sábado, 12 de novembro de 2016

O desejo das formas RCF


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O torno do dia
não tem desenho
que o oriente,
logo o marceneiro
que lhe dá forma
se surpreende
com a planta inexata.

A arte das formas,
na marcenaria da razão
ou na carpintaria das aspirações,
está sujeita à imprevisível
serra que tudo desmonta.

Aqui o mundo consente
a oficina mais cruel:
a que dá a ilusória
certeza de coisa imperecível,
desconhecendo que ao nascer
já traz em seu bojo
o cupim das horas,
a madeira servil de existir,
a imobilidade das coisas,
ilusão de quem se sente
seguro num mundo de formas fixas.



(O difícil exercício das cinzas, 2014)

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Criminalidade, poema RCF


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Sei que me roubo.
Sei que me furto.
Sei também quando me rendo.
Todo dia me assalto
à luz do dia e da vida.
Roubo vários sentimentos
mas o assalto
que ofereço à mão armada
nenhum ladrão de mim
me leva: o passado
que pesa como carteira cheia.
Rufla em mim
o tambor com seis balas.
No horizonte, cavalos
sem olhos habitam
as cocheiras do tempo.
Vítima de mim mesmo
não quero comiseração,
cada dia sou menos,
não há cofre, nem chave,
estou à mercê do gatilho
que disparo ao acordar:
o sumiço do sonho.








(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)









quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Fotografia, poema de RCF




Ando torto
porque meu coração pesa mais
meu lado esquerdo.
Quando, na seca,
a terra muda de plumagem,
caem as penas verdes
e aparece o couro marrom da pele,
meu ânimo planta bananeira.

Nesses dias amanheço
doído de tanto existir.
Talvez meus sonhos tenham pernas demais.
O dia tem sua maneira solar
de dizer que está bom.
Cultivei a horta dos diários.
Meu coração
é um músculo sem força
de vontade.
Meu coração late em espanhol.
Tom rascante. Solo de arame
que corta o pescoço das notas
com seu único bordão.

Meu coração fala pelos cotovelos.
Uma conversa entre cotovelos
é cheia de dores.



(do livro A máquina das mãos. Rio: 7Letras, 2009)

(imagem internet: latoday)

Crítica de Sérgio de Sá sobre A máquina das mãos

Sérgio de Sá
Correio Braziliense
Recebo em casa e leio na contracapa o poema intitulado “Hopper”. É o suficiente para voltar ao forte e imobilizador impacto (como se diante de um quadro de Edward Hopper) sempre provocado pela poesia de Ronaldo Costa Fernandes (foto), que está de livro novo, com título de ressonância drummondiana: A máquina das mãos (7Letras). Autor de outros quatro volumes de poesia e uma série de obras em prosa, Ronaldo escreve porque precisa sobreviver, porque não poderia ser diferente, escreve porque do contrário não haveria existência. A poesia de Ronaldo oferece a cabeça do leitor em bandeja de prata, tira-lhe do prumo, sufoca, faz respirar, angustia, abre o sorriso em meio a um humor despedaçado, triste, melancólico.
Ronaldo faz poemas legíveis sobre uma erudição sem tamanho, submersa na paisagem desoladora da vida urbana. No posfácio, Hildeberto Barbosa Filho diz que Ronaldo toca “o exato limite entre a falta e o excesso, evitando a obscuridade dita inventiva por um lado e, por outro, a facilidade expressiva”. Equilibra-se, portanto, na corda bamba entre a experimentação e a comunicação.
Escreve sobre as cidades de modo geral e sobre Brasília em particular. Em “Lúcio Costa”, pergunta: “São de rodas teus sonhos?/ Há eixos e tesouras na utopia?/ De que material é feito o desejo/ Existe forma no escape, na fuga, na evasão das avenidas?/ Os aviões com sua turbo-hélice obsedante/ A cidade redonda sem círculo que a encerre”. E a mão continua certeira em “Torre”, “Samuel Rawet” e “Rodoviária”. Ronaldo também escreve “Poema para o poeta Fernando Mendes Vianna morto”.
O que mais esperar da poesia senão essa queda no abismo? A máquina formata os versos que já são pensamentos. As mãos tremem para repetir no papel a mente “que quer ser corpo e que dói”. É dolorido ler os poemas projetados por essa tecnologia humana que luta contra as asperezas da vida sem nunca deixar de senti-las.
Se a poesia ainda fizesse sentido, se ainda mexesse nos sentimentos do mundo, Ronaldo Costa Fernandes seria um bambambã, em seu sentido de autoridade. Remexe dentro da língua e da linguagem, traz novos significados para esse marasmo sem chuva, leva o leitor para dentro de um corpo que somente a poesia promete: coração dilacerado pelo que poderia ser mas não é, pelo rito do nascimento-e-morte, pela sede de saber que o tempo está passando e vivemos tão pouco, tão mesquinhamente, tão perto do afeto de sermos sós e tão pouco. O leitor agradece que Ronaldo cometa o “delito da poesia”, uma poesia que dá cãibra, colocando-nos em outro lugar, distante, dormente e, ainda assim, doce.


