sábado, 7 de novembro de 2015

Os ruídos das coisas ao cair, Juan Gabriel Vásquez


Os ruídos vindos da Colômbia

 

 

                                                                                     Lourival Serejo

 

 

A literatura colombiana tornou-se mais conhecida e respeitada depois de Garcia Márquez, depois dos “Cem anos de solidão”, precisamente. Arrebatando o Prêmio Nobel de Literatura, em 1982, Garcia Márquez elevou a literatura latino-americana, a ponto de despertar interesse pelo seu estudo e conhecimento em todo o mundo. O escritor laureado tornou-se tão grande, que deixou de ser só da Colômbia para tornar-se um escritor representativo de toda a América Latina, assim como é atualmente o peruano Vargas Llosa, outro ganhador do Nobel de Literatura.

A literatura sul-americana tem a abundância dos fatos reais que distinguem as coisas deste continente, seja no Uruguai, com Onetti; seja no Chile, com Skármeta e Bolaño; seja na Argentina, com Ricardo Piglia; ou no Peru, com Vargas Llosa.

Os escritores colombianos que se seguiram a Garcia Márquez são, de certa forma, seus discípulos, mesmo que não tenham optado pelo realismo mágico. É o caso de Juan Gabriel Vásquez, que nos traz uma obra apoiada em fatos reais da vida social e política daquele país, com o título “O ruído das coisas ao cair” (Objetiva, 2013). Outros escritores colombianos já estão traduzidos no Brasil, como Santiago Gamboa e Efraim Reys, este com o irreverente título “Técnicas de masturbação entre Batman e Robin”.

Interessei-me pela leitura do livro de Juan Gabriel, movido pela curiosidade despertada pelo título e pelo autor, um nome novo que ainda não conhecia, apesar de ser um escritor premiado e com o peso de um currículo grandioso. Não me arrependi da iniciativa, pois fui recompensado com uma leitura  satisfatória.

Trata o romance de Juan Gabriel, vencedor do Prêmio Alfaguara de melhor romance, em 2011, da busca pela história de um amigo de mesa de sinuca, assassinado ao lado do personagem narrador, Antonio Yammara, numa avenida de Bogotá. A partir da busca pela vida de Ricardo Laverde, Antonio, professor de direito, atira-se a unir as pedras de um quebra-cabeça que o faz mergulhar no seu passado, misturado com a história do seu país, e debater-se com suas angústias existenciais, “pois ninguém que viva o suficiente pode se surpreender com o fato de sua biografia ter sido moldada por acontecimentos distantes, por vontades alheias, com pouca ou nenhuma participação de suas próprias decisões”.

Aproveita-se o narrador onisciente para explorar suas memórias: a infância, em Bogotá, a prisão de Pablo Escobar, os protestos estudantis contra a Guerra do Vietnã, a morte de Kennedy e outros acontecimentos das últimas décadas do século passado, incluindo as ações contra o narcotráfico. O livro começa com a narração da morte de um hipopótamo do zoológico de Pablo Escobar. A lembrança do narrador sobre esse fato decorre da impressão que teve ao visitar, às escondidas dos seus pais, esse local quando era estudante. O autor mistura ficção e realidade no enredo do romance, tornando-o mais verossímil.

O ruído que se encontra no livro de Juan Gabriel é a gravação da queda de um Boeing da American Airlines vindo de Miami para Bogotá, no momento em que se preparava para pousar no aeroporto de Cali. Dentre os passageiros mortos, estava a mulher de Ricardo Laverde, Elaine (ou Elena) Fritts, que vinha para reencontrá-lo, depois de muitos anos ausente, devido ao tempo em que estava preso. A fita, adquirida por ele, não se sabe como, continha a gravação da caixa-preta do avião e narrava os últimos momentos de desespero vividos pelos pilotos. A obsessão de ouvir essa gravação passou de Ricardo Laverde para sua filha Maya.

Esse fato ocorreu, na vida real, em 20 de dezembro de 1995. O avião chocou-se com as montanhas próximas do aeroporto, depois de um desvio equivocado na sua rota de descida. O apelo dramático dos pilotos, tentando subir a aeronave, quando perceberam o erro, é o mesmo que intitula o último capítulo do livro: Sobe, sobe, sobe.

A partir do segundo capítulo de “Os ruídos das coisas ao cair”, o autor consegue envolver o leitor na busca das respostas que ele e  a filha de Ricardo Laverde procuram para entender a vida de um homem desconhecido para ambos e que, pelas circunstâncias da sua morte, deixou a curiosidade como herança para aqueles que se aventuraram a penetrar no labirinto de sua vida.



sexta-feira, 6 de novembro de 2015

As escadas, conto RCF


 

 





 

