sábado, 14 de novembro de 2015

Um homem é muito pouco 32



     

          A família de Alice tinha grana. Ela é que não tinha grana. Estudara inglês e era poeta. Eu andava com os amigos poetas de Alice e não entendia aquela história de Kerouac, Ginsberg e Silvia Plath. Alice gostava dos poetas beat mas não queria ir on the road. Não era judia, gostava da poesia de Ginsberg, mas não queria ser internada no sanatório para malucos do Bellavue. Nem muito menos queria se matar como Silvia Plath. A maioria do grupo de Alice gostava mais da vida dos escritores do que propriamente dos escritores.

            Li os livros que Alice trouxe para casa. Literatura de confissão. A literatura de confissão – se você tem vida louca, on the road ou suicida – é literatura que chama a atenção. E literatura fácil de ler, mesmo para um cara que não lia muito, embora não desgostasse da leitura, nem fosse idiota. Eu apenas não tinha a pretensão de ser poeta e discutir poesia. Dos brasileiros, eles não comentavam muito. Os franceses eles tinham dificuldade de ler, mas quem eles não podiam deixar de ler eram os malditos franceses, ou melhor, os poetas malditos franceses. Alice via duas ou três sessões seguidas do mesmo filme e eu não entendia como alguém podia assistir a duas ou três sessões seguidas do mesmo filme. A impressão que eu tinha é que ela era burra e queria ver o filme para elucidar alguns detalhes. Mas é claro que Alice não era burra nem queria elucidar alguns detalhes. Alice via os filmes para que os filmes entrassem nela, fizessem parte do passado dela, que fossem como lembranças do que havia vivido e não imagens de filme feito por um diretor e passado no Metro Copacabana ou no Paissandu. Alice fugia da família e do passado, talvez fosse por isso que entrava no cinema em busca de um passado alheio que ela pudesse incorporar no repertório do passado dela.

(do romance Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010)

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

O incêndio, conto RCF



 

 As crianças nasceram grandes. Ficam na sala, olhares fixos, braços pendidos. As crianças falam dentro da minha cabeça. Às vezes ouço elas mesmo no trabalho.

Não podia ter um trabalho mais ordinário. Fui gari, com emprego garantido por concurso, mas fui expulso por roubo. Não, não fui eu quem roubou. Sumiram do depósito algumas peças, principalmente vassouras. Havia um desgraçado qualquer que roubava vassouras para revender. Não sei como me envolveram no caso, de repente estava no olho da rua.

Agora estou nessa firma de limpeza. Me mandaram para cá. Não reclamo, pobre não pode reclamar, se tivessem mandado pro inferno, ia deixar o inferno limpinho. Aqui não é o inferno, mas bem que tem ligação com ele. Meu trabalho aqui é limpar o necrotério. A parte de cima, que tem escritório e recepção, é moleza. O duro mesmo é limpar as salas de autópsia. Varrer do chão o resto dos cadáveres. É ver os bichos lá estendidos. Recolher os sacos de lixo com bando de fígado, vesícula, pedaço de coração, linha pra costurar defunto, o diabo a quatro num lixo que vai ser queimado. A gente usa luva. Mas mesmo usando luva a impressão que tenho é que toco naquelas partes mortas e que aquelas partes mortas me infeccionam. Tem gente que morre de tiro, mas tem morto que está ali porque desconfiam de doença contagiosa. Um dos médicos já morreu porque tocou no cadáver sem luva, adoeceu, quando a gente deu conta quem estava na mesa era o médico que não fazia uma semana estava em pé, diante de outro cadáver, na mesma mesa em que agora estava estendido.

A gente já se acostumou a ver defunto. A gente se acostuma com tudo. Moro na periferia, num bairro que não pode ser chamado de bairro, é uma invasão. Tem um bando de malandro por lá. Eu quase virava malandro. A vida te leva a ser bandido. Não tenho raiva de bandido, eu até que entendo eles. Pois bem, agora não há mais surpresa e medo. Mas a primeira vez que vi um bandido lá da invasão em cima da mesa do necrotério, meu coração disparou. Era como se eu estivesse ali. A gente mora vizinho ao crime. O crime está na nossa porta. Às vezes até dentro de casa. Se você pegar as famílias da invasão você vai ver que em cada família você encontra um bandido. Aqui em casa não há bandido, mas podia haver.

