sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

O pio, poema RCF




A tristeza tem muito de celulóide:
coisa antiga que parada a máquina
se desmancha ao calor das lembranças.
O pio que ouço é pio da morte.
Mas se a morte é silente
como ouvir o que não é mais presente?
como escutar o som do que não se ouve?

O pio desse pássaro
só é emitido por ave em certo cativeiro.
Por isso, pia em outra freqüência:
só escuta quem tem anatomia
que otorrino nenhum alcança:
aquele que o labirinto do ouvido
invadiu outros hemisférios
fez de ouvido o pensamento
fez som onde reina o silêncio
fez do crânio um cativeiro.


(imagem retirada da internet: s/crd.)

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Concreto, poema de RCF

miró





O imenso ventre roliço de ferro,
a batedeira cujas entranhas
são feitas de pedra e vômito de cimento,

ainda moles, no gestar do ato,
no desenho futuro da casa fixa,
este gesto não é o gesto de viver,

mas a sonolência dos impertinentes,
a insensatez das falésias que se abismam
ou o corte abrupto dos tratores

no exato ato de construir não mais a casa,
e, sim, a vida, cheia de cortes e abismos,
falésias ao café da manhã,

dormências de ventres roliços de pão e vazio,
as linhas da casa não projetada na própria vida
a casa aqui não é o útero,

além existem as estradas com suas curvas precipitadas,
desejos de abismos, vertigens de cimento e asco,
a imensidão do nada na batedeira

que mistura o risco de viver
e o traçado da casa que virá
ainda é apenas o projeto de vida,

sendo germinada no útero de ferro,
cimento, cascalho e náusea.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Oftalmologia, poema RCF




Quando estou cheio de cimento
das cidades
em meus olhos crescem grama
por isso talvez eles sejam verdes.

As pupilas têm o senhor reitor
das jabuticabeiras
e quando é inverno neva histórias
nos afluentes das íris.


(imagem internet: dali shirley temple, 1939)

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Para Nauro Machado, poema RCF





Estranha poesia de outra ordem orgânica,
que se engendra no útero do tempo,
gera ervas de daninha botânica:
flor que ilumina tudo o que não é bento.

Em Nauro, a lúcida e melhor leitura,
poesia do poeta insular, pedra feita
verbo encarnado na carne dura
revela a rede-teia onde não se deita.

Porque em vez de algodão traz alfinete,
em vez de trinado a rima rouca,
barulho de aço contra aço sem azeite,

a poesia mais pura quanto mais louca.
Este o valor maior por nós incensado:
poema como búfalo não domado.



Nuaro Machado é um dos maiores poetas brasileiros.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Jorge Amado por Fábio Coutinho


Três vezes cem

O ano de 2012 assinala três grandes centenários na Literatura Brasileira: os de Jorge Amado, Lúcio Cardoso e Nelson Rodrigues, todos amplamente merecedores das intensas comemorações que se podem antever. Neste artigo, cuidarei do escritor que nasceu primeiro, naquele longínquo agosto de 1912.

O baiano (de Itabuna) Jorge Amado iniciou muito cedo sua trajetória de consagração literária, publicando três livros em torno dos 20 anos de idade: O País do Carnaval, em 1931, Cacau, em 1933, e, no ano seguinte, Suor. Depois de Macambira, o herói de Rei Negro, de Coelho Neto, que é de 1914, a primeira grande figura de negro a sair viva de carne e alma das páginas de um romance só o faria em 1935, com Antônio Balduíno, a personagem principal de Jubiabá, o quarto romance de Jorge, livro que foi recebido com entusiasmo pela crítica e pelo público. O autor tinha, então, apenas 23 anos!

A partir daí, além da constante colaboração em jornais e em revistas literárias, Jorge Amado passou a atuar politicamente, como militante do Partido Comunista Brasileiro, circunstância que o levou várias vezes à prisão, antes e durante o Estado Novo. No plano da escrita, sua atividade era incansável, sem perda de qualidade: depois de Jubiabá, vieram Mar Morto (1936), Capitães da Areia (1937), ABC de Castro Alves (1941) e O Cavaleiro da Esperança (1942). Nos dois últimos, biografou e homenageou, respectivamente, seu mais ilustre conterrâneo, o poeta dos escravos, e o ídolo político de sua juventude, Luiz Carlos Prestes.

Jorge Amado produziu ficção da boa enquanto os olhos lhe permitiram, e, no fim da vida, ainda pode publicar um esboço (a que chamou de apontamentos) de suas memórias, intitulado Navegação de Cabotagem. Na mirada certeira de Alberto da Costa e Silva, "só aos inteiramente perversos e canalhas Jorge Amado nega a simpatia - por que não dizer o carinho ? - com que desenha os que figuram em seus romances. Cada um deles tem, ao menos uma vez, um gesto doce ou uma palavra de bondade, ainda que, às vezes, envoltos pela atmosfera de farsa". Em 1961, foi eleito, por unanimidade, para a Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira que tem José de Alencar por patrono e Machado de Assis por fundador. Nada mais justo e apropriado.

Jorge Amado faleceu em Salvador, em 6 de agosto de 2001, a poucos dias de seu aniversário de 89 anos. Deixou uma imensa legião de leitores órfãos e de admiradores incondicionais da grandiosa aventura vital do artista brasileiro que sempre honrou e dignificou a condição humana, contrapondo-se, invariavelmente, à banalidade do mal.





FABIO DE SOUSA COUTINHO, advogado e bibliófilo, é o titular das cadeiras nº 21 da Academia de Letras do Brasil e 74 do Instituto Histórico e Geográfico do DF.



domingo, 18 de dezembro de 2011

Bandeira, poema RCF





Minha bandeira é não dar bandeira.
Minha bandeira é o toque de silêncio,
a morte do soldado desconhecido
que sou.
Quem depositará flores
neste monumento à minha batalha?
Minha ordem não tem progresso.



imagem internet: trocando em miúdos