sábado, 12 de dezembro de 2015

O passageiro de papel, poema RCF








Sou máquina que cospe eternidade,
as linhas aqui não gemem,
os pontos imaginários não se pegam,
tudo é exatidão de tempo recortado.

Não há antes nem depois da fixa foto,
apenas o gesto do imóvel limite,
a faca do tempo com que me corto,
a vida mesmo kodak que me demite.




( Eterno passageiro, Brasília: Varanda, 2004)

imagem retirada da internet: otto dix

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Monjave, poema RCF





No deserto de Monjave,
há um cemitério de aviões.
Poeira vazio seco vento estéril
Vento dolorosamente seco do deserto.
Vento cassino
vento jogador
roleta de poeiras
vento máquina
que vem de Las Vegas.
Lá estão os aviões,
enfileirados em sua cova
cova de aço, cova de asas
apodrecendo
do verme da oxidação.
No deserto de Monjave,
os aviões têm sua lápide mais comercial:
a marca da empresa.

Em outros desertos,
não se poderia
expor o humano à oxidação,
os mortos não têm corpo de aço,
homens não podem fazer de seu corpo cova,
os vivos não suportariam
conviver com o horror
de ver os mortos como os aviões de Monjave
a lembrar-lhes a inconstância do minuto
e a perenidade do fim.
Os mortos devem ser enterrados
bem enterrados, bem cobertos
para esconder o horror insalubre.
Mortos devem ser enterrados
e, medo maior dos vivos,
para que não tragam
em sua carcaça como os aviões
no corpo sem asas
seu próprio logotipo: o esqueleto.




(do livro A máquina das mãos. Rio: 7Letras, 2009)

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Três breves contos de Cortázar


Blog de pre-vestibular :SÓ PARA AJUDAR O PESSOAL DO PRÉ-VESTIBULAR, CORTÁZAR: Preâmbulo às instruções para dar corda no relógio, em Histórias de cronópios e de famas

 Julio Cortázar em Paris


Preâmbulo às instruções para dar corda no relógio

Pense nisto: quando dão a você de presente um relógio estão dando um pequeno inferno enfeitado, uma corrente de rosas, um calabouço de ar. Não dão somente o relógio, muitas felicidades e esperamos que dure porque é de boa marca, suíço com âncora de rubis; não dão de presente somente esse miúdo quebra-pedras que você atará ao pulso e levará a passear. Dão a você — eles não sabem, o terrível é que não sabem — dão a você um novo pedaço frágil e precário de você mesmo, algo que lhe pertence mas não é seu corpo, que deve ser atado a seu corpo com sua correia como um bracinho desesperado pendurado a seu pulso. Dão a necessidade de dar corda todos os dias, a obrigação de dar-lhe corda para que continue sendo um relógio; dão a obsessão de olhar a hora certa nas vitrines das joalherias, na notícia do rádio, no serviço telefônico. Dão o medo de perdê-lo, de que seja roubado, de que possa cair no chão e se quebrar. Dão sua marca e a certeza de que é uma marca melhor do que as outras, dão o costume de comparar seu relógio aos outros relógios. Não dão um relógio, o presente é você, é a você que oferecem para o aniversário do relógio.


Instruções para dar corda no relógio

Lá no fundo está a morte, mas não tenha medo. Segure o relógio com uma mão, pegue com dois dedos o pino da corda, puxe-o suavemente. Agora se abre outro prazo, as árvores soltam suas folhas, os barcos correm regata, o tempo como um leque vai se enchendo de si mesmo e dele brotam o ar, as brisas da terra, a sombra de uma mulher, o perfume do pão.

Que mais quer, que mais quer? Amarre-o depressa a seu pulso, deixe-o bater em liberdade, imite-o anelante. O medo enferruja as âncoras, cada coisa que pôde ser alcançada e foi esquecida começa a corroer as veias do relógio, gangrenando o frio sangue de seus pequenos rubis. E lá no fundo está a morte se não corremos, e chegamos antes e compreendemos que já não tem importância.


As linhas da mão


De uma carta jogada em cima da mesa sai uma linha que corre pela tábua de pinho e desce por uma perna. Basta olhar bem para descobrir que a linha continua pelo assoalho, sobe pela parede, entra numa lâmina que reproduz um quadro de Boucher, desenha as costas de uma mulher reclinada num divã e afinal foge do quarto pelo teto e desce pelo fio do para-raios até a rua. Ali é difícil segui-la por causa do trânsito, mas prestando atenção a veremos subir pela roda do ônibus estacionado na esquina e que vai até o porto. Lá ela desce pela meia de náilon da passageira mais loura, entra no território hostil das alfândegas, sobe e rasteja e ziguezagueia até o cais principal, e aí (mas é difícil enxergá-la, só os ratos a seguem para subir a bordo) alcança o navio de turbinas sonoras, corre pelas tábuas do convés de primeira classe, passa com dificuldade a escotilha maior, e numa cabine onde um homem triste bebe conhaque e ouve o apito da partida, sobe pela costura da calça, pelo jaleco, desliza até o cotovelo, e com um derradeiro esforço se insere na palma da mão direita, que nesse instante começa a fechar-se sobre a culatra de um revólver.


(in Histórias de cronópios e de famas de JULIO CORTÁZAR, Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1998, trad. De Gloria Rodríguez)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Coração fugitivo, poema RCF






Não sei o que faço
para prender em mim
o coração que me escapa
entre as grades da razão
e se aloja no cérebro
lá onde não há trave ou ferro
que prenda ideia ou sentimento.
Mas sei também que meu coração
é um redemoinho que não pode fugir
de si próprio e por isso gira,
condenado, preso em sua água redonda,
até o cárcere do tempo
abrir a cela das dores
e deixar cativo
o coração fugitivo
que de si não pode fugir.








