sábado, 11 de junho de 2016

Um homem é muito pouco 20






        
          Há também moças em flor. Mas as moças em flor do apartamento do andar de cima são flores murchas. Também são flores vadias. A verdadeira flor vadia é a do campo. Posta aqui, sem tomar sol, trabalhando de pernas para o ar, as flores logo pegam doença venérea. E doença venérea não é boa pras flores. A polícia já apareceu aqui para conferir o jardim. A polícia queria saber se era jardim de infância. Mas como não tinha nenhuma menor a polícia decidiu pegar um pouco de grama. A grama que a senhora dona do estabelecimento dá pros guardas também é verde e vale uma nota. Toda semana a polícia vem visitar o jardim de d. Sereja: as moças não desabrocham, embora tenham pernas firmes e andem sem raízes.
            Fui duas vezes lá. Pensei até que uma delas, Marilene, deixava escapar um botão de Rosa. Eu a chamava de Rosilene, ela ria. Ela ria mais, depois tossia. Uma tosse vadia. Não era doença de pulmão. Os peitos de Rosilene tinham duas camélias de dar inveja a qualquer expositor. D. Sereja cultiva pecado e doença. Por isso as flores dela não duram muito. Ele tem que plantar outras mudas, que logo adoecem. Se não adoecem de doença venérea, adoecem de droga.
            Certa vez encontrei dr. Máximo na floricultura de d. Sereja.
            O que o senhor faz aqui?
            Vim descansar.
            O senhor está louco, aqui não se descansa, o que tem mais é suor, não sente o cheiro de suor?
            O cheiro de suor que eu sentia não era cheiro de sexo. O cheiro de suor que eu sentia era cheiro de animal que trabalha muito. O cheiro do lombo do cavalo, por exemplo. O lombo de cavalo das meninas ficava suado e aquela exuberância de coxas e peitos era falsa como pivô dos dentes do dr. Máximo. Elas tinham que cavalgar a tarde inteira e a noite inteira.
            Não voltei lá, é uma furada se apaixonar por puta. Elas dormem quando você acorda, elas acordam quando você vai dormir. D. Sereja aluga cinco apartamentos. D. Sereja também dá grama para o síndico. E não o deixa pagar quando ele arranca as flores do pé do jardim dela. Tenho muito grama na cabeça, às vezes me pego pensando erva daninha. Não gosto de pensar coisas daninhas que podem apodrecer meu pensamento. Por isso evito qualquer coisa que possa tirar seiva da minha cabeça.


(do romance Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010)




sexta-feira, 10 de junho de 2016

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Um tigre no espelho, conto de Carlos Tavares

