sábado, 1 de julho de 2017

A pátria onde a fronteira se move


 
Emigrei da infância
– terra natal e minha língua materna –
para os campos de adulto.
Meu passaporte pela adolescência
está carimbado de desejos.
Ah, o mar morto em que banhei
minhas ambições.
Nunca mais me repatriei
e por isso vivo estrangeiro,
cujas fronteiras se movem
a depender do idioma
em que se fala futuro.
A 3 x 4 me deportam
para uma foto
que documenta minha pátria:
o contrabando dos anos
na última alfândega
lá onde a revista estampa
minha diáspora.
Vou indocumentado pelo anonimato,
atravesso a fronteira das ruas
onde nenhuma guarda meu passado.


(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)

imagem: radu belcin

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Fios que me tecem


nos fios que me tecem
                        nenhum leva à meada

e a lua dos olhos
                       não flutua na órbita

                      apagada no eclipse
                                    das pálpebras

roda sem centro
e centro sem periferia

amadurecimento de fruta
que nunca foi verde:

                         ver blandícia
                         na dureza da pedra
                         e aspereza
                                    
na superfície lisa da calma

tudo o que se vê engana

o barulho
do salto
no taco oco
quando não há taco
nem salto

a tristeza profunda
é água que mina
mas não banha
umedece somente para
por imobilidade
e presença
amolecer
e esfriar,
até as cordas dos nervos
                               puírem

                              e cederem ao peso
                             da sombra
                                       que nenhuma luz projeta



(do livro Andarilho, 2000)


imagem retirada da internet: solitude

quinta-feira, 29 de junho de 2017

The Cathedral

Resultado de imagem para catedral de brasilia

Sepulchral, splayed,
                 reiterativeas a rosary,
                 the cathedral is permanently fickle:
                 furtive,
                 confessional,
                                     peerless and pious.

The light flooding Brasilia' Cathedral
                 is no mystic effulgence.
                 Here are boilers:
                 fiery furnaces,
                 the private purgatories
                 of pretty sinners
                                      that light up each church.

Callow and crisp
                 on the dissident rim
                 of the horizon
                 the Cathedral is no monument,
                 not a temple
                                        nor a house of prayer.

The Cathedral is the Ministerial Thoroughfare
                 is simply a section,
                 a bureaucratic building
                                         See os 9-to5 souls.


(tradução Mark Ridd)



A catedral.


Muda, espalmada,
                  reiterava como um terço,
                  em cada hora, a Catedral é outra:
                  furtiva,
                  confessionária,
                                     passante e pia.


A luz da Catedral de Brasília
                   não é luz mística.
                   São caldeiras:
                   as fornalhas das máquinas,
                   o pequeno inferno
                  dos pecadores
                                      que ilumina cada igreja.


Assim, crua,
                na linha dissidente
               do horizonte,
               a Catedral não é obra de arquitetura
               nem templo
                                      nem casa de oração.


A Catedral, na Esplanada dos Ministérios,
                é apenas repartição pública,
               prédio burocrático,
                                   Sé das almas expedientes.

(do livro Estrangeiro, 1997)


quarta-feira, 28 de junho de 2017

Cálculo das dores, RCF


Resultado de imagem para mabel frances


Alguém dirá que dor é dor
e não se pode medir,
pesar e estudar sua matéria:
ferro, madeira, plástico ou chumbo.
Certo que existem dores finas:
e não importa se são agudas,
mais científico seria entender
sua duração transversa,
seu sofrimento em minutos
ou horas ou dias ou meses,
ou ainda, que fundura
de matéria da alma – por que aqui se fala
da dor que não é fratura exposta –
atingiu o instrumento agudo
na carne do espírito. Outros creem
que a dor rombuda, robusta
já no nome, forte mesmo em sua
constituição, perverte os sentidos.

