quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Cartão de Natal, João Cabral de Melo Neto











Pois que reinaugurando essa criança
pensam os homens
reinaugurar a sua vida
e começar novo caderno,
fresco como o pão do dia;
pois que nestes dias a aventura
parece em ponto de vôo, e parece
que vão enfim poder
explodir suas sementes:

que desta vez não perca esse caderno
sua atração núbil para o dente;
que o entusiasmo conserve vivas
suas molas,
e possa enfim o ferro
comer a ferrugem
o sim comer o não.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

San Tiago Dantas - A Razão Vencida

BIOGRAFIA E ARTE LITERÁRIA
 

FABIO DE SOUSA COUTINHO

Quando concluiu O Santo Sujo, a lapidar biografia de Jayme Ovalle, o escritor e jornalista mineiro Humberto Werneck declarou que ela lhe consumira intermináveis dezessete anos de labuta, com algumas interrupções. Pois bem: acaba de sair do prelo San Tiago Dantas - A Razão Vencida, volume inicial da biografia, em dois tomos, do importante homem público carioca, abrangendo seus primeiros trinta e quatro anos de vida (1911-1945).

Seu autor é o advogado e jurista Pedro Dutra, que dedicou vinte (!) anos de esforço diário a um belo objetivo: registrar para a História a aventura vital de um brasileiro ímpar, pelas altíssimas virtudes intelectuais e morais, e pelos equívocos que, não obstante tais qualidades, cometeu em sua trajetória política.

A partir de ensaio produzido no começo da década de 1990, Pedro Dutra, incentivado por um crítico entusiasmado, entregou-se, sem trégua, aos afazeres de pesquisa, levantamento de fontes, entrevistas e, por certo, de escrita de uma obra que, de tão bem construída, já nasce clamando pelo volume seguinte.

San Tiago Dantas, como nos é esclarecido logo na apresentação autoral, dividiu sua existência em três etapas de acentuada nitidez filosófica: saber, ter e poder. Ingressou precocemente na vida acadêmica, tornou-se um professor meritoriamente festejado por seus discípulos e publicou um livro de Direito Civil (sua tese de concurso para catedrático) que o elevou à condição de pensador da seara jurídica. Daí para o exercício destacado da advocacia o caminho não foi longo, menos ainda tortuoso. Numa época de sérias e graves perplexidades institucionais, seu parecer de jurisconsulto passou a ser o mais requisitado, o de maior valor econômico, o de peso mais impactante na balança da Justiça. San Tiago tornou-se, assim, um profissional sobejamente afluente.

Mas sua alma ocidental não se fez preenchida somente pelo conhecimento enciclopédico e pelos haveres materiais. Instado pela ciência de mestre invulgar e pela consciência de cidadão consequente, San Tiago Dantas lançou-se na política, almejando praticá-la com a mesma nobre devoção que caracterizara, até então, sua vivência universitária e sua militância de causídico.

A política não é, contudo, o território por excelência das boas intenções e das melhores ideias. Antes delas, prevalecem interesses, circunstâncias e conjunturas cujo enfrentamento requer muito mais do que um intelecto de primeira ordem e um temperamento por igual primoroso. Na cova dos leões, sem poder (con)vencê-los pela arma que dominava à perfeição, a retórica, San Tiago foi devorado, como sói ocorrer aos quixotes do combate moderno.

Tudo isso, com ênfase na descrição de passagens e detalhes que prendem e fascinam o leitor capítulo após capítulo, Pedro Dutra nos relatou estribado num refinamento literário poucas vezes atingido em matéria de elaboração de biografias entre nós. Na gloriosa tradição dos iluminados escritores de Minas Gerais, aqui dispensada a enunciação individualizada do forte elenco da seleção mineira das letras, San Tiago Dantas - A Razão Vencida é não apenas obra que consagra o infatigável biógrafo e honra o genial biografado, mas também livro destinado ao prazer estético e à justa admiração de contemporâneos e pósteros. É, para além de qualquer dúvida, trabalho intelectual de rara felicidade, que ostenta, em cerca de 500 páginas de texto impecável, as marcas indeléveis das realizações grandiosas e da permanência cultural.