Pela primeira vez em mais de 40 anos de cegueira, Borges se sente um miserável sem sorte logo ao despertar, numa bela manhã de abril, em seu escritório da Casa Nevada da Patagônia. Escuta o tilintar de chocalhos presos nas alimárias que pastam lá fora sob uma forte ventania, nos campos gelados dos Andes de sua infância. No quarto ao lado ainda dormem o criado Adolfo e a mulher Silvina.
. Borges se debate em intensa agonia, uma sensação de incômodo que jamais o atacara assim de forma tão agressiva, quase um banho de pânico, repentino, ao despertar, como se tivesse sonhado o mais terrível dos sonhos. E o pior é que não consegue se lembrar do sonho.
Senta-se na cama improvisada na poltrona larga e curva, encosto preparado especialmente para essas ocasiões de extrema produção e cansaço. Mas também não se lembra da história que ditou para Silvina e Adolfo; talvez eles tenham gravado sua nova fábula, cujo enredo permanece emaranhado ao torvelinho de incertezas e dúvidas que se abateu sobre ele mal abriu os olhos.
Ainda não é dia, os galos estão quietos no quintal, o silêncio o amordaça ainda mais, na escuridão impenetrável, tão conhecida dele depois que a cegueira o invadiu de vez, após dez anos de declínio, como um ocaso que tremula incerto entre o dia e a escuridão e que, aos poucos, perde consistência para a noite. Nem isso ele podia mais admirar, o ocaso dos pampas.
Mas com o tempo aceitara a sina da escuridão que, no princípio de tudo, costumava encarar apenas como um dia nublado e frio, um suave Noturno em crescendo. “Não é ainda a escuridão total; vejo sombras, vejo vultos, e isso me basta, por enquanto”, costumava dizer, feliz, a Adolfo e a Silvina.
Ergue-se da imensa poltrona, põe os pés no chão e fica arfando, apoiando as duas mãos no colchão, o coração aos saltos, a testa suada, o pijama encharcado. Que ninguém o visse assim, tão frágil, tão humano, logo ele, que durante todo esse tempo jamais dera sinais de ter perdido a batalha para a doença. E tudo por causa de um mero sonho, um rápido e nebuloso sonho, como tantos que o tempo o presenteou e dos quais tantos contos nasceram.
Escrevera até perto de meia-noite. Tentava resgatar na linguagem do conto curto o seu passado com Beatriz, lembrava-se agora. O campo era exíguo, porém, e ele o esticou acima das 20, 30 páginas, incansavelmente, mas não ficara satisfeito. Levantou-se perto das 23h e andou com a bengala de cabo prateado tateando o espaço até bater com a ponta do apoio na quina de um criado-mudo onde guardava porta-retratos.
Sorriu, com uma alegria infantil, quando sentiu que ali estavam ele e Beatriz, abraçados em uma praça, talvez a San Martin, perto da Rua Maipu, sim, pensou: talvez seja ela, a praça, com suas árvores cravadas em seu coração de saibro e pedregulhos, o rebuliço das acácias ao vento, o verão portenho e o seu sopro de nostalgia na moldura invisível de suas caminhadas. As estátuas ainda devem estar por lá, com seus inseparáveis pombos e poses graníticas de heróis do passado.
Certa vez pegara a Rua Florida e caminhara por seus dezesseis quarteirões entrando pela Rua México para ir à Biblioteca Nacional. No meio do caminho, um jovem vestindo uma camiseta com o rosto de Che estampado no peito, cabelos longos, barba rala, passou por ele e gritou, com ódio: “Morra, Borges, traidor!”; o escritor, assustado, parou e sorriu: “Gostaria muito, mas não posso; perdoe-me, por favor, está bem?”.
Já fazia uns dez minutos que Borges arfava à beira da poltrona-cama, ar perdido, desolado.