O BECO DO CORPO
A febre faz mormaço no meu corpo.
As juntas discordam
o bípede que hospedo.
Mínima queda de braço
derruba o dedo levantado da presença.
O que é víscera
se comporta à flor da pele onde nada medra.
Este calafrio responde ao calor
que insiste em tremer
o que se paralisou.
Nenhuma aspirina cura meu quebra-cabeça.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Escrever à sombra, poema RCF


caminha
na avenida
larga que o estreita
o pensamento febril
e indefinido de mercúrio
ouve a tortura do verbo
a insinuar termômetros
os pés de patíbulo
inchados de tanto alçapão

leva a vida anônima dos condenados à pena

aqueles que escrevem
prescindindo do alarde
das trombetas
de caça dos jornais
a sinfonia nunca tocada
na miséria
do silêncio das pautas
e do sigilo
dos pentagramas

de nada valeu
tantos velames
em serifa
varar a noite
lendo Joyce, Pound ou Nerval
a exposição
inútil das miudezas
o receituário das alterações
metabólicas
a farmácia
de manipulação onde está subjugado
mentalmente
à droga da metáfora

(do livro Andarilho, 7Letras, 2000)

imagem retirada da internet: by ron mueck

A influência russa na literatura brasileira , Adelton Gonçalves

Prêmio Jabuti 2012, “Da Estepe à Caatinga: O Romance Russo no Brasil” analisa a recepção da literatura russa no País a partir de dois eixos: pesquisa documental da recepção crítica e estudo da bibliografia comparatista que lida com outros casos de recepção da literatura russa no Ocidente
Adelto Gonçalves
Especial para o Jornal Opção
Que a literatura rus­sa influenciou boa parte da literatura produzida no Bra­sil, especialmente no final do século 19 e na primeira metade do século 20, nenhum crítico de bom senso pode colocar em dúvida. Até que ponto chegou essa in­fluência e como seu deu, pois, na maioria, por desconhecimento do idioma russo, os autores tiveram acesso apenas a traduções de segunda mão do francês, é que nunca ninguém havia estabelecido.

Essa questão, porém, já está devidamente esclarecida e aprofundada, depois da pesquisa de proporções ciclópicas empreendida pelo professor Bruno Barretto Gomide em sua tese de doutoramento a­presentada ao Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (Uni­camp), que saiu em livro em 2011 pela Editora da Univer­sidade de São Paulo (Edusp): “Da Estepe à Caatinga: O Romance Russo no Brasil (1887-1936)”, Prêmio Jabuti 2012, da Câmara Brasileira do Li­vro, na categoria Teoria e Crítica Literária.

As fontes deste livro foram extraídas de arquivos particulares de escritores e de uma extensa pesquisa que o estudioso fez em jornais, revistas e livros publicados entre 1887 e 1936, valendo-se também de consulta não só em arquivos públicos e de universidades em Campinas, São Paulo e Rio de Janeiro como nos Es­tados Unidos, especialmente nas bibliotecas das universidades de Illinois, Indiana, Stan­ford e Califórnia.