segunda-feira, 22 de setembro de 2014

O difícil exercício das cinzas, novo livro RCF

O difícil exercício das cinzas



"Ronaldo Costa Fernandes – autor premiado e com uma obra já reconhecida pelos críticos entre as mais criativas e significativas de sua geração – tem o dom de encantar o leitor com uma poesia com a fluência da prosa, construindo uma intimidade imediata que passa pelos cenários internos (da cartografia humana, como em “Anatomia das dores”) ou externos (da geografia urbana, como nos “riscos ariscos no céu de Brasília”, cidade que ganha nova cor em seus versos) para desvendar as paisagens mais inesperadas. Estão presentes neste seu novo livro alguns dos temas marcantes em sua obra, como a passagem do tempo– seja nos ecos proustianos de “O quarto inútil” ou às vezes metaforizada de modo surpreendente, como em “Anatomia do ciclista” – e a instável condição humana. Aliando rigor, precisão, pleno domínio da língua a algumas pitadas de humor e ironia – e principalmente com altas doses de originalidade na construção poética –, Ronaldo Costa Fernandes atinge com este difícil exercício das cinzas um novo degrau de uma obra que vai muito além de seu tempo: pois é daquelas que ganham um novo sabor a cada releitura."
                                                                                           Jorge Viveiros de Castro











quarta-feira, 10 de setembro de 2014

A livraria Leonardo da Vince pode fechar

REVISTA PIAUÍ

AGOSTO DE 2014

A caverna de Drummond
Uma livraria contra a Amazon
por Rafael Cariello
 
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No penúltimo domingo de julho, Milena Piraccini Duchiade subiu de carro ao Alto da Boa Vista, no Rio de Janeiro, e depois seguiu a pé, numa trilha pela Floresta da Tijuca, até o Mirante da Cascatinha. Lá do alto, sobre o conjunto de montanhas que divide a cidade, avistou um mar de Mata Atlântica emoldurado, ao fundo, pelo oceano. O passeio todo demorou pouco mais de quatro horas. Na segunda-feira de manhã, em contrapartida, ela teve que descer novamente a rampa em caracol que leva até a “caverna”. É assim que Milena tem se referido, com uma ponta de desânimo, à Leonardo da Vinci, talvez a livraria mais tradicional do Rio.
O montanhismo, que a livreira pratica com paixão e regularidade, serve segundo ela para “recarregar as baterias” depois das muitas horas de trabalho no negócio de família que lhe coube administrar. A Da Vinci, fundada por seus pais em 1952, passa hoje por dificuldades financeiras. O estabelecimento comercial, especializado em obras importadas, fica no subsolo de um edifício modernista no Centro da cidade. O poeta Carlos Drummond de Andrade, que passava horas entre suas estantes, escreveu num poema célebre que, escondida ali, “a loja subterrânea/expõe os seus tesouros/como se os defendesse/de fomes apressadas”.
O pai de Milena, Andrei Duchiade, deixou a Romênia em 1948, fugindo do stalinismo. Veio parar no Brasil em busca de oportunidades que a Europa, devastada pela guerra, não podia oferecer. Abriu a loja dedicada às mais recentes publicações francesas e, em menor quantidade, aos livros em língua inglesa. A mãe, Giovanna Piraccini, nascida na Itália mas criada na Romênia, passou a cuidar do negócio quando o marido morreu, em 1965. Transformou a Da Vinci, segundo o cientista político Renato Lessa, na “principal referência no Rio de Janeiro para obras importadas”. Na livraria, ele disse, mais de uma geração de intelectuais tomou conhecimento do que se passava no mundo das ideias na Europa. “Era a nossa internet”, explicou Lessa, hoje presidente da Biblioteca Nacional.
Aos 88 anos, dona Vanna, como é conhecida, ainda está lá, com seu jeito de italianona severa, cuidando da loja ao lado da filha. Apesar da cara amarrada, ela sempre foi acolhedora e generosa, segundo Lessa, sobretudo com os jovens aspirantes a intelectual, sem muito dinheiro, que frequentavam a livraria. O cientista político começou a bater ponto por lá, quase diariamente, ainda no ensino médio, no início dos anos 70. Dona Vanna deixava que ele e os colegas, ansiosos por novidades, ajudassem a abrir as caixas que chegavam do porto, carregadas de livros.
No pior momento da ditadura militar, a loja era como um “território livre”, lembrou Lessa, onde intelectuais progressistas se reuniam e podiam encontrar publicações até da extrema-esquerda francesa. Não demorou para que agentes do regime militar passassem também a prestar atenção na livraria.
Um chefe de polícia, disse dona Vanna, chegou a alugar uma casa próxima ao sítio que ela mantinha em Nova Friburgo, na serra fluminense. Perguntava aos trabalhadores rurais se a livreira romena os presenteava com obras suspeitas. “Ele imaginava que eu estava fazendo propaganda política com o campesinato, imagina só”, ela contou. 
Em dezembro de 1973, um incêndio que começou numa boate vizinha à livraria forçou a proprietária e os funcionários a abandonarem, às pressas, a loja. A polícia e os bombeiros chegaram rápido. Mas, quando as chamas foram controladas, não restava nada na Da Vinci. Dona Vanna e Milena estão convencidas de que o incêndio foi criminoso. As vitrines foram quebradas de propósito, disse a livreira romena, ajudando o fogo a se alastrar da boate para dentro da loja. Renato Lessa também acredita que o prejuízo imposto à livraria foi intencional.
 
