sábado, 17 de outubro de 2015

Homenagem na Biblioteca Nacional de Brasília

Paulo José Cunha




Em 24.04.2009.
Projeto Tributo ao poeta
Biblioteca Nacional de Brasília
Recitadores: Ariosto Teixeira, Luiz Turiba e Guilherme Reis

Um dia somos atraídos a um restaurante bem recomendado, e nem bem o prato chega à mesa e o celular toca. Trata-se de uma emergência e o jeito é engolir rapidamente, sem aproveitar a riqueza dos sabores. E sair correndo. Aí a gente promete retornar ao restaurante outro dia, com tempo de sobra, para poder apreciar a apresentação dos pratos, os sabores, a especialidade do corte, o ponto da carne, a combinação de temperos.
Pois foi essa a sensação que tive ao me deparar com o biscoito fino do poeta Ronaldo Costa Fernandes. Já conhecia sua obra, mas de forma esparsa, apenas uns poucos poemas. E já o admirava, prometendo a mim mesmo conhecê-la melhor, em profundidade, qualquer hora dessas. Quando já me preparava para fazê-lo, tocou o celular e tive de apressar a refeição. Li de uma vez, durante a Semana Santa, lá na minha Teresina, os cinco livros de sua bela produção poética – começando por Estrangeiro, de 1997, depois Terratreme, Andarilho, Eterno Passageiro e o último, publicado este ano, A Máquina das mãos. Belíssimas refeições, pratos admiráveis, poemas maravilhosos. Vou, sim, retornar ao restaurante do Ronaldo, desta vez na companhia de um bom vinho, para degustar com o sossego que sua poesia merece, cada estrofe, cada verso, cada achado, cada cadência delicada, cada surpresa escondida em cada página.
Mas, voltando àquela primeira e apressada refeição, confesso que não me contive e, ao sair correndo do restaurante, escondi na bolsa alguns suculentos pedaços de frango, uns filés maravilhosos com sua inebriante mistura de ervas usadas no tempero, enchi uns tapewares com nacos de massas admiráveis, sobremesas inesquecíveis e a seleção harmoniosa das palavras, digo, dos ingredientes com que Ronaldo compõe cada prato, ou cada poema, tanto faz. São esses fragmentos da bela refeição que ainda vou degustar com calma um dia que gostaria de compartilhar com vocês. E já deixo o convite para que façamos juntos um breve retorno à obra e às delícias desse formidável cozinheiro de palavras, maranhense de nascimento, morador do Rio de Janeiro, e agora radicado em Brasília, pelo visto definitivamente, para nossa alegria.
Desde o início da imersão na obra poética do Ronaldo, fui atraído pelo seu perfeito domínio da nossa língua. Parece um truísmo dizer isso quando se trata de um escritor premiado. Mas atualmente, quando existem tantos escrevinhadores que se ostentam o título de poetas, e que servem tão-somente ao abastardamento da poesia, é muito bom encontrar um poeta de fato! Um poeta que valoriza a essência da palavra, ela que tem sido tão maltratada na era desta tal de “civilização da imagem”. Aliás, a esse propósito, o poeta Pedro Tierra, na orelha de Terratreme, escreveu: “Numa civilização da imagem, o exercício da palavra frequentemente regride. O impacto, o choque ganham da sutileza. Em situações como essa a poesia desempenha um papel, como define mestre Manuel de Barros, de arejadora da língua. Exatamente porque entre todas as expressões literárias, é a que lida essencialmente com a evocação, com a invenção da imagem a partir da palavra. ‘Poesia é assim, os impossíveis ao alcance da voz’”.
Civilização da imagem... Os que usam tal expressão se esquecem de que a imagem antecede a escrita, a imagem está lá nas paredes das cavernas, antes da palavra. E tudo o que se conhece por civilização deve-se, isto sim, à palavra, ao desenvolvimento da escrita, ordenadora do raciocínio, estruturadora da inteligência. Até o dia em que a palavra foi elevada à condição de arte. E não por outra razão, uma arte sublime, que leva o nome de arte poética, a “Ars poética” de Horácio, para quem “aos pintores e aos poetas sempre foi propício o poder de tudo ousar”. Infelizmente muitos ousaram, sim, ousaram se esquecer do valor da palavra, do seu poder de sedução, da sua beleza. Só pra lembrar, a primeira linha do livro sagrado diz: “no princípio era o verbo”. Não diz que no princípio era a imagem - era o verbo, a palavra. Portanto, se existe uma civilização, ela só pode ser uma “civilização da palavra”, e nunca uma “civilização da imagem”.
Com as desculpas pela digressão, na poesia de Ronaldo a palavra é tão respeitada que ele a explora não apenas em sua forma, seu som e seu significado, vai além. Cozinheiro aplicado, desses que sabem escolher os ingredientes e conhecem profundamente suas inumeráveis possibilidades, Ronaldo aproveita a palavra em suas múltiplas dimensões, inclusive nas não pressentidas a uma primeira mirada – a dimensão da metalinguagem, quando avança em territórios de surpreendentes significados. E abduz o leitor ao reino da poesia, aquele estado em que a palavra como significante assume o procênio, abstrai o significado e feiticeiramente nos conquista. Um exemplo rápido, nos versos de A vida é sonho:

O carro de boi range
na estrada do sono.
A luz brinca de pecado.
Ouço o som rouco da alma.
É dia na noite.
Os sonhos vida são.

A pedra,
na cachoeira,
é indiferente
às mãos da água.
As juntas do sonho
se espreguiçam na largueza da alma.
Meus pensamentos têm músculos
nos braços longos do medo.

Nunca amanhecerá
nos cobertores do anonimato.
Nem mesmo um facho de luz
romperá a janela tímida
da rotina.

O sol negro do pesadelo
coloca sua mão pesada
sobre minhas pálpebras inocentes.
Amanhã não acordarei,
nem haverá depois de amanhã,
todas as tentativas de futuro
se resumirão a um bocejo
antes do fim.

Talvez cresça, me torne um homem,
e me veja no espelho do banheiro,
engravatado e barba feita,
como numa foto 3 x 4.

Antes que a lucidez matutina,
que tudo expõe,
quero o esconderijo noturno
das plantas
que vivem
sem saber
que vivem.

Poeta de achados improváveis, Ronaldo Costa Fernandes escava os subterrâneos da palavra e volta de lá com as mãos cheias de preciosidades. Um exemplo rápido, que fui encontrar no interior do poema O cavalo:

(...)O animal guindaste
suspende de uma vala o animal cavalo
que nela – vala – caiu.
Suspenso,
o potro é voador
com suas asas de couro e pano.
O bicho assim
é um bicho fora do seu habitat
não pertence ao gênero da terra
não é marinho,
mínimo,
mas aéreo,
cavalo Móbil Oil
como nos letreiros
da Texaco Company
De cabo a raso
o cavalo é um soldado
na infantaria de seu dono.