Deus meu, nunca mais me esquecerei da cena. O Magro deitado lá na mesa, o rosto estraçalhado, não precisa nem de autópsia nem ser médico para dizer a causa mortis do malandro. Com o tempo, a gente aprende umas palavras com os médicos e com os assistentes. Eu não gosto de falar palavras que aprendo no necrotério lá onde moro, porque não quero parecer pernóstico. O pessoal fala presunto, nós falamos o falecido, o melhor é quando algum advogado fala o de cujo, aí é de doer. Os evangélicos também dizem o falecido. Os evangélicos são mais espertos porque lêem a Bíblia. Eu não acho fácil ler a Bíblia, porque tem um monte de palavras difíceis. Acho até mesmo que muito evangélico lá da invasão fala as palavras, mas não sabe o que significam. Pobre mora em outro país, com outras leis, outro povo, outra língua. O diabo é a gente trabalhar de dia no país dos outros e de noite ir dormir no país da gente.

Não tenho memória do meu tato. Só percebo que tenho mãos quando elas seguram o cabo da vassoura, agarram o pano úmido e cáustico. Meu suor é cáustico. Os cadáveres não só cheiram à morte, também exalam outros vapores – soda cáustica, raticida, álcool, cloro.

Por isso eu grito: Sai daí, Maria. Sai daí. Ela não me ouve. Uma mulher inerte, gigantesca, peitos imensos. Nada em Maria é resto. Seca, dura, olhar de pedra. Não me acaricia. A carícia tem um nome desajeitado. O modo de ser de Maria é de silêncio das coisas mecânicas. Uma vitrola quebrada, um rádio sem pilha. Agora o fogo deve ter outras manias, embora a única função dele seja desinventar. O fogo também é memória que se apaga. O fogo tem mania de negar o mundo. O fogo não é morte, o sol é um fogo, logo, se pode inventar o dia, o fogo não pode ser a noite dos homens. E ninguém dentro da casa ruge, ninguém dentro da casa geme. Só gemem a madeira, os vidros – o olho vidro de Maria podia gemer –, os vidros se quebram, só o fogo reclama com ruído, raiva, dor e chiado de quem morde o ar.

Tudo pega fogo, o inferno é brutal. O inferno não tem nome. Meu medo é de que eu pegue fogo por dentro. Aí minha memória vira cinza e permanecerei eternamente com o cheiro de fumaça. Há muito que tudo era cinza. Posso fazer outra Maria e outras duas crianças. O pior fogo queima sem se ver e não há água que apague. As chamas estão no chão do necrotério, as chamas estão nos ônibus, meus olhos estão cansados – incendiados – de pânico e perversão.

Maria agora é apenas um resto. Ou menos que um resto. As crianças não sentiram nada. As crianças nunca sentiram nada. Dois bonecos de pano não sentem nada, além de uma existência de algodão, mudez e imobilidade. Não pense que há morbidez na companhia de bonecos. Fiz eles para me dar companhia. Um homem precisa de família.


(Manual de Tortura, 2014)

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

O abutre albino, poema RCF





A noite dorme só com um olho aberto.
Na caserna do pasto
se perfilam as árvores-soldados
vestidas de verde oliva.


No campo, nada adormece
além dos homens e das pedras.
O sono reparador das pedras:
inexato e fluido.
O sol, ao se pôr, recolhe as tralhas
– panelas velhas de alumínio do corpo,
restos do couro da frustração,
a bolandeira gasta da fome –
e se acocora atrás da mata
à espera de outro dia
quando sai a lume
e espreguiça seus dedos rosa que Homero pintou na Odisséia.

O sol campesino é marcial,
marcha nos trilhos do céu,
um vagão só fornalha.
Ao se pôr, o sol não se deita
nem puxa o cobertor de veludo negro.
Fica ali mesmo, sem sono.
Por isso o sol é triste e bufa no espetáculo de fogo
e queima com dó no peito.
Barítono da epopéia dos nadas,
tenor do deserto,
soprano dos sentimentos escusos.
O sol é o avesso
com seu monóculo cego.
Linear e bacharel,
doutor em cruzes,
magistrado das plantas,
falastrão no tribunal das urzes.
No céu despido, voam as aves negras de rapina
sob a vigilância do abutre albino:
o sol, imóvel, sobrevoa a presa,
maligno e único com suas garras de hidrogênio.