Dias depois, Drummond escreveu uma crônica no jornal instando os clientes – cujos registros de dívidas haviam sido queimados – a reabrirem as contas e declararem quanto deviam. Muita gente atendeu ao pedido. O negócio recomeçou com algumas caixas de livros que ainda aguardavam liberação no porto.
 
Anos mais tarde, no final da década de 70, o general Golbery do Couto e Silva, chefe da Casa Civil nos governos Geisel e Figueiredo, apareceu na loja. O militar era cliente da Da Vinci, mas costumava fazer os seus pedidos por meio de um encarregado, que lhe levava as obras. Segundo a narrativa de dona Vanna, Golbery, um sujeito magro, baixo, elegante, foi direto até ela, estendeu-lhe a mão e disse: “Vim aqui pedir desculpas pelo que aconteceu. Foi um equívoco.”
 
Milena Duchiade é formada em medicina. Talvez tenha decidido por essa formação, ela disse, por causa do pai. Andrei morreu de choque anafilático no sítio de Friburgo, ao ser picado por abelhas. Milena tinha 11 anos. Queria entender como era possível que uma hora o pai estivesse lá, bem de saúde, e logo em seguida não existisse mais.
 
Em 1996, ela decidiu abandonar o serviço público, onde trabalhava como médica com um salário apertado, apesar de bem-sucedida na carreira. Chegou à loja, que passou a gerenciar, junto com a internet, contou. A Amazon já começava a vender livros. A concorrência com a gigante norte-americana, quase duas décadas depois, se tornou impossível.
Para diluir o custo do transporte por avião dos Estados Unidos ou da Europa, Milena precisa esperar semanas até amealhar uma encomenda volumosa de livros. O cliente que tiver pressa pode comprar a obra que deseja, de maneira muito mais rápida, pelo computador. A saída talvez fosse expandir o negócio, abrir várias filiais, a exemplo das grandes cadeias de livrarias, que sobrevivem. Mas Milena diz não ter vocação para o big business.
 
Num tempo de “fomes apressadas”, como escreveu Drummond, a Leonardo da Vinci foi se tornando cada vez menos rentável, e pode se ver forçada a fechar. Decidida a evitar o pior, Milena considera a possibilidade de vender o negócio.
“Naquele momento, em 1996, eu achei que o meu destino era dar continuidade à livraria. Eu tinha essa ideia de missão familiar, de manter a obra dos meus pais. Sentia afeto, respeito, admiração pela livraria. Neste momento, é misto. Não cabe amargura nem arrependimento. Cabe pensar no próximo passo.”


terça-feira, 9 de setembro de 2014

Um homem é muito pouco 3





Os cartazes do Roxy, do Art-Palácio e do Metro Copacabana traziam o estardalhaço de filmes de James Bondona As ruas se estreitavam, as calçadas tinham menos pedras portuguesas, um desconhecido lhe perguntou se tinha fogo. Clemente acreditou que, conforme a vez que o sujeito lhe perguntou a hora, este também fazia parte da perseguição. Não tinha mais Mateus para enfiar-lhe murro. Clemente apenas empurrou o sujeito que arregalou os olhos, girou o indicador à altura do ouvido e gritou: Tá maluco, homem, tá maluco? Mais alguns passos e Clemente entrou num edifício comercial, subiu as escadas correndo, esperou o elevador no andar médio e saiu no oitavo andar, no corredor cheio de lojas de roupas clandestinas, de manicures, de dentista, e até consultório que tinha placa de latão com os dizeres Medicina Prática e Esotérica, alfaiate e curso de datilografia.
As salas do curso de datilografia eram amplas. O curso comprara várias salas, derrubara as paredes e agora enfileirava as mesas com as máquinas de escrever. Havia sete moças praticando, dois rapazes supervisionando e um menino de sardas e óculos, cujos pés não alcançavam o chão, catando milho.
Vim me inscrever – disse Clemente para a recepcionista.
Preencha esta ficha, moço.
Ele queria ganhar tempo, saber se realmente alguém o esperava de tocaia e se conseguira alcançá-lo e, por fim, queria gente em volta, estava seguro de que com gente em volta o seu algoz ou seus algozes não iam querer testemunha para o que estavam planejando.
É iniciante?, perguntou a moça.
Não, sei alguma coisa.
Quer fazer um teste?
Clemente balançou a cabeça, uma senhora apareceu. Era d. Ruth, proprietária do curso de datilografia. Ela o levou até a mesa com máquina de escrever e deu-lhe texto para datilografar. No texto estava escrito: Não olhe para os lados, você cometeu um erro grave e agora vai ter que pagar por ele. Ainda havia outras frases misteriosas e mais outras que não faziam sentido. Clemente ergueu a cabeça e ia perguntar para d. Ruth que brincadeira era aquela. Mas a dona do curso não estava mais lá. Ele se levantou e foi até a recepcionista. Estava com o papel na mão. Eu queria falar com dona Ruth. Ela teve que sair, respondeu a moça. Mas um dos nossos professores vai atendê-lo. O senhor já bateu o texto? Eu queria saber que brincadeira é essa aqui. E Clemente mostrou o texto. A moça leu e devolveu o papel.
É um dos nossos textos. Não vejo nada de errado aqui, a que o senhor se refere?
Não olhe para os lados, a mocinha por acaso leu direito o que está escrito aqui?
A recepcionista pegou outra vez o papel e leu em voz alta: A direção do automóvel deve ser cuidadosa a fim de evitar acidentes. O senhor veja, disse a recepcionista, o problema aqui é ver como se sai o datilógrafo com a palavra direção.
Ele olhava desconfiado a moça. Não sabia se acreditava nos seus olhos ou na leitura dela. Olhou novamente o papel e não conseguia ler nem uma coisa nem outra. A leitura de Clemente era como, se comparada à respiração, uma leitura engasgada. Não conseguia respirar, ou seja, não conseguia distinguir as palavras. Não via a palavra direção ali como também não via a frase inicial não olhe para os lados.
Dois homens entraram na sala e Clemente ficou com medo de que os dois homens fossem os que o estariam perseguindo. A pior perseguição é a perseguição do homem com sua fuga. O medo é o principal algoz. O medo persegue o sujeito até onde ele está seguro. O sujeito não pode fugir da perseguição se o que o persegue está dentro dele, porque aí então ele leva o que o persegue para onde vá. Por isso é que as pessoas querem fugir da angústia. Mas a angústia tem capas, óculos escuros e outros meios de se disfarçar e aparece sempre de súbito diante do perseguido. Clemente sabia que não havia presa mais fácil do que o homem angustiado.