Neste livro, a recepção da literatura russa no Brasil é estudada a partir de dois eixos: pesquisa documental da recepção crítica do romance russo e estudo da vasta bibliografia comparatista que lida com outros casos de recepção da literatura russa no Ocidente. Tudo isso acompanhado pelas discussões específicas fornecidas pela crítica literária e pela historiografia da cultura brasileira, como ob­serva o autor na introdução.

Os primeiros textos que utilizavam os romancistas russos como contraponto a questões literárias candentes no Brasil datam da segunda metade da década de 1880. Já o final da década de 1930 marca um mo­mento em que tais discussões perdem sua força e deixam de ser relevantes para a crítica. O trabalho conta ainda com um anexo que reproduz algumas fontes significativas, privilegiando as de mais difícil acesso.



É observar que a chegada do romance russo ao Brasil foi uma consequência marginal de um processo internacional iniciado na França, que o tornou uma sensação europeia em meados da década de 1880. Foi quando surgiram as traduções em escala industrial e livros de crítica que assinalavam a recepção desses romances em língua francesa.

Gomide aponta o ensaio “O Romance Russo”, de Eu­gène-Melchior de Vogüé (1848-1910), publicado em 1886, como o elemento basilar dessa recepção, pois era a ele que recorria a maior parte dos ensaístas, inclusive no Brasil. Entre os romancistas brasileiros, Lima Barreto (1881-1922) foi o que mais se deixou influenciar pelas ideias que o romances russos traziam im­plícitas, especialmente a partir do prefácio que Vogüé escreveu para “Recordações da Casa dos Mortos”, de Dos­toiévski (1821-1881).

O pesquisador observa que já havia conhecimento da literatura russa no Brasil antes mesmo da década de 1880, mas esses contatos se davam em escala diminuta. A partir daquela data, o seu “surgimento súbito” no País, em função do que ocorria na França, passou a atiçar a criação de uma literatura genuinamente nacional, como observaram ao tempo José Carlos Jr., um crítico paraibano hoje quase esquecido e justamente “ressuscitado” por Gomide, e Clóvis Be­vilacqua (1859-1944). Mas, como constata Gomide, essa interpretação não foi unânime. Para Tobias Barreto (1839-1889), por exemplo, os romancistas russos eram a negação de tudo o que a cultura francesa representava.

Para Silvio Romero (1851-1914), os russos seriam também o melhor exemplo antípoda de Machado de Assis (1839-1908). Se o escritor fluminense construía delicados estados psicológicos de suas personagens à maneira do francês Paul Charles Joseph Bourget (1852-1935), Romero fazia o contraste com a estética radical do choque, exemplificada por Edgar Allan Poe (1809-1849) e Dostoiévski, observa Gomide. E acrescenta: para Romero, o autor fluminense ficava “bem abaixo de Dostoiévski, Poe e até de Hof­fmann (1766-1822), quando este envereda, como o próprio Machado diria, pelo distrito da patologia literária”.



Portanto, o caráter inovador da prosa russa foi imediatamente detectado pelos críticos brasileiros, que passaram a utilizá-lo largamente como termo de comparação em suas críticas e recensões. E até a apresentá-lo como um modelo de emancipação para a literatura brasileira.

Na primeira parte de seu livro, Gomide trata da divulgação dos romancistas russos a partir da metade dos anos 1880, especialmente de 1883 a 1886. E apresenta exemplos do aumento vertiginoso do número de traduções e do entusiasmo nos meios intelectuais pelo novo fenômeno literário. Mos­tra ainda que, quando a revolução de 1917 assustou o mundo, já havia no Brasil uma tradição de três décadas de discussão do romance russo em periódicos e livros de crítica.

Portanto, associar autores como Dostoiévski, Turguêniev (1818-1883), Tolstói (1828-1910) e Aleksandr Púchkin (1799-1837) ao bolchevismo só podia partir de mentes obnubiladas, o que não é de admirar, pois, à época da última ditadura militar (1964-1985), o livro “Juan Rulfo: Autobiografia Ar­mada” (Buenos Aires, Corre­gidor, 1973), de Reina Roffé, teve a sua importação barrada, por volta de 1975, porque o censor fez uma interpretação beligerante da palavra “armada”, quando o título queria dizer apenas que a autobiografia havia sido “armada” com declarações do escritor retiradas de entrevistas publicadas em épocas diversas.

