sábado, 22 de julho de 2017

Novo livro de Fabio Coutinho: A biografia de Lucia Miguel Pereira



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Lucia, a “flor” dos Pereiras

Vera Lúcia de Oliveira


O bem nascido Brás Cubas, defunto autor e narrador de tão famosas memórias, viu uma grande vantagem na morte: a liberdade! E foi na condição de morto que expressou suas opiniões ferinas, sobretudo em relação à família, a quem atribuiu sua educação falha e viciosa. E também não poupou o meio social em que se desenvolveu, resumindo sua criação: “Dessa terra e desse estrume é que nasceu esta flor.” Assim, preso à sua classe, (e a muitas roupas, no caso dessa “flor” dos Cubas), o indivíduo era tão somente uma continuação dos seus, moldado pelo convívio social, num determinismo interminável.
Não foi o que aconteceu com Lucia Vera Miguel Pereira (1901-1959). Moça também bem nascida, menina do Sion, o mais prestigioso colégio para moças finas do Rio de Janeiro, Lucia poderia ter sido na infância uma pequena tirana voluntariosa como o nosso Brás Cubas, na juventude poderia ter sido o “broto do ano” da sociedade carioca, e mesmo na maturidade uma bela “rainha do lar”, uma vez que era muito bonita; pois esse era o contexto social em que vivia. No entanto, desenvolveu a sua individualidade, o seu talento natural para as coisas do espírito. Bela e inteligente, foi neste segundo predicado que ela acreditou. Optou pelo silêncio e solidão que o ofício da escritura impõe àqueles que só veem sentido e graça na luta com as palavras, subjugando-as, domando-as pela cauda vida afora. Escolheu pensar. “Pensar ainda é a melhor forma de viver”, disse Lucia. E desse modo, dedicando-se aos estudos, colocou seu nome no lugar mais alto do pódio dos escritores nacionais. Primeira biógrafa de Machado de Assis, sua obra continua referência obrigatória para os estudos machadianos. Biógrafa também de Gonçalves Dias, pequeno grande homem da nossa literatura. E ela fez muito mais...
Quem nos conta tudo isso é Fabio de Sousa Coutinho em Lucia – Uma biografia de Lucia Miguel Pereira, (Brasília: Outubro edições, 2017), livro trabalhado com o rigor da pesquisa acadêmica e com o auxílio dos depoimentos da família, da qual faz parte. Fabio nos dá uma obra que só ele poderia dar, pois o que ouviu dos parentes foram depoimentos pessoais da maior relevância. Nessa obra de leitura tão agradável quanto esclarecedora, acompanhamos a trajetória de Lucia, do nascimento à morte trágica ao lado do marido, o bem amado Octávio Tarquínio de Sousa. Lucia e Octávio conheceram a felicidade como poucos. Viveram uma grande paixão amorosa e uma grande paixão feita de palavras escritas em forma de jornal, revistas e livros. E de companheirismo e admiração mútua. Ela, que se encantou com a rara comunhão de Machado de Assis e dona Carolina, teve também o privilégio de assim viver com o companheiro perfeito numa casa com rica biblioteca, cujos livros, remédios da alma, foram testemunhas silenciosas da vida de estudos dos dois escritores. Diferentemente de Abelardo e Heloísa, (como foram chamados), desafortunados amantes da longínqua idade média francesa, os amantes brasileiros foram felizes para sempre. Pois nem a morte os separou. Morreram, juntos, tragicamente juntos.
Fabio põe toda sua emoção nessa história, que é também a de sua família de renomados escritores, a que ele honra e dá continuidade com significativa obra de jurista, escritor e leitor apaixonado. Ler a história de Lucia é conhecer a história da intelectualidade brasileira nas seis primeiras décadas do século 20; é acompanhar a formação e a trajetória de uma escritora de talento ímpar e da mulher, companheira feliz de um dos mais brilhantes
escritores de nosso país. Lucia foi mordida pela mosca da literatura ainda criança, pois menina cheia de imaginação já criava suas estórias. Grande leitora, não demorou que se tornasse também escritora, autora de crônicas, romances, crítica literária, tradutora e grande biógrafa, como já dissemos.
Ao contrário do irônico Brás Cubas, Lucia foi, sim, uma flor. A flor dos Pereiras. Herdou da “terra” a disciplina, o gosto, o talento para a literatura, e recebeu do “estrume” a boa educação formal de uma jovem, mulher e escritora. E trilhou o próprio caminho. Uma felizarda. Até o amigo e vizinho Carlos Lacerda a chamou de flor...
Lucia cultivou a literatura e as flores, que ofertava aos amigos. E se pudesse ler o que Fabio escreveu sobre ela, modesta e discreta como era, talvez se espantasse e dissesse: “Essa mulher admirável, essa flor sou eu?”