Bem poderia ter ficado na expressão conhecida – ”de cabo a rabo”, mas Ronaldo avançou nos possíveis significados, esses que residem nas camadas subjacentes, uma espécie de pré-sal da língua, e descola esse precioso “de cabo a raso” (a soldado raso, diríamos) e prossegue : “o cavalo é um soldado / na infantaria do seu dono”. Um soldado...raso! Achados desse tipo salpicam toda a sua obra, como se o poeta fosse um mergulhador que descesse a grandes profundidades e ao retornar à superfície, com as mãos cheias de pedras preciosas, nos dissesse: - olhem o que encontrei!
Melancólico, perigosamente próximo da depressão, o poeta às vezes se equilibra entre a beleza trágica da condição humana, no limiar da loucura, por exemplo, quando escreve: “Tenho medo de acabar falando sozinho/ como os loucos e os rádios” e as indagações do absurdo, com as quais se depara a todo instante, como essas que pincei aleatoriamente em vários momentos da sua obra: “Que língua se fala no Inferno?”; “A manhã é feminina ou masculina?”; “Com quantas grades se constrói a espessura da razão?”; “Quem move as engrenagens da palavra?”; “Com quantos ferros se faz uma manhã?”; “Como serão os anjos na velhice?”). Sem falar que, não contente com suas próprias perplexidades, vai buscar em Santo Agostinho uma indagação para a qual os teólogos até hoje não acharam resposta: “O que fazia Deus antes de criar o mundo?”
Ao mesmo tempo, o poeta é ao mesmo tempo irônico e cáustico, como nesta abertura do poema O crime perfeito:

“Sentar-se à mesa do mundo
e ver a nova luta de classes:
os pequenos-hamburgueses
contra a dieta dos bóias-frias"

Logo em seguida, no mesmo poema, o resultado da genial divisão que fez na expressão “ar condicionado” e o efeito obtido:

No mundo do MacDonald’s
não há tempestade nem calor
o sujeito do ar condicionado a viver
num balão de oxigênio”.

Poeta de vastas possibilidades, Ronaldo Costa Fernandes é do tipo de escritor que joga nas onze, e com igual desenvoltura. Poeta e prosador, sua poesia está fortemente embebida na prosa de O Morto Solidário, traduzido e publicado em Havana, vencedor do Prêmio Casas de las Américas. Igualmente ganhou os prêmios Guimarães Rosa e de Revelação de Autor da APCA. Na área do ensaio, publicou em 1996 O Narrador do romance, prêmio Austreségilo de Athayde da UBE-RJ. No final de 97 publicou o romance Concerto para flauta e martelo, finalista do prêmio Jabuti-98. E a partir daí, atirou-se à poesia, território onde pode se dar ao luxo de investigar as possibilidades mais remotas de uma expressão como a que identifica uma flor chamada Amor Perfeito, para converte-la em poema de delicadas sutilezas, para ser lido e ouvido pensando simultaneamente no amor e na flor. O poema Amor Perfeito faz parte de Terratreme, única obra poética temática, totalmente dedicada às coisas da flora, da fauna, da pecuária e dos hortifrutigranjeiros:

Aspiro o amor perfeito
ou aspiro ao amor perfeito?
A gramática das flores
exala anacolutos.
O amor perfeito é uma cabala.
Todas as pétalas do idealismo.
Círculo inexato,
triângulo profundo,
número místico
– flor de misterioso aroma,
de forma labiríntica,
que brota em cada pensamento.

A que ramo pertence o amor perfeito?
Às obsessões que são tubérculos?
À submissão que são plantas aéreas?
Ao desejo que é flor que se abre ao toque?
o ramo dos exuberantes como os girassóis?

O amor perfeito é planta de laboratório,
rato vegetal,
cobaia pouco humana,
experiência empírica dos sentidos
ou especulação científica das frustrações?

O amor perfeito não existe em flora alguma.
Viceja apenas na botânica humana,
no húmus das delicadezas da alma,
na suprema aspiração das raízes do ser
que brota a flor mais díspare, metafísica,
desarmoniosa e triste.

O amor perfeito é uma abstração
no jardim secreto dos homens crédulos
na serenidade e no círculo da vida.

Dizem que Ronaldo Costa Fernandes renega seu primeiro livro de poemas, quase um folheto, Urbe, onde Antonio Carlos Secchin já identifica uma “tensa e hostil relação do poeta com o espaço-metrópole”. Não tive acesso a essa preciosidade. Mas essa tensão com o espaço-metrópole se manifesta em vários momentos da poesia reunida nas obras seguintes, como este O Túnel, recheado dos medos e das perplexidades da vida nas cidades, tudo convertido numa enorme metáfora:

O pão nosso de cada dia:
a fôrma dos pânicos,
o forno das inquietudes.

Viver assim com a displicência
do passarinho no fio de alta tensão.

Sou místico de tantas certezas
e lúcido de torvelinhos.

O dia é preciso
e uniforme
como um pão.
Necessário
mas estufado
com seu fermento das horas.

Ando emperrado
como uma dobradiça:
ranjo e me dobro
à passagem por mim
subterrâneo que sou
dos pavores noturnos
– os túneis por onde transgrido.

Tenho medo das ruas escuras
e espessas
onde não há calçadas,
os transeuntes são vitrines espelhadas,
e os veículos nada transportam.

Em algum lugar estou parado na esquina
à espera de mim, ansioso e torto,
os papéis voam seu voo de vento
e
os guardas de trânsito apitam
humanamente
contra a máquina de piscar
olhos do semáforo

Alguém que não assina a orelha de seu primeiro livro escreveu acertadamente que a poesia de Ronaldo é “vária, angustiada, difusa, de individualidade plural. Poeta contido, cronista das emoções alteradas, vigilante da percepção da cotidianidade, não ‘querendo ser estrangeiro na mesma língua’, o autor vai buscar sua poética no pasmo e na inversão: uma forma de estar no mundo e uma forma de conhecer o mundo”. Como está contido nessa espécie de confissão de não-fé, do poema Estrangeiro, que dá título e fecha seu primeiro volume de poesias:

Não quero mais
ser ateu
de um mesmo Deus.
Abandonarei o apego
às coisas desgarradas.

Cansei das curas
que adoecem
e da liberdade
de estar preso às mesmas ideias.

Não quero ser semelhante
entre os desiguais
e recuso a unanimidade
da discórdia.