Enfim, a espessura nada mensura
e só quem a sofre pode afirmar
se dói fino ou rude. Só quem sofre
pode denunciar: não importa se aguda
ou nodosa
antes que espessura
mais vale investigar se a dor perdura,
se permanece raiz,
se nasce mas não morre,
se gruda na alma como queimadura
que, mesmo amainada,
a cicatriz não deixa que se esqueça
que um dia o fogo alcançou
a fina pele da ausência.


(O difícil exercício das cinzas, 2014)

terça-feira, 27 de junho de 2017

Nasci na mesopotâmia de São Luís, inédito

 

Nasci na mesopotâmia de São Luís, lá onde o Bacanga
e o Anil fertilizam a civilização dos ilhéus.
Nesta ilha assombrada pela pobreza e pela História,
Viera ainda dá sermões para um século que não mais existe.
Serpentes gigantes, reis desaparecidos em Alcácer-Quibires,
Mães d’água que amamentam meu terror noturno,
anas -jansens que se reduzem ao fogo da memória,
nossas sés e igrejas e paróquias desprovidas,
as inconfidências percorrem as ruas do medo,
o largo do desterro, a ladeira dos sonhos,
os sobrados da fanfarronice e endlessness,
as tripas da discórdia, o boqueirão das vontades
reprimidas, o beco das dores íntimas,
sem saída, a morbidez encurralada
pelo devaneio das cantarias.
(do livro inédito Delito das vozes mortas)

Um homem é muito pouco, Depoimento

(Publicado na Revista Brasileira, fase VII, Julho-Agosto-Setembro 2011, nº 68, da Academia Brasileira de Letras, pgs. 105-110)

O escritor procura os temas ou os temas buscam o autor? O mais certo é pensar que os temas nos procuram, o que não quer dizer que somos passivos ou apenas recipiente onde se acumulam guardados. Embora seja mais provável que os temas nasçam ainda em forma embrionária e se revelem remanescentes de experiências passadas – e não diria reprimidas, ao jugo freudiano, mas quando ocorreram não tinham a dimensão que passarão a ter no futuro – e que mais tarde retornem e nos forcem a colocá-las no papel. Nunca quis escrever sobre a ditadura militar. Penso, desde jovem, que o realismo pertencia ao século XIX e que lá estava bem posto como proposta estética de vanguarda em sua época.

O realismo do século XIX foi uma reação à literatura e arte anterior e fruto sempre do meio sócio-cultural: no plano das ideias até o marxismo pode ser inserido no positivismo, concepção de progresso e a visão de um futuro racional, duradouro e saneador. Dentro desta perspectiva, cabia também ao romance ser tão “científico” quanto às ideias progressistas e, contraditoriamente, messiânicas. Contudo, à parte a historicidade de existir um estilo em uma época – segunda metade do século XIX – que se apresentava como vanguarda, o realismo, já foi dito, sempre existiu na literatura – do mesmo modo que o fantástico – e não desaparecerá.

Certo de que não queria fazer um romance de denúncia, mais apropriado para os anos setenta do século passado, em plena luta e dura repressão, também não queria que meus personagens vagassem numa repressão mais perversa: a da estética, ou seja, que se expressassem de maneira absolutamente realista. Escrevo absolutamente porque o romance Um homem é muito pouco é realista. Realista à sua maneira.

Um homem é muito pouco está dividido em quatro grandes partes. Cada parte traz um protagonista e um personagem os une. Duas partes são narradas em primeira pessoa e as outras duas em terceira pessoa. O número quatro já me fascinara antes. Num romance anterior, de 1997, Concerto para flauta e martelo já usara as mesmas quatro vozes, mas numa dinâmica e disposição até mesmo tipográfica diferentes. O romance tem preponderantemente como cenário também quatro espaços urbanos: Praça XI, Copacabana, Grajaú e Ipanema. A época: os anos 70.