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Frida Kahlo, poema RCF


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Em teu andaime de ossos
para construir uma vida
de cor e política,
 o corpo azteca
que retesa os músculos
da existência febril,
eu até diria, de tua
exuberância fabril.
Vontade de se enroscar
em teus panos mais
que coloridos: teus panos
ameríndios, teus panos
pré-colombianos: no
Peru e na Bolívia, com
chapéu de coco espanhol
as mulheres são totens
de carne e roupas
que se moem na paisagem andina.
Teus olhos de vísceras,
tuas sobrancelhas de vício,
teus lábios de Adelita
e  revolução mexicana
são delírios de carmim
que nos meus sonhos se
 esvaem feito um relógio de Dali.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Um homem é muito pouco 37



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            Vim lhe fazer uma proposta.
            Proposta? Não temos nada em comum, negócio ou amizade, por que você vem me fazer uma proposta?
            Não se altere, estou aqui em missão de paz.
            Não sabia que agora você deixou a Bolsa de Valores para ser missioneiro.
            Ele não gostou da minha ironia, mas não tinha outra arma a não ser a ironia. Ele vestia um terno bem cortado – devia ser um terno bem cortado, eh bem, nunca soube exatamente o que era um terno bem cortado, devia ser um terno que cabia perfeitamente na medida certa da pessoa, eu acreditava que havia pessoas bem cortadas e que qualquer roupa lhes caía bem, aquele terno do irmão de Alice, por exemplo, podia ser bem cortado, mas o rapaz não era bem cortado, tinha braços longos, era de altura mediana, barriga proeminente e pernas curtas, não, Marcos, o irmão de Alice definitivamente não era um homem bem cortado – mas dizia que vestia terno bem cortado, carregava pasta e lá de dentro retirou alguns papéis.
            Posso sentar?
           Não consigo ser irônico com a delicadeza. A única arma que me vence é a delicadeza. É ela que cria armistícios e alivia o desconforto de situações inertes. A proposta de Marcos não era a proposta de Marcos. Era a proposta da família. Ele apenas vinha trazer o recado. Não era original a proposta de Marcos. A família queria que eu deixasse Alice em troca de grana. Expulsei-o de casa. Ele havia declarado guerra a meus nervos. E atacava a única coisa da qual me orgulhava de ter herdado dos meus pais que nunca nasceram: a honra.
            Não sabia nada sobre eles, nem física nem mentalmente, não sabia se eram comerciantes ou funcionários públicos, se eram religiosos ou comunistas, mas de uma coisa tinha certeza: se Alice herdara bens, eu herdara apenas um bem. Meu bem era saber que tinha honra. Não honra inerte, desconfortável e bélica. Não contei nada para Alice, sabia que ela ia arrumar confusão com a família. Não tanto por mim, não tanto por amor a mim, embora tivesse certeza de que Alice me amava, mas porque eles também duvidavam da capacidade de Alice de discernir. Tratavam-na como pessoa que precisava de curatela. Uma pessoa sem paz de espírito, enquanto Alice tinha o espírito devorador e acusatório da arte e a paz dos que justamente não precisam de curador, seja da família, seja de companheiro. A única curatela que Alice desejava ter era a curatela da poesia. A qualquer momento ela poderia irromper e desnorteá-la, tornando-a uma Alice que ela mesma desconhecia.


(Um homem é muito pouco. São Paulo, Nankin: 2010)

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Campos de concentração, poema RCF





Foto | Gordon Spooner




Essa vegetação dos cabelos
são tranças do ovário.
E o coque de aspereza,
a trama de parecer uma sendo várias.
Ceifar o milharal dos canos,
os ipês sopram ventos roxos,
semear a monocultura dos esgotos urbanos.
Os receios esterilizam a terra
e as estações de metrô
trazem sempre o inverno do cimento.
Só os loucos têm razão,
choramingos febre sezão ai ai Deus.
Talvez as chuvas de verão
me tragam abrigo
e agosto, época de seca,
me chova torpezas.

(do livro Eterno passageiro, Ed. Varanda, 2004)
 

terça-feira, 18 de julho de 2017

Dedos, poema RCF






Meus dedos têm desertos.
Há areia fina na minha vontade.
Meus dedos são hipótese
como gaiola vazia.
Não têm tato,
só conhecem o tagarelar dos acenos.

Meus dedos demoram a pensar.
Têm memória curta.
Têm a surpresa do estalo,
mas não regulam bem,
cada qual em seu drama:
a polegada de vida medida,
o fura-bolo do desatino,
o maior-de-todos os descompassos,
seu-vizinho do medo de viver
e a vida mindinha que se leva.

(do livro A máquina das mãos, 7Letras, 2009)

(imagens retiradas da internet: botero)

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Oração aos velhos, poema RCF

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Deus, dai-me o remédio dos sãos,
o monólogo das rezas
que não necessitam resposta,
a disciplina dos ventos brandos,
o perdão dos confessionários,
a ligeireza das fugas,
a perseverança dos inválidos,
a certeza dos incrédulos,
a incerteza dos crédulos,
a fibra dos doentes,
a lucidez do sol,
a iluminação das agulhas,
o fervor das minorias,
a fim de que cumpra
a delicadeza de existir
como há serenidade e lucidez
nos lençóis de linho branco.