Não confio nas ordens
da revolta
nem nos escaninhos
da paisagem aberta.

Não quero mais
viver estrangeiro
na mesma língua.

Em 98, Ronaldo Costa Fernandes edita Terratreme, que recebeu o Prêmio Bolsa de Literatura da Fundação Cultural do DF. Ledo Ivo saudou o autor de Terratreme dizendo que “Quem canta os frangos da granja tem direito de reivindicar o seu espaço nítido no território da modernidade poética”.

Frangos de granja

Todos amarelinhos de plástico,
sob o sol artificial da lâmpada,
piando eletricamente
e engordando no pasto de arame
o milho exato e vitamínico de uma cápsula.
Estamos aquecidos neste inverno
que dura uma vida.
E, sob o sol morto do universo,
nos converteremos
em nada ou série
que é uma forma de existir
sem existência.
Enfileirados no ritmo comum e igual
de verões artificiais,
ligados ao fio umbilical das tomadas,
os pintos de granja
reproduzem o gigantesco espanto
de Garcia Lorca com dois milhões de cabritos mortos em Nova York.

Durante nove anos Ronaldo Costa Fernandes dirigiu o Centro de Estudos Brasileiros da Embaixada do Brasil em Caracas. De volta ao Brasil, em 1995, foi Coordenador da Funarte de Brasília até o início de 2003. É Doutor em Literatura pela UnB. É autor de mais três livros de poesia: Andarilho (2000), Eterno Passageiro (2004) e A máquina das mãos (2009), obras em que se atestam a maturidade, a novidade e o frescor de seu artesanato poético. Como nesta Lição de anatomia:

Sou coisa
Algo assemelhado a
lápis ou vela
que para existir se consome
esgrimindo garatujas ou se queimando
no fulgor das palavras ou na luz suicida
que ilumina enquanto se imola.

O bumbo dos solitários é o mesmo dos eufóricos
geme a mesma voz surda
no compasso do tempo das matrizes.

A tarde
com seu invólucro de nuvens
conspira com vozes na liturgia dos alvoroços.

A vida é um erro:
alguns chegam a ser sentenciados
a oitenta anos de vida.

Ronaldo é mestre no descobrir antíteses nas atitudes cotidianas. Para qualquer um de nós, fazer a barba é um sinal de civilidade. Mas o poeta encontra no gesto a raiz da animalidade humana, como neste formidável O animal barbado:

Este animal que se rasura
como quem raspa a orelha do porco
para a feijoada de fim de semana,
este animal feroz e matutino,
como um auto-retrato,
com seus olhos 3 x 4 ,
observa a paisagem da janela
e do outro lado do vidro
está ele mesmo,
é ele a paisagem que envelhece
cada vez que a freqüenta.
Este homem ao espelho,
gilete de martírios e angústias violáceas,
barbeia seu minuto e sua morte,
exasperada e afiada servidão,
a consciência espumosa da pequena guilhotina.

No mesmo estilo, destaco o poema Churrasco, cujo título remete a um hábito que nós, os de Brasília, cultivamos tão amiúde que já se incorporou ao nosso cotidiano. Mas onde o poeta aponta rumores de elevada carga dramática:

Da minha janela, vejo fornos crematórios.
As pequenas chaminés se sucedem como um i sem pingo.
Da fumaça que lhe escapa
há humor de tédio, carne e sal grosso.
Durante a semana os campos de concentração,
que são quintais,
se mantêm vazios e sem prisioneiros
além das árvores inúteis
que parem sem que ninguém as olhe.
Nos fins de semana,
começa o sacrifício de bois e rins
e a fumaça se evola, em suas cólicas
cinzas, a passagem das horas,
o riso grotesco dos feriados,
o ritual de queima e álcool,
a embriaguez da vida
cuja ressaca é a morte.

E agora, um breve passeio pela poesia do cotidiano, “poemas de isopor”, como os classifiquei, de tão leves e ao mesmo tempo, como direi?, tão úteis. Versos em que o poeta se debruça, ora irônico, muitas vezes apenas surpreso, para examinar o por-trás das coisas e das gentes, e assim surpreender um traço de tragédia, de encanto ou de ridículo. Alguns exemplos:

Poema sobre pás

As pás do ventilador nunca se alcançam:
eternamente perseguindo a pá que segue
e fugindo da pá que lhe persegue.
Estou no mundo entre duas pás:
a pá de espírito que não alcanço
e fugindo da pá de cal
que me quer dar descanso.


Mecanicismo.

Oh, as lavouras mecânicas,
fábricas de trigos,
usinas de legumes,
máquinas de frutas,
a lavoura artificial
dos que plantam
como quem rega
um lírio de plástico.


Cemitério dos vivos

O cemitério é o lixo
dos homens
e a morte a prova
de que valemos
menos do que um copo
de plástico
que dura duzentos anos ou mais.


A mesa

A mesa, silente,
ignorada e múltipla como um garçom,
não pode gemer seu intestino de cupins.
Art-nouveau, barroca, inglesa, manuelina,
a mesa, com sua prisão de ventre de madeira,
vara o tempo.

A mesa pasta, por fim, o homem,
principal alimento,
enquanto o homem pensa
que nela se alimenta.


La invención de Morel

Para onde irão as coisas acontecidas?
Por certo não devem estar só na memória
– que é gelatinosa e tende à movediça régua,
que, em vez de precisão,
encurta o que é longo –
por certo devem estar paralisadas
– é curvo o metro da razão –
em algum espaço que não acumula o que recolhe
nem apaga quando se desfaz,
nem se destrói ao morrer,
deve haver um cemitério de fatos,
lá, onde todas as coisas – esquecidas ou não –
perduram e se repetem.


Às putas

E Deus disse e ganharás a vida
com o suor do teu rosto.
Depois ficou pensativo e concluiu:
não bem com o suor do rosto,
mas com outros suores que mais tarde entenderás.
Suores e gemidos de tal sorte
excretados não do fundo da vagina
mas dos grandes lábios que nada pronunciam
lá onde nada se ouve
como o eco do vazio
ou a cascata de um rio seco.



Balanço

A minha vida vai assim se organizando
levar o cachorro ao veterinário
colocar as prestações em dia
tirar saldos, conferir extrato
controlar o nível do óleo do carro
frequentar as reuniões de pais
e mestres no colégio
o passeio dominical com as crianças
pipocas no chão, o assento lambuzado
o rádio a cada curva uma estação
ao fim do dia enforcar-me na árvore do jardim
que este ano só dará um fruto.