sexta-feira, 15 de agosto de 2014

1599-1899: um paralelo de gigantes, Fabio de Sousa Coutinho



 

Para Bebel e Rodrigo

 

Com intervalo de exatos 300 anos, duas das maiores construções literárias da humanidade foram trazidas a lume: em 1599, a grande tragédia Hamlet, do inglês William Shakespeare; em 1899, o romance realista Dom Casmurro, do brasileiro Machado de Assis.

A separá-las, além da distância temporal de três séculos, os idiomas em que foram escritas, os gêneros característicos de sua elaboração. A uní-las, a indisputada genialidade de seus autores, a certa e justa consagração para a eternidade, o enfrentamento, no mais alto grau de indagação filosófica, do problema existencial traduzido na dúvida.

No Hamlet, Shakespeare manifestou, pelas palavras de seu fascinante e fascinado Príncipe da Dinamarca, o enigma que perpassa a própria essência de nossas vidas: ser ou não ser, eis a questão (“To be or not to be, that is the question”). No Dom Casmurro, o bruxo do Cosme Velho, a cuja obra, se faltam pujança e paixão, sobram estilo e viva observação psicológica, pôs sua personagem Capitu no centro de dilema que consiste em haver ocorrido, ou não, traição conjugal ao marido Bento Santiago, o Bentinho.

Inventor do humano, “deus mortal”, na expressão-síntese de Harold Bloom, William Shakespeare conquistou, na história da civilização ocidental, o lugar mais marcante a que pode almejar um homem de letras. Trabalhador incansável, a produção do bardo, em 1599, não se limitou à construção do visceral Hamlet. São, também, daquele ano outras três de suas mais famosas peças: o drama histórico Henrique V, a tragédia de aprendizado Júlio César e a alta comédia Como gostais (“As you like it”). Tinha Shakespeare, então, precoces e impressionantes 35 anos de idade. Nascido em 1564, viria a falecer em 1616, aos 52, numa faixa etária que não discrepava dos padrões estatísticos de mortalidade, na era elisabetana.

O carioca Joaquim Maria Machado de Assis era um provecto cidadão de 60 anos, Presidente da mais importante instituição cultural do País (que fundara em 1897), quando concluiu seu célebre romance, hoje rigidamente incorporado ao imaginário brasileiro e respeitado, à unanimidade, pela crítica internacional. Num livro precioso, A Biblioteca de Machado de Assis (ABL/Topbooks, Rio de Janeiro, 2001), organizado por José Luís Jobim, é possível comprovar, sem esforço, a sólida presença de William Shakespeare na inspiração e na fatura machadianas. Leitor ávido, nosso maior escritor recorria aos textos poéticos e teatrais do incomparável dramaturgo em sucessivas traduções francesas, editadas em dez volumes pela Librairie Hachette, entre 1867 e 1873.