(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)

(imagem: rebecca drautemer)


domingo, 16 de julho de 2017

No afiado lume de Laminário

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No afiado lume de Laminário

Angélica Torres Lima

O brilho do olhar de Margarida Patriota no reflexo da visão de paisagens externas e internas mostra isso: não de torre de marfim, mas de um seu Olimpo no cimo do planalto ela divisa panoramas sob o sol sobre tormentas e os compartilha em afiada poética. Margarida porta uma escola na perícia dos seus versos. Querendo aprender sobre ars poética na prática, saber como se aprimoram versos, em Laminário a lição.

Doutora em literatura francesa, densa conhecedora dos simbolistas, ela tem a chave nas mãos para abrir, transversar, ziguezaguear, fechar o poema, no feitio que desejar. E que não se apressem em acondicioná-la em letras de mulher, embora se possa espionar a “nudez pleiteando agasalho”, antes e depois do baile, e vislumbrar sob essa pele a personagem que se mostra na cosmogonia de sua escrivaninha-penteadeira.

De fato, à medida que se adentra o poemário, um camafeu, relíquias, flores, aromas da rubiácea, sutilezas da convivência amorosa transparecem entre as imagens da realidade feminina. “Penso o mundo  ̶  penso/ o coração nas mãos. / Penso o mundo com renúncia /abnegação de mãe/ Enquanto penso / penso curando mágoas / O mundo infenso / continua a sangrar” (em Do vão pensar). No entanto, a poeta vai além do espelho sem que lhe descubram ao certo se é de fêmea ou macho, se de Lesbos ou pseudo-hermafrodita, se de eunuco ou querubim o sexo do poema.

E assim supragênero ela sai com o olhar agudo e crítico de cronista retratando tipos e costumes, contrastando-os às vezes lado a lado nas lâminas, com inteligência ferina e certeira, como em Desencontro de gerações. Margarida Patriota vive seu tempo em diferentes tempos tramados no eco de seu cotidiano erudito e de suas viagens pelo mundo da História, da cultura, da plataforma das redes virtuais.

E nesse amplo universo, o leitor pode identificar claramente, mesmo entre sutis amarguras em figura-fundo, a inconfundível protagonista de boas sortes, desde a selfie do bebê (“Quando eu ia de colo em colo / como de deus em deus”, em Politeísmo). Poeta da era aquariana, racional, ela tem no substrato de seus poemas um q da waltwhitmania de ser mesmo otimista, positiva, de celebrar a vida  ̶  a morte, por exemplo, não é tema contemplado em Laminário.

Nessa linha de humor estão as boas lembranças da infância no interior (em Escola Rural e Menina de Engenho), as troças ao sorriso-riso, irônico e autoirônico embutidos ou explícitos (“Arrolo como um Napoleão de hospício / dinastias e impérios que herdei”, em Patrimônio), ironia flagrante, às vezes amarga outras, cruel, nas suas sempre torneadas imagéticas e sonoras palavras (“Pelos destroços do massacre atômico / Ri de escárnio fumegante / Quem há de assegurar entre os pósteros / A metástase da graça”, em Hecatombe.). 

Nos poemas, sem alinhavo temático linear certamente por propósito pessoal, Margarida Patriota cria metáforas desconcertantes como esta “metástase da graça”, outras poderosas, como a dos versos de Terremoto: “Sob a falha geológica / Hefesto traído / subleva o magma” e de Juízo Antefinal:  “As horas mortas fiam / que hei de arrastar a eternidade / entre os cheios de vontade”; mas também delicadas, como na antítese de Poema Práxis: “Ombro em que me alojo/ em fim de dia estafante / Peito em que desabo / travesseiro, alfombra”.

Em especial, surpreende o primor técnico na lapidação dos metapoemas, como este Plataforma de Vanguarda: “Desordene-se a frase esteio/ para que o ruído britadeiro / sobrepuje a melodia (...) / Ataque-se o nexo / para que o insólito / substitua o tino”.  E mais este, Inspiração: “A louca foge da masmorra / em alvoroço e desalinho // Pede-me um trato / pede-me roupas /pede-me um banho de boutique // Em polvorosa me coloca / fixa em dar-lhe a todo transe / o trato, a roupa, o banho, a lua”.

Até mesmo entre os vários da temática amorosa ela alcança com graça especial o capricho de seu estilo mordaz, ao descrever a segura e independente cidadã de Sentença:

Partiu felino
Sem me encarar
Nem murmurar adeus

Partiu exalando
Cômodo fora
A colônia que lhe dei

Lastimável incúria
Que aprisiono sem decreto
Nem direito a fiança

Num alvéolo de lembrança.


Margarida Patriota domina amplamente a prosa nos quase 30 livros de contos, novelas, romances, ensaios e histórias juvenis que compõem sua trajetória literária ao longo de décadas. Tardou portanto a estrear em poesia – Laminário (7Letras, 2017) é o seu primeiro no gênero. Pois que venham outros mais, sem mais demora.