Já vai longa esta apresentação. Quero agradecer a participação preciosa dos meus bravos e dedicados recitadores, que embelezaram ainda mais a beleza dos versos do nosso homenageado de hoje. Obrigado aos queridos Luiz Turiba, Guilherme Reis e Ariosto Teixeira.
Como afirmei no início, logo-logo estarei de retorno ao restaurante do poeta Ronaldo Costa Fernandes, onde poderei degustar, devagar e novamente, cada um de seus versos. Versos como os de A garça II, na minha pobre opinião, um dos mais delicados poemas do pouco que conheço da poesia em língua portuguesa. Uma dessas peças que consagram um autor. Diz assim:

A garça II

Eis que a garça
pára e, assim,
fixa, é flor do cerrado.
Tomada de susto,
abre asas,
é flor que voa
assim como a flor
é a garça fixa
no chão.

Vem, me diz,
não és garça e flor?
Assim, fixa,
no cerrado dos meus olhos,
não expandes
a fixidez do teu olhar
- infinito e horizonte –
e quando teus cabelos voam,
qual asa de garça - graciosa –
não és flor que voa?

Já nos encaminhamos para o final. Quero agradecer ao Diretor da Biblioteca Nacional, o poeta Antonio Miranda, e à poeta Angélica Torres Lima, coordenadora do projeto Tributo ao poeta, por me confiarem a apresentação de um poeta da importância de Ronaldo Costa Fernandes. Também me queixo de ter sido picado pelo inseto da poesia, mas não esqueço que também sou jornalista, e gosto de revelar detalhes que alguns personagens preferem esconder. Por isso vou fazer uma inconfidência. Cheguem um pouquinho mais perto que não posso falar muito alto. Em toda a sua poesia, Ronaldo Costa Fernandes, como um João Cabral de Melo Neto ou um H. Dobal, bem que gostaria de não ser - nem parecer - romântico. Faz questão de ser seco, duro, imune a qualquer traço de sentimentalidade. Não sei como estará se comportando ao acompanhar as comemorações dos 50 anos de carreira do Rei Roberto Carlos... Identifiquei sinais de romantismo em Garça II, esse que acabamos de apresentar. Mas até aqui não tinha provas materiais, um vídeo, um documento com que pudesse provar o delito. Isto até conseguir fotografar o poeta em estado de escancarado romantismo. Aproveito o momento e a presença de todos, que agradeço desde logo, para publicar tal fato em primeira mão e na primeira página. Claro que foi uma foto feita meio às escondidas, por isso saiu um tanto tremida, mas dá perfeitamente para comprovar o lado romântico de Ronaldo, não apenas um dos melhores poetas de nossa cidade, mas uma das vozes poéticas mais interessantes no panorama da moderna poesia brasileira.
Antes, algumas observações sobre a poesia de Ronaldo:
Na orelha de Andarilho, Ledo Ivo escreveu, como já vimos:
“Quem canta os frangos de granja tem direito a reivindicar o seu espaço nítido no território da modernidade poética”. E acrescentou: “Um poeta que sabe ver – e, numa visão ao mesmo tempo devastadora e irônica, e pelo caminho da distorção e da transfiguração, planta a sua diferença e singularidade. É uma pena que a poesia seja hoje uma atividade secreta e clandestina. Eu gostaria que o Terratreme chegasse a incontáveis ouvidos, e olhos, e lugares, com seus tatus, suas bananeiras obscenas e seus caminhões empoeirados”.
Carlos Tavares, do Jornal de Brasília, escreveu:
“Ronaldo Costa Fernandes revela antes de tudo um elevado grau de sintonia da palavra com a visibilidade das imagens que cria, denunciando intimidade com a língua e suas possibilidades de metamorfosear com a realidade”.
Foed Castro Chamma observou:
“A sensibilidade aflora em seus versos plenos de interrogação sobre a realidade múltipla que quase asfixia, engole o expectador e se impõe como linguagem e signos que são hieróglifos e ferramentas do discurso poético. O bicho homem é um belo poema! A loucura invade o território da linguagem e questiona o mecanicismo. O ovo, A granja, a paisagem, A terra marítima, Os garimpeiros. Existe humour em tais questionamentos que tornam mais denso o real, que não existe, pois o que existe na verdade é a linguagem. Humour mineiro. A pergunta de Santo Agostinho (p.76) é um soco epistemiológico”.
Rogério Lima escreveu:
“Ronaldo Costa Fernandes corre todos os riscos de ser ‘estrangeiro’ na poesia brasileira. A sua história, a desconstrução do ser estrangeiro, se constrói a partir do seu verso, referência recorrente que ajuda a moldar a sua identidade – ponto fundamental da sua poesia”.
Ronaldo Cagiano:
“Estrangeiro tem nervura, coluna dorsal, arquitetura, fluência e ritmo. A palavra é tratada em sua plenitude, o poema atinge a expressão máxima de sua comunicação lírica, conceitual”.
E as observações publicadas na orelha de A Máquina das Mãos:
“Um poeta forte, disse Vico, é aquele capaz de adivinhar-se e ousar o impossível: dar origem a si mesmo. Em Eterno Passageiro, Ronaldo Costa Fernandes, escritor de carreira sólida, dialoga com a tradição, mas consegue afastar-se dela para falar em língua própria” – Lígia Cademartori, Correio Braziliense.
“Ronaldo Costa Fernandes tem uma maneira especialíssima de tecer sua construção artística, uma fórmula original de construir sua obra de arte” – Ubiratan Teixeira, O Estado do Maranhão.
“Sem dúvida, um os melhores da safra atual”. Rita Moutinho
“A modernidade de Costa Fernandes nos assalta com pletora de surpresas.(...) Outra marca muito interessante na poética de Costa Fernandes: ser ao mesmo tempo agudamente crítica e alucinatória. (...) Raro humor, humor dúplice, de agudezas críticas, doublé de fantasia fantasmagórica, o humor de R. C. Fernandes – tantas vezes negro apesar de esfuziante em imagens – ri-se das trivialidades tragicômicas da doméstica rotina do dia-a-dia, tanto quanto das fúteis fúrias e facécias mortíferas do mundo exterior. Trata-se de ‘cortesia do desespero’ na definição de Houllebeck para o humor”. Fernando Mendes Viana, nosso querido Fernando Mendes Viana, na Revista da Academia Brasiliense de Letras.
Eis o flagrante. Ele está contido nos primeiros versos do poema “Fotografia”, do livro A Máquina das mãos. Aposto que Ronaldo não se recusará a entregá-lo a nós para participar do projeto “Ímãs com Rimas”, que são pequenos poemas ou apenas um ou dois versos que, depois de ilustrados, se transformam em ímãs de geladeira. É um projeto que aguarda lançamento, para o qual já deixo o convite a todos. Vamos marcar data e local, e vocês serão devidamente avisados.
E agora, tchan-tchan-tchan! O flagrante de romantismo de Ronaldo Costa Fernandes. Atenção, porque são apenas três versos.
Dizem assim:

“Ando torto
porque meu coração pesa mais
meu lado esquerdo” (...)