Na segunda parte de seu trabalho, Gomide estuda as décadas de 1920 e 1930, quando era flagrante o impacto da revolução bolchevique. E mostra claramente que, ao contrário do que se supõe, a literatura russa nunca foi uma espécie de patrimônio da esquerda, pois intelectuais católicos, como Alceu de Amoroso Lima (1893-1983), Tasso da Silveira (1895-1968) e Jackson Figuei­redo (1891-1928), já discutiam sua influência na literatura mundial, especialmente a partir de Dostoiévski, Maksim Górki (1868-1936) e Tolstói.

A segunda parte do livro apresenta, além de um panorama do mercado editorial da década de 1930, textos que desconfiam abertamente das interpretações geradas no fim do século e tentam cercar os romancistas russos por outros ângulos. E contestam a ideia de que o niilismo de Dos­toiévski e de outros escritores russos teria preparado terreno para o avanço do comunismo e a vitória dos bolcheviques em 1917, apenas porque a literatura russa sempre esteve associada a questões sociais. Na conclusão, Gomide defende que é anacrônico reler os primeiros momentos da recepção da literatura russa no Brasil de acordo com os resultados posteriores à revolução de 1917.



Como o livro vai até 1936, fora da análise de Gomide fica o recente renascimento do interesse do leitor brasileiro pelo romance russo que, a rigor, deu-se depois do lançamento, em 2001, da primeira tradução de “Crime e Cas­tigo”, de Dos­toiévski, feita diretamente do russo por Paulo Bezerra, pela Editora 34, de São Paulo. Em seguida, saíram vários livros traduzidos diretamente do russo por Paulo Bezerra, Boris Sch­nai­­derman, Fátima Bianchi, Lucas Simone e outros. Em 2011, saiu também “Gente Pobre”, de Dostoiévski, com tradução de Luíz Avelima, pela editora Letra Selvagem, de Taubaté-(SP).

Bruno Gomide (1972) é doutor em Letras pela Uni­camp, com estágio de doutorado na Universidade da Cali­fórnia, em Berkeley. Realizou cursos nas universidades de Illinois, In­diana, Cambridge e Linguística de Moscou. Foi pesquisador-visitante no Instituto Górki de Literatura Mundial, em Mos­cou, com apoio da Fundação de Amparo à Pes­quisa no Estado de São Paulo (Fapesp). É o organizador do grupo de trabalho de Literatura Russa da Associação Brasileira de Lite­ra­tura Coparada (Abralic).

Organizou a “Nova Anto­logia do Conto Russo” (1792-1998), lançada recentemente pela Editora 34, que reúne nomes conhecidos no Brasil como Púchkin, Gógol, Dos­toiévski, Tchekhov, Tolstói, Pasternak, Bábel e Nabókov e outros menos conhecidos, como Odóievski, Grin, Chalá­mov, Kharms, Platónov e So­rókin, num total de 40.
Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Univer­sidade de São Paulo.


Leia um trecho de “Da Estepe à Caatinga: O Romance Russo no Brasil
A presença de alguns escritores russos na literatura e na vida literária brasileira volta e meia é evocada por pesquisadores de tempos e propósitos vários. Sabe-se que houve, na década de 30, certa bruma dostoievskiana impregnando intelectuais. Ou que literatura russa e problemática social sempre foram companheiras de viagem. A circulação de Dostoiévski e Tolstói seria, então, reflexo de 1905 ou 1917, marcos “naturais” desse caminhar. E Lima Barreto o escritor filo-eslavo por excelência. São fenômenos reais e importantes. Em geral, mais pressentidos e esboçados do que efetivamente destrinchados.

