sábado, 21 de maio de 2016

A guerra, poema de RCF




Cheguei a ter uma rosa dos ventos
que apenas floriu
nas cartas que jamais recebi.
Não posso negar que tenho a consistência
de um trem:
meu início pode ser meu fim
(basta que mude de lugar
a fornalha que arde meus loucos motivos).

Cheguei a crer-me medieval e encouraçado:
era apenas a Idade Média da adolescência.
Meu norte é fácil porque depende apenas
de um fonema: a morte.
Tenho nostalgias das pontes
e gosto da idéia de estar
suspenso entre duas margens.

Acordo sempre com a sensação
de não haver dormido.
E o sono, ao contrário da letargia,
tem sido apenas uma pitada errada
do sal da lucidez
que, exagerado,
maltrata antes que dá gosto.

Nenhuma arma
fere mais, mortal e decisiva,
como o fogo-fátuo das sensações.
Passo então o dia no mundo da lua:
Sou Jorge e o Dragão.



(do livro Estrangeiro, Rio, 7Letras, 1997)



imagem retirada da internet: medieval

Iluminismo propiciou a primeira revolução sexual


Iluminismo ajudou a moldar a cultura sexual vigente até os dias de hoje

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Os iluministas negavam os valores medievais, eles julgavam o período anterior como a sua antítese. Com o Iluminismo, uma nova era de desenvolvimento teria início. Apostavam no poder da razão contra o obscurantismo religioso e no resgate da república, que suplantaria o regime monárquico.
Segundo o historiador Faramerz Dabhoiwala, a mudança que o iluminismo propiciou extrapolou o debate político e a disputa entre fé e razão. Esses conceitos alteraram noções sobre verdade, natureza e moralidade em quase toda a população ocidental.
"A revolução sexual demonstra como os modos de pensar iluministas se propagaram de maneira vasta e veloz, e quais efeitos importantes eles surtiram nas atitudes e comportamentos populares", escreve Dabhoiwala em "As Origens do Sexo".
 
Iluminismo ajudou a moldar a cultura sexual vigente até os dias de hoje
Para o autor, foram teóricos do século 17 e 18 que moldaram a maneira com que nos relacionamos com a sexualidade hoje. Ao questionarem os fundamentos do pensamento religioso, a imoralidade sexual também foi colocada em debate.
"Embora não haja registros de que Jesus tenha dito muita coisa sobre o assunto, ele obviamente não endossaria o adultério ou a promiscuída, e os líderes posteriores desta religião desenvolveram doutrinas cada vez mais restritivas de moralidade sexual", conta.
"As Origens do Sexo" traz a análise da mudança de comportamento que se tornou característico da modernidade. O volume é o resultado de mais de 20 anos de dedicação à pesquisa de registros da vida privada, obras de arte, documentos jurídicos e tratados filosófico.
Professor de Oxford e membro da Royal Historical Society, "As Origens do Sexo" é o primeiro livro de Dabhoiwala. "Uma das estreias de não ficção mais bem sucedidas dos últimos anos", segundo o jornal britânico "The Independent".
*
"As Origens do Sexo: A História da Primeira Revolução Sexual"
Autor: Faramerz Dabhoiwala
Editora: Biblioteca Azul
Páginas: 688
Livraria da Folha

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Supermercado, poema RCF


 
Aqui também há outra cidade
com avenidas e gôndolas,
veneza de cores, mares, matadouros,
tudo reduzido a suas metonímias,
o horto vertical das leguminosas,
o pomar das caixas penduradas
nos galhos das prateleiras.

O mundo reduzido
– a vida, sempre a vida
imperiosa como a sede –
ao ar preso e condicionado
de um quilômetro quadrado.





(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Um homem é muito pouco 18


 
 
 
 
SEGUNDA PARTE
 
Sempre odiei os dentistas. Tenho horror a tudo que se corta no corpo. Mesmo o ato diminuitório de cortar as unhas. Toda vez que corto as unhas é como se cortasse uma parte de mim. Ninguém gosta de que cortem as partes da gente. Um pedaço de dedo, um pedaço de perna, uma orelha ou coisa que o valha. Sinto o cheiro de minhas unhas cortadas. O dentista arranca os dentes e arrancar os dentes é uma forma de mutilação. O dentista mesmo é mutilado. Usa dentadura. É um velho. Um velho já foi muito mutilado. Talvez viver seja ser mutilado ano a ano. Tenho medo de ser mutilado.

Fui duas ou três vezes nele. Não vou mais. Ele treme. Deu-me injeção. Perdi o queixo. Gosto de perder o queixo. Porque perder o queixo quando não se perde o queixo é uma coisa boa. A anestesia é uma brincadeira dos sentidos. A gente brinca de perder o corpo ou partes do corpo. Perdi o queixo durante duas horas. Depois o queixo voltou. Queria era anestesiar meu corpo todo. E não sentir medo. Se a gente não tem corpo, como alguém pode ofender o corpo da gente? O sujeito vem cortar a vida do corpo da gente e não encontra corpo. Quando ele vai embora, o corpo volta.



(do romance Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010)



 

O menino e o papagaio, Dámaso Alonso














O menino deu um sorriso
– mão inábil, olho atento
e o papagaio no vento
– seu coração – aí pairava.
Ave, papagaio, de um dia
seu coração sonolento.
Pois o coração queria
fugir – porém não podia,
porém não sabia – ao vento.




Tradução: RCF



 Meninos soltando pipas, Portinari, 1943.