quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Exame médico- existencial, poema RCF




 

Os dias marcham com seus passos de ganso.
A lua burca no céu,
o quarto crescente de escuro.
O chek-in do desejo
transforma a cama numa esteira,
o teste ergométrico feito a quatro pernas.
O instante está cheio de cordas.
Há uma estalactite
que insiste em pingar
ali onde me encaverno.
Os advérbios – que são um modo de ser –
têm a semelhança da queda.



(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Eterno passageiro por Lígia Cademartori

Tradição e ruptura na poesia contemporânea





Um poeta forte, disse Vico, é aquele capaz de adivinhar-se e ousar o impossível: dar origem a si mesmo. Em Eterno passageiro, recentemente lançado, Ronaldo Costa Fernandes, escritor de carreira sólida, dialoga com a tradição, mas consegue afastar-se dela para falar em língua própria. Expõe-se, portanto, à experiência de viver a continuidade e a ruptura.
Poesia marcada pela cisão, traço distintivo da arte contemporânea, encontrará receptividade maior entre aqueles que se reconhecem no exercício de simbolizar pelo verbo criativo os sentimentos de desconcerto e restrição. O título do livro instala a ambigüidade e abriga contradição aparente. Pois, na verdade, eterno e passageiro não estão em posições opostas. Antes, mantêm-se em reversão constante na contramão da lógica. Já na capa, o prenúncio que é do tempo e do incontornável exílio que se trata, e não importa aí a geografia. A noção do tempo instila a morte pressentida e imaginada. E é também imaginária a relação com o espaço, do qual o sujeito poético parece habitar apenas o reflexo fantasmagórico.
Na relação entre tal sujeito e seus objetos não há embate, mas tampouco ocorre conciliação. Transfigura objetos e situações ordinárias – o telefone, a geladeira, o barbear-se – investe-os de características insuspeitadas, estabelece relações inéditas e é assim que são deflagradas significações emergentes no poema, e só nele.
As coisas nomeadas em sua concretude não excluem a subjetividade de quem olha nem ocultam ou descartam emoções. Mas entre o homem e seus circundantes concretos não há interação harmônica, porque sequer é evocação direta o que faz. Os objetos são desconstruídos e refeitos sem alusões ou aura. De fato, ao nomeá-los, o poeta os desembaraça de suas funcionalidades para fazê-los apenas matéria de poesia. Não remetem, necessariamente, à prática humana.
O livro propõe ao leitor que participe desses sentidos novos nascidos de infrações calculadas, transgressões feitas norma e categorias impertinentes. O poeta sabe a seu modo, como Nietzsche, que na vida a discordância é regra e o acorde a exceção. Por isso, diz de si, dizendo de outro, preferir “em vez do trinado a rima rouca”.
A insuficiência do comentário crítico se faz maior quando é de poesia que trata, pois o “poeta só se traduz em sua língua” e essa não é traduzível em outra fala. A poesia é a linguagem em situação extrema, experiência com a potência e a fragilidade dos sentidos atribuídos, e com a fronteira que separa a palavra do silêncio. Talvez por isso possa facear com privilégio a angústia, a falta, o instável e a dispersão. E quando, ao fazê-lo, encanta e expande a vivência tida, teve sucesso o poeta e celebrou-se a poesia.

Caderno PENSAR do Correio Braziliense em 20 de novembro de 2004.



Ligia Cademartori é doutora em Teoria da Literatura, ex-professora da Universidade de Brasília - UnB, autora de diversos livros e artigos sobre teoria e crítica literária.