Alguns passos foram dados nesse sentido. O pequeno livro de Leonid Shur privilegia as primeiras décadas do século dezenove, momento anterior ao da difusão efetiva da literatura russa no Ocidente. Boris Schnaiderman, nosso principal especialista na seara russa, escreveu artigos pioneiros sobre as relações literárias entre Rússia e Brasil. Apesar de indicarem sugestivas direções de pesquisa, tal campo de estudos não foi prioridade dentro da sua extensa produção. “O Ano Ver­melho”, de Moniz Bandeira, Clovis Melo e T. A. Bandeira, traz um pouco da literatura russa a reboque da profunda impressão gerada pela revolução russa. Na mesma linha existem estudos sobre a relação de intelectuais brasileiros com as diretrizes do realismo socialista. No âmbito acadêmico, elementos comparativos Brasil-Rússia foram incorporados a ensaios recentes de historia cultural.

A inserção “russa” mais conhecida na historiografia literária bra­sileira, talvez devido à justa reputação de pesquisador minucioso de seu desbravador, forneceu-a capítulo de Brito Broca sobre as vogas literárias de inícios do novecentos. Tolstói e um dos cinco escritores con­templados. Sua recepção e mostrada na conexão exclusiva com pensadores anarquistas e socialistas brasileiros. Atrelada, de forma mais geral, a uma inspiração utópica e humanitária tão grandiosa quanto vaga. A conexão com o anarquismo foi devidamente ampliada em trabalhos monográficos publicados a partir das décadas de 70 e 80. Estes desdobraram aspectos literários do romance tolstoiano de Fabio Luz e Curvelo de Mendonça e a circulação de Tolstói e de Górki, em prosa, verso, teatro e panfleto, nos meios libertários. Confluente a esse ramo é a investigação sobre a literatura militante de Lima Barreto.

Proponho a entrada no campo de estudos da recepção da literatura russa no Brasil por meio de um panorama articulado em dois eixos: pesquisa documental da recepção crítica do romance russo e estudo da vasta bibliografia comparatista que lida com outros casos de recepção da literatura russa no Ocidente; ambos mediados pelas discussões específicas fornecidas pela crítica literária e pela historiografia da cultura brasileira. A reconstituição da lógica específica do discurso crítico, tarefa a que me proponho nas páginas seguintes, complementará, espero, as pesquisas já́ existentes. Talvez esse percurso abra caminho para que as paixões do mundo da política possam ser reconduzidas para a literatura russa de maneira mais nuançada.

A chegada do romance russo ao Brasil foi pequena parcela de processo internacional deflagrado na França. Outros países deram sua cota de contribuição, mas a influência francesa foi determinante, especialmente no quinhão que nos cabe. Não se pode, pois, conhecer a crítica literária feita no Brasil sobre Tolstói e Dostoiévski sem remeter a esse cenário transnacional. O romance russo era a grande sensação europeia em meados da década de 1880. Na verdade, foi “inventado” para consumo internacional nesse período, quando surgem traduções em escala industrial e livros de crítica que, de forma pioneira, deram o tom (e estabeleceram os limites) do que seria dito depois. As questões e balizas aportadas por essa bibliografia, em especial pelo ensaio “O Romance Russo”, de Eugène-Melchior de Vogue (1886), tornaram-se logo paradigmáticas. A maioria dos críticos, ensaístas e intelectuais recorria a ela para lastrear seus comentários. Lima Barreto buscou no prefácio de “Recordações da Casa dos Mor­tos”, escrito por Vogüé, pistas para falar de Dostoiévski. Esta mediação terá́ agido de forma quase tão decisiva na visão que o autor carioca tinha dos literatos russos quanto o diálogo com as tendências libertárias e com o “maximalismo”.