(do livro Terratreme, Prêmio da Fundação Cultural de Brasília)

imagem retirada da internet

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

O desperdício, conto RCF




 

 

 

         

 

 

O pensamento é longo. O diabo do pensamento não tem paredes. Quanto mede a obsessão? Ele era composto por músculos, humores, líquidos e obsessões. A obsessão dele era a sobra. O mundo não podia ser restante. Deveria ser exato como soma.
         O que ele não sabia era se a morte podia ser considerada desperdício. É certo que, durante a vida, desperdiça-se muito. E que este desperdício cessa com a morte. Mas a questão não era para ser posta desta maneira. E, sim, se, depois da morte, o corpo era mais desperdício do que em vida. Ou seja, em outras palavras, não interessa se o morto não desperdiça, mas ele queria saber se entre o corpo morto e o corpo vivo, qual deles se desperdiça mais?
         Depois, obviamente, de vigiar os desperdícios ordinários como água, papel, luz, chamadas telefônicas – não só seus desperdícios, mas o desperdício alheio, na maioria das vezes, gerando discussões, caras fechadas, vizinhos que cortaram relações, a família que o marginalizara, uns chamando-o de excêntrico, outros de inconveniente – o certo é que chegou a uma conclusão impeditiva: o pensamento também desperdiçava. Era preciso eliminar o pensamento mecânico, cotidiano, ordinário, desnecessário e, certamente, perdulário.
         O pensamento perdulário era o lugar-comum, as ruminações automáticas, o raciocínio viciado. Para evitá-los havia de fazer um esforço sobre-humano e, mais ainda, treinar a mente. O pensamento que não se desperdiça, logo, deveria ser o contrário. O que trouxesse novidade, luz, idéia transformadora ou mesmo disparatada, deveria ser visto como pensamento inquieto e ousado. Ou melhor, um pensamento não perdulário, um pensamento econômico.
         Ele, afora a discussão interna sobre quem desperdiçava mais, se o corpo vivo ou o corpo morto, decidiu vigiar também o desperdício da vida. O difícil era delimitar o que era vida excessiva. Não lhe interessava considerações e coros alheios. Ele se perguntava o que podia cortar em sua vida para que não desperdiçasse.
         Deitar-se, alimentar-se pouco, somente pensar o necessário e útil, imprescindível, o pensamento raro, não, não era a saída. A cama poderia também ser vista como desperdício horizontal. Poderia aprisionar-se. Mas o corpo necessitava de energia, músculo, excrescência – os corpos, visivelmente exteriores, são feitos de excrescências, vejam os membros, há excrescência mais significativa e simbólica do que os membros?
         O trabalho era desperdício, ora se não, já o havia abandonado fazia tempo. O trabalho é um mecanismo de relógio, músculo de horário, roldanas feitas de veia e sangue, o sujeito desperdiça a vida atrás de uma mesa. Não conseguia pensar no trabalho sem que a imagem de uma mesa devorando-o, infectando-o de cupim e papel, tornando sua pele seca, sugando-lhe a seiva mínima da dignidade, o invadisse de forma inquietante. O trabalho rotineiro era invenção não do diabo, mas de um Deus patrão.



(Manual de Tortura. Contos, 2007)

terça-feira, 10 de novembro de 2015

A máquina das mãos no jornal O Estado de Minas


ESTADO DE MINAS GERAIS

André Di Bernardi Batista Mendes



Ronaldo Costa Fernandes marca seu lugar no cenário da poesia contemporânea

A Editora 7 Letras acaba de lançar A máquina das mãos, do poeta, romancista e ensaísta Ronaldo Costa Fernandes. A poesia do maranhense radicado em Brasília transita e percebe o trágico a partir do simples, do cotidiano. Sua áspera letra já nasce torta, desce da descoberta das inúmeras e indissolúveis fraudes de que é feita a tessitura do duro dia-a-dia, que não concede espaço e é, sempre, amplo de controvérsia e clausura. Mas, transido, fortalecido pelo mistério de um olhar extremamente sensível, são grandes os nacos de fascínio que encontra na gravidade que desliza, por exemplo, das telas do pintor americano Edward Hopper: “A vida como um quadro americano/ do qual não podemos escapar”.


