sábado, 9 de janeiro de 2016

Poema para Lêdo Ivo, inédito RCF

Lêdo Ivo foi eleito em 1986 para ocupar a cadeira número 10 da ABL

Lêdo, morreste em tua pátria.
Agora entendo por que os de língua espanhola
te conhecem tão bem e amam teus versos.
Se tens muito de Alagoas,
muito de teu verso sua Espanha.
Em teus versos espreita
uma alagoas espanhola,
uma alagoas de dor náutica
de quem em terra
se sertaneja, em terra
canta Sevilha,
em terra e mar nordestinos,
a claridade do teu curral de peixes,
expostos em teus versos
como um delírio de Dalí,
uma flor gitana de Lorca:
os ciganos nordestinos
gemem seu canto a palo seco
do teu amigo João,
que ambos conheceram
o que é viver exilado do mar
que se traz dentro da gente,
um mar gemibundo,
um mar desabrido e enérgico,
um mar cardíaco,
um mar cheio de escadas
que quanto mais se sobe
nunca se alcança
como na cascata de Escher.
Por fim te digo que morreste
em tua pátria que, me perdoes,
não é alagoana ou sevilhana,
mas a pátria das palavras,
a pátria dos teus versos,
a pátria de tua língua
que em toda tua vida
te banhaste em seco
e para sempre,
um mar de ruídos,
um mar de ondas sonoras,
um mar de poesia
que, ora em maré vazante,
finge a imitação da vida
que cada manhã avança e recua,
como um poema encruado
que na mente não cessa
e segue uma e outra vez soando além do sono.



23.12.2012



sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Um homem é muito pouco, Depoimento

(Publicado na Revista Brasileira, fase VII, Julho-Agosto-Setembro 2011, nº 68, da Academia Brasileira de Letras, pgs. 105-110)

O escritor procura os temas ou os temas buscam o autor? O mais certo é pensar que os temas nos procuram, o que não quer dizer que somos passivos ou apenas recipiente onde se acumulam guardados. Embora seja mais provável que os temas nasçam ainda em forma embrionária e se revelem remanescentes de experiências passadas – e não diria reprimidas, ao jugo freudiano, mas quando ocorreram não tinham a dimensão que passarão a ter no futuro – e que mais tarde retornem e nos forcem a colocá-las no papel. Nunca quis escrever sobre a ditadura militar. Penso, desde jovem, que o realismo pertencia ao século XIX e que lá estava bem posto como proposta estética de vanguarda em sua época.

O realismo do século XIX foi uma reação à literatura e arte anterior e fruto sempre do meio sócio-cultural: no plano das ideias até o marxismo pode ser inserido no positivismo, concepção de progresso e a visão de um futuro racional, duradouro e saneador. Dentro desta perspectiva, cabia também ao romance ser tão “científico” quanto às ideias progressistas e, contraditoriamente, messiânicas. Contudo, à parte a historicidade de existir um estilo em uma época – segunda metade do século XIX – que se apresentava como vanguarda, o realismo, já foi dito, sempre existiu na literatura – do mesmo modo que o fantástico – e não desaparecerá.

Certo de que não queria fazer um romance de denúncia, mais apropriado para os anos setenta do século passado, em plena luta e dura repressão, também não queria que meus personagens vagassem numa repressão mais perversa: a da estética, ou seja, que se expressassem de maneira absolutamente realista. Escrevo absolutamente porque o romance Um homem é muito pouco é realista. Realista à sua maneira.

Um homem é muito pouco está dividido em quatro grandes partes. Cada parte traz um protagonista e um personagem os une. Duas partes são narradas em primeira pessoa e as outras duas em terceira pessoa. O número quatro já me fascinara antes. Num romance anterior, de 1997, Concerto para flauta e martelo já usara as mesmas quatro vozes, mas numa dinâmica e disposição até mesmo tipográfica diferentes. O romance tem preponderantemente como cenário também quatro espaços urbanos: Praça XI, Copacabana, Grajaú e Ipanema. A época: os anos 70.

Moveu-me também a ideia de que deveria criar um grande painel. Se logrei, não sei. Ambicionei personagens de várias gerações, em conflitos constantes e deambulando em meio a uma psicologia adensada, mas sem que fosse o foco primordial. O embate entre a individualidade e a amplitude do social agindo sobre comportamentos e atitudes de pessoas que não estavam engajadas em movimento político também me atraía. Havia uma atmosfera de medo e apreensão, de silêncio e reserva, mesmo entre aqueles que não queriam “envolver-se em política”. Mesmo entre os chamados alienados, tinha-se a certeza que a atividade política só deveria ser inócua se fosse a favor do governo e que a participação em algum movimento social representava risco de morte.