A descoberta do romance russo pela crítica fora da Rússia foi essencialmente literária. Embora a política tenha logo se tornado aspecto indissociável da circulação social da literatura russa, e a imagem do escritor-oprimido-pela-autocracia tenha servido de imã poderoso, o entusiasmo pelos escritores recém-descobertos se devia à forma inovadora como eles encaminhavam os mui discutidos problemas do realismo e do naturalismo. A seu modo, um ensaio como “O Ro­mance Russo” era engajado e combativo. Mas suas ressonâncias missionárias — era preciso, no entender de seu autor, salvar a cultura francesa — radicavam-se nas reflexões acerca do romance e da estética. Quando Clóvis Bevilacqua defrontou-se com Dostoiévski em 1888-89 e produziu ensaio intitulado “Naturalismo Russo — Dostoievsky”, certamente tinha em mente as agitações “niilistas”, conhecidas já de duas décadas, e, do lado de cá, a campanha abo­licionista, na qual atuou. Isso é perceptível nas entrelinhas do ensaio. Mas sua abordagem do escritor russo indica interlocução com Vogüé e, como o próprio título dá a entender, com o problema de um gênero literário específico. A partir daí, Bevilacqua seguia para os entrecruzamentos de literatura e vida nacional, e, implicitamente, ponderava a posição social do artista e sua missão. Pretendo, nesta tese, reduzir o foco nesse último aspecto. Em contrapartida, trarei à tona os argumentos contidos no núcleo crítico e acompanharei algumas de suas apropriações no espaço e no tempo.

Daí as delimitações no escopo da pesquisa. Por quê estudar a recepção do “romance russo”, e não de Dostoiévski ou de Tolstói isoladamente? Embora a fortuna crítica de cada um dos romancistas tenha apresentado peculiaridades, algumas delas examinadas ao longo da tese, no período aqui delimitado a unidade semântica “romance russo” lhes abarcou. A tendência era tratar aqueles escritores em bloco e canalizá-los no romance, logo classificado como ponta de lança da “mensagem” russa. A redução é típica da recepção de literaturas desprovidas de tradição de estudos fora de seus locais de origem. As diferenças subsumem-se num modelo interpretativo que confere inteligibilidade e legitimidade a cada um dos casos individuais. Em outras palavras: para que a literatura russa fosse transformada em moeda de troca no mercado internacional de bens simbólicos do fim do oitocentos, teve que ser condensada em uma única ca­tegoria. É com esse modelo que os intelectuais e críticos brasileiros estavam dialogando. Sem que tivessem, todavia, deixado de perceber diferenças entre autores particulares, ou estivessem alheios a outras manifestações da cultura russa — poesia, teatro, dança, música, e a própria “alma” russa, estetizada e transformada em objeto de consumo.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Capela Sistina, poema RCF



Queria te escrever poemas de amor,
mas de que valem eles?
O amor não move as fábricas,
nem faz aparecer a seca ou a chuva.
O amor não enche o campo de milho,
nem faz pastar o boi.
É apenas um gesto humano,
ordinário, pequeno, às vezes enlouquecido.
Um gesto apenas:
talvez o único
onde o homem toca o dedo de Deus.


(do livro Estrangeiro, 7letras, 1997)

O alvo, Lêdo Ivo





Não quero achar o que os outros perderam:
as moedas no chão, os guarda-chuvas
esquecidos nos ônibus, e a vida
deixada por engano sobre o asfalto.
Ao que ninguém viu, aspiro; ao que existiria
em forma de mar e árvore, se a natureza habitual não irrompesse
com suas sombras e cigarras e cascatas.
Quero o sonho e admiro o inédito...


(imagem retirada da internet: robert capa)

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Adeus, Topsin, Bob Hicok (poeta norte-americano)




A vida levou minha cartilagem e deixou uma biografia de André Breton.
Mancarei convincentemente e te escreverei uma carta salpicada de surrealismo francês.
Pode não parecer, mas, de verdade, este é o meu adeus à juventude como eu a praticava quando era jovem.
Que momentos maravilhosos me mostraram, cartilagem, coração, cotovelos, glândula pineal.
Havia uma festa e eu era convidado.
Havia corrida e o vento me via como seu irmão.
Havia "eia!" e isso era eu injetando complacência com aquela dança folk.
Mas nostalgia:
vá para o inferno.
Não farei isso.
Não serei uma lampreia ao lado do passado, sugando em busca de vida boa
porque tive
e tenho uma vida boa.
Obrigado a vocês, glândulas sudoríparas, talas nos tornozelos, pedras nos rins, cinestesia
por me dizerem onde estou no espaço em relação à luz do sol, peitos, açafrão,
vida.
Aqui.
Aqui é onde estou no espaço.
Aqui é onde o espaço está em mim.
Tradução do poeta Alberto Bresciani
(In Elegy Owed, 2013)