(do livro Memória dos porcos. Rio, 7Letras, 2012)

Os pés, poema RCF


foto: Jochen Weber




É no bailado que nasce o vinho,
é do xaxado que vem o cacau.
É música dos pés a amassar
a uva e a espalhar o grão grosso do cacau.

O homem ao inverso
vai transmudando a fruta em álcool,
o arrasta-pé do peão
esquenta o cocoa nut
que vai parar na boca americana.

É a inteligência dos pés,
a mestria da dança agrícola,
o ritmo do futebol sem bola,
dança flamenga sem tablado,
que dá o que abaixo do calcanhar de Aquiles
a fortaleza.
É Midas que toca com os pés
e transforma o fruto em alimento
e embriaguez
– ouro do corpo e do espírito.

O bípede pisa antes que
uva ou cacau
o mistério da transformação
da natureza onde ele, homem,
em nada se transmuda,
sendo o resto da vida
bicho e homem com a mesma
tessitura de casca de uva
e a mesma amargura inicial
do cacau.



(Terratreme, 1998)
 

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Voragem, de Tanizaki


“Vim hoje à sua casa com a intenção de lhe contar todo o incidente, sensei, mas...noto que interrompi seu trabalho. Tem certeza de que não se importa? Narrada em detalhes, a história é longa e tomará um bocado do seu tempo... Eu podia até registrar os acontecimentos no papel em forma de romance e submetê-lo em seguida à sua apreciação, soubesse eu ao menos redigir melhor.”



Assim começa o romance Voragem, de Junichiro Tanizaki (1886-1965). Publicado em 1931, ambientado nos anos 20, no Japão, Tanizaki, um dos mestres maiores da literatura japonesa, se aventura em Voragem (Cia. das Letras) como autor de envergadura moderna, a ombrear-se com as temáticas do Ocidente, e ainda mantém o vínculo com a tradição que lhe deu, segundo muitos críticos, seu livro mais importante: A vida secreta do senhor de Musashi. A história de Voragem é contada por um dos personagens que se dirige a um sensei (pessoa com formação superior e que tem aura de orientador), do qual o leitor nada sabe, pois não aparece em cena e serve apenas para que a narração dos fatos aconteça. Um quarteto amoroso se instala, com aventuras homossexuais, tramas e desvios narrativos, surpresas e outros truques que o autor nos brinda. Tanizaki não utiliza técnicas narrativas sofisticadas como seus pares no Ocidente nos anos 30. As surpresas e os turnpoints ocorrem dentro da própria narrativa, linear e tradicional, sendo a trama mesmo que nos surpreende, emociona e nos desconcerta.

Voragem é um romance intimista, embora as ações exteriores das personagens sejam muito presentes. A análise da psicologia dos personagens é desconcertante, pois o que é afirmado logo a frente é desmentido e o leitor fica com a sensação de que, como sua última gelstalt do personagem, ela logo será desfeita ao apresentar um comportamento que o narrador desconhecia.

O narrador do livro, Sonoko, uma dama da classe média japonesa ascendente, casada com um advogado, apaixona-se por outra moça, solteira, de rara beleza. Tem-se a impressão de que a grande vítima de toda a trama é a própria Sonoko que, somente nas páginas finais, apresenta a versão com que findará o livro. Ao negar ao leitor a confissão completa e logo no início, o que desfaria a tensão com que o romance é mantido, a narradora costura toda a história com descrições das ações dos personagens e a análise desconcertante que ela julga ser a definitiva em relação ao quarteto amoroso.

Essa habilidade narrativa não é própria da literatura oriental. Voragem é um romance bem moderno e arrojado para sua época e deve mais às técnicas narrativas do ocidente do que ao paisagismo, tema amoroso, os samurais e outros personagens que ilustram o passado do país insular.

Por fim, uma última observação: o que predomina em Voragem é o espaço interior. Embora haja poucos momentos em que os personagens se aventuram por espaços exteriores como na a fuga de Sonoko pela praia, vestida com maiô à ocidental, a maioria predominante refere-se às ações dentro de casa, na escola de pintura, no hotel de encontros, no escritório de advocacia do marido. Já em A chave, Tanizaki se exercitara nos ambientes interiores e no tema obsessivo do adultério – visto de maneira suave, magoado, doloroso e silencioso. No caso de A chave, eu até tenderia a dizer que o grande espaço romanesco se restringe aos cadernos que servem de diário ao marido e à esposa que estimula o parceiro com a sua traição. (RCF)

imagem retirada da internet

domingo, 6 de dezembro de 2015

Vida de cão, poema RCF





Meu cachorro tem pesadelos
em que deve sonhar que é humano.
Sonhar que tem uma vida de cão,
vai ao trabalho num trânsito de matilha.
Sofre com um chefe em cio
– só pode ser cio as alterações de humor.
Cansa de ser bípede
e ver o mundo a um metro e oitenta.
Apavora-se de viver trancado
na caixa-trabalho, na caixa-carro,
na caixa-banco, na caixa-restaurante.
Deve se perguntar por que não vivo no quintal.
E lamenta-se que tenho rotina
que faz parte do repertório do homem,
mas não do enxoval de coisas
de Deus, que vive solto no mundo,
não tem hora para dormir,
não tem hora para acordar.
Por fim, o cão desperta e suspira:
não é a fera do homem.



(Memória dos Porcos, 2012)