sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

O viúvo 17


 
 
            Onde ficam as minhas portas da percepção? Nos olhos? Então se fecho os olhos, fecho as minhas portas da percepção? Não posso perceber as coisas de olhos fechados? E mais ainda: a percepção é visual? Tenho que ver as coisas para entendê-las? Onde está o poder da minha abstração? As coisas não existem como conceito, tenho de tocá-las? E se as portas da minha percepção estiverem no tato? Ou em órgão interno? Não precisarei ver as coisas para tê-las comigo. As coisas existem no mundo. Para obtê-las, para ter a percepção delas, não necessito de um olhar.
Essas considerações vieram a partir da minha leitura de As portas da percepção, de Huxley. Mas não li As portas da percepção há pouco tempo. Li já há alguns anos. E minha parceira perceptiva foi D. Benedita.
E voltaram as questões depois de um demorado desmaio. E uma dolorosa recuperação. Uma lenta, paulatina, arrastada e doída volta à realidade ou volta à percepção das coisas. Minha percepção não está nos olhos, embora Huxley fale de olhar para as coisas com novos olhos. Todos os livros de auto-ajuda falam em olhar as coisas com novos olhos. Parece anúncio de ótica. Ou coisa tibetana. Há algo de tibetano no livro de Huxley. Ele estava entusiasmado com a mescalina. Fizera experiências assistido por médicos, fazia aquelas maluquices como se já não fosse suficiente ter escrito o que tinha escrito. E não era só ele, porque a época pedia aquela nova sensibilidade e o relato com experiências com drogas já vinha desde o século de De Quincey e de Baudelaire e os artistas buscavam inusitadas formas de apreensão da realidade a fim de ficarem geniais e descobrirem zonas nãotocadasdamente.
Há algo de tibetano em D. Benedita. Mas ela desconhece que sua mente virgem, ainda não desbravada, só pode alcançar o conhecimento pleno se ela modificar-se e abrir suas portas da percepção. Onde estariam as portas da percepção de D. Benedita? Nos olhos fracos e míopes? nas pernas finas e bambas, no sexo desusado e desbeiçado pelo tempo?
O inglês relatava suas experiências alucinógenas com mescalina e propunha, entre inúmeras outras formas de experimentar o inusitado, que nos deitássemos no chão da sala. Tentei deitar no chão da sala para ver os móveis de outra perspectiva. Não descobri nada novo, nada me foi revelado, a sala aqui tomava outra figuração, mas não apresentava nenhuma descoberta espantosa.
Os objetos pequenos se escondem debaixo do sofá. Eu podia perder outros objetos pequenos debaixo do sofá: a pequena preguiça, o pequeno tédio, o pequeno orgulho. Não sou bobo de acreditar que Huxley falava de modo literal. Queria apenas que a gente visse o mundo de maneira distinta e não a rotineira e habitual.
Também meus objetos pequenos – oh eu não falava de modo literal. O orgulho mesmo é tão pouco, ínfimo, tamanho de botão que não sei se o perdi ou mesmo nunca o tive.
Tornei a deitar no chão da sala. Ali estava eu, estatelado, braços abertos, uma estrela humana, sem brilho, o teto sobre meu espanto. O espanto é a palavra de que mais gosto, ou melhor, o espanto é a matéria do incômodo e do meu descobrimento. Se algo não passa pelo meu espanto, não me afeta. O pasmo é que faz existir, o pasmo me dá sentido e conhecimento da realidade.
Em vez de tomar mescalina, eu tomo pasmo.
Havia poeira nos móveis, uma cadeira estava com o pé descascado e por aí vai. Não era isso que Huxley chamava de as portas da percepção.
Eu não ia reclamar com D. Benedita, dizer, olhe, deitei aqui pra ver o mundo de forma diferente e descobri que a senhora varre pelos caminhos, não limpa direito os móveis ou coisa parecida. Era uma mistura muito exótica e incompatível entre Huxley e sua mescalina e D. Benedita e seu pano úmido com lustra-móveis.
Nada de nova sensibilidade. Não houve pasmo, não houve descobrimento. De repente tudo sumiu. Anoiteceu na minha porta. Desmaiei. Quando abri os olhos, apareceu o carão velho e vincado de rugas de D. Benedita.
O que faz D. Benedita nas portas da minha percepção?
 
 
 
(do livro O viúvo. Brasília: LGE, 2005)
 
 

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Lição de anatomia, poema RCF





Sou coisa
Algo assemelhado a
lápis ou vela
que para existir se consome
esgrimindo garatujas ou se queimando
no fulgor das palavras ou na luz suicida
que ilumina enquanto se imola.

O bumbo dos solitários é o mesmo dos eufóricos
geme a mesma voz surda
no compasso do tempo das matrizes.

A tarde
com seu invólucro de nuvens
conspira com vozes na liturgia dos alvoroços.

A vida é um erro:
alguns chegam a ser sentenciados
a oitenta anos de vida.



(do livro Andarilho, Rio, 7Letras, 2000)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Oftalmologia, poema RCF




Quando estou cheio de cimento
das cidades
em meus olhos crescem grama
por isso talvez eles sejam verdes.

As pupilas têm o senhor reitor
das jabuticabeiras
e quando é inverno neva histórias
nos afluentes das íris.


(imagem internet: dali shirley temple, 1939)

domingo, 20 de dezembro de 2015

Andy Warhol, poema RCF





Tu, Andy,
novayorkino polinésio,
Gauguin do Soho,
clichê de tua cabeleira pintada,
paixão em negativo colorido,
na solidão das séries
o tutti-fruti dos desvarios.


(do livro Andarilho, 7Letras, 2000)



imagem retirada da internet: andy wharol