quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Ó vida contemporânea, poema RCF





                                                                    Ó vida futura,
                                                                    nós te criaremos
                                                                            Drummond



Ó vida passada,
nós te criaremos.
Ontem vou iniciar uma dieta.
Há um mês cuidaremos da saúde.
Usaremos máquina que nunca
a memória ousou pensar ou existir.
No canto escuro das lembranças,
vamos predizer o passado.
Defenderemos teorias já inventadas,
usaremos objetos em desuso,
projetaremos naves enferrujadas
e nos comunicaremos com a tecnologia
primeira e última: o corpo humano.
Ó vida passada
nós te criaremos
a nossa imagem e semelhança.
E vidas que nunca foram vividas
serão futuro e nele futuraremos
todas as invenções que nos transformaram
em outra invenção: o homem sem tempo.
Somos contemporâneos do medo do limo
e viveremos no eterno passado
que é um tempo sem tempo.
Ó vida passada, nós te criaremos,
nós te criaremos em outra dimensão:
o obsessivo tempo virtual.




(Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)


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