Onde está você? O outro, o outro que fui, onde anda, onde anda? Aquele outro sentado em um banco de uma praça que me abordou a perguntar meu nome e que sorriu com ironia quando eu o pronunciara? Vamos, vamos cadê você, cadê? Pirandello tem razão, somos mil e nenhum; somos talvez o sonho que se perde, como agora, nada mais. Logo eu, que nunca esqueci um sonho, meus e dos outros, sim, lembro-me bem da rosa e do paraíso, aquele que me rendeu uma das minhas melhores páginas e acabei esquecendo que fui eu quem o escrevera.
O espelho oval ao longe pregado na parede oposta à porta de entrada da biblioteca-escritório deve ser o mesmo da minha infância e já deve ter enferrujado de tantos reflexos inúteis de entes que por aqui passaram e que já não estão entre nós. Sim, quantos livros não foram folheados por eles, os mesmos que talvez ele, Borges, também tenha lido.
Nada refletia com tanta nitidez esse tempo quanto a sua memória prodigiosa. E se refletisse, de que adiantaria? Seria igual a essas fotos que não consigo ver, murmurou. Bem, acho que Ernesto tem razão quando diz que Deus não é assunto dos homens. Os hindus samsáricos também têm razão quando afirmam que não acreditam na existência do universo. Por isso me identifico tanto com eles, que desconfiam até mesmo do nada da existência, física e espiritual do homem.
Mas que sonho, que sonho, que sonho eu tive!
Quando tudo parece calmo, tranqüilo, próximo do ponto final, que adio como um garoto vadio que demora demais a entrar em casa com medo da mãe, vejo-me, primeiro, arrebatado pelo sono e depois pelo sonho esquecido.
Borges pensa que se pudesse ver a fotografia de Beatriz talvez obtivesse a resposta do sonho. Olharia em seus olhos e veria o mundo inteiro, toda a sua vida e a vida a dois de curta e eterna felicidade, mas tudo acabara quase mesmo antes de começar, com a morte prematura da mulher, aquela traidora infeliz, dissera à beira do túmulo.
Naquela tarde fria de dezembro enterrara-se com Beatriz a pedra luminosa e angular da sabedoria e da vida, enterrara-se o amor em sua plenitude e toda a sua história; sim, era isso, daí veio o enxame de sonhos agônicos que o soterrou de inércia e de horror por longos anos.
Ele, o recatado e tímido Borges, que nunca bebera algo além de um ou dois cálices de um bom vinho, passara a consumir sofregamente quase todas as garrafas da adega de seu pai. Os amigos o socorreram em uma tarde de setembro quando a ponta da bengala derrapou no assoalho e ele despencou da escadaria, o que lhe rendeu alguns ferimentos não tão graves.
Passara então seis meses enfurnado na Casa Nevada, por recomendação dos médicos, em companhia dos fiéis Adolfo e Silvina e do médico, amigo e poeta Macedônio Hernandez.
Foram tempos difíceis. Deixara de escrever e de ler, preferia a solidão à companhia e dera ordens para não o incomodarem, a não ser nas horas das refeições. Passaram-se então dez anos da morte de Beatriz. Ele, aos poucos, voltou a ler e a escrever, até chegar ao ponto em que está: cabeça baixa, um nó na garganta, a mente vaga e o espírito inquieto, ainda a arfar na beira da poltrona, à beira do pânico.
Aos poucos foi se recuperando e de repente um estalo dentro do labirinto de idéias o atingiu como um golpe duro e seco nas têmporas. Sim, estou lembrando, sim, sim, é isso, é isso, sussurrou quase gritando de alegria; as lágrimas rolavam em queda livre pelas faces e ele soluçava, com os ombros num movimento incontrolável em sintonia com o choro, o jorro de lembranças, as cavernas, as luzes, os livros, tudo isso voltava de repente e ele não se cabia de felicidade.
O mais estranho é que o sonho não trazia a imagem venerada de Beatriz, a inesquecível. Sim, era como se ele, de repente, como as serpentes que mudam de casca da noite para o dia, houvesse esquecido completamente da existência da mulher, esquecera até mesmo a sua forma física e isso era grave.
Agora estava cercado pela profusão de imagens do sonho.