Anoitecimento, poema RCF








Anoitece no meu coração coberto de ervas
e, na luta desigual, cresço com a miséria.
Trens trazem minérios de rumor e tristeza.
Além da janela, homens caçam a manhã,
enterram no lodo o tempo da esperança
e cavam fundo até aparecer o osso do mundo.
Nem mesmo as minhas imaginações servem
na tarde ferida e de tijolos exaltados
para inventar suposta vida
que não seja experiência sem retorno.
A vida como carro desgovernado
a mais de duzentos quilômetros por hora,
em noite chuvosa, numa estrada não sinalizada.
Se ao menos soubesse
o ponto de chegada dos lobos,
não me atormentaria com o tempo
que não tem começo nem fim.








(do livro A máquina das mãos, 7Letras, Rio, 2009)

imagem retirada da internet: Otto Dix


A máquina do mundo, Carlos Drummond de Andrade

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E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,

assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,

a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
"O que procuraste em ti ou fora de

teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,

olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,

essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo

se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste... vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.”

As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge

distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos

e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber

no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar,
na estranha ordem geométrica de tudo,

e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que todos
monumentos erguidos à verdade:

e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,

tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.

Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;

como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face

que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,

passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes

em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.
(do livro Claro Enigma)

¿Por qué los clásicos permanecen?

Cervantes

Publicado por Téxil Gardey

A lo largo del tiempo una de las cosas que se mantiene son las buenas lecturas. Esas obras escritas hace cientos de años y que todavía al día de hoy llenan las bibliotecas y cautivan a miles de lectores de todas las edades.

Pero ¿qué es lo que tienen las obras clásicas que las hace permanecer indelebles al paso del tiempo? ¿Por qué ciertas historias continúan siendo leídas con la misma intensidad hoy en día que hace siglos? Pueden existir muchas respuestas para estas preguntas y en este breve artículo intentaré explayarme sobren algunas de ellas.

Fundamentos de una obra clásica

Para que una obra sea clásica debe reunir ciertas características, como trascender en el tiempo, llevar un mensaje que pueda afectar a diferentes culturas de las que provenga y contener una historia fundamental que pueda servir para plasmar la esencia de una sociedad entera, de un grupo selecto o de alguien que vive inmerso en una vida social característica.

Entre las lecturas clásicas que más destacan se encuentran los escritores de la antigüedad, cuyos nombres fundamentales son Dostoyevski, Tolstói, Proust y Flaubert, entre otros. ¿Por qué aún al día de hoy estos escritores son leídos? Principalmente porque supieron escribir acerca de su tiempo, de los conflictos sociales del siglo en que habitaron y plasmar en una historia las contradicciones yacentes en su entorno social. De todas formas no es esta la única razón por la cual al día de hoy continuamos leyéndolos, además lo hacemos porque sus pensamientos pueden ser tan válidos en nuestro tiempo como lo fueron en el suyo y porque sus obras iluminan nuestra realidad social y política, muchos siglos después de haber sido escritas.

En este punto desearía detenerme y decir que considero que es ahí donde reside el verdadero secreto de las obras clásicas, de su permanencia a lo largo del tiempo, en la capacidad de permanecer inherentes al paso del tiempo, de ser siempre actuales, aunque su estilo literario ya se encuentre en desuso y ciertas cuestiones ya hayan caducado.

¿Qué tienen en común Don Quijote, Robin Hood y Tom Sayer?

Don Quijote, ese personaje loco, descarriado y tan entrañable continúa estando en nuestras librerías, poblando nuestras bibliotecas gracias a su esencia. Porque con él Cervantes consiguió pintar el alma de los artistas, bohemios, soñadores y capaces de darlo todo por un sueño.

En este personaje muchos podemos sentirnos identificados, hemos sido capaces de acercarnos a La Mancha y deseado conocerla y pisarla, así como también nos hemos sabido acercar a lo profundo de las cosas, intentando encontrar el sentido de lo verdadero, que lejos está de lo que el mundo propone. Don Quijote permanece porque su locura es el ingrediente que lo vuelve clásico y que permite que continúe vivo varios siglos después.

