de vingança. "Só poderia mesmo apostar em outro, já que não sou bom o suficiente para derrotá-lo”, pensou.
O capanga de Horácio assistia às partidas fumando calado.
Com grande facilidade, o estranho ganhara a primeira partida. Horácio reclamava do calor que fazia no salão fechado. A pedido do rapaz, as portas foram abertas: a cidade jazia diluída na chuva, uma única torrente vertical, sem princípio nem fim. O rapaz jogava concentrado, em silêncio, como se ele próprio fosse uma extensão do taco, tornando o olho esquerdo mais e mais apertado a cada tacada, medindo cada passo e cada inclinar sobre a mesa com uma cautela cirúrgica. Então venceu a terceira partida e disse que se sentia cansado após tantas partidas.
Afastava-se em direção à sala dos pássaros, quando ouviu a suas costas e para que todos ouvissem:
– Maricas! Só pode ser maricas.
– Como, senhor?, perguntou o rapaz, virando-se e vendo Horácio, enorme, vacilante, os olhos vermelhos, segurando uma faca.
– Maricas, estou dizendo que só pode ser maricas, repetiu.
– Sinto muito, senhor, mas não sou.
Em seguida, Mábio viu quando o rapaz entrou rapidamente na sala dos pássaros e desapareceu no corredor, seguido de Horácio; este, acompanhado do capanga. Mais tarde, quando lembrasse o episódio, tentaria imaginar como havia sido o movimento de volta: o primeiro disparo, o capanga correndo na frente, saindo para a chuva; o segundo disparo, Horácio estrebuchando na madeira do assoalho, e o gemido de morte que se ouviu e que não se poderia dizer se ocorrera antes ou após o grasnido de um pássaro assustado na gaiola.
No silêncio que nasceu, viu quando o homem guardou a pistola e parou diante do corpo inerte de Horácio. Atrás, estava Débora, esmaecida na pouca luz.
– Gostaria que o senhor entregasse minhas coisas ao homem do barco, na terça-feira. Ele saberá o que fazer com elas, disse o rapaz, da porta, para Mábio.
Puxou a gola da camisa sobre a nuca. Saiu para a chuva, e foi a última vez que o viram.
Sobre o balcão, estava o dinheiro da aposta. Ao ver Débora guardando-o entre os seios, Mábio disse:
– Pegue só a metade, que é nossa. Não foi uma aposta muito honesta.
Ela, porém, guardou-o todo.
Era quase o final da tarde. Mábio pediu uma garrafa de uísque. Bebia a quarta dose, quando o pistoleiro de Horácio apareceu acompanhado de três policiais. Um deles parou de frente para Mábio. Encarando-o, perguntou:
– Quem matou o homem?
O dono do hotel, que sumira no momento da confusão, agora lavava copos, agachado atrás do balcão. Foi quem respondeu:
– Um sujeito que veio e sumiu na chuva.
– E por quê?
– Problemas com jogo.
Mábio se lembraria perfeitamente do corpo suspenso, carregado para fora, pelos quatro homens. Bebeu um grande gole da garrafa. No começo da noite, três cobras-do-ar, quase transparentes sob as lâmpadas, debateram-se entre garrafas vazias, estiveram voando e fazendo festa pelo salão. Atravessaram em seguida a porta por onde entrara e saíra tanta gente naquele dia. Exausto e embriagado, Mábio adormeceu debruçado sobre a mesa. Foi acordado no começo da madrugada, pelo canto de um socó. O salão estava completamente imerso nas trevas. Tateando no escuro, conseguiu achar o interruptor. Ficou cego momentaneamente, com as mãos sobre os olhos, por causa da súbita claridade. Abriu as portas e viu a rua adormecida. A chuva cessara e soprava uma brisa fria. Ainda havia nuvens no céu, prateadas pela luz da lua, e também algumas estrelas. De retorno ao quarto e acendendo a lâmpada, pensou acordar a Débora mas, de repente, sentindo-a tão feliz no sono, preferiu desligar a luz. Deitou-se, sorrindo, e puxou o lençol sobre os dois, sem dar muita importância à perna machucada.



imagem retirada da internet: Ernest Descals

domingo, 4 de outubro de 2015

Concreto, poema de RCF

miró





O imenso ventre roliço de ferro,
a batedeira cujas entranhas
são feitas de pedra e vômito de cimento,

ainda moles, no gestar do ato,
no desenho futuro da casa fixa,
este gesto não é o gesto de viver,

mas a sonolência dos impertinentes,
a insensatez das falésias que se abismam
ou o corte abrupto dos tratores

no exato ato de construir não mais a casa,
e, sim, a vida, cheia de cortes e abismos,
falésias ao café da manhã,

dormências de ventres roliços de pão e vazio,
as linhas da casa não projetada na própria vida
a casa aqui não é o útero,

além existem as estradas com suas curvas precipitadas,
desejos de abismos, vertigens de cimento e asco,
a imensidão do nada na batedeira

que mistura o risco de viver
e o traçado da casa que virá
ainda é apenas o projeto de vida,

sendo germinada no útero de ferro,
cimento, cascalho e náusea.

E a história começa, Amós Oz



Em E a história começa, Amós Oz comenta dez inícios de clássicos da literatura universal. Alguns por demais conhecidos como o conto “O nariz”, de Gogol, o romance O outono do patriarca, de García Márquez e o conto “Um médico da aldeia”, de Kafka. Outros não são tão familiares ao leitor brasileiro. Exímio narrador, Amós faz de cada análise sua uma outra narrativa também tão agradável e surpreendente quanto o texto de que trata. A interpretação e leitura de Amós não desvendam os mistérios da ficção. O leitor desavisado não aprenderá a ler ou a escrever, mas a perceber que existe um mundo mágico na leitura. Amós aponta procedimentos narrativos que passam despercebidos aos leitores. E são esses “elementos despercebidos” que criam a magia da leitura. O início de cada narrativa é uma maneira de cativar o leitor, mas também tem a função de fazê-lo penetrar num mundo mágico particular. Cada narrativa, mesmo a realista, tem seu universo mágico próprio. A narrativa é um mundo virtual que, a priori, o leitor sabe-o crível, mas não verdadeiro. O papel do início é dar a segurança de um mundo virtual, verossímil e encantatório. Por ser o início do pacto leitor/narrador, os inícios de narrativa são reescritos várias vezes pelos autores a fim de encontrar o tom exato do fascínio. O início das narrativas é como, nos parques, os homens que anunciam as atrações fantásticas da tenda de horrores ou fantasia que estão lá dentro. “Certa vez, em uma praia de nudismo, vi um homem sentado, nu, prazerosamente absorto em um exemplar de Playboy. Exatamente como esse homem, no interior, não no exterior, é onde o bom leitor deve estar enquanto lê”, conclui Amós.



imagem retirada da internet: escher