sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Don Juan (narrado por ele mesmo), Peter Handke



UM LIVRO DE BOM GOSTO
A primeira vez em que Don Juan aparece é na peça espanhola de Tirso de Molina, no século XVII, segundo Ian Watt. Assim como Madame Bovary e Dom Quixote, Don Juan é um arquétipo cujo público se identificou de tal forma que o comportamento desse tipo de personagem produziu até mesmo os adjetivos derivados deles como bovarismo (menos comum e mais erudito), donjuanismo e quixotesco. A força do personagem – e seu arquétipo – seduziu autores de várias estirpes, como Molière, Kierkegaard, Ortega y Gasset e Camus, isso sem contar as versões em outras expressões artísticas e culturais.

Aqui, Don Juan aparece de surpresa para um sujeito retirado, cansado de leituras, que vive num semi-exílio em Port-Royal. A narrativa de Peter Handke pertence à categoria dos relatos acrônicos, ou seja, a mistura de épocas e personagens que não poderiam se encontrar, pois vivem em tempos diversos. O Don Juan que aparece para seu anfitrião, exímio cozinheiro, é o verdadeiro Don Juan que vence o tempo. A acronia vem cada vez mais freqüentando a literatura, já que é um tipo de fantástico suavizado e curioso.

O tempo em que se passa o romance é o atual, mas o Don Juan é o mesmo personagem mulherengo que se conhece. Misturam-se atitudes nobres e sofisticadas de Don Juan e máquinas, aviões e motos. O cerne do romance está na narração de Don Juan de suas aventuras. Embora o título seja Don Juan, com o subtítulo “Narrado por ele mesmo”, o romance tem na figura de um cozinheiro o seu narrador. Diferente dos outros Don Juans (inclusive o primitivo, o do dramaturgo Tirso de Molina, um Don Juan mais atrapalhado que propriamente um conquistador inveterado), este Don Juan carrega consigo a morte do filho. O luto empalidece um pouco a figura fogosa e aventureira que a imaginação popular consagrou. Don Juan aqui é Don Juan: em sete dias narra a história de aventuras com sete mulheres diferentes em sete diversos lugares.

Don Juan (narrado por ele mesmo), da Editora Estação Liberdade, é de autoria de Peter Handke, austríaco nascido em 1942. Handke é dramaturgo, romancista, roteirista de cinema e ensaísta. Entre suas obras, vale destacar a parceria com Wim Wenders, como roteirista, no filme Asas do desejo. Handke trabalha com um personagem absolutamente sedutor, mas sua narrativa não tem igual grau de sedução.

Peter Handke, contudo, consegue manter a narrativa de forma segura e, até certo ponto, envolvente. Não há grandes aventuras, nem muito menos peripécias eróticas. O que existe de sobra é um fascínio do narrador em assinalar o encanto da narração. É pela narração que Don Juan conquista as mulheres e é através do ato de narrar que nós tomamos conhecimento dos atos de Don Juan. É a mesma estratégia de Casanova. O que existe aqui é palavra e, como nas Mil e uma noites, o poder da palavra para dar realidade a fatos que desconhecemos se realmente existiram ou não.

O fato de o narrador ser cozinheiro também pertence ao campo da narração, ou seja, narrar é como cozinhar. Misturam-se vários ingredientes e temos um sabor, um prato, um degustar. “Eu cozinhava e Don Juan narrava”, escreve o narrador. Todos os Don Juans são variantes de um mesmo Don Juan. O personagem é um personagem, fruto da imaginação e da palavra. Levado a outras expressões artísticas, não apenas agora, mas desde que surgiu como lenda, somos levados a crer que não existe apenas um personagem verdadeiro. Todos os Don Juans pertencem ao imaginário coletivo e, logo, todos são verdadeiros, como, aliás, é a teoria do mito do ponto de vista antropológico. “Durante os sete dias no jardim da minha casa, entraram em cena outros e mais outros Don Juans: nos programas noturnos de televisão, na ópera, no teatro, bem como em carne e osso, na chamada realidade primária. Só que, pelo que meu Don Juan contou sobre si mesmo, finalmente entendi: todos os outros eram falsos Don Juans – inclusive o de Molière; e também o de Mozart.”