Moveu-me também a ideia de que deveria criar um grande painel. Se logrei, não sei. Ambicionei personagens de várias gerações, em conflitos constantes e deambulando em meio a uma psicologia adensada, mas sem que fosse o foco primordial. O embate entre a individualidade e a amplitude do social agindo sobre comportamentos e atitudes de pessoas que não estavam engajadas em movimento político também me atraía. Havia uma atmosfera de medo e apreensão, de silêncio e reserva, mesmo entre aqueles que não queriam “envolver-se em política”. Mesmo entre os chamados alienados, tinha-se a certeza que a atividade política só deveria ser inócua se fosse a favor do governo e que a participação em algum movimento social representava risco de morte.

É desconcertante ver que, como num processo de desvelamento, algumas ideias emergiram de um recanto obscuro que insidiosamente insistem em metamoforsear-se em personagem, cena, psicologia ou até mesmo trama que antes desconhecíamos albergar dentro de nós. Há personagens que se desenvolvem mais porque nós os conhecemos e eles se oferecem à narrativa como já estivessem prontos para serem usados e outros que a racionalidade preparou para agir e atuar às vezes até com certo protagonismo e se abastardam, diminuem, aos poucos ficam pelos cantos e mais à frente esfumam-se. Agrada-me ser traído pela minha razão e deixar que outro tipo de “razão” se faça presente e assuma seu papel na narrativa.

No caso de Um homem é muito pouco, na terceira parte, por exemplo, eu não sabia nada sobre a família dos Arlindos. A história toda foi se construindo aos poucos, jorrando fácil, a cada dia exigindo de mim que desse continuidade à saga familiar dos joalheiros e homens de alma simples que vivem uma intrincada trama familiar e que, ao mesmo tempo, serve de explicação para várias ações e diversos comportamentos de personagens das outras partes.

No livro de Freud sobre Gradiva, de Jensen, o austríaco analisa os personagens como se fossem seres de carne e osso e seus sonhos e delírios manifestações do inconsciente. Sem tomar partido da chamada crítica psicanalítica, nem também condenar psicanalisar personagem de papel, o que me chamou atenção é que os mecanismos de interpretação dos sonhos, de condensação e de entendimento dos traumas reprimidos, mostram que Freud pode não ser bom crítico literário ou que sua prática analítica enfraquece ao estudar personagens e não seres reais, mas que alguns procedimentos de aproximação ao texto são comuns à psicanálise e à crítica literária. Condensação e deslocamento, conceitos que ele usou em seu livro O chiste e a relação com o inconsciente, revelam como se elabora o mecanismo, diria eu, até do processo criativo.

Grosso modo, haveria dois tipos de escritores. Os que, como Autran Dourado e García Márquez, que relatam que só se sentam para escrever quando têm a história pronta e aqueles que são guiados pelo instinto linguístico e fabulatório como Clarice Lispector e Córtazar, este último depondo que desconhecia completamente a história de O jogo da amarelinha. Como explicar então que aqueles que já têm a história pronta antes de escrever o livro possam ser tomados pelo inconsciente e pelo deslocamento interpretativo? Diria que mesmo esses, se escolheram determinados temas, é porque aqueles temas, tramas e personagens lhe atraíram pelo mesmo processo dos instintivos. Ora, se García Marquez observa que Cem anos de solidão é a história dos pais e que O amor no tempo do cólera é a história de amor dos avós, nada se modifica, pois se foi seduzido pelo tema é porque significativamente ele aponta para mecanismos psíquicos que operam no processo ficcional vindo de desvios, vícios, ansiedades, traumas, angústias e outras sensações e sintomas psicológicos que foram reprimidos ou deslocados.