Via-se em um deserto e andava a esmo tateando o chão arenoso e infinito com sua bengala, as roupas em frangalhos, como se estivesse vivendo um dia após uma guerra sangrenta. Por onde passava via cadáveres e plantas exóticas, flores imensas, rubras, amarelas, verdes, roxas, brancas, enxergava nitidamente as violetas e hortênsias do deserto e uma flor entre tantas se destacava: era parecida com o sol e de seus raios multicores, como um arco-íris esférico, nascia uma fonte concêntrica de luminosidade forte e cambiável para o opaco e o esfuziante.
O facho de luz parecia chamá-lo a seguir seus rastros elétricos de uma maneira que se sentia hipnotizado, esquecera as outras flores e os cadáveres, esquecera o deserto e as dores no corpo, a bengala estava largada no chão e, de repente, em vez da bengala viu que se tratava de uma enorme lança, o instrumento que carregava na mão direita, na outra um cálice de madeira e dentro dele borbulhava o vinho mais vermelho do que o sangue de Cristo.
Passou a seguir o facho redondo, suas luzes circulares em camadas como se fosse um arco-íris enrodilhado, imantado de tanta beleza, um sol colorido em pleno deserto como jamais vira. Sim, estava curado da cegueira, via tudo, todas as imagens do presente e do passado, via os livros que não leu, via os amigos da Rua Tucumã, os criados de seu avô, via Ferrari e Oswaldo, via seus inimigos e velhos sábios sentados em bancos de jardins que se bifurcam com imensos livros nos joelhos e pássaros pousados em seus ombros, via o sorriso de uma criança que nela se reconheceu, via tudo e com bastante clareza.
No sonho, pensou na Casa Nevada da Patagônia e na biblioteca de seu pai, Dom Antônio Luís Borges de Azevedo Saavedra. Pensou nos amigos do passado, nas mulheres que amou platonicamente e se sentia conduzido pela luz em direção a uma escadaria circular feita de blocos de pedra cujos degraus ancestrais pareciam ser em número infinito.
Tudo aquilo, sim, lembrava-se com exatidão, parecia ser uma torre invertida, um imenso labirinto esférico suspenso no ar do deserto construído pelas mãos da eternidade que o homem costuma afugentar com o pensamento negro da morte e da tragédia.
Quando desceu uma quantidade razoável de degraus, parou e olhou para cima e viu o sol distante e colorido a iluminar rostos de cadáveres que ele acabara de ver no chão do deserto, e eram rostos conhecidos, reconheceu o pai e a mãe; reconheceu Simon Bolívar e José de San Martín, também vislumbrou José Artigas, Bento Gonçalves, Solano Lopes, Zapata, Rivadávia e outros grandes traidores e heróis das guerras platinas.
Continuou a descer os degraus de pedra e a escuridão o envolvia a cada passo, com mais intensidade. Voltou-se outra vez na ansiedade de quem deseja um pouco de luz e já não viu o círculo iluminado da boca do poço, sua torre invertida que agora se transformara em uma masmorra.
Escutou de repente o grito de um pássaro em agonia; as asas gigantescas em rasantes na escuridão passaram próximo do rosto dele e o impulso automático foi o de dobrar os braços em defesa, a proteger as faces e os olhos, os olhos que agora não enxergam mais a saída do túnel, nem o céu nem as flores do paraíso. Veem apenas a escuridão fria de seu poço de torturas. Entra em Pânico quando sabe que não pode mais pensar e que ali estará só para sempre, enfurnado dentro de um calabouço, masmorra, labirinto sem espelhos e sem visões a contemplar.
Enfim, chegara ao ponto central de sua arena nas tênebras mais profundas do que a própria cegueira. Súbito, sentiu bem perto dele o bafo pesado e ardente de um animal que não conseguia identificar o gênero, a espécie feroz ou branda, a não ser que ele rosnasse, pois podia ser um cão, uma serpente, uma hiena, ou um tigre do deserto.
Procurou se habituar à escuridão circular em volta de si, acima e em todas as dimensões de sua vida e pensou na pedra mágica, no tabuleiro de xadrez sonhado um dia e em tal jogo de peões contra damas e reis barbudos, perigosamente armados, a ponto de arquitetar uma cilada fatal em menos de um minuto. E sabia que as peças daquele jogo maldito se articulavam em segredo para o lance final.
Estava chegando a sua hora sem segundos. Via o livro e o relógio de areia se desfazendo em milhares e milhares de miríades de grãos e grãos em minúsculos esquemas de pó e fantasia, a areia total, a senha da sina e do deserto que o habita desde o nascimento.
Borges está ainda na mesma posição. Pensa que o sonho fora de tal forma visual e magnífico, que ele não poderia estar cego.
Ergueu-se da cama, apoiou-se na bengala com segurança e arrastou uma cadeira para diante do espelho. Caminhou mais um pouco pelo centro do quarto e pensou em suas ruínas circulares, no tigre e no labirinto que na verdade significavam, os dois, uma imensa biblioteca sem livros, porque todos os livros haviam sido queimados havia mais de três séculos por um imperador angustiado que não via sentido nas palavras, a não ser nas guerras.
Sim, murmurou, mas os livros permanecerão, enquanto desconfio, há muito tempo, que a humanidade ruirá e sobre ela, sobre seus escombros de sangue e desperdício, nascerão apenas as flores da sabedoria e do degredo de uma esperança que me acolhe agora nesta manhã fria e cinzenta na Casa Nevada da Patagônia.
Borges não soube quanto ficou diante do espelho e isso também já não interessava. Sentia-se aliviado, de certa maneira, por ter-se lembrado de todos os detalhes do sonho, salvo aquele que o fizera gritar com medo do animal que rugia a seus pés no centro da torre invertida do deserto e que o fizera despertar de tanto horror.
Molhado de suor, atônito com o fato de achar uma rosa ao lado dele, depositada no colchão da poltrona, as pétalas esmagadas, procurava lembrar-se como ela fora parar neste lugar e por quem teria sido trazida.
Levantou-se de repente e voltou a deitar-se.
Repetiu o movimento algumas vezes numa sequência de sustos e pavores como nunca experimentara antes.
Agora, sentado na cadeira de balanço, de frente para o espelho, Borges já não se lembra de nada, sequer da razão pela qual a agonia de não enxergar o incomodara tanto, assim, de repente, após mais de 40 anos de escuridão.
Isso é apenas de um sonho dentro de um sonho. Um sonho em camadas de cores e feito de luzes esféricas e multicores como o arco-íris do deserto que o fizera provar visões jamais concebíveis em sua pobre realidade de cego e de péssimo jogador de xadrez, a arte da vida.
Talvez ali, naquele momento em que raciocinou pela última vez sobre a razão do sonho e o seu esquecimento, dera o seu último sorriso diante do espelho oval, vago e frio, de moldura colgada com desenhos de punhais e felinos, peças de xadrez. O cavalo, o bispo, a torre, os livros que gostaria de esquecer e assumir de vez o mundo real em sua feiúra tirânica e indomável.
Antes de soar o meio-dia no velho carrilhão da sala central da Casa Nevada, Adolfo e Silvina encontraram Borges com uma das mãos sobre o cabo de madrepérola da bengala, uma rosa na outra, o rosto erguido a indagar o espelho por suas imagens mais queridas, indecifráveis.
O mais estranho era o brilho opaco de seus olhos azuis abertos a refletir no espelho Borges de corpo inteiro, o verdadeiro Borges: o homem, o livro, o sonho que se basta na dúvida do ser e no desejo de reencontrar-se frágil e humilde no topo do saber e no centro da miséria humana que tanto combateu com a palavra, inutilmente.