domingo, 15 de novembro de 2015

A prisão de Homero, conto RCF


Botero



Foi inesperadamente, num dia de semana ordinário, que Homero pediu para ser preso. Como não havia cometido nenhum crime, passou por louco dentro da delegacia. E foi motivo de chacotas entre os policiais, ainda que acostumados a malucos e, principalmente, a certos elementos que, sabe-se lá a razão, gostavam de assumir a culpa por um delito que não cometeram.
Mas a história de Homero era diferente. Os doidos que se apresentavam culpando-se eram exibicionistas ou tinham outro tipo de deformação mental. Logo caíam em contradição e o delegado os ameaçava com falso testemunho e aí, diante de uma transgressão verdadeira, como num passe de mágica, os falsos culpados assumiam a mentira.
Homero sempre foi um homem pacato, dono de armarinho, morando em subúrbio, vida reta, nenhuma amante. Nunca cometera deslize: devolvia dinheiro encontrado na rua, se oferecia a depor quando assistia a um acidente de trânsito, enfim, era a virtude em pessoa. De tão virtuoso é que não pôde aceitar o crime que cometera.
O sócio de Homero, companheiro de muitos anos, morrera repentinamente. A viúva não se interessou pelo negócio, pediu sua parte. Homero fez as contas, comprou a parte do amigo morto. Aí é que começaram as angústias de Homero, que enrolou a viúva nas contas. O que mais o incomodava era a viúva, amiga da família, continuar a freqüentar a casa dele. A cada visita a viúva representava a prova viva – e falante – do crime que cometera. Ficara com pouca coisa, reclamava que o marido durante a vida fora unha-de-fome e, morto, lhe deixara sem pensão.
Meses se passaram e Homero imaginou que devolvendo o dinheiro para a viúva conseguiria aliviar a culpa. Inventou uma história intricada.
Que taxa? perguntou a viúva do sócio.
Ora, o importante é que o dinheiro eu vou depositar na sua conta. É melhor nem entender essas coisas financeiras do governo: taxas, multas, cobranças indevidas, ressarcimento. O governo também erra e às vezes corrige o erro. Não está feliz com o dinheiro que vai receber?
A surpresa de Homero foi ver que a devolução do dinheiro não aplacava a consciência pesada. Afinal cometera o delito, o dinheiro que por direito dava à viúva não o inocentava do crime. Tinha que pagar pelo crime que cometera.
Foi tudo isso que Homero contou na delegacia e o delegado não dera bola. Sem tribunal ou juiz que o condenasse, Homero decidiu dar pena para si mesmo.
Confessou-se à esposa que não acreditou no que ouvia.
Bobagem, disse.
E como Homero insistisse, ela reprovou.
Deixa de ser idiota. E, além do mais, reparaste o erro. A viuvinha não está feliz? Então pára de maluquice que temos três filhos pra criar.
A pena que Homero se deu foi fazer de seu quarto uma cela. Mandou construir grade, tirou todos os móveis, colocou um catre e, quando achou que o quarto tinha cara de cadeia, trancou-se nele. Além da televisão, desfez-se de qualquer luxo. E mesmo a televisão, Homero a justificava: tinha direito a prisão especial por ter grau universitário. Estava na lei.
O cotidiano de Homero era desesperador. Comia frugalmente, recusando qualquer tentativa da mulher em oferecer a ele pratos suculentos ou guloseimas. Acordava cedo, fazia ginástica, via um pouco de televisão, lia e quando olhava o relógio eram apenas dez horas da manhã. Como o tempo rendia! Depois ficava olhando para as paredes nuas onde num canto fazia as marcas dos dias – como qualquer prisioneiro – que faltavam para sua liberdade.
Nada o demovia. Nem o pedido dos filhos, dos amigos, dos parentes. Era um preso exemplar. Tinha em mente que assim disciplinado podia ter a pena reduzida como faziam com os presos de bom comportamento. Assim ia vivendo, encarcerado, em paz com a consciência para desespero da esposa que teve que assumir o armarinho em lugar do marido.
Daqui só saio em sete anos, dizia anunciando o tempo da condenação.
Homero já cumprira seis meses de pena, quando teve uma idéia. Hesitou muito antes de definir-se. Afinal de contas, a idéia, embora contraditória, era uma idéia de prisioneiro – ele se justificava. Depois de tanto vacilar, por fim se convenceu. Iria cavar um túnel.
É só cavar com a colher todo dia um pouco, esconder a terra e, mais três meses, consigo chegar do outro lado da rua, arquitetava. E, pronto, liberdade!