O personagem do Capitão Vaz, embora presente em todos os episódios, é um personagem secundaríssimo. Fascina-me mais a distorcida realidade do cozinheiro de marinha Clemente que descobre estar embarcado num barco bem maior que os navios em que se enfurnou: o barco da vida. Ou me atraiu a mania persecutória do personagem Pedro, da segunda parte, que não se sabe se realmente é perseguido ou é apenas fruto de sua paranoia, sua relação com o angolano dono de bar que assassinou em Luanda sua mucama e seu relacionamento conflituoso e existencial com a poeta Alice. Seduziu-me também criar uma família de relojoeiros, desde o avô até o neto, já não exercendo a profissão, mais vivendo o mundo moderno do rock. E por fim a vizinhança traumatizada, o casal que recebe as starlets do cinema novo, o jornalista que vê no restaurante o seu algoz, o síndico que se imola em nome de um amor desastroso e o primo do narrador que vive numa doce prisão na casa de dois solteirões que o acolhem como quem exercita um hobby.

O deambular dos personagens também pode ser citado como uma característica buscada no romance. Nisso me perseguia a frase de Shakespeare que Faulkner usou de epígrafe para O som e a fúria: “Life is a story told by a clown, full of sound and fury, means nothing.” Esta frase sempre me impressionou. Como era possível que a vida não tivesse sentido? Talvez o ato de escrever viesse justamente para dar sentido à minha vida. Lembro que no colégio fiz uma peça de teatro, fui ator apagado, mas aquela era primeira manifestação de que algo na vida me desagradava e poder suportá-la representava buscar uma maneira de mostrar meu incômodo estar no mundo. Os personagens de Um homem é muito pouco parecem também buscar, em sua ânsia ambulatória, um sentido no romance.

Epopéia de um mundo moderno, o romance está pronto para exprimir o inconsciente político coletivo, no dizer de Fredric Jameson. O herói em conflito com a sociedade e, acrescentaria, consigo. O grande drama da pós-modernidade não é apenas a angústia de uma sociedade pragmática que exclui aqueles que não se adaptam a ela ou não se deixam subjugar a uma existência passiva num ambiente de pressão e confronto. O grande drama parece ser a incompatibilidade do sujeito fragmentado e múltiplo, em confronto consigo mesmo, sendo ele o algoz e a vítima. Deste ponto de vista, Um homem é muito pouco é uma tentativa de retratar o refúgio último do homem não mais como refúgio da individualidade, mas como a individualidade cindida.

Há determinados temas que me perseguem e outros aos quais persigo. O ambiente dos anos 70 do século passado era um desses temas que eu procurava escrever sobre eles e não conseguia. Houve necessidade de um distanciamento temporal – e penso até que espacial – a fim de que pudesse retornar a ele de forma que não afetasse o ficcional. Vivi nove anos na Venezuela, dirigindo o Centro de Estudos Brasileiros, ligado à Embaixada do Brasil. Tentei várias vezes ambientar histórias e tramas em Caracas e tudo me soou falso. Escreverei um dia algo que tenha como cenário a cidade de Caracas? Todos nós sabemos que uma ambiência é mais que um cenário. Ele também compõe a trama e, em certos momentos, até mesmo protagoniza a história. Por fim pude voltar aos anos 70 e escrever sobre ele, colocar meus personagens em espaços conhecidos e vivenciados.

Certa vez numa entrevista a poeta Angélica Torres observou que meus personagens muitas vezes são pessoas que sofrem certa marginalidade em nome de valores éticos. Ela se referia ao meu livro de contos Manual de tortura, em que a maioria dos personagens é posta à margem da sociedade sem necessariamente serem marginais, transgressores ou bandidos. Eram personagens de vida pequena, refugos humanos, como chamou o crítico José Neres, sofredores da discriminação ou isolados por opção embora na maioria dos casos o que ocorria era sucumbir à pressão social. Tentei transladar essas opiniões sobre meu único livrinho de contos, depois de concluído o romance, para os personagens de Um homem é muito pouco e percebo que reproduzi alguns comportamentos que já lá estavam latentes no livro de narrativas curtas. Estaria eu procedendo a um comportamento de composição do personagem sem haver me dado conta?