Sua linguagem e seu estilo simples atingem façanhas de desnorteios (“Entre o sim e o não/ não existe o talvez./ Entre o sim e o não/ existem as palavras cruzadas’’) e também concede, oferece, com a desfaçatez e o descaramento de um bandido consciente, o estímulo necessário para o primeiro e extremo passo rumo aos desatinos sobre os conhecimentos e desconhecimentos da sempre estranha e inalcançável natureza das coisas. Tudo no seu estado mais bruto. “Eu não aprendo a natureza./ Pergunto uma e outra vez seus nomes,/ e, na chamada, não me respondem.” Pobre leitor, pobre poeta que se debruça, louco para “sabatinar as árvores”, as “buganvílias desavisadas” e as “quaresmeiras duras”.
Não há vanguarda que dê conta do recado no inusitado âmbito poético. O cabresto das instituições, a cara fechada das academias, a moda dita, exige, com seu chicote ridículo, um poema curto, enxuto, low profile. Aí chega um artista, um escritor contemporâneo, e apresenta os seus longos poemas simples, adivinhando, arbitrário, provocativo, que o futuro pode ser um corredor: “Que dia virá o futuro/ com seu longo pescoço de ânsia?”. Pessimista, cínico, Ronaldo descortina um futuro simplesmente branco, branco como uma tela em branco, branco como o papel pode ser apenas branco.
Os bons poetas marcaram um encontro com a vida. E Ronado chegou na véspera. Mas ele também encontrou nestes tropeços a sua boa parcela, a sua cota de danação pelo caminho. Em seu livro, Ronaldo visita os demônios de Bosch (“Há morte e morbidez no amor’’); adula o seu roteiro de esquecimentos (“Tudo é um imenso galpão vazio”); faz poema para e sobre arames (“Há mãos farpadas/ que não ouso tocar”) e não deixa de corajosamente encarar a dor extrema, inigualável, ao tentar decifrar o alfabeto dos suicidas, num dos poemas mais belos e incisivos do livro (“Suicídio é o cano de escape/ com que respiramos,/ a fuga para dentro de si/ como o peixe que pula/ para a prisão do ar livre”).
Não é preciso paciência para ler os poemas de A máquina das mãos. Não é preciso condescender, anuir para encontrar fruição. Dono de um “olfato dos que cheiram a finitude das coisas”, Ronaldo dá notícia dos extremos que sobram. A sua poesia é feita de pequenos intervalos, de portos, de refúgios sempre provisórios. Nestas brechas cabem carros sem gasolina, rodoviárias onde inexiste a delícia da viagem, algaravias desenfreadas, cartas, a dura vida das putas, becos, febres, mormaços, fotografias e a dimensão inexata de uma alma que se revela linear, mas ambivalente, sempre por meio da dor. No ordinário Ronaldo descobre “a agulha da beleza”, para ele, “a realidade só não acusa o inconsciente”, que aí já seriam outros quinhentos.
Os poemas de A máquina das mãos, em sua maioria, padecem de uma melancolia que se justifica na medida em que revelam a face crua do, digamos, real verdadeiro, que, despido das bobagens de um lirismo fácil, revela que qualquer canto quase sempre desafina, que a verdade não existe, que existem margens que impressionam pela brutalidade e pelo desencanto. Entre a falta e o excesso, Ronaldo sabiamente cobra a fatura e aprende a rir de tudo e de si mesmo, deste seu, deste nosso “ato vazio de nada pegar”. Carece de poesia, pode ser leve o breu que nos envolve.
Como bem anotou Hildebrando Barbosa Filho, no posfácio do livro, a poesia de Ronaldo é também feita de “impurezas e epifanias”. A tormenta das estradas fornece um amplo repertório e munição para uma voz que se estende para que, algum dia, algumas janelas e todas as gaiolas se abram. Ronaldo apura o seu olhar e o seu canto poético que pretende ser, apenas, “um caminho entre caminhos”.



A MÁQUINA DAS MÃOS
De Ronaldo Costa Fernandes
Editora 7 Letras, 104 páginas, R$ 28


Canto do castigo
(trecho)

Há dias que não consigo
aprender minha pouca matéria.
Só tenho um ano
repetente, oclusivo, recorrente:
o ano em que me reprovei.
Já fui mais
quando tinha menos corpo.
Se o corpo se alonga,
quem negará que a mente
ganha gordura, extensão e músculos?



imagem retirada da internet: Hopper, summer evening

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Da linguagem, poema de Hildeberto Barbosa Filho




Meu código
de ira e de uivos
combina signos
perfumados,
sintaxes inauditas.

Na minha frase faz
o tempo vertical.

Meu idioma
é a sobra das coisas
arruinadas.

A poesia bruta
da vida e sua imagens
fraturadas.

Os violinos da morte
numa sinfonia
inacabada.


Hilberto Barbosa Filho publicou Nem morrer é remédio (poesia reunida), pela Editora Ideia, de João Pessoa. Hildeberto reúne aqui todos os livros de sua brilhante carreira.