Dono de fino humor e agudo senso de investigação anímica, Machado, a partir da influência shakespeariana, antecipou muitas conquistas modernistas, além de plantar sementes conceituais  que Sigmund Freud mais tarde formalizaria em tratados magistrais. 

Os emblemáticos Hamlet e Capitu, criações raras vezes igualadas na literatura universal, são frutos, com 300 anos de diferença, da mesma árvore esplendorosa que enseja a continuidade da arte literária, per omnia saecula saeculorum. As dúvidas que encerram obras como Hamlet e Dom Casmurro são o que de mais denso se imaginou sobre as circunstâncias que movem e atormentam as criaturas humanas. Shakespeare e Machado de Assis, ao plantá-las com estética indelével, nos ensejam a capacidade de lidar, de modo consciente e maduro, com a falta de sentido do mundo, a inexorabilidade de nosso destino, a ideia de quem somos e de que, na vida, não há coincidências.

 

sexta-feira, 4 de julho de 2014

As flores do bem, Fabio Coutinho


 
                                                                            
 
Em 3 de novembro de 1934, veio ao mundo um dos maiores poetas brasileiros de nossos tempos, Ivan Junqueira. Neste 3 de julho de 2014, a exatos quatro meses de completar 80 anos, o formidável vate, ensaísta e tradutor nos deixou, depois de amargar penosa internação hospitalar, em sua cidade natal.
 
O carioca Ivan sempre viveu na Cidade Maravilhosa, onde foi estudante de Medicina e de Filosofia, além de haver-se iniciado no jornalismo em periódico, a célebre Tribuna da Imprensa, que gozou de seu maior prestígio na década de 1950. Mas foi na de 1960 que Ivan Junqueira se lançou como poeta, iniciando uma carreira literária que, ao lado da tradução de poesia, da organização de edições e do ensaísmo, viria trazer-lhe a consagração em 2000, ano de sua eleição para a Cadeira nº 37 da Academia Brasileira de Letras, na sucessão do grande João Cabral de Melo Neto. OS MORTOS, de 1964, foi o primeiro livro de poemas de Ivan, a ele seguindo-se, entre outros, TRÊS MEDITAÇÕES NA CORDA LÍRICA, de 1977, A RAINHA ARCAICA, de 1980, O GRIFO, de 1987, e o espetacular A SAGRAÇÃO DOS OSSOS, de 1994, que, no ano seguinte, lhe valeu seu primeiro prêmio Jabuti. O segundo foi conquistado em 2008, com O OUTRO LADO, que viera a lume no ano anterior.
 
A pena do Ivan Junqueira ensaísta costura um culto e elegante artesanato textual, refletido em livros como O SIGNO E A SIBILA (1993) e O FIO DE DÉDALO (1998), esplêndidas coletâneas de ensaios ingleses, alemães, franceses, gregos e portugueses. Além da poesia e do ensaísmo de escol, Ivan é reconhecidamente um dos maiores tradutores de autores fundamentais nas literaturas produzidas em idiomas de ponta, no cenário mundial. Para exemplificar, são de Ivan Junqueira traduções definitivas de obras de T.S. Eliot (Quatro quartetos), Charles Baudelaire (As flores do mal), Jorge Luis Borges (Prólogos), Marcel Proust (Albertina desaparecida) e tantas outras, quase sempre acompanhadas de notas explicativas de alto teor de erudição.
 
Nas obras de Ivan Junqueira, desenha-se o espaço luminoso da ação (po)ética, com rigor e força artística incomuns. Como ele próprio escreveu acerca da obra impecável de Alberto da Costa e Silva, cabe, de sobejo, afirmar que os versos e estrofes soberbos de Ivan Junqueira não se escrevem todo dia ou a qualquer hora. Trata-se, a rigor, de construções em que a poesia atinge seus mais altos níveis de excelência estética.
 
Na síntese irretocável de Theodor Adorno, o clarividente mestre da Escola de Frankfurt, "a inteligência é uma categoria moral". Escritor dotado de intelecto privilegiado, Ivan dedicou mais de cinco décadas de sua bela existência à produção do que de melhor, mais sério e mais lúcido se fez na poesia brasileira contemporânea, o máximo que se consegue de beleza com a utilização do principal recurso humano.
 
Em suma, homenagear a memória de Ivan Junqueira, na hora tristíssima de sua partida sem volta, é circunstância que, ultrapassando a reafirmação da força indelével da Literatura, exalta a própria arte poética, manifestação superior da criatividade, do esforço e da paixão dos homens. 

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Paris é uma festa, Fabio Coutinho


 
                                                                   
 
 
   Em memória de Jório Salgado Gama Filho (1940-2013),  primo querido, amigo perfeito
 
 
No campo estritamente livresco, por certo o de maior interesse aos leitores desta publicação, o ano de 2014 marca, entre tantas datas importantes, o cinquentenário do lançamento póstumo, em 1964, de uma obra preciosa, americana na origem estética e universal no legado humanista.
 