Escrevi Um homem é muito pouco entre exatamente 31 de maio de 2008 a 14 de abril de 2009, incluindo aí quinze agoniados dias que a família decidiu viajar para Nova York. Eu tinha medo de perder o ritmo e não conseguir mais escrever da mesma maneira que vinha escrevendo. Uma página e meia por dia, em espaço um, que terminava virando uma só página. A parte escrita fora foi justamente do convívio dos primos Adriano e Sérgio e a morte deste na terceira parte do romance. Escrevi loucamente no voo de ida, com parada em Maiquetia, na Venezuela, para pegar outro voo e a viagem sair mais em conta. Era justamente a passagem de ano. Escrevi no voo para a Venezuela, escrevi em Maiquetia e escrevi no voo para Nova York. Eu precisava mostrar a mim mesmo que tudo estava bem e que não tinha perdido o pulso da história nem o ritmo do romance.


imagem retirada da internet: francis bacon, foto josé varella

segunda-feira, 26 de junho de 2017

A cortina, Milan Kundera





Ronaldo Costa Fernandes


Quem vê no excepcional romance A insustentável leveza do ser um grande livro, por certo se encantará com as leituras e comentários de Kundera. Contudo, o ensaísta Kundera, neste livro, fica aquém do exuberante ficcionista Kundera. Outros autores-críticos, como Borges, ofertam ao leitor “insights” muito mais inquietantes. De qualquer forma, este A cortina traz observações curiosas sobre autores como, entre outros, Flaubert, Tostoi, Gombrowicz, Rabelais, Cervantes, Musil e a relação entre eles. Não é propriamente a paideia de Kundera, mas são aqueles autores que, no seu modo de ver, transformaram a literatura e/ou permitem que o autor tcheco formule algumas de suas inquietações estéticas e culturais.
Não é a única vez que Milan Kundera, tcheco nascido em 1929 e que, desde 1975 vive na França, frequenta as páginas do ensaio. Faz parte de sua bibliografia, as reflexões de A arte do romance e Os testamentos traídos. Neste, A cortina (Cia. das Letras, 159 p.), Kundera inicia vacilante e, logo de cara, nos apresenta uma contradição e um equívoco. Este último refere-se ao não entendimento (mas é possível que um autor como Kundera cometer um equívoco?) do fenômeno da verossimilhança. Quem leu Aristóteles, Barthes, Tacca, Booth, Warren e Wellek, os críticos italianos da Renascença ou do neoclassicismo francês do séc. XVIII, Compagnon, Luiz Costa Lima, Vítor Manuel, Bakhtin, Todorov (a lista seria grande demais), entende o fenômeno da verossimilhança como algo intrínseco à obra. (Abra-se um parêntese: apesar de citar tantos críticos, uma das melhores e concisas definições de verossimilhança o leitor encontrará no verbete do dicionário Aurélio...). Ao etiquetar Kafka com o epíteto de inverossímil (p.71), mesmo elogiando-o, é porque não entendeu, desde Aristóteles que já comentava o maravilhoso em Homero, que a verossimilhança faz parte da obra literária, mesmo que trabalhe com o absurdo, o surreal, o fantástico, o realismo mágico e aparentados.
A contradição cabe à defesa que Kundera faz de uma literatura universal. Já que o romance é uma arte que não distingue fronteiras a não ser as suas próprias, o autor tcheco advoga um romance que tem sua própria história independente de país. “É Cervantes que invoca Fielding sem parar; é Fielding que se compara a Stendhal; é a tradição de Flaubert que se prolonga na obra de Joyce; é na reflexão sobre Joyce que Broch desenvolve sua própria poética do romance; é Kafka que faz García Márquez comprender que é possível sair da tradição e escrever de outra maneira” (p.39). Kundera incorpora a idéia e o termo cunhado por Goethe de die Weltliteratur (a literatura universal). Ao mesmo tempo, Kundera condena aqueles que colocam a república tcheca no saco comum do Leste Europeu. Kundera não quer ser eslavo, luta pela especificidade da literatura de seu país, critica aqueles que não querem vê-lo como ocidental e afirma a inclusão da literatura do seu país na história da cultura do Ocidente.
Mas A cortina tem seu encanto. Primeiro, porque o leitor pode ter contato com a visão do autor predileto sobre a literatura e outros assuntos, o que lhe permitiria entender alguns procedimentos de sua obra. Ou, mostrar a coxia onde é forjada a história de muitos romances: as leituras, influências e conceitos da literatura que este autor carrega consigo ao escrever seus livros. Ainda que os autores nos seus romances, pela forma que se apresentam, deixem escapar ao leitor suas afinidades e suas leituras. Kundera, mesmo que tão tenha o rigor de autores-críticos como Forster, Mario Vargas Llosa (seu livro sobre Madame Bovary bate muitos estudos acadêmicos) ou Nabokov (que tem uma bela e rigorosa exegese sobre Cervantes) alcança momentos preciosos, seja comparando o fluxo de consciência em Joyce e antevendo-o em Ana Karenina, de Tostoi, seja aproximando as várias vozes do romance moderno com a utilização de cartas e a “modernidade” dessa pluralidade nos romances epistolares como As ligações perigosas, de Laclos.
Outro momento especial e que merece destaque são suas observações sobre a burocracia e a mecanização do mundo moderno. Talvez a sua mais aguda observação diga respeito ao entendimento dos fenômenos e das mudanças quando estas estão no início e não quando atingem seu pico. “Deduzo disso uma regra geral: o alcance existencial de um fenômeno social não é perceptível com maior acuidade no momento de sua expansão, mas sim quando ele se encontra em seus primórdios, incomparavelmente mais fraco do que se tornará depois.” Deste ponto de vista, a literatura passa a vigorar de maneira luminosa e permite que se leia autores como Kundera com um olho na literatura e outro nos avatares da humanidade.

