sábado, 17 de setembro de 2016

A vida em demasia, poema RCF






 
Não sei onde está meu extremo.
Temo a demasia
que tudo preenche
e não deixa espaço à vida.
O amor não é um apêndice,
mas muitas vezes se pode extirpá-lo.
Quando chego perto de mim,
tenho medo do contágio,
posso ser virulento,
posso ser inofensivo.
Às vezes me evito,
deixo a dor em casa
e alugo uma dor no cinema.
A dor de existir,
órgão que não posso extirpar,
não dorme nem durante o sono.
E, mesmo dormindo,
me sonha que me vigia
e vigia para que eu sonhe
que, mesmo dormindo,
tenho a dor de viver desperta.                                   



(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)
 

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

As borboletas ásperas, poema RCF





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Nada havia maduro
muito menos nós nos poderíamos
colher tão verdes éramos.
Éramos eternos
como eternos são sonhos
que permanecem sonhos.
Havia caminho sem rumo,
desvios  assustadiços,
becos diversos,
atalhos que encurtavam
o que não estava distante.
Os olhos redondos da surpresa
permaneceram na terra dos inominados
e deram lugar hoje
aos espantos cansados de pálpebras baixas.
As maçanetas que eram borboletas
presas às portas se soltaram
e deixaram no quarto a aspereza do vazio.







(do livro Memória dos porcos, 2012)

O Homem que amava os cachorros, Leonardo Padura


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                                                                 Lourival Serejo

 

 

Houve um tempo, na minha etapa universitária, em que me considerava um trotskista, em pleno  regime ditatorial vigente no Brasil naqueles anos. Por essa época, li a extensa biografia de Trotski, da autoria de Isaac Deutscher, em três volumes, (Civilização Brasileira, 1968): Trotski, o profeta armado; Trotski, o  profeta desarmado; e Trotski, o profeta banido. Depois, li a sua autobiografia (Minha vida. Paz e Terra, 1969). Com todo esse arcabouço teórico, supus que estava pronto para considerar-me um verdadeiro trotskista.
Com o tempo, reparei meu equívoco. Sobrou-me desse período apenas a admiração por Leon Trotski (1879-1940), o maior colaborador de Lenin na Revolução Russa de 1917, comandante do Exército Vermelho, respeitado pela sua capacidade de liderança e doutrinador do novo regime soviético.
Talvez pelos resíduos daquela fase estudantil é que busquei a leitura do livro de Leonardo Padura Fuentes, O homem que amava os cachorros, com suas alentadas 589 páginas (Boitempo, 2013), só agora publicado no Brasil, embora tenha sido lançado, na Espanha, em 2009. Do autor sabia que era cubano e já havia lido um dos seus romances policiais, Máscaras. Além desses, outros livros seus já foram publicados por editoras brasileiras, como  Adeus, Hemingway; Ventos de quaresma; A neblina do passado e Passado perfeito.
O fato de Leonardo Padura rever a trajetória de Trotski (adoto aqui a grafia usada por ele, sem o “y” final), isentando-o das acusações de Stalin e colocando-o no seu verdadeiro lugar na História, não dá ao autor de A revolução traída a condição de personagem com maior destaque no romance. Do outro lado da moeda, encontra-se Ramón Mercader Del Rio (1913-1978), o espanhol que assassinou Trotski, na Cidade do México, em 1940, com uma picareta de alpinista, o qual aparece na narrativa como Jaime López, um misterioso morador de Havana, que costumava levar seus cachorros para passearem na praia. Cada um deles, Trotski e Mercader,  tem sua função importante nos acontecimentos narrados pelo frustrado escritor cubano Ivan Cárdenas Maturell, o narrador nomeado por Leonardo Padura.  
O que é surpreendente, dentre tantas coisas, no livro de Padura, é que, mesmo sabendo o desfecho, corre-se o texto com a ansiedade de quem quer saber o que acontecerá. O autor soube montar uma história tão perfeita, que o real e o fictício se misturam de tal maneira que fica difícil distinguir a linha de separação. Aqui e ali, o autor atreve-se, pela voz do narrador, a fazer algumas críticas ao regime de Fidel Castro e às dificuldades sofridas pelo povo cubano, por conta do embargo econômico.
Para melhor entender o fato e seu desenlace, é recomendável assistir ao filme O assassinato de Trotski (1972), com Richard Burton e Alain Delon.
A preparação minuciosa do assassino e seu desempenho, o suspense que o autor provoca são próprios de quem domina a ficção do romance policial. Nesse caso – acrescente-se   só depois que dominou bem a história, o que requereu do autor uma pesquisa de mais de três anos. Conforme ele mesmo declarou em uma de suas entrevistas, a inspiração para escrever O homem que amava os cachorros foi procurar definir o verdadeiro papel de Trotski – um nome proibido em Cuba – na Revolução Russa e ter descoberto que Ramón Mercader morreu anonimamente em Havana.
Recentemente, Leonardo Padura esteve no Brasil e chegou a ser convidado para almoçar com a presidente Dilma, que já havia lido o seu livro e chegou a recomendá-lo em seu diário eletrônico.
Com esse prestígio todo, ele poderá continuar morando em Cuba e escrevendo à vontade suas críticas sutis ao regime. Aliás, em suas crônicas, no jornal Folha de São Paulo, ele já vem botando as mangas de fora. Sorte dos seus leitores, que terão um escritor cada vez mais autêntico.
Pelo tema ali  tratado, O Homem que amava os cachorros é  considerado um romance histórico. Sabemos que o historiador difere do ficcionista pelo seu compromisso com a verdade. No romance de Padura, o descompromisso da ficção com o verdadeiro é condicionado pela força dos fatos históricos de base, os quais não podem ser alterados pelo escritor, apenas interpretados e preenchidos os vazios pela força criativa. Por essa capacidade reconhecida do escritor, quase não se percebe a tensão entre realidade e imaginação.
Numa só obra, Padura presta inegável contribuição à História, reabilitando a figura de Trotski, vítima da propaganda stalinista que o pintava como um traidor, ao mesmo tempo que produz um romance que terá lugar assegurado na estante da melhor literatura latino-americana.
Publicada no jornal O Estado do Maranhão, em 15.6.2014