         Sobreveio o desastre, nenhum pé subiu mais os degraus. A brancura do mármore, a superfície porosa, os detalhes dos encaixes em cobre, o corrimão de madeira escura.
         Meu método: manhã, limpar de baixo para cima; tarde, descer os degraus, um por um, como quem rola um terço.
         Diariamente mais de quatro mil pessoas. Quatro mil pessoas! Sem falar dos empregados, dos juízes, dos desembargadores, das autoridades, do guarda-livros, dos chefes de seção, do pessoal da biblioteca, dos faxineiros, dos bombeiros, dos guardas de segurança. Oh, como podia esquecer, a segurança pessoal dos juízes, desembargadores, autoridades, chefes e chefes, eram tantos chefes.
         Esse silêncio. A ordem superior que mandou desativar o prédio. De dia, se podia observar a escada com toda clareza e exuberância. Quando começava a anoitecer, subia até o depósito. Lá estavam as velas. Buscava-as, trazia até a escada e a iluminava.
         Um homem tem que ter disciplina. Se ninguém olha para o seu trabalho, tudo vai por água abaixo. Organizei minha hierarquia. João Pândega era um sujeito que tinha de manter sob rédea curta. Os outros dois, eu respeitava. Um deles, Anacleto, mal falava comigo. Já me acostumara ao mutismo de Anacleto.
         Não era eu quem limpava a mesa de Anacleto, do desembargador Anacleto. Os autos se avolumavam, se espalhavam pela mesa. Estava sempre de toga, o desembargador. Era um homem imponente. A gola branca, em contraste com o rosto vermelho, lhe dava um ar de severidade imperial. Não cuidava dos bustos. Aliás, desconhecia quem cuidava dos bustos.
         Os bustos estavam secos, rachados, outros tinham limo. Os que apanhavam sol sofriam de secura, os que estavam na sombra eram perseguidos pela umidade.
         Minhas escadas tinham sombra e luz.
         O desembargador Anacleto não podia reclamar de mim. Se não limpava sua sala ou sua mesa – a sala do desembargador já estava completamente tomada de ratos, os processos sofriam a passagem do tempo e também eram vítimas dos roedores –, ao menos cuidava do próprio desembargador.
         De ano em ano, costurava a barriga para que não saísse a palha e pintava o rosto de vermelho. O mesmo fazia, sem diferença de hierarquia, com o pobre do João Pândega. O homem me escutava falar havia mais de trinta anos e nunca reclamava, fazia cara de desagrado ou emitia um som qualquer que pudesse ser interpretado como fastio.
         Vão demolir o prédio. Há mais de cinco meses cumpro o que considero a minha mais importante missão: cortar as partes da escada e reconstruí-la na fazenda.
         A escada, diz o documento, deverá ser mantida intacta. Esta foi a sua função. Logo, deverá devolvê-la do mesmo modo que a encontrou trinta anos atrás. Leio, fico perturbado. É uma intimação. Querem me julgar por não ter cumprido o contrato.
         Um juiz de toga exuberante, negro como um corvo de gola branca, discursou furioso. Não admitia o sumiço da escada. Sem a escada não se fazia justiça.
         – O senhor entende do que estou falando? – me perguntou. – Sem a escada não se faz justiça. O senhor não tinha compromisso com nada neste mundo além da Justiça. A Justiça!
         E cada vez que pronunciava a palavra Justiça parecia que ia ter um ataque apoplético. O rosto sanguíneo e leitoso se avermelhava, as veias do pescoço inchavam, as mãos tremiam, os olhos reviravam.

(do livro Manual de Tortura. Brasília, Esquina da Palavra, 2007)

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

A palafita dos desejos, poema RCF



Amazonas de bolso
e sua pororoca de conflitos.
Os desejos são palafitas
que as águas – as águas
tudo desmancham – invadem
a precária madeira dos sonhos.
Dentro da bolsa traz
as salinas do amargo
e a cegueira da luz branca.
Tantos amores desperfeitos,
deslindos, desamáveis,
descarinhosos, desmeigos
e, ao final, desfeitos.
Dedica-se a cultivar
um curto horto de delicadeza
na jardineira do apartamento
onde brota uma solidão indolente.


(O difícil exercício das cinzas, 2014)

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Outro deserto, poema RCF







Assim a praia deserta,
imóvel, paquiderme de areia,
inventando-se a si própria,
onda que de si se alimenta,
estava o coração do mundo.

As palmeiras perfiladas não discordavam
com suas palmas indecisas
e toda nervura da manhã deserta
era a desfiguração da realidade
postal do tempo estagnado:
praia, homem, olhos e areia.

O que escalda não é a areia fina
nem o sol que se dependura, coco
exaustivo, passado do tempo,
o que escalda é o remorso arenoso.

Este mar que me banha
não é líquido.

Já não tenho a memória dos peixes.



(do livro Eterno Passageiro, Brasília, Ed. Varanda, 2004)


(foto rodney smith)

domingo, 1 de novembro de 2015

Nasci na mesopotâmia de São Luís, inédito

 

Nasci na mesopotâmia de São Luís, lá onde o Bacanga
e o Anil fertilizam a civilização dos ilhéus.
Nesta ilha assombrada pela pobreza e pela História,
Viera ainda dá sermões para um século que não mais existe.
 
Serpentes gigantes, reis desaparecidos em Alcácer-Quibires,
Mães d’água que amamentam meu terror noturno,
anas -jansens que se reduzem ao fogo da memória,
nossas sés e igrejas e paróquias desprovidas,
as inconfidências percorrem as ruas do medo,
o largo do desterro, a ladeira dos sonhos,
os sobrados da fanfarronice e endlessness,
as tripas da discórdia, o boqueirão das vontades
reprimidas, o beco das dores íntimas,
sem saída, a morbidez encurralada
pelo devaneio das cantarias.
 
 
(do livro inédito Delito das vozes mortas)