Muito obrigado a todos. Uma boa noite.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Variações sobre a sombra-1, poema RCF


Imagem | Yang Cao
 
Deus, dá-me uma sombra
que não esconda, mas revele
o escuro que anda em mim.
Há sombras que germinam na luz;
outras sobrevivem sem que nenhuma luz
faça parir seu duplo de silhueta.
Estas existem não como projeção,
mas a sombra em si
como se a sombra fosse a projeção
de uma sombra imaginária
de uma luz suposta e irrreal.
Há sombras que nascem sombras
e sombras morrerão.
Nenhuma sombra é igual a outra.
Há sombra mentira.
Há sombra enxuta,
há sombra ausente
e sombra de sombra.
As sombras estão nos meus olhos
ou nas coisas?
Esta é a prisão das sombras
de onde não se pode fugir
nem se abrigar.
A sombra expulsa
de seu útero escuro
a placenta de silhuetas.
Flores de sombras
com seu mal escuro
e pétalas de indizível fogo.
A lua mesmo é uma sombra
que mal ilumina.
O que existe depois da sombra
é um espaço negro em que cabem
o pesadelo, o medo, o fulgor negado
e a infinita dor das sombras.
E por ser sombra
naufraga no escuro
que é a água que a mantém
sobre a superfície da sombra.
Há sombra que sobe pelo homem
e sombra que não é falta de luz
nem a projeção de um homem
que já é sombra de si mesmo.

(de O difícil exercício das cinzas, 2014)
Yang Cao

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

A floresta de éter, poema RCF



É preciso arar as vontades.
O solo seco da má fortuna
não germina as janelas.
Não há plantação de portas,
nem o semear de rumores.
Habitar o campo de casa
e encontrar em cada armário
a vegetação de roupas.


Não se necessita de água
para que a semente do silêncio
brote em meio ao capinzal de ruídos.


(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)

O nobre sequestrador, Antônio Torres


Duguay-Trouin com o Rei Louis XIV

O sequestro do Rio


Ronaldo Costa Fernandes


A tomada do Rio de Janeiro pelo corsário francês René Duguay-Trouin, que, durante dois meses manteve a cidade sob seu jugo em 1711 e exigiu uma fortuna para devolvê-la, é o tema do romance do escritor Antônio Torres intitulado O nobre sequestrador.
Antônio Torres é um velho lobo do mar, para usar linguagem marítima. Autor maduro, de larga trajetória, Torres envereda pelo romance histórico de maneira original, usando vozes diversas, recursos narrativos densos e variedade de tempo e espaço.
A diferença entre pirata e corsário deve ser estabelecida. O pirata é um bandido por contra própria, um empreendedor privado; o corsário é um bandido subsidiado pelo rei, um empreendedor estatal. Se os capitais para a empresa são diversos, o objetivo final é idêntico: o roubo, a pilhagem, a destruição de cidades. René Duguay-Trouin manteve a cidade do Rio de Janeiro sitiada e só a libertou em troca de vinte milhões de cruzados, mais ouro, prata, 27 canhões, 1167 barbatanas de baleia, 750 volumes de lonas, cem caixas de açúcar, duzentas cabeças de gado e inúmeras outras mercadorias e objetos. O corsário, em nome de um direito internacional de cabeça para baixo, de uma Europa em permanente litígio e a América e os mares vistos como terra de ninguém, vagava pelos oceanos com o aval do Rei Luís XIV.
O nobre sequestrador, em sua primeira parte, excetuando um exórdio carnavalesco, onde mistura presente e linguagem coloquial brasileira com o século XVIII e a história ainda a ser contada do personagem que ele elegeu, é uma narrativa realista, colada ao texto das memórias verdadeiras de René Duguay-Trouin. Está cheia de dados, números, referências a documentos, presa a datas e fatos precisos. Nesta primeira parte, quem narra a história é o próprio Duguay-Trouin. Conta-nos não apenas a tomada do Rio de Janeiro como sua juventude e ingresso na vida de homem do mar, aventureiro, filho da cidade conhecida pelos seus corsários: Saint-Malo. Ainda nesta primeira parte, o francês, ou melhor, a estátua do francês visitada pelo narrador do romance, trezentos e tantos anos depois, de uma perspectiva histórica cronológica impossível, mas verossímil como ficção, conta-nos os feitos de sua vida aventureira.
Na segunda parte, surge uma mistura do velho narrador René Duguay-Trouin e um narrador onisciente que atualiza a história. Este narrador relata o aparecimento da curiosidade do pesquisador brasileiro em relação ao corsário, conta suas viagens à França em busca de informação complementar, sua demissão do trabalho de publicitário ( e divagações ligeiras sobre a velhice ). Retorna ao relato, agora através de um diário impessoal, narrado em terceira pessoa, com a descrição simples das ações para a tomada da cidade do Rio de Janeiro.
Uma terceira e última parte vem se acrescentar: o narrador passa a ser a própria cidade. Ofendida, machucada, ressentida, violentada.
Este vaivém narrativo enriquece o romance, atualiza-o, dá-lhe um viés da pós-modernidade: metaficção historiográfica. Outra face contemporânea dá-se na ucronia ( “tempo histórico maluco, em que Júlio César duela com Napoleão e Euclides consegue demonstrar o teorema de Fermat” – Umberto Eco ). Revela-se principalmente no fato de a estátua dialogar com o narrador-investigador da vida corsária de René Duguay-Trouin, a mistura de tempos diversos e da visão de apreender a História como mais um texto. Mas há, contudo, um dado inquietante: os narradores insistem em perpetuar a memória do corsário. Não desfazem ou humanizam a figura do personagem histórico. Esta é uma questão que vale a pena ser levantada do ponto de vista mesmo do autor: por que a preocupação de manter a imagem de herói para o corsário? Ora, René Duguay-Trouin é um bandido real, um saqueador, pode ser herói para a França, mas não há heroísmo nenhum no fato de nós, brasileiros-cariocas, termos sido saqueados por um francês.
Antônio Torres, porém, é um mestre da narrativa. Com pulso forte, pena da galhofa e ironia sem melancolia, Torres nos sequestra para sua aventura narrativa e nos fascina com dois mundos: Saint-Malo e Rio de Janeiro. E lança-nos em dois tempos: passado e presente convivendo no tempo histórico da trama.

imagem retirada da internet:Duguay-Trouin com o Rei Louis XIV

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Canteiros, Cecília Meireles






Quando penso em você fecho os olhos de saudade
Tenho tido muita coisa, menos a felicidade
Correm os meus dedos longos em versos tristes que invento
Nem aquilo a que me entrego já me traz contentamento
Pode ser até manhã, cedo claro feito dia
mas nada do que me dizem me faz sentir alegria
Eu só queria ter no mato um gosto de framboesa
Para correr entre os canteiros e esconder minha tristeza
Que eu ainda sou bem moço para tanta tristeza
E deixemos de coisa, cuidemos da vida,
Pois se não chega a morte ou coisa parecida
E nos arrasta moço, sem ter visto a vida.