O leitor encontrará aqui uma história interessante. Peter Handke tem o domínio da narrativa, bom ponto de vista do narrador-cozinheiro e uma trama suave e delicada, que certamente agradará aos que sabem degustar um bom prato ou um bom livro.


imagem retirada da internet: peter handke

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Humberto Werneck por Fabio Coutinho

ESSE INFERNO VAI ACABAR



Humberto Werneck



Fabio de Sousa Coutinho

A crônica é um gênero literário que, desde Machado de Assis, sempre foi bem tratado na literatura brasileira. Pelo menos se levarmos em conta a alta qualidade dos escritores que a ela se dedicaram entre nós.

Além do imenso autor já citado, que foi cronista em paralelo a uma inigualável carreira de contista e romancista, construída na segunda metade do século XIX, o Brasil ostenta uma respeitável galeria de cronistas no século XX, com destaque maior para o capixaba Rubem Braga.

O "velho Braga" escreveu uma crônica diária ao longo de várias décadas, produzindo autênticas pérolas literárias, verdadeiros poemas em prosa, alguns deles tão arrebatadores que chegaram a se popularizar, passando a fazer parte do imaginário coletivo, como é o caso das impagáveis AULA DE INGLÊS, UM PÉ DE MILHO, O CONDE E O PASSARINHO e VIÚVA NA PRAIA.

Grandes cronistas do século passado foram, também, Lima Barreto, João do Rio, Humberto de Campos, Marques Rebelo, Carlos Drummond de Andrade, Paulo Mendes Campos, Clarice Lispector, Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta), Rachel de Queiroz, Otto Lara Rezende, Fernando Sabino, José Carlos (Carlinhos) Oliveira, todos igualmente consagrados em outros gêneros nobres da Literatura.

Na sucessão de tantos mestres, apareceram muitos craques, a começar pelo gaúcho Luis Fernando Veríssimo e pelo mineiro Humberto Werneck. Este acaba de lançar mais uma seleção de suas saborosas crônicas, reunidas no volume intitulado, a exemplo de uma delas, ESSE INFERNO VAI ACABAR. Nele, o cronista emerge para perenizar, com a força do humor, da emoção e do lirismo, situações vividas em diversas etapas da própria existência, além de lançar um olhar atento e curioso sobre a comédia e a tragédia do quotidiano, tornando-o menos áspero e mais humano.

Humberto Werneck, há muito dedicado ao ofício de cronista, é, também, o luminoso biógrafo do célebre Jayme Ovalle, impecavelmente (sem trocadilho) retratado em O SANTO SUJO. Cuida-se, a rigor, de uma extensa crônica de escrita superior, relato irretocável da vida de um poeta sem obra de poesia, de um compositor de pouquíssimas canções, mas uma figura carismática que despertava a veneração incontida de Manuel Bandeira, Vinícius de Moraes, Augusto Frederico Schmidt, Murilo Mendes e de mais uma penca de gente do primeiro time das letras nacionais.

No prefácio que escreveu para a coletânea de crônicas BOA COMPANHIA, de 2005, Humberto Werneck lembrou tratar-se de "um gênero tipicamente brasileiro". Já Rubem Braga, com seu agridoce bom humor, respondeu certa vez a alguém que lhe pedira uma definição do gênero: "Quando não é aguda, é crônica." O novo livro de Werneck é uma síntese perfeita das duas poderosas definições, mais um monumento de sua rara competência literária, uma delicada e bem humorada homenagem ao eterno prazer de ler.



FABIO DE SOUSA COUTINHO, advogado e bibliófilo, é membro titular da Academia de Letras do Brasil (ALB) e do PEN Clube do Brasil.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Cláudio Manuel da Costa e Abgar Renault


Estrangeiro foi Cláudio Manuel da Costa. Formado em Portugal, publicou lá seus primeiros livros. Não era sua terra natal. O estilo barroco, no qual se iniciou na literatura, dava sinais de cansaço. Era um cidadão entre dois mundos. De volta ao Brasil, vai enfurnar-se próximo a Vila Rica, hoje Ouro Preto. Cidadão cosmopolita, não encontra interlocutores para sua vasta cultura. O pequeno grupo com quem dialoga é o dos poucos magistrados que também estudaram fora ou fora nasceram como o poeta Tomás Antonio Gonzaga, do qual Cláudio foi uma espécie de mestre. Estrangeiro na Europa, porque brasileiro, estrangeiro no Brasil Colonial porque o meio, embora rico, era tacanho em matéria de cultura. Dirão que ali estavam pululando as ideias libertárias da Revolução Francesa. Nenhum momento da História do Brasil homens que escreveram a História escreveram também a melhor poesia da época. Cláudio Manuel da Costa é herói de dois mundos: o mundo da literatura e o mundo da História.