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Demônios de Bosch, RCF








Há morte e morbidez no amor:
insiste em fixar o momento.
Desconhece o tempo
com seu casaco de rumores.
Desconhece que só o tempo
e a morte – a morte com sua nudez,
porque a verdadeira roupa
é a veste dos vermes – são eternos.

Meu amor vegetal cresce feito unha,
independente, suor exorbitado.
Faz dos meus olhos duas órbitas
que giram ao redor do ser amado.

Quando menos nos damos conta,
o amor fez soma,
no quadrado do quarto,
diminuímos de tanto fluido,
o suor e o sêmen:
duas equações líquidas.

Amor é múltiplo de dois.

Sou todo argila.
Quando meu amor
me soprará a divina existência
de outra boca em minha boca?
Todo homem tem seu deserto.
Amar talvez seja compartilhar desertos.
Passos na areia quente
e fugidos da tela do sonho,
presos na garrafa
– lá, de onde não podem escapar –
tampada pelo cotidiano,
os pequenos demônios de Bosch.






(do livo A máquina das mãos, Ed. 7Letras, Rio, 2009)




imagem retirada da internet: bosch

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

O gato, poema RCF




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O gato
garras de adaga turca
passos de pantufa
músculos de mola
mia minha solidão
de pelo eriçado.

O gato
que vive em mim
arranha a razão
se esgueira nos cantos
sem vértebras do pensamento
olhos de gude
a mirar arisco
arreganha os cacos de vidro
na lâmina da boca
até que, sopranista,
me enreda no enredo
do gatuno sonho acordado
do pesadelo felino
em que minha vida torvelinho
na meada do novelo dos meses
a mim transformou o ferino
em bicho animal
em que a jaula não é o apartamento
mas as sete vidas do pensamento.




(A máquina das mãos, 2009)


terça-feira, 13 de setembro de 2016

Dispersão, Mário de Sá-Carneiro





Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

(O Domingo de Paris
Lembra-me o desaparecido
Que sentia comovido
Os Domingos de Paris:
Porque um domingo é família,
É bem-estar, é singeleza,
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem família).

O pobre moço das ânsias...
tu, sim, tu eras alguém!
E foi por isso também
Que te abismaste nas ânsias.

A grande ave dourada
Bateu asas para os céus,
Mas fechou-as saciada
Ao ver que ganhava os céus.

Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.

(...)

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Dom Sebastião, poema RCF



Marrocos: atrás de Alcácer-Quibir
entre Salé e Tanger, estava no deserto
o estigma da minha raça e lá perdido
e mouro e berbere, a lembrança funesta
e mágica de que aqui pertenço
como o seixo a sua montanha, o gado a seu pasto,
mas não a tâmara, que não é fruto da tamareira,
mas das bocas doces e árabes das moças.
Fui atrás de uma batalha perdida e da ilha
encantada que alberga o rei morto como
as árvores abrem seus ventres para servir de cova
e seus braços longos para suportar ninhos,
e lá estive, no deserto mais dissoluto e solar,
na solidão do vento quente que sopra o corpo
e a lembrança perdida dos tempos e nada
encontrei, pois nada havia de encontrar
para unir uma ilha encantada a uma
batalha que já havia sido perdida antes
de começar. E percebi – tudo o que herdei
da visita – que a ilha encantada
me acompanha, a serpente em volta de mim,
e que carrego a infância pelas ruas
como um mendigo arrasta sua medina de erros.


(Memória dos Porcos, 2012)


domingo, 11 de setembro de 2016

Imolação. poema RCF




O sol se imola
qual corpo em chamas
para cumprir seu alvoroço de hélio.

Ó tempo incendiário,
sem minudências, sem delicadezas,
os corredores da morte das calçadas,
a discórdia fahrenheit em seus mais altos graus.

 
(do livro Eterno passageiro, 2004)
 
imagem retirada da internet: van gogh