 

DEUS DE CAIM, de Ricardo Guilherme Dicke



Dicke: a reparação de uma injustiça literária Adelto Gonçalves (*)

I

Em algum lugar, este articulista já escreveu – e repete-o agora – que, daqui a cem anos, o historiador literário que pretender traçar um inventário da melhor literatura produzida no Brasil na segunda metade do século XX e nas primeiras décadas do século XXI não poderá se limitar a consultar as listas dos livros mais vendidos das revistas semanais nem os catálogos das grandes editoras.

Se o fizer, correrá o risco de cometer equívocos, tal como o investigador que se satisfaz ao compulsar apenas a documentação oficial de determinado período histórico – porque acaba por ficar com a visão de apenas um lado da História e exatamente o mais forte e opressivo. Afinal, boa parte da literatura de melhor qualidade vem sendo publicada no Brasil por pequenas editoras fora do eixo São Paulo-Rio de Janeiro.

Basta ver que nenhuma das casas editoriais paulistas e cariocas de hoje ocupou o vácuo deixado pela Livraria José Olympio Editora, do Rio de Janeiro, que, da década de 1940 até meados da década de 1980, cumpriu exemplarmente o papel de incentivar os jovens talentos, revelando um grande número de romancistas, contistas e poetas que hoje fazem parte da história da Literatura Brasileira.

Uma prova do que se escreve aqui é o romance Deus de Caim, de Ricardo Guilherme Dicke (1936-2008), que agora sai em terceira edição pela editora Letra Selvagem, de Taubaté-SP, depois de ter sido publicado pela Edinova, do Rio de Janeiro, em 1968, e pela Gráfica Sereia, de Cuiabá, em 2006. Se tivesse sido lançado à época pela José Olympio, teria seguido um percurso natural, ganhando maior divulgação na imprensa e adquirido o foro de grande revelação literária. Afinal, em 1967, o romance conquistara o quarto lugar do Prêmio Nacional Walmap, o mais importante do País à época, depois de analisado por um júri integrado por Guimarães Rosa (1908-1967), Jorge Amado (1912-2001) e Antonio Olinto (1919-2009).

O primeiro lugar ficou com Jorge, um brasileiro, de Oswaldo França Júnior (1936-1989). Olhando-se a uma distância de 45 anos, é de reconhecer que o júri não andou mal ao escolher o livro de França que, talvez até em função da premiação ou do ativismo literário do próprio autor, tornou-se mais conhecido e teve melhor fortuna crítica, assim como boa parte da produção do escritor mineiro, ainda que se possa dizer que, literariamente, o romance de Dicke é mais bem trabalhado e cerebral. Por isso, mereceria ter tido melhor sorte.

II

Ao contrário de Oswaldo França Júnior, que, morando em Belo Horizonte, teve alguns de seus livros publicados pela Nova Fronteira, do Rio de Janeiro, e, dentro das limitadas dimensões da literatura num país ainda extremamente inculto, tornou-se um nome conhecido nacionalmente, Dicke teve uma carreira literária, praticamente, ignorada, ainda que tenha sido citado por alguns raros autores e estudiosos, que conheciam a sua obra e reconheciam sua importância. Entre aqueles que se referiram com entusiasmo à obra de Dicke estão Hilda Hilst (1930-2004), Nélida Piñon (1937) e até o cineasta Glauber Rocha (1939-1981), que chegou ao exagero de afirmar que Dicke era “o maior escritor vivo do Brasil, mas que ninguém o conhecia”.

Quem consultar hoje o Google talvez venha a concluir que foi preciso que Dicke morresse para que seu nome passasse a se tornar mais conhecido. De fato, hoje, já não é tão desconhecido assim. E até já ultrapassou os muros da universidade. Em 2005, Juliano Moreno Kersul de Carvalho, mestre em História pela Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), apresentou a dissertação “Do sertão ao litoral: a trajetória do escritor Ricardo Guilherme Dicke e a publicação do livro Deus de Caim na década de 1960”. Para escrevê-la, teve a oportunidade de consultar o arquivo particular do autor. É de sua autoria o prefácio da segunda edição, reproduzido também nesta terceira edição.

Em 2011, Luciana Rueda Soares, professora de Língua Portuguesa, também obteve o seu mestrado em Letras pela UFMT com a dissertação “A configuração das personagens em Madona dos páramos, de Ricardo Guilherme Dicke”, mas, antes disso, já escrevera o artigo “Ricardo Guilherme Dicke e a marginalização do sistema literário tradicional brasileiro”, fruto das pesquisas para a sua tese de mestrado, em que aborda a questão da ausência de escritor no cânone literário nacional.

Luciana afirma que essa constitui apenas uma das muitas injustiças que ocorrem em uma sociedade em que uma elite intelectual determina o que tem valor estético ou não. Para ela, “são muitos os excluídos da lista canônica, mas com o avanço e a globalização das informações é só uma questão de tempo e oportunidade para que essa questão seja revista”. Ainda bem. Aliás, a reparação dessa injustiça começa a ser feita pela terceira edição de Deus de Caim, pela Letra Selvagem, que vem alcançando grande repercussão nos jornais que ainda dedicam espaço à literatura. Com essa (re)descoberta do grande autor que Dicke sempre foi, o que se espera é que as dissertações de Juliano Moreno Kersul de Carvalho e Luciana Rueda Soares também sejam publicadas em livro em breve.

Sem contar que a terceira edição de Deus de Caim traz também uma apresentação de Nelly Novaes Coelho, professora titular da Universidade de São Paulo, em que a renomada crítica literária diz que este labiríntico romance “deu início à grande obra que Ricardo Guilherme Dicke realizou durante toda a sua longa vida”.