imagens retiradas da internet

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Pescoços torcidos, poema RCF






Os pássaros se jogam de cabeça
na piscina vertical do reflexo
e, na sua ânsia de voo,
não percebem que a janela
é uma fotografia de vidro.

Os pássaros já vêm com pescoços torcidos
para a forca horizontal
da janela narcísica
em busca do infinito.
O lago de vidro não tem fundo
e o que espelha
é apenas uma imagem virtual
que mata com sua força de ilusão.
Nada é tão cortante, falso,
nulo e sem perspectiva
que a ilusão de vidro fumê.

Há de se ter por coisa não pouco
miúda isso do medo dos vidros,
da ilusão que pode se converter
em forca e fazer do voo diário
um espelho de pescoço torcido.



(foto da internet: 30 millions d'amis)

terça-feira, 7 de junho de 2016

O coração das trevas no pulso, poema RCF






O relógio de ponto calcina
o coração das horas.
Na bainha do pulso
o tique-taque da bomba-relógio.
Os minutos disparam
o gatilho do tempo.
A roda da fortuna
 sempre os mesmos números.
Tiros de festim na pontaria dos ponteiros
atingem o difícil exercício das cinzas.


(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Poema de Everardo Norões





Meditações de Frei Martinho de Nantes



6

Entre o grito e eco,
Luz repentina:
céu a sucumbir nas folhas,
futuro na neblina dos espelhos:
um rosto.

Entre o eco e o grito,
uma nudez repartida,
campo sem flores,
o estima na porta:
a Mão.

Entre o grito e o eco,
inquietos ramos.
E essas vozes aquáticas
vertidas no despenhadeiro
dos dias.


Everardo Norões é um dos poetas mais vigorosos da atualidade. Este poema é do livro Retábulo de Jerônimo Bosch, ed. 7Letras, 2008.

A bibliofilia e os sentidos fora do texto, Secchin



Preservadas por colecionadores, edições originais restituem a ‘vontade autoral’ em capas, sumários e dedicatórias, permitindo a descoberta de novas trilhas na obra de escritores consagrados

Por Antonio Carlos Secchin*

Cheguei aos livros através da literatura. Em geral, pensa-se no contrário: através do veículo (no caso, o objeto livro), chega-se ao principal, o conteúdo nele contido. De fato, durante certo tempo, foi-me indiferente o suporte pelo qual acessava a matéria literária — até perceber que o cuidado com os detalhes da configuração gráfica da obra, ou a atenção concedida às características de determinado exemplar de um livro, também eram capazes de agregar sentido aos textos, mesmo à revelia da intenção expressa do autor.

A bibliofilia pode, para alguns, significar o mero entesouramento de livros preciosos — nesse caso, seu valor cultural é nulo; limita-se a enclausurar volumes em vitrines particulares, como bibelôs enfileirados para afagar a vaidade do dono. Mas ela pode, outras vezes, propiciar o ressurgimento de autores e livros esquecidos, ou permitir que se descubram inéditas trilhas na produção de escritores já consagrados. Nessa perspectiva, graças ao persistente exercício de bibliofilia, fui contemplado com a oportunidade de publicar a poesia reunida de Mário Pederneiras, considerado por vários estudiosos o introdutor do verso livre no Brasil; o livro de estreia de Cecília Meireles, “Espectros” (1919), dado como irreversivelmente perdido durante oito décadas; e os textos de juventude de Carlos Drummond de Andrade, os “25 poemas da triste alegria”, vindos a lume pela primeira vez em 2012.

