sábado, 3 de setembro de 2016

A arte do corpo, poema RCF






Numa dessas Bienais de São Paulo,
vi de longe, sozinho, passarinho,
o poeta Mário Quintana.

Durante anos a imagem – peixe azul – me perseguiu.
Por fim, entendi a recorrência:

Mário Quintana era móbile,
magra body-art,
andar performático,
existência conceitual,
em seus parangolés de ossos e calvícies,
em sua lígias & papes
de velho movido a arame,
seu corpo virtual,
ali, entre os cimentos desarmados do Ibirapuera.

 
(do livro Eterno passageiro, 2004)
 
imagem retirada da internet: mario quintana

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Poema Nauro Machado


Magritte






Se não me olhares quando eu já estiver
longe de tudo e para sempre ausente,
numa presença além que ainda puder
pensar em ti comigo eternamente,
hei de te olhar sem nódoa de mulher
na tua infância a estar em mim presente,
para que sejas e te faças per-
pétua como um sol sem seu poente.
Se não me olhares quando eu morto for
uma paisagem a ninguém saber
ou olhar sequer com os olhos que são os teus:
na eterna luz a quem é criador,
hei de criança ainda mais te ver
para da infânia nunca dar-te adeus.



(do livro O Cirurgião de Lázaro, Rio: Contracapa, 2010)

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Um homem é muito pouco, trecho 2




Uma das frases que Clemente mais gostava era “não era ruim, mas também não era bom”. Clemente a usava para tudo que era indistinto, consumido pelo tempo, estéril ou indiferente. Pois bem, o macarrão do restaurante do hotel não era bom, mas também não era mau. Neste exato momento, sem que Clemente percebesse a carta deslizou bolso afora e, gravitando, caiu entre o lambri que soltou e a parede. Clemente, ocupado com sua fome que subitamente retornara, não percebeu que a carta perdera seu peso. E, com seu peso normal de papel, pôde ela esgueirar-se do bolso sem que o pretenso dono se precatasse da fuga. Mateus e Clemente pela primeira vez conversaram sobre amenidades, Clemente contou uma história longa e divertida de um clandestino.
Era um angolano, um rapaz, que Clemente pegara roubando comida. Não tinha se alimentado durante três dias e estava numa condição abaixo do animal. Assustou-se quando viu Clemente. Ficou, contudo, mais preocupado com o pedaço de pão e salame que tinha nas mãos e não queria perder do que ser descoberto e levado ao comandante. Ele, o clandestino, defenderia até a morte seu direito de comer. Pegou uma faca de cozinha e ameaçou Clemente. Este riu, mostrou mais comida e disse que não se preocupasse que não iria delatá-lo. Os olhos do menino negro eram olhos inteligentes e Clemente acobertou o angolano que desceu no cais da Praça Mauá, estudou, casou e hoje é advogado com banca e tudo. Clemente ficou pensando que o pior clandestino não era aquele angolano faminto, o pior clandestino é o sujeito que anda pela vida como se não pertencesse a embarcação nenhuma. Ele, Clemente, se achava clandestino, talvez por isso a solidariedade imediata e reta. Onde quer que estivesse Clemente se sentia invasor, não permitido, escondido, sujeito que pode ser expulso a qualquer momento da embarcação, dos lugares, dos restaurantes, dos hotéis, da rua mesmo. Esse sentimento de clandestinidade poucas vezes desaparecia. O que mais doía, entretanto, era sentir-se clandestino em sua própria casa.
Depois do almoço, ambos retornaram às suas casas. Clemente, cansado de tanta agitação, deitou-se na cama, com roupa e tudo e adormeceu. Dormiu como se fosse noite, um sono árduo.
Clemente entrou na cozinha no navio ao perceber a luz acesa. Lá estavam em volta da mesa o capitão Vaz, Selma, Oswaldo e Mateus. Oswaldo, como o companheiro marinheiro lá dele, vestia-se de mulher, o capitão Vaz não tinha os braços e reclamava: Por favor, Clemente, não faça isso comigo. Selma parecia mais uma prostituta dos portos em que o navio parava e não falava em língua humana, mas na língua suína que é a língua dos porcos. Selma tinha focinho, a boca pequena, o corpo gordo e único de porca. Só Mateus não havia se transformado. Era o velho Mateus de sempre. Anos antes, num porto sujo e pobre da Ásia, com poucos guindastes e sem armazéns, Clemente vira porcos comerem um miserável. Nunca imaginara que os porcos poderiam comer um ser humano e, muito menos, que um ser humano se deixasse comer por porcos. Mas o homem era velho e fraco, um fiapo asiático de homem e os donos dos porcos, também famintos, açulavam seus porcos a se alimentarem de carne humana. Serviu os pratos e nos pratos estavam os braços do capitão Vaz que chorava, enquanto Mateus, o travesti Oswaldo Lee Oswald e a porca Selma devoravam os braços do capitão Vaz. Um baque surdo contra madeira o despertou.
Entre o sono e a vigília, sem se dar conta ainda de onde estava, se no quarto de sua casa ou na copa da cozinha do navio, Clemente se perguntava se encontraria com o capitão Vaz aleijado, a porca Selma e Lee Oswald mulher. Ainda mal despertava quando então escutou o segundo baque. Percebeu, não desfazendo ainda por completo a alucinação do sonho, que estava na Praça 11 e aquele barulho poderia ser de alguém a invadir a casa. Levantou-se. Sentia-se tonto. Voltou-lhe o balançar de nave. O sentimento de aprisionamento caiu-lhe fundo na alma com a decisão e o peso de âncora lançada n’água. Entrou corredor adentro a procurar a fonte do ruído. Vinha da cozinha. Conhecia aquele estrépito: o esquartejamento das aves e carnes. A quem esquartejavam?
Era d. Evelina que, com um cutelo, partia o frango. À primeira vista, lembrou-lhe um elemento a mais do pesadelo. D. Evelina era baixa e gorda, com vincos profundos no rosto, cortando a pele escamosa, que mais lembrava terem sido feitos a talho do que pela erosão da idade. Tinha mãos pequenas, mas fortes, nunca pedira a Clemente que lhe abrisse pote, nem recusara o peso de uma estante. As pernas grossas, de veias escuras serpenteando canela acima, davam-lhe o aspecto de precária estrutura, embora firmemente fixada ao chão. Os olhos saltados e as narinas de fole aberto punham fúria onde só havia humildade. A empregada se espantou ao ver o patrão entrar. Ele, ainda prisioneiro do medo, tinha o rosto sem sangue, as mãos poucas, as pernas sem apoio. Mas foi o olhar de náufrago o que assustou a empregada. De cutelo na mão, ela avançou para Clemente no intuito de socorrê-lo. Se ao menos ouvisse o que ela dizia, seu Clemente, o senhor está pálido, está doente, quer ajuda, chamo alguém, médico ou ambulância? talvez não sofresse o pânico de ver sua empregada, como no pesadelo, investir para ele a fim de matá-lo.