domingo, 25 de junho de 2017

Vermeer, poema de RCF





Em Vermeer há de se encontrar o sábio e a balança,
a virgem e a viola, a tocadora de cravo
as tentações do vinho ou as mazelas da preguiça.
        Há de se encontrar os pátios e as tabernas
         e nelas habitar a luz que tudo inventa
         e tudo cria realidade, espessura e saturação
         – a luz que faz existir todos os corpos
         que dá a Vermeer a felonia
         de criar o mundo à cruel semelhança
         do seu pincel, anjo decaído,
         dos morcegos de suas janelas
         dos olhares das tintas e
         da insensibilidade das perspectivas que mentem
         inventando um mundo que se nomeia real.

É preciso revistar em Vermeer
o germe da intimidade
o outro lado da paisagem
que não se vislumbra
ou nem ao menos a paisagem
que da janela se vê
mas a paisagem do ciúme
no cozimento dos gêneros
marulhantes mesquinharias ( domésticas )
como o suor dos lençóis
as cólicas menstruais das donzelas
a janela indivisa
que dá para dentro
e não mostra e tudo revela
a janela voraz da paz burguesa
o outro sendo contado na penumbra
do dissídio
as palavras negadas como pão adormecido
ou comida que se dá aos porcos.

Em Vermeer há de se encontrar
o mercador de almas
o apascentamento da subserviência
das mulheres que são naturezas mortas

Em Vermeer há de se descobrir o homem
que vive nos cômodos mais escuros
– esses onde escondemos os loucos
ou os nossos desejos ensandecidos.

Tu, e teu puritanismo que esconde a nudez
mas não podes esconder a cor
da verdadeira arte que não é rubra nem azul
– teu demônio singular e severo
            em vez de condenar elege o féretro de Delft,
            o olhar de quem viu o que os outros homens
não viram:
                que nada vale a pena, nem mesmo a arte.



(do livro Andarilho, Rio:7Letras, 2000)


imagem retirada da internet: vermeer