Além da virtualidade dos resgates, outros fatores se descortinam ao olhar do bibliófilo, afeito à materialidade da obra e atento às margens peritextuais que ela comporta: capas, sumários, dedicatórias, indicação da tiragem. Ainda não se cogitou de mapear sistematicamente esse entorno inerente ao núcleo do livro, e que, mesmo em viés oblíquo, não deixa de iluminar questões relativas à prática e aos conceitos históricos de literatura. Exemplo bastante significativo se encontra nas plaquetes de poesia simbolista que quase clandestinamente circularam entre nós, em fins do século XIX e início do XX. Em geral, esses poemas se apoiavam num léxico requintado e discorriam sobre quintessências inacessíveis à sensibilidade comum. Tal consciência de excentricidade, de repúdio aos valores “vulgares”, se manifestava na superior qualidade do papel de edição, na profusão de ornamentos e de cores, que faziam do próprio livro uma espécie de metáfora antecipadora da arte “aristocrática” que ele iria professar. A tiragem diminuta indiciava prévio desinteresse em atingir audiência mais ampla — o oposto da estratégia dos escritores naturalistas, que primavam pelas narrativas algo apimentadas e facilmente assimiláveis, impressas em grandes tiragens com papel ordinário e vendidas a baixo preço. Portanto, o universo de leitores de uns e outros, simbolistas e naturalistas, já estava configurado no projeto gráfico-editorial dos respectivos volumes.

Mas, sem o acesso às publicações originais, como sabê-lo? Nada (salvo o fac-símile) substitui de modo pleno o manancial de informações de uma edição original, porque, ainda que o texto, em figuração moderna, aparentemente seja o mesmo, ele surge destituído de tudo que o cercava e que era então pertinente à sua plena caracterização como objeto de cultura: a capa de brochura (neutra, tipográfica; ou ilustrada, a revelar o diálogo da época entre palavra e imagem); as dedicatórias, a desvelarem jogos de afeto e de poder, literário ou social; os prefácios, incontornáveis instâncias legitimadoras, territórios de encômios para o autor e seu grupo literário. Com frequência (salvo as exceções de praxe) os editores consideravam que todo esse aparato era dispensável, e, nas reedições, tratavam de suprimi-lo, para baratear os custos de impressão. Restituir da melhor maneira possível a “vontade autoral”, no que tange a escritores antigos, é tarefa para a qual se conta com bibliotecas públicas (e seus acervos nem sempre disponíveis ou bem conservados) ou com os préstimos de bibliófilos.

Em 2002, numa coletânea, publiquei um poema em louvor ao livro e à bibliofilia. Podemos, inclusive, embarcar numa obra por aquilo que ela originalmente não comportava: uma relevante dedicatória manuscrita, por exemplo. Com isso, o exemplar (de bibliófilo) se torna diferente de todos os demais. E, a partir desse encontro inesperado, podemos — por que não? — levar o livro, e nos deixarmos levar por ele, a múltiplas e inesperadas conexões: “Com todo amor de Amaro de Oliveira./ São Paulo, 2 de abril de 39./ O autógrafo se espalha em folha inteira,/ enredando o leitor, que se comove,// não na história narrada pelo texto,/ mas na letra do amor, que agora move/ a trama envelhecida de outro enredo,/ convidando uma dama a que o aprove.//Catharina, Tereza, Ignez, Amalia?/ Não se percebe o nome, está extinta/ a pólvora escondida na palavra,// na escrita escura do que já fugiu:/ perdido entre os papéis de minha casa,/ Amaro amava alguém no mês de abril.”

*Antonio Carlos Secchin é poeta, ensaísta e membro da Academia Brasileira de Letras. Dia 12, às 18h, ele participa do Festival Literário do CCBB, na mesa-redonda “A memória e a estante”, com Eucanaã Ferraz e Córa Ronai, marcando a reabertura da biblioteca do centro cultural