Robin Hood es otro personaje antiguo que continúa siendo relevante hoy en día. Su pasión por la justicia considero que es el elemento que lo ha vuelto famoso y que le permite continuar en su mejor auge. Un hombre capaz de dejarlo todo en pos de la lucha por la igualdad, por el reinado del bien sobre el mal y la corrupción de los políticos. Sin lugar a dudas, gracias a esa característica, de luchador desinteresado por el bien común, continuamos hablando de él, y leyendo acerca de sus historias.

Continuando con la lista podemos nombrar a Tom Sawyer, un chico huérfano que vive un sin fin de aventuras, que lo llevan a meterse en líos gordos, pero pese a ello logra salir siempre ileso… Aquí me detengo, porque ¿qué es lo que hace especial a este personaje? ¿Qué tenía este niñito de Mark Twain que le ayudó a convertirse en un clásico de la mayoría de los idiomas? La inocencia escondida detrás de la maldad y la travesía, y esa capacidad de “querer comerse el mundo y no parar hasta conseguirlo”. Todo esto lo vuelven único, entrañable y hace que todos queramos leerlo. Además, en esta obra, Twain logra caracterizar muy bien la sociedad burguesa enfrentada con la clase baja de ese entonces y este libro sirve mucho para entender la estructura social de esa región de Estados Unidos.

Estas son sólo tres de las infinitas obras consideradas clásicas, tan sólo las he querido nombrar para describir los tres elementos fundamentales que deben contener las obras clásicas para permanecer, para convertirse en obras maestras: una cuota de demencia o irracionalidad, una fuerte convicción y empeño por conseguir un cambio social, e inocencia para llegar a cautivar al lector.
Tchekov e Tolstoi


Los clásicos y las ideas renovadas

Por otro lado, cabe mencionar que la mayoría de las historias clásicas, que son consideradas obras magnas, no hablan de patriotismo y de otros ismos; al revés, intentan mostrar una visión más amplia del mundo y de la vida, llegar a plantear ideas sumamente renovadoras para cualquier tiempo, donde la libertad, el bien común y la tolerancia son las principales protagonistas. Es aquí donde me atrevo a afirmar que ninguna obra clásica pudo ser considerada una buena obra en su época, puesto que los seres humanos no sabemos apreciar lo verdadero en su justo momento, sino cuando ya ha ocurrido.

Es interesante quedarnos con este aspecto de las obras que han trascendido a los tiempos, para descubrir definitivamente que los grandes pensadores, los escritores apasionados y los artistas que han hecho historia son aquellos que han sabido aportar una idea renovada de la existencia; controversial en la mayoría de los casos, aunque ahora podamos entenderlas como “obvias”, y sobre todo que se han jugado por sus ideales pese a tener que ser tildados de locos. Tal es el caso de Tolstói, que renunció a todos sus bienes para ofrecérselos a los campesinos que habían trabajado en la finca de su padre desde que él era niño, que murió en una estación de tren y que su propia familia declaró de demente tan sólo por eso, por creer en algo diferente y por luchar por esas ideas. Cabe aclarar que fue Lev Tolstói uno de los primeros veganos que vio la historia.


Fonte:poemas del alma

imagem retirada da internet

domingo, 6 de novembro de 2016

A plantação de silêncio, O difícil exercício das cinzas




Cresce a plantação de silêncio.
Os pés mudos enfileirados
e,  como café, o frutinho vermelho
do incômodo, do musgo e do azinhavre.
Os ventiladores de teto rodam
o ar morno das moscas.
A gagueira dos anacolutos
é o diálogo entre ausência e ferro.
As cadeiras de balanço
cadenciam volutas embriagadas.
A pudicícia do não-me-toques
e sua timidez em flor
cria um jardim de inferno.
A morbidez das águas paradas
enchem o copo de ceifadeiras.
O estilingue do sol
manda sua pedra de calor
que não derrete a borracha
que tudo veda, nega e capa.
O broto da juventude
– há muito fenecido –
é uma lembrança de escarpas,
uma falésia que geme
a roda não azeitada de vazadouro.


(do livro O difícil exercício das cinzas. Riod: 7Letras, 2014)