Morto em 1961, Ernest Hemingway deixou pronto o seu extraordinário A moveable feast, editado postumamente, nos Estados Unidos, há exatos 50 anos, pela prestigiosa casa livreira Simon&Schuster. Entre nós, foi traduzido pelo grande Ênio Silveira e ganhou o inspirado título de Paris é uma festa .
 
O livro é a crônica apaixonada e reverencial dos anos que o fenomenal homem de letras passou em Paris, de 1921 a 1926. Trata-se de memórias de diversos (e fascinantes) lugares e ambientes da Cidade Luz e, também, do convívio privilegiado com outros luminares expatriados na capital francesa naquele período, tais como F. Scott Fitzgerald e Gertrude Stein. Com elegância de mestre precocemente consumado, Hemingway traça um suave perfil de sua primeira mulher, Hadley, e compartilha lembranças dos tempos augurais às voltas com o ofício em que se tornaria, em prazo relativamente curto, um artífice poucas vezes superado.
 
Autêntica celebração intelectual, o livro traduz, com brilho invulgar, o exuberante clima cultural de Paris, logo em seguida ao fim da I Grande Guerra, e o espírito jovem, a forte criatividade e o entusiasmo irreprimível que o próprio Hemingway personificava de maneira arrebatadora.
 
Ernest Hemingway fez mais para mudar o estilo da prosa em língua inglesa do que qualquer outro escritor no século XX, e isso se traduziu na justíssima concessão do Prêmio Nobel de Literatura, que a Academia Sueca lhe outorgou, em 1954.
 
Seus livros The sun also rises  (O sol também se levanta) e A farewell to arms (Adeus às armas) colocam o artesanato textual de Hemingway como dos mais prodigiosos levados a cabo na arte da ficção, em qualquer época. Como integrante da comunidade de expatriados na Paris da década de 1920, o antigo jornalista e motorista de ambulância iniciou uma carreira de literato com dedicação exclusiva, que o levou a uma projeção sem limites e sem retorno. Aficionado por touradas e caçadas, Hemingway admirava a coragem e a entrega incondicional dos praticantes desses esportes, que não raro sofriam castigos físicos e psicológicos de graves e dolorosas proporções.
 
Como repórter, Ernest Hemingway cobriu a Guerra Civil espanhola (1936-1939), retratando-a no romance For whom the bell tolls (Por quem os sinos dobram) e, também, a II Guerra Mundial (1939-1945). Por sua clássica novela The old man and the sea (O velho e o mar), foi agraciado com o Prêmio Pulitzer de 1953.
 
Nascido em Oak Park, Illinois, em 21 de julho de 1899, Hemingway faleceu em Ketchum, Idaho, onde possuía um rancho, alguns dias antes de completar 62 anos de idade. Trágica e violentamente, deu fim à própria vida, que, então, já não lhe era mais uma festa. Deixou milhões de leitores de várias gerações, em todos os cantos da Terra, de Keywest a Madrid, de Havana à amada Paris de sua culta e festejada juventude.





 

terça-feira, 18 de março de 2014

Semíramis, Ana Miranda


 

 

                                                                             

 A GRANDE ARTE




 
                                                         Fabio Coutinho
 

Boca do Inferno, o premiado romance em que a cearense Ana Miranda contou a vida de Gregório de Matos Guerra, data de 1989. De lá para cá, foram cinco outros, todos de qualidade superlativa, com especial destaque para A última quimera (1995), em que o personagem principal é o vate paraibano Augusto dos Anjos, e Dias & Dias (2002), retrato em tom ficcional do formidável bardo maranhense Antonio Gonçalves Dias.

Agora, em 2014, com Semíramis, Ana Miranda narra a trajetória de seu conterrâneo José de Alencar, amplamente reconhecido e respeitado como o fundador do romance brasileiro, tal qual foi desenvolvido e aperfeiçoado ao longo de nossa história literária.

Filho de um padre e neto de uma heroína republicana, a vida do genial autor de Iracema é traçada com base em diálogo epistolar de duas irmãs, Iriana e Semíramis. Esta, a autora das cartas em que Alencar é revelado àquela, dá título ao livro, despontando como a figura central da narrativa.

Tendo vivido apenas quarenta e oito anos, José de Alencar (1829-1877) fez-se ícone do romantismo brasileiro e protótipo do homem de letras do século XIX. Ao biografá-lo em fluência romanceada, Ana Miranda transporta os leitores para os tempos do Segundo Império, nos quais Alencar frequentou e inspirou a nata da intelectualidade nacional.