(do livro Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010)


Três brevíssimos poemas, WJ Solha


Ah,
o envolvimento dramático e o esforço físico de Pavarotti pra alcançar e dar forma ao maravilhoso e dificílimo sustenido final de Nessun Dorma são tão grandes,
que,
quando ele termina,
em esgotado êxtase,
seus olhos fixos estão fora do mundo ( que o aplaude em desvario, gritando Perfezione assoluta!, Prova dell'esistenza di Dio! ).


 
É um mágico instante, aquele em que eu vejo que o dourado androide de Guerra nas Estrelas,
de 77,
e a ginoide com sístoles e diástoles, do Metrópolis,
de 27,
têm,
precedente,
a dupla – e é notável, isto - do século oito antes de Cristo,
quando me  é manifesto,
na poesia da Ilíada,
que Hefesto – como parte de seu tesouro -  tinha duas
servas de ouro,
ativas
como se fossem vivas.
 
Viro o rosto, fechando os olhos  – descomposto - pra não ver as lâminas giratórias na degola que imola milhares de frangos que vêm, suspensos pelo pescoço, em fila mecânica e pânica, que horripila,
no abatedouro,
pra completar a hecatombe de bois
do matadouro.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Espelho após a morte, poema RCF







Quando morrer, não verei mais
o vaso de louça andaluz da varanda,
mas ele continuará lá.

Quando morrer,
não mais ouvirei o canto verde dos periquitos
mas elas continuarão a voar
e amanhecer a manhã verde.

Quando morrer,
não mais me verei ao espelho,
mas ele continuará lá
porque haverá outros rostos
para terem a ilusão de que vivem.



(do livro Memória dos Porcos, Rio: Ed. 7Letras, 2012)

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Vício de concreto, poema RCF







Uma cidade só deixa de ser hipótese
quando sua cartografia
estiver na retina de quem a habita.
Esta cidade cresceu em mim
como invasor que fez de baldio um terreno.
Um jogo de damas
que, em vez de comer pedras,
o tabuleiro se enche de peças.
Esta cidade – ou qualquer outra –
é uma pele de tambor que se estica.
Uma cidade, depois de crescer pras bordas,
é uma planta que para uma folha
nascer outra tem de apodrecer.
Por isso essas plantas do centro histórico
estão cheias de fungo.
Trago no bolso o eletrocardiograma
da cidade que é seu mapa.
Possuo mais cidades
que meus olhos podem reter.
Dentro de mim, as cidades
me habitam com sua voracidade
de ruas de pensamento pecaminoso,
de becos escuros do medo,
de viadutos suspensos
sem começo que o alimente
sem fim que o devore.
Uma cidade não se resume a um sonho
de cavernas unidas
sob o fogo do sol.
Nela, cada apartamento
tem seu rio particular
que existe nas torneiras
assim como o campo de concentração
que os bicos de gás
sugerem quando não alimentam
as esperanças de mesa.
A cidade é macerada
até seu suco gástrico
corroer as estruturas
e os nervos
– que também são estruturas –
dos homens.


