sábado, 8 de agosto de 2015

Canção de exílios, Carlos Machado

 



                                              Para Ronaldo Costa Fernandes

O exílio do útero, país primeiro
O exílio da pátria, que Gonçalves Dias cantou
O exílio do Éden no livro um
O exílio forçado dos perseguidos
O exílio do poeta na república platônica
O exílio dos pobres em busca da terra prometida
O exílio da infância
O exílio de todo o tempo que passou
O exílio do corpo antigo e dos fogos de outrora
O exílio do amor perdido
O exílio do que foi sonhado e nunca chegou
O exílio bandeiriano do que poderia ter sido e que não foi
O exílio de todas as pasárgadas

Somos todos exilados 




Carlos Machado é exímio poeta. Engenheiro, jornalista, tem poemas publicados em várias revistas. Edita na internet o boletim semanal www.algumapoesia.com.br. Seu livro de poemas Pássaro de vidro é de 2006. Este poema é inédito.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Tríptico, poema Herberto Helder



I

Transforma-se o amador na coisa amada com seu
feroz sorriso, os dentes,
as mãos que relampejam no escuro. Traz ruído
e silêncio. Traz o barulho das ondas frias
e das ardentes pedras que tem dentro de si.
E cobre esse ruído rudimentar com o assombrado
silêncio de uma última vida.
O amador transforma-se de instante para instante,
e sente-se o espírito imortal do amor
criando a carne em extremas atmosferas, acima
de todas as coisas mortas.

Transforma-se o amador. Corre pelas formas dentro.
E a coisa amada é uma baía estanque.
É o espaço de um castiçal,
a coluna vertebral e o espírito
das mulheres sentadas.
Transforma-se em noite extintora.
Porque o amador é tudo, e a coisa amada
é uma cortina
onde o vento do amador bate no alto da janela
aberta. O amado entra
por todas as janelas abertas. Ele bate, bate, bate.
O amador é um martelo que esmaga.
Que transforma a coisa amada.

Ele entra pelos ouvidos, e depois a mulher
que escuta
fica com aquele grito para sempre na cabeça
a arder com o primeiro dia do verão. Ela ouve
e vai-se transformando, enquanto dorme, naquele grito
do amador.
Depois acorda, e vai, e dá-se ao amador,
dá-lhe o grito dele.
E o amador e a coisa amada são um único grito
anterior de amor.

E gritam e batem. Ele bate-lhe com o seu espírito
de amador. E ela é batida, e bate-lhe
com o seu espírito de amada.
Então o mundo transforma-se neste ruído áspero
do amor. Enquanto em cima
o silêncio do amador e da amada alimentam
o imprevisto silêncio do mundo
e do amor.