Companheiro de Machado de Assis, José de Alencar a ele apresentou, no Rio de Janeiro dos anos de 1860, o jovem poeta baiano Antonio de Castro Alves. Em pouquíssimas ocasiões, na história da inteligência pátria, juntaram-se, no mesmo ambiente cultural, personagens tão grandiosos quanto Alencar, Machado e Castro Alves. Ao fundar a Academia Brasileira de Letras (ABL), em 1897, exatos vinte anos após a morte precoce de José de Alencar, Machado de Assis o escolheu para seu patrono na Cadeira nº 23 da Casa, a mesma que depois foi honrada, entre outros, pelos prosadores baianos Jorge Amado e Antônio Torres, o atual ocupante.

No livro originalíssimo de Ana Miranda, que lemos através das inspiradas cartas de Semíramis, Alencar também nos é mostrado como o polemista construtivo, que sustentou embate de ideias com ninguém menos do que Joaquim Nabuco. E é aí que José de Alencar se agiganta como homem público, tornando-se, ainda, desafeto do Imperador Dom Pedro II, o que, de resto, já nos havia revelado outro escritor cearense, Lira Neto, autor da impecável biografia O inimigo do rei.

Poeta e cronista, a par e passo com sua estupenda vocação de romancista, Ana Miranda produziu, com Semíramis, mais um poema em prosa, além de brindar seus leitores com uma nova e irretocável crônica dos costumes e principais acontecimentos da época em que José de Alencar foi protagonista, como literato de escol e político de coragem singular.

Semíramis é livro de consagração artística, produto do rigor da pesquisa e da energia poética de uma escritora que se alçou, por tantos méritos e virtudes tantas, ao topo da pirâmide da literatura de língua portuguesa. Iniciada por Rachel de Queiroz, em 1977, a linhagem das ficcionistas na ABL prosseguiu com Dinah Silveira de Queiroz, Lygia Fagundes Telles, Nélida Piñon e Ana Maria Machado. Por força de uma rara e luminosa obra romanesca, aproxima-se a hora de mais uma cearense vestir o fardão que simboliza a glória inaugurada pelo maior de nossos escritores.

Ana Miranda na Academia Brasileira é uma questão de justiça literária, de reconhecimento à mais alta e bela voz feminina da ficção contemporânea entre nós, ao trabalho incansável, culto e erudito que Ana cria e entrega, visando à afirmação da grande arte do romance no Brasil. 



 

segunda-feira, 3 de março de 2014

UM HOMEM É MUITO POUCO, ROMANCE

COLUNA DO CARLOS MARCELO, CORREIO BRAZILENSE, CADERNO DIVERSÃO E ARTES

Ficou pronto o novo romance de Ronaldo Costa Fernandes, Um homem é muito pouco. "Apresenta-se como um desafio ao leitor, desde seu título enigmático, esse romance de largo fôlego", comenta Valentim Faccioli.




"A narrativa da memória subterrânea dos tempos sombrios da ditadura militar se concentra no tema espinhoso da inviabilidade da constituição de um sujeito humano e social estável na nossa modernidade periférica perpassada pelo avanço e o atraso, como unidade contraditória", aponta o professor da USP e coordenador editorial na Nankin, responsável pelo lançamento.


 

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Julio Cortázar morreu de Aids, e não de câncer

Julio Cortázar morreu de Aids, e não câncer, diz amiga

  • Escritora afirmou ao jornal ‘Clarín’ que o autor de ‘O jogo da amarelinha’ foi infectado durante uma transfusão de sangue, numa época em que o vírus ainda não tinha sido identificado
  • Morte do escritor argentino completou 30 anos nesta quarta-feira
O GLOBO
 
O escritor argentino Julio Cortázar Foto: Divulgação
O escritor argentino Julio Cortázar Divulgação
RIO — Julio Cortázar morreu de Aids, de acordo com a escritora e jornalista Cristina Peri Rossi, que foi amiga do consagrado autor argentino.
Em entrevista ao jornal "Clarín", publicada nesta quarta-feira — dia em que a morte de Cortázar completou 30 anos —, Rossi disse que, ao contrário do que se especulava, não foi "câncer, nem leucemia" que matou o escritor, tese que ela já tinha defendido na biografia "Julio Cortázar", de 2001. Rossi afirmou ainda que o amigo infectou a sua mulher, Carol Dunlop, com a doença. "Ela morreu primeiro, dois anos antes de Julio, porque, embora fosse muito mais jovem, tinha retirado um rim em cirurgia", declarou.
A jornalista explicou que a Aids ainda não tinha sido identificada quando Cortázar contraiu a doença. A infecção teria acontecido após uma transfusão de sangue a que o autor foi submetido, em agosto de 1981, quando morava no sul da França, por conta de uma hemorragia estomacal.
"Depois se soube, em meio a um grande escândalo, que (sangue utilizado na transfusão) estava contaminado", afirmou ela, reforçando que o diagnóstico de câncer nunca foi feito. "A verdade é que a doença que matou Julio não foi diagnosticada, não tinha um nome específico. Falavam apenas em perda das defesas imunológicas."
Cristina Peri Rossi contou que levou o autor de "O jogo da amarelinha" para ver um médico de sua confiança. Após analisar amostras de sangue e outros exames, descartou a existência de câncer.
Após várias consultas, os médicos encontraram apenas uma "infecção não determinada, provocada por um retrovírus, e sem tratamento."