Cláudio escreveu, para mim, o que de melhor podia se escrever naquele momento no Brasil. Misturou o barroquismo que bebeu na Europa e trouxe ao Brasil. Ingressou na nova escola literária, o neoclassicismo, ainda com herança e restos da angústia barroca. A luta entre a forma límpida e tranqüila e o tema desassossegado do amor criam um estranhamento que o difere do barroco de onde vinha e do neoclassicismo puro para onde caminhava. É dele versos de dilaceramento como o amor a duas mulheres e o desejo de romper o peito e lá encontrar dois corações. Do amante que de tanto esperar à beira do rio sua amada se transforma em pedra.

Cláudio foi dos inconfidentes o que mais se abateu. Tinha mais idade, envergonhou-se de participar de uma conjura. Nos Autos da Devassa, há relato de Tomás Antonio Gonzaga sair assoviando após dar declaração. Lembremos que boa parte de Marília de Dirceu foi escrito na prisão. Cláudio, não. Suicidou-se ou suicidaram-no. É estranho que três irmandades mandassem rezar missa pela alma de um suicida. Deixemos o século dezoito, o genial Cláudio Manuel da Costa e aterrizemos no século XX.

Abgar Renault não era estrangeiro. Sempre viveu à sombra da família mineira, árvore de copa frondosa. Aqui se ressalve que não há demérito, no caso da poesia, da vida do poeta ser revolucionária ou burocrática e apascentada.

Abgar Renault, antes de ser poeta édito, foi poeta silencioso e solipsista. Zeloso, como poucos, só irá publicar quando muitos estão em declínio. Abgar faz parte de outra família: a dos que começaram a publicar depois dos sessenta. É da família de Saramago, que, embora tenha publicado antes, apenas após os sessenta anos passará a produzir sua obra que o levará ao prêmio Nobel. É da família de Lampedusa, que produziu além de narrativas curtas, o genial O Leopardo, também sexagenário. Sua obra de iniciante édito, datada de 1968, é quando o poeta já se aproximava dos setenta anos.

É certo que Abgar foi poeta desde sempre. Conviveu e respirou poesia com o grupo modernista de Minas Gerais. Grupo histórico de Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava, Murilo Mendes e tantos outros mais. E foi poeta ao recriar em suas traduções impecáveis dos poetas ingleses, norte-americanos, franceses, espanhóis e alemães uma visão da poesia tão própria e particular que o fez mais que tradutor, fez-se criador de poesia alheia. As traduções que fez dos poemas shakespearianos é digna de nota.

Embora tenha publicado tardiamente, Abgar, como se pode observar em sua Obra poética, reunida pela editora Record, escrevia no silêncio, no ineditismo do livro, mas na segura rota dos poetas que sabem que constroem uma obra permanente. Talvez seja por isso que tanto demorou a aparecer em livro. Ainda que seu primeiro livro, A lápide sob a lua, seja de 1968, podem-se observar vários poemas dos anos quarenta e cinqüenta. O próprio poema de abertura do livro de que falo é datado de 1950. O poema chama-se Prefácio de desculpas e é uma espécie de confissão e profissão de fé. Nele explica porque se transformou em poeta, o que é ser poeta e pede licença para os companheiros a fim de que ingresse no universo privilegiado da poesia. Começa com um “Perdoai-me a soberba de haver-me sonhado vosso irmão” e termina de maneira melancólica e desesperançada, a poesia lhe dói e não encontra eco nem amanhã. Sabe-se que em 1923, já tinha um livro intitulado Poemas antigos, que são poemas ao molde das cantigas de amor medieval, com seu português antigo, a forma cortês e temas obviamente amorosos. Livro que parece permanecer inédito até ser recolhido no já citado Obra Poética, de 1990.