É desconcertante ver que, como num processo de desvelamento, algumas ideias emergiram de um recanto obscuro que insidiosamente insistem em metamoforsear-se em personagem, cena, psicologia ou até mesmo trama que antes desconhecíamos albergar dentro de nós. Há personagens que se desenvolvem mais porque nós os conhecemos e eles se oferecem à narrativa como já estivessem prontos para serem usados e outros que a racionalidade preparou para agir e atuar às vezes até com certo protagonismo e se abastardam, diminuem, aos poucos ficam pelos cantos e mais à frente esfumam-se. Agrada-me ser traído pela minha razão e deixar que outro tipo de “razão” se faça presente e assuma seu papel na narrativa.

No caso de Um homem é muito pouco, na terceira parte, por exemplo, eu não sabia nada sobre a família dos Arlindos. A história toda foi se construindo aos poucos, jorrando fácil, a cada dia exigindo de mim que desse continuidade à saga familiar dos joalheiros e homens de alma simples que vivem uma intrincada trama familiar e que, ao mesmo tempo, serve de explicação para várias ações e diversos comportamentos de personagens das outras partes.

No livro de Freud sobre Gradiva, de Jensen, o austríaco analisa os personagens como se fossem seres de carne e osso e seus sonhos e delírios manifestações do inconsciente. Sem tomar partido da chamada crítica psicanalítica, nem também condenar psicanalisar personagem de papel, o que me chamou atenção é que os mecanismos de interpretação dos sonhos, de condensação e de entendimento dos traumas reprimidos, mostram que Freud pode não ser bom crítico literário ou que sua prática analítica enfraquece ao estudar personagens e não seres reais, mas que alguns procedimentos de aproximação ao texto são comuns à psicanálise e à crítica literária. Condensação e deslocamento, conceitos que ele usou em seu livro O chiste e a relação com o inconsciente, revelam como se elabora o mecanismo, diria eu, até do processo criativo.

Grosso modo, haveria dois tipos de escritores. Os que, como Autran Dourado e García Márquez, que relatam que só se sentam para escrever quando têm a história pronta e aqueles que são guiados pelo instinto linguístico e fabulatório como Clarice Lispector e Córtazar, este último depondo que desconhecia completamente a história de O jogo da amarelinha. Como explicar então que aqueles que já têm a história pronta antes de escrever o livro possam ser tomados pelo inconsciente e pelo deslocamento interpretativo? Diria que mesmo esses, se escolheram determinados temas, é porque aqueles temas, tramas e personagens lhe atraíram pelo mesmo processo dos instintivos. Ora, se García Marquez observa que Cem anos de solidão é a história dos pais e que O amor no tempo do cólera é a história de amor dos avós, nada se modifica, pois se foi seduzido pelo tema é porque significativamente ele aponta para mecanismos psíquicos que operam no processo ficcional vindo de desvios, vícios, ansiedades, traumas, angústias e outras sensações e sintomas psicológicos que foram reprimidos ou deslocados.

O personagem do Capitão Vaz, embora presente em todos os episódios, é um personagem secundaríssimo. Fascina-me mais a distorcida realidade do cozinheiro de marinha Clemente que descobre estar embarcado num barco bem maior que os navios em que se enfurnou: o barco da vida. Ou me atraiu a mania persecutória do personagem Pedro, da segunda parte, que não se sabe se realmente é perseguido ou é apenas fruto de sua paranoia, sua relação com o angolano dono de bar que assassinou em Luanda sua mucama e seu relacionamento conflituoso e existencial com a poeta Alice. Seduziu-me também criar uma família de relojoeiros, desde o avô até o neto, já não exercendo a profissão, mais vivendo o mundo moderno do rock. E por fim a vizinhança traumatizada, o casal que recebe as starlets do cinema novo, o jornalista que vê no restaurante o seu algoz, o síndico que se imola em nome de um amor desastroso e o primo do narrador que vive numa doce prisão na casa de dois solteirões que o acolhem como quem exercita um hobby.

O deambular dos personagens também pode ser citado como uma característica buscada no romance. Nisso me perseguia a frase de Shakespeare que Faulkner usou de epígrafe para O som e a fúria: “Life is a story told by a clown, full of sound and fury, means nothing.” Esta frase sempre me impressionou. Como era possível que a vida não tivesse sentido? Talvez o ato de escrever viesse justamente para dar sentido à minha vida. Lembro que no colégio fiz uma peça de teatro, fui ator apagado, mas aquela era primeira manifestação de que algo na vida me desagradava e poder suportá-la representava buscar uma maneira de mostrar meu incômodo estar no mundo. Os personagens de Um homem é muito pouco parecem também buscar, em sua ânsia ambulatória, um sentido no romance.

Epopéia de um mundo moderno, o romance está pronto para exprimir o inconsciente político coletivo, no dizer de Fredric Jameson. O