sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

O homem e o talho, poema RCF


 

 
Alguma coisa vem e me talha.
Não é o talho de algo cortante,
objeto pontiagudo, diria um legista,
mas o talho de um leite
que é o princípio de uma desagregação
e, em certo sentido, de sentimentos talhados,
maneira de se sentir em regime de decomposição.

Sou então um homem talhado.
Talhado para o amor?
Talhado para determinada profissão?
Sem que a frase continue
– o talho é intransitivo.


E vou me fermentando por dentro
até que o que me corrompe
deixe de ser fluido e se torne sólido.
Tenho então outro órgão dentro de mim
que não é apêndice nem tem função,
a não ser a de me lembrar
que minhas incandescências
são contraditórias, sólidas e em forma de talho.



(O difícil exercício das cinzas, 2014)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

O quarto inútil, O difícil exercício das cinzas


 

 

Havia um muro urdido
na renda de bilro
em que o tempo fiava
a juventude e, ainda nova,
luzia um lugar nítido.
 
Aos poucos as luzes,
que antes eram nulas e frias
acalantam cantigas
que se perderam entre colunas e becos.
 
Não voltaremos o rosto
ao frio das manhãs
nem aos acordes sinfônicos
de uníssonos pios
que, como a luz e sua sombra,
ecoavam pelo quarto inútil.
 
 
(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio 7Letras, 2014)

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Zoológico, poema RCF




Todo zoo é particular
e não conta com os bichos de sempre.
O esgueirar-se de bicho
anfíbio que pode viver nos escritórios
e respirar o ar insalubre das ruas.
Tem o bicho de sete cabeças:
o bicho condenação ao abandono,
o jaguar do sonho ruim,
as ruinsmanhas do esquecimento,
tem bicho girafa com sua
escada magirus de ansiedade,
o tanque de guerra dos rinocerontes
que pastam indiferentes aos homens,
mas também tem o tamanduá
que lambe as horas
e seu primo ave que engaiola os minutos.                                       



(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio 7Letras, 2014)

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

A voz do vazio, poema RCF


 

 

 
A voz se dobra
e não consegue falar com ele mesmo.
Às vezes, viciado de si,
busca a janela para ver lá fora
as bocas abertas da paisagem.
Quando o chão range
é porque a pele do piso foi ferida.
Os vidros não gostam de incongruência,
por isso são tão rígidos e sem humor.
As mãos se acostumaram a chorar.
Se tomam de uma melancolia branda.
E como não conseguem pegar o vazio
espalmam a mão num espanto.


(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)


 

domingo, 29 de novembro de 2015

A poesia de Nauro Machado, RCF


O cárcere das almas

 Poeta Nauro Machado (Foto: Flora Dolores/O Estado)

 
          O início de O baldio som de Deus nos leva a algumas considerações que podem ser expandidas para a obra em geral de Nauro Machado. Mas fiquemos aqui com anotações nascidas da leitura do mais recente livro do autor. O primeiro impacto me vem da leitura dos poemas iniciais em que o poeta se sente acuado e amaldiçoa a ilha em que vive. Esqueçamos por um momento que a ilha de Nauro Machado é uma ilha real, a ilha de São Luís. E vamos observar algumas percepções que o tema da ilha provoca no imaginário coletivo. Estar numa ilha remete a aprisionamento e liberdade. A liberdade vem da ideia corrente de que a ilha pode insuflar a concepção de paraíso. No simbolismo da ilha, ela quase sempre é lugar de descanso, ausência de conflito. De outro lado, temos a visão da ilha como aprisionamento: não é à toa que grandes presídios foram incrustados em ilhas. São elas espaços de interdição, de proibição, de segregação enfim. Uma terceira via lembra que a ilha também é espaço imaginário do isolamento, em que o condômino da ilha é um prisioneiro não só do espaço como também de si mesmo.

Esse aprisionamento do sujeito nos leva ao conflituoso barroquismo. O barroquismo – e não o barroco – invade a poesia do maranhense de forma reveladora. Não está, contudo, naquilo que críticos chamaram em Lezama Lima (e outros autores da literatura hispano-americana) de neobarroco: proliferação de palavras criando um arco semântico cujo centro não se desloca. Na poesia de Nauro, há abundância de antíteses e acolhimento de paradoxos. Uma poesia que apresenta claro e escuro, revela-se soturna, de uma religiosidade pagã. A pura referência a Deus numa expressão poética não constitui verdadeiramente uma atitude religiosa. Muitas vezes se configura apenas uma figura retórica. A personalidade religiosa, entretanto, é um comportamento mental cuja manifestação cristã, muçulmana, hindu são manifestações do pensamento religioso. A religiosidade é uma expressão muito mais densa, psicológica, comportamental e até mesmo sociológica. O barroquismo de Nauro é diferente da expressão de um San Juan de la Cruz ou mesmo de um Vieira. Este último se acerca de Nauro com sua exuberância retórica, seu desvelamento da sociedade maranhense, a visão do esplendor, o descarnar da miséria humana. O barroquismo de Nauro é multifacetado e profundamente existencial, angustiado em sua expressão máxima, vivendo a dialética entre o Bem e o Mal, no exercício do relato exaustivo das dores do homem.