III

Dicke nasceu em Chapada dos Guimarães, em Mato Grosso, onde passou a infância. Era filho de um alemão que viveu no Paraguai e mudou-se para o Brasil. Já adulto, passou a morar em Cuiabá, onde chegou a escrever o seu primeiro livro, Caminhos de Sol e Lua. Ainda bastante jovem, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se licenciou em Filosofia e especializou-se em Merleau-Ponty (1908-1961) e fez mestrado em Filosofia da Arte na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Estudou pintura e desenho e participou do Salão de Arte Moderna do Rio de Janeiro em 1966.

A essa época, trabalhou como revisor, redator e tradutor e foi repórter de O Globo. Depois da publicação de Deus de Caim em 1968, resolveu voltar a Cuiabá, onde trabalhou como professor e jornalista e fez várias exposições de seus quadros. Ao morrer, aos 72 anos, deixava uma obra respeitada por alguns intelectuais, mas ao mesmo tempo ignorada. Seus livros, na maioria, foram publicados por editoras pequenas, em tiragens reduzidas, e repercutiram pouco na imprensa do Rio de Janeiro e São Paulo. Ao que parece, deixou ainda algumas obras inéditas nas mãos da viúva, Adélia Boscov, com quem casara aos 26 anos de idade.

Publicou ainda Como o silêncio (1968), Caieira (1978), Madona dos páramos (1981), Último horizonte (1988), A chave do abismo (1986), Cerimônias do esquecimento (1995), Rio abaixo dos vaqueiros (2001), Salário dos poetas (2001), Conjunctio oppositorum no Grande Sertão (2002) e Toada do esquecimento & sinfonia eqüestre (2006).

IV

Inspirado em conhecido mito bíblico, Deus de Caim conta a história de dois irmãos gêmeos, Jônatas e Lázaro, que se apaixonam pela mesma mulher, Minira, localizando-os em Pasmoso, cidade inventada assim como a Yoknapatawpha, de William Faulkner (1897-1962), a Macondo, de Gabriel García Márquez (1927), e a Santa Maria, de Juan Carlos Onetti (1909-1994), imaginada no interior do Mato Grosso. Com estilo denso, Dicke leva o leitor para um mundo dominado pelo ódio e pela incompreensão, em que todos parecem condenados ao inferno.

Na apresentação que escreveu para o romance, o escritor e crítico Ronaldo Cagiano diz que Deus de Caim “se converte numa escritura das paixões e desatinos humanos; é também fruto de uma catarse do autor e de seus personagens, tal o fluxo desordenado, eruptivo e fulminante com que sua narrativa, tecnicamente apurada, vai se processando”. E observa que, “ao traçar um painel da vida rural e urbana do Mato Grosso, Deus de Caim desvela também as tensões sociais da época, o garroteamento da liberdade, a relação entre a civilização e a barbárie, entre o campo e a cidade, entre a descrença e a utopia, entre o imperativo da modernidade e os grilhões do atraso”.

Já no prefácio que escreveu para a primeira edição de Deus de Caim, o acadêmico Antonio Olinto comparou o estilo de Dicke com o de Louis-Ferdinand Céline (1894-1961), embora soubesse que o escritor matogrossense nunca havia entrado em contato com a obra do francês. E observou que “o estilo e os temas de Céline andavam no ar e outros escritores os pegavam sem precisar de leitura”. Para o crítico, ambos os escritores usam “uma linguagem de ódio”, embora Dicke use também “uma linguagem de amor, não o romântico, o de puro sentimento, mas o erótico, o da loucura de Eros que, felizmente, o mais civilizado dos homens e a mais industrial das sociedades ainda são capazes de ter”.

O que é de admirar é que um romance dessa qualidade tenha passado, praticamente, despercebido pela crítica e pelas grandes editoras (e, por extensão, pelo leitor) durante tanto tempo. A culpa, com certeza, não cabe ao autor.

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DEUS DE CAIM, de Ricardo Guilherme Dicke. Taubaté-SP: Letra Selvagem, 2010, 400 págs., R$ 40,00. E-mail: letraselvagem@letraselvagem.com.br Site: www.letraselvagem.com.br

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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: marilizadelto@uol.com.br

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Estado alterado da razão-poema RCF






Quando ando em Paris no meu bairro
quando corro e não saio do lugar
quando chego em casa no trabalho
quando choro meus mortos
que ainda estão vivos
quando tiro o pino da granada
da fruta de conde
é
que meu verso está na minha frente.


(do livro Estrangeiro, Rio, 7Letras, 1997)



A maldição da estreia, Antonio Carlos Secchin



Costumamos imaginar dois tipos de avaliação de um autor experiente quanto a seu livro de estreia: endosso ou rejeição. Mas, entre os dois extremos, a gama de reações parece infindável, como veremos a seguir, acompanhando as estratégias de afamados escritores brasileiros do século XX frente a suas primeiras obras, no campo da poesia.

Na ponta do endosso, um nome que avulta é o de Manuel Bandeira. Lançou "A Cinza das Horas" em 1917 (contava, então, com 31 anos) e até o fim da vida não cessou de reeditar o volume, ainda que ele próprio já houvesse substituído a dicção parnaso-simbolista da obra inicial pela linguagem modernista, soberana a partir de "Libertinagem" (1930).

Na ponta do "não" radical, Cecília Meireles. Publicou aos 18 anos (em 1919) o opúsculo "Espectros", de fatura neoparnasiana. Não contente em jamais reeditá-lo, chegou ao ponto de sequer permitir que o livro fosse arrolado em sua bibliografia. Em decorrência, "Espectros" tornou-se um dos mais fantasmagóricos mistérios das letras brasileiras: durante mais de 80 anos se chegou, até mesmo, a conjecturar que não restara sequer um exemplar para contar a (pré-)história ceciliana. Finalmente localizado no início do século XXI, foi incorporado à "Poesia Completa" da escritora, na edição comemorativa de seu centenário de nascimento.

Guimarães Rosa tampouco pensou em endossar suas primícias poéticas - que representaram, aliás, no conjunto do autor, uma solitária incursão ao gênero. Bem antes de consagrar-se como notável ficcionista, a partir de "Sagarana" (1946), Rosa obtivera com "Magma", em 1936, o primeiro lugar em concurso de poesia promovido pela Academia Brasileira de Letras. Somente em 1997, 30 anos após a morte do escritor, foi publicado o volume, que em quase nada lhe prenuncia o talento.

Vinicius de Moraes renegou na íntegra "O Caminho para a Distância" (1933), fazendo constar, num adendo a bibliografias posteriores, que a edição fora "recolhida pelo autor". Publicada quando Vinicius contava 20 anos, tributária do influxo da poesia de Augusto Frederico Schmidt e do pensamento católico, a obra estampa uma visão atormentada e culposa do desejo, bem diversa daquela que o poeta em breve iria abraçar.