Por sua poesia ter demorado a aparecer em livro é que Abgar Renault pode já surgir maduro e podar ainda no nascedouro aquelas poesias que a pressa em editar muitas vezes faz os poetas, ao reunir suas obras, retirar um ou outro poema ou simplesmente renegar as obras iniciais.

Poeta da busca, de imagens surreais, de construções inusitadas na formação do par substantivo/adjetivo, utilizando-se de imagens recorrentes de sombra e ecos simbolistas atualizados, Abgar Renault se aproxima de Cláudio Manuel da Costa em sua busca existencial e na difícil arte de viver, conciliando uma percepção sensível e aguda da realidade com a exaustiva cotidianidade que o retira da reflexão e do fazer poético. Seus temas não são prosaicos. Abgar Renault, antes de publicar seu primeiro livro, em 1968, opta por temas nobres e eternos como a solidão, o amor, a inquietação metafísica e o mal-estar no mundo. Neste seu primeiro livro, A lápide sob a lua, Renault utiliza o prosaico e se aproxima do modernismo inicial.

Há em Abgar Renault uma sombria configuração de si mesmo. O curioso é que homem tão devotado às causas públicas, tenha se mostrado um poeta intimista, atormentado e “transeunte do fim” como se classifica. Mais curioso é ver como coloca o Outro em sua poesia, principalmente a mulher, vista de forma luminosa, distante, solar e quase incompreensível. Falei em causas públicas e tenho que fazer um breve itinerário do poeta pela vida da burocracia. Abgar Renault teve altos cargos públicos e foi objeto de inúmeras honrarias. Resumirei, buscarei talvez as mais importantes: foi Ministro do Tribunal de Contas da União e Ministro de Educação e Cultura, representante do Brasil na Unesco em diversos momentos na área de Educação, membro de várias Academias, entre elas, a Brasileira de Letras e esta que nos acolhe. As honrarias foram muitas, entre outras, a Legião de Honra da França, Grande Oficial da Ordem de Rio Branco e a inglesa Commander of British Empire.

A obra de Abgar Renault, logo, é uma obra de antologia. De uma estranha antologia, da qual não conhecemos os outros poemas, os excluídos, porque nunca estiveram publicados. O poeta, escrevendo desde cedo, foi selecionando sua antologia pessoal sem que viesse a lume qualquer dos poemas que porventura negou. É uma estratégia estética, diriam uns; é uma idiossincrasia, modo pessoal de encarar a vida e a arte, diriam outros. O resultado, contudo, é essa bela e compacta reunião de poemas, densamente povoada pelos anos e pelo silêncio.

Por tanta convivência e enorme presença de Drummond na poesia brasileira, Abgar Renault, em A outra face da lua, de 1983, traz a influência do poeta de Itabira. Do mesmo humanismo, da dicção do homem em perplexidade, desamparado, do mesmo homem frente ao enigma e ao claro e escuro que Mário Chamie apontou numa análise que coloca Abgar Renault entre Gregório de Matos e Drummond. Mas, apesar da influência, observa-se um poeta singular e ímpar, capaz de reinventar a poesia e criar belezas com simplicidade como em “No alto da montanha”. Diz Abgar Renault, “Já não sinto saudade de mais nada, a não ser do começo da escalada, quando o azul era azul de azul sem fim e Deus criava de novo o mundo em mim.” Ali estão o tempo que passa, a ruína, o homem comum sem amparo, o cidadão perdido no labirinto da grande cidade e, no caso de Abgar Renault, homem que viajou o mundo ao contrário do poeta de A rosa do povo, o homem não só perdido na metrópole mas urbe et orbi.

Já em 1971, publica Sofotulafai, um poema só. O tema do poema é a linguagem, o ato de escrever e a literatura. É um poema longo, com pequenas inserções em inglês e francês, onde revela amor à escrita. “Se a palavra acabasse, um dia, a vida seria despojada de existência”, diz Abgar Renault. Um poema original, com experiências verbais próprias, como, por exemplo, o dos jogos de palavras de Álvaro de Campos ou do cubo-futurismo russo.