(do livro A máquina das mãos, 2009)






domingo, 28 de agosto de 2016

O viúvo, 6º capítulo




            A casa não me aceitava. Eu, mero apêndice, excrescência, a qualquer momento, ela poderia me expulsar como um organismo vivo expulsa o que lhe é estranho.
            Os quartos por sua vez eram diminutos, apertados, lembravam casa de bonecas, não havia espaço para hóspedes, camas descomunais, armários enormes. Eu não visitava os quartos. Não os ocupava, não os via, nem mesmo os queria fazer de depósito. E cada vez que, do corredor, os avistava, por incúria ou descuido, me surgiam cada vez menores. A impressão que tinha era que, por não serem usados, e como organismos vivos que sem uso atrofiam, um dia desapareceriam. Eu caminharia pelos corredores e não daria falta deles.  Os corredores, onde estão os corredores?
            A cozinha era ampla, arejada e a casa, estranhamente, em vez de atrair luz e energia para a sala, convergia para a cozinha luminosidade, amplitude e vida. A vida vicejava na cozinha como planta adubada. As paredes porosas exalavam não apenas o cheiro forte dos temperos, exalava ela mesma cheiro de existência, coisa viva, poderia suar ou gelar-se.
            Se a cozinha vibrava, utilitária, necessária e vital, a sala acabrunhava-se numa soturnidade úmida. O sol também dali se esquivava, batendo nas quinas, sombreando os cantos, nada mais. A sala era um caixote, de teto de cimento aparente, que se recusava a iluminar-se, mesmo artificialmente. Contudo não lembrava luto ou tristeza, mas uma recusa, negaça, fingia-se de acolhedora quando ela própria respirava escuro e renúncia.
            Havia um meio tecnológico que me ligava ao mundo: o telefone. Nele, podia ingressar minusculamente, outro mundo alardeante de vozes, sussurrantes, abstratas, podia atravessar de maneira atlântica e estar em contato com vozes estrangeiras, me colocar entre dois mundos, ou estar em dois mundos. O telefone era uma caixa de vozes mágicas. A caixa me trazia notícias sonoras como um rádio que se pudesse responder. O telefone tem essa magia de ser um eco com voz própria, por isso meu desconforto quando minha voz rebota do outro lado. Do outro lado, do outro lado, do outro lado.
O alô que ouço foi o alô que produzi, falo então comigo mesmo. Alô. Desta vez o que existe é o eco, e nada mais falacioso, que me torna falso a mim mesmo, me engana com a minha voz, me faz máquina também, a voz se torna um bumerangue de som, o estranho do outro lado, alô, de voz grave, o estranho sou eu. E aí ingresso num mundo onde a caixa tem a espessura do meu ouvido, e se me ouço, como quem pensa, fala consigo mesmo, o telefone passa a ser metáfora vivente, concreta, de plástico, curto-circuito, do bocal ao fone, então ingresso no mundo vicioso e perverso de mim mesmo.
Evitava o silêncio, pelo menos logo depois da morte de Lídia, mas a televisão e o telefone passavam a ser silêncios estentóricos. E como D. Benedita ligava o rádio, a casa também era invadida – logo D. Benedita com sua surdez – por vozes empostadas. A casa era tomada por vozes dubladas, que não nos ouviam, coro de desconhecidos, se todas aquelas vozes microfônicas ali fossem pessoas eu não poderia andar pela casa, lotada de algaravia. Aqui, com licença; ali, com licença.
            Não lavava louça nem varria a casa, andava descalço e o pé se sujava mais do que se andasse pela rua. Porcaria. A pilha de pratos engordurados se acumulava. Eu olhava para os pratos e os pratos mostravam minha inépcia, minha preguiça, minha solidão gorda.
            A permanente e surda penumbra passou a ser parte dos meus olhos. A casa, em vez de ser invadida por luz, era tomada pelo escuro. Ele vinha e se deitava nos móveis, o escuro era luz em negativo que se espalhava, tomava conta, irradiava seu nada e sua posição de oposto. Mas o escuro não me angustiava, ao contrário me dava a paz de um recanto onde o mundo não alcançava, nem mesmo a luz do sol.
            O sol, contudo, teimava em se instalar uma vez por semana. Diabo de rotina. Era quando vinha D. Benedita. Velha reclamona, metida a falar consigo mesma, hum, hum, de olhar torto, um olho mirando mais à esquerda e outro mais à direita, disformes e saltados, a infeliz estampa que me agoniava por não saber onde punha o alcance morboso de suas vistas sonolentas.
Não sabia em que cômodo ficar, escolhia o dia da semana em que teria de ausentar-me o dia inteiro, mas às vezes coincidíamos e eu me via acuado, incômodo em minha própria casa, quase pedia desculpas a D. Benedita por morar ali, ora que é isso, nhô sim, nhô não, outro tanto envergonhado de ela expor sem limite ou pudor a minha vida mais noturna e escondida.