Já no extenso arco das estreias rejeitadas, "ma non troppo", figura "Há uma Gota de Sangue em Cada Poema" (1917), de Mário de Andrade, sob pseudônimo de Mário Sobral. O poeta afirmava que escritor algum deveria publicar antes dos 25, mas, no fim (ou no início) das contas, acabou desprezando a regra que ele mesmo criara, pois aos 24 anos editou a plaquete. É verdade que excluiu o volume de suas "Poesias" (1941), mas o preservou por inteiro em "Obra Imatura" - no caso, o adjetivo "imatura" parece sinalizar quase um pedido prévio de complacência ao distinto público.

Cassiano Ricardo opera em sentido diverso: aparentou preservar o pioneiro "Dentro da Noite" (1915), publicado aos 20 anos, nas "Poesias Completas" de 1957, mas o descaracterizou de tal modo que, dos 43 textos originais, apenas 5 reapareceram - ainda assim, com várias (não explicitadas) alterações. Como se não bastasse, enxertou, em 1957, dois poemas inexistentes na versão de 1915, dando a entender que houvessem desde sempre integrado o primeiro livro.

Nesse particular, Cassiano foi o mais camaleônico de nossos modernistas, sem pejo de reinventar continuamente o próprio passado, e considerando-se desobrigado de dar notícia das transformações (muitas vezes radicais) que efetuava em obras pregressas, tornando-as a posteriori mais "modernas" do que efetivamente haviam sido. Assim, um poema discursivo, originalmente em 50 versos, intitulado, em 1947, "A Inútil Serenata", ressurge em 1957, renomeado, sem aviso prévio, de "Serenata Sintética", e reduzido à concisão exemplar de seis escassos versos: "Lua/ morta/ rua/ torta/ tua/ porta".

Na esteira de Cassiano, outro poeta de São Paulo, Mário Chamie, também timbrava pela radical e subterrânea reescrita do passado. Chamie, aliás, foi bastante próximo de Cassiano Ricardo, a cuja obra dedicou minucioso estudo. A manutenção do título é o único ponto comum entre o "Espaço Inaugural" de 1955 (quando Mário tinha 22 anos) e o de 1977 (incluído em "Objeto Selvagem"). A versão de 1977 suprime na íntegra todos os poemas originais, substituindo-os por peças mais afins da estética do movimento de vanguarda Práxis, lançado e capitaneado por Chamie no início da década de 1960.


Com Murilo Mendes ocorreu fenômeno curioso: não renegou o primeiro e sim o segundo livro, "História do Brasil" (1932), por julgá-lo limitado demais ao compromisso para com o filão de poesia satírica e humorística do modernismo de 22. Na "Advertência" a suas "Poesias" (1959), assim justificou a eliminação dessa obra e o grande número de alterações impostas à versão original de outros livros: "Para esta edição revi inteiramente todos os textos, tendo também suprimido vários poemas que me pareceram supérfluos ou repetidos. Procurei obter um texto mais apurado, de acordo com a minha atual concepção da arte literária. Não sou meu sobrevivente, e sim meu contemporâneo". Agiu, portanto, conforme outros agiram, no sentido de uma modernização estilística, tendo, porém, o zelo de tornar pública a intervenção renovadora.

João Cabral de Melo Neto oscilou bastante nos procedimentos de inserção dos poemas de "Pedra do Sono" no conjunto de sua obra. O autor, que contava 22 anos quando o livro veio a lume (1942), sempre o considerou o mais frágil de sua produção, pela ostensiva presença de um veio surrealista, em pouco tempo eliminado (e execrado) pelo poeta. Ainda assim, os "Poemas Reunidos", de 1954, abrigam 24 dos 29 textos primitivos, destituídos dos respectivos títulos, e identificados em sequência de algarismos romanos. As "Poesias Completas", de 1968, reduziram a 20 poemas o espólio do livro, devolvendo-lhes os nomes e alocando-os no fim do volume. A "Obra Completa", de 1994, derradeira manifestação do autor sobre a questão, reconstituiu a integralidade de "Pedra do Sono".

Mais recentemente, Ferreira Gullar, que antes excluíra "Um pouco acima do Chão" (de 1949) da coletânea "Toda Poesia" (1980), chancelou o retorno da obra, desde que circunscrita ao "Apêndice", à sua "Poesia Completa, Teatro e Prosa" (2008). Os versos adolescentes, publicados na São Luís natal, vazavam-se em tom celebratório eivado de inflexões neorromânticas, numa atitude bastante diversa do complexo e filigranado trabalho de linguagem que Gullar desenvolveria, cinco anos depois, na forte poesia de "A Luta Corporal".

Se muitos poetas abandonaram o primeiro livro, houve um que jamais conseguiu dele sair: Raul Bopp. Com efeito, mesmo que tenha publicado alguns (poucos) títulos poéticos posteriores, Bopp persistiu inelutavelmente atrelado a "Cobra Norato", de 1928, de que passou a fornecer sucessivas edições com retoques, nem sempre felizes. Na contramão da maioria dos escritores, instalou-se para sempre no corpo de sua (c)obra inaugural.

Como a regra, porém, é o repúdio ou a restrição, em menor ou maior intensidade, ao "livro de estreia", poderíamos, com algum cinismo, sugerir aos jovens poetas que iniciem a carreira pelo segundo livro. Mas, se nos lembrarmos do exemplo de Murilo Mendes, o mais seguro, mesmo, é começá-la pelo terceiro.



(fonte: Valor Econômico de hoje; imagem retirada da internet: feira do livro)

Antonio Carlos Secchin é poeta, ensaísta e membro da Academia Brasileira de Letras

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

As águas represadas, poema RCF






Águas paradas das represas,
jacarés dormindo,
ursos hibernando,
é a fúria contida
no curral das águas.

Quando as águas se soltam
no espetáculo espumoso de ira
das comportas abertas,
libertam-se os cavalos selvagens
desenfreados em sua fuga úmida,
corcéis desabando na cachoeira livre.
As águas correm
aparentemente libertas
para outra vez se aprisionarem
– cavalos bravos mas domesticados
pelas margens do rio
até encontrarem outra represa,
que os acurrala
ou darem com os burros n´água
na imensidão anônima dos oceanos
que não distingue tipo de água
salgando tudo na igualdade
                                     dos mares.



(imagem retirada da internet: foto Vooz)

Caminhante, António Machado







XXIX



Caminhante, são tuas marcas
o caminho, e nada mais;
caminhante, não há caminho,
se faz caminho ao andar.
Ao andar se faz caminho
e ao voltar a vista atrás
se vê a senda que nunca
se voltará a pisar.
Caminhante, não há caminho,
senão estrelas no mar.