É nos sonetos que Abgar Renault consegue melhor resultado a meu ver. Não percebo influência e a construção verbal cresce com inusitadas e encantadoras imagens. A fôrma exata do soneto poderia diluir o vigor do verso, cegar o corte da faca, mas o que encontramos é um poeta que consegue, na concisão de catorze versos, eleger temas de angústia, a passagem do tempo, o efêmero da vida, o abatimento frente à vida difícil, a permanente solidão, o Outro distante, o impossível diálogo, o cansaço da busca. No livro Cristal refratário, mantido inédito por Abgar e só publicado na já citada Poesia Reunida, esta afirmação toma maior vulto. Não que antes não aparecera, apenas aqui se reacende e se afirma.

Em Íntimo Poço, Abgar Renault investe na interlocução, procura em vão o Outro, o aqui há o deslumbramento e medo da descoberta de um ser além dele mesmo – obscuro e recôndito como Abgar Renault buscou ser em sua vida de poeta. As imagens desconcertantes e surreais, a desilusão com o homem e a vida, as metáforas de dor e desamparo criam um clima de desesperança e de grandeza do ser humano perdido num mundo de aparências. A recorrência à palavra poço, que dá título ao livro, não contraria a assertiva. Neste e em outros livros, há de se perguntar se esse tu que o poeta indica e persegue não será ele mesmo, o poeta, e não o Outro, ou seja, aqui teríamos uma interlocução entre o poeta que se dirige a si mesmo como se fosse um outro.

Poeta em surdina, o próprio Abgar Renault define o ato de escrever e sua maneira de encarar a literatura. Diz ele num poema:

“Para que escrever, se eu jamais acontecerei num verso?
Para que escrever, se a verde luz infinita
jamais se reverá no espelho de nenhuma das minhas palavras?
Para que escrever, se meus olhos orvalham, neste preciso momento, esta clara tinta cheia de tantas caladas cousas?
Para que escrever tantas sílabas de sal e terra,
se nenhum grão de terra e sal responderá?”

No livro Thanatos, como o nome mesmo indica, Abgar se rende à temática da morte, que ele, observa-se nos poemas, acredita próxima e só virá aos 90 anos. Drummond viu em Abgar Renault um incurável pessimista. Mas reconhece que, diz Drummond, “o pessimismo, não há dúvida, é um grande gerador de poesia”.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

A Catedral, poema RCF



Muda, espalmada,
                  reiterativa como um terço
                  em cada hora, a Catedral é outra:
                  furtiva,
                  confessionária,
                  passante e pia.

A luz da Catedral de Brasília
                 não é luz mística.
                São caldeiras:
                as fornalhas das máquinas,
                o pequeno inferno
                dos pecadores
                que ilumina cada igreja.

Assim, crua,
               na linha dissidente
              do horizonte,
              a Catedral não é obra de arquitetura
              nem templo
              nem casa de oração.

A Catedral, na Esplanada dos Ministérios,
             é apenas repartição pública,
             prédio burocrático,
             Sé das almas expedientes.


(do livro Estrangeiro, 1997)

imagem retirada da internet: catedral de brasília

domingo, 25 de setembro de 2011

O bicho homem, poema RCF






As flores silvestres,
os animais agrestes,
toda a natureza campestre é selvagem.
Não seria o homem
uma contrafação,
já que o homem do campo
não tem mais pelos que o urbano,
mais dentes que o citadino,
mais fúria que o das grandes cidades?
Ao contrário de Rousseau,
o homem campestre é uma abstração.
Os homens são urbanos
como as baratas
e, como as baratas,
sobreviverão à bomba atômica
com suas asas de metal,
suas antenas de fio cósmico,
seu corpo invertebrado de desejos ainda a serem inventados.

                      Ou então, a pergunta é outra:
                      o que fizemos do homem,
                      de sua magnífica selvageria,
                      de seu couro sem livros,
                      da sua manada sem talheres,
                      da sua solidão sem modos,
                      do seu corpo múltiplo
                                        – macaco, homem, mineral e espasmo –
                      que vagueou, na campina,
                      antes da aurora das cidades?



 
(do livro Terratreme, 1998, Fundação Cultural de Brasília)


imagem retirada da internet: pocket of sunshine