 

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

William Shakespeare: os primeiros 450 anos


 

FABIO DE SOUSA COUTINHO

 

Considerado por colegas, discípulos e leitores o mais lúcido e referencial crítico literário surgido nos Estados Unidos nas seis últimas décadas, Harold Bloom (1930) é, acima de tudo, um arguto intérprete e devotado divulgador shakespeariano.

 

Seu livro de maior projeção, entre os cerca de vinte, todos de qualidade superlativa, que publicou desde 1959, constitui verdadeiro tratado, ao longo do qual, peça após peça, examinou os trinta e cinco textos que compõem a inigualável obra poética e dramatúrgica do bardo de Stratford-upon-Avon. O calhamaço se intitula “SHAKESPEARE - A Invenção do Humano” e foi editado no Brasil, com primorosa tradução de José Roberto O'Shea e revisão de Marta Miranda O'Shea, pela Editora Objetiva, no ano 2000. O Professor Bloom dividiu seu monumento estético, de quase novecentas páginas, em nove partes, correspondentes a igual número de categorias que atribuiu, com irreprochável critério científico, ao OPUS THEATRALE de Shakespeare.

 

Assim, na Parte I, As Primeiras Comédias, figura, por exemplo, A MEGERA DOMADA; na Parte II, Os Primeiros Dramas Históricos, aparecem HENRIQUE VI e RICARDO III; na Parte III, As Tragédias de Aprendizado, o destaque é para ROMEU E JULIETA; na Parte IV, As Altas Comédias, Harold Bloom analisou, entre outras, SONHO DE UMA NOITE VERÃO, O MERCADOR DE VENEZA e MUITO BARULHO POR NADA; na Parte V, Os Grandes Dramas Históricos, desponta  AS ALEGRES COMADRES DE WINDSOR; na Parte VI, As "Peças-Problema", brilha MEDIDA POR MEDIDA; na Parte VII, As Grandes Tragédias, cinco peças esplendorosas: HAMLET, OTELO, REI LEAR, MACBETH e ANTÔNIO E CLEÓPATRA; na Parte VIII, O Epílogo Trágico, avulta CORIOLANO; e , por fim, na Parte IX, Os Romances, seis títulos que enfatizam o diferencial shakespeariano, sendo A TEMPESTADE o mais pujante e arrebatador dentre eles.  

   

Ao abranger, em trabalho de quase impossível superação, um conjunto literário que inaugurou a forma mais corrente de representação de personagem e personalidade, em língua inglesa, Harold Bloom sustenta que Shakespeare, ao mesmo tempo, inventou o humano, conforme hoje nos é conhecido. Nesse aspecto, o mestre de Yale chega a ponto de afirmar que seu ídolo é o primeiro psicólogo, e Sigmund Freud, que viveu trezentos anos depois de William Shakespeare, um "retórico tardio".

 

Nascido em 1564, o fenomenal escritor faleceu, não tão precocemente para os padrões etários de sua época, aos 52 anos de idade, em 1616. São literalmente incontáveis as utilizações e derivações artísticas de seus trabalhos, nos quatro séculos e meio que transcorreram desde que veio ao mundo. Sua importância intelectual encontra pouquíssimos paralelos na história cultural da humanidade, na era cristã: talvez a ele se equiparem, ou dele se aproximem, no idioma espanhol, Miguel de Cervantes, precursor do romance ocidental; o florentino Dante Alighieri, fundador, no primeiro quartel do século XIV, como corolário linguístico do dialeto toscano, do italiano moderno em que está moldada, lapidarmente, A DIVINA COMÉDIA; Luís Vaz de Camões e Fernando Pessoa, os maiorais de Portugal e de nosso riquíssimo vernáculo; Victor Hugo e Marcel Proust, gigantes da gloriosa literatura francesa; Johann Wolfgang von Goethe, expoente da culta, cerebral e admirável prosa alemã.

 

Na jubilosa celebração sem fronteiras dos 450 anos de seu nascimento, torna-se inescapável atestar que William Shakespeare marcou, pela grandeza inexcedível de sua criação imortal, um encontro sem fim com todas as posteridades. Existirá enquanto houver tempo e espaço. É espécime raro, único, absoluta e impermeavelmente genial, que saiu da vida para viver no (uni)verso.