                O Deus de Nauro deve ser incluído na esfera semântica da degradação. Assim como o corpo é sujo, ausente, perverso e putrefato, o Deus de Nauro é degradado. Deus é perverso, câncer, verbo mudo, perseguidor, em vez de salvar mais afunda o pecador, em lugar de ascender degrada o ser que a ele se dirigiu (“Caí comigo num bueiro / aberto alhures pelas mãos de um Deus / que sequer existe...” [1174]). Deus se mescla à derrota e à perdição da carne (o câncer) e a devassidão do espírito (a miséria de ser).

Deus e verbo se confundem. O verbo é a criação do mundo, de si, da consciência. A mudez é a impossibilidade de criar o mundo. Neste paradoxo se ancora a poesia de Nauro que desconfia de sua verbalização, sem contudo negar sua densa poesia. O poeta tem consciência de que sua expressão poética é forte e pertinente, disso não duvida. Duvida, sim, do verbo divino, do verbo usual e que serve de intercâmbio social, do verbo que nada diz, da verborragia do mundo contemporâneo.

A obra revela uma profunda nadificação do eu, em que o poeta descrê de uma possibilidade de construção de uma imagem de si que não seja cindida. Já não se sabe se eu e mim são propriamente sujeito e receptor da ação, mas ambos se mesclam à gramática da angústia e da dissolução. O mim passa a ser eu e o eu se mostra a múltipla e indistinta percepção fragmentada e não se resume a apenas uma clivagem, mas a difusa emanação do nada que pode muito bem agora ser aprisionado ou colocado na centrifugação do cognoscere. O objeto mim também é emanação de significado e contribui para a fragmentação do eu, de sua nadificação, um nada que não representa vazio, mas o preenchimento de uma totalidade anulada, uma busca em vão, um local de acolhimento do multiforme, dissidentes permanências do conflito existencial.

Aqui tudo se derrui, esgarçam-se memória, corpo, infância, luz ou manhã. O futuro, densa neblina, ofusca e diminui matéria e espírito, já de há muito corroído pelo verme da desesperança, o forte e vertical punhal do niilismo a rasgar a carne inglória de um entusiasmo pela vida que nunca se soergueu porque nunca chegou a ser elevado.

Nauro também trabalha com o dualismo que perpassa a nossa cultura cristã: ser ou não ser. Esse dualismo em Nauro se mostra na concepção bipartida de si, de Deus (amoroso x ominimioso) e da dupla pai e mãe, entre outros confrontos essenciais ou fundadores. Apresenta assim a duplicidade do eu em confronto com a multiplicidade da personalidade que não cabe em apenas duas manifestações da psicologia. Quase sempre há a ideia perturbadora de uma anulação do outro, ou ainda um outro que se anula, ou uma subjetividade que se deixa anular. “Vive um filho a matar seus próprios pais” (1170) mostra o mecanismo de tentativa de sufocar a criação e as forças contrárias que interagem para conter o processo de germinação, seja existencial, seja poético.

Nauro pertence à categoria dos poetas metafísicos como Gregório de Matos, Cruz e Sousa, Augusto dos Anjos e Jorge de Lima. Embora não tenhamos na história crítica de literatura brasileira um movimento com este nome ou ao menos uma linhagem explícita, gostaria de ver Nauro inserido num comportamento estético que alça nossa literatura além do espectro da realidade imediata. Coloquei o título deste artigo de O cárcere das almas, título de poema de Cruz e Souza, justamente para apontar a angústia de estar prisioneiro de si mesmo. Uma poesia que se constrói para se desconstruir, uma poesia ontológica e a impossível fuga de si mesmo que atormenta a persona poética como se outro fora. O inferno não são outros, ou melhor, o inferno são os outros eus que configuram a derrota do sujeito empírico e do sujeito do enunciado poético.

                Eu diria que com este O baldio som de Deus, Nauro Machado constrói um só longo poema, não apenas pelo tom uníssono, mas também pelo conteúdo uniforme. O leitor está diante de um magnífico poema escrito por um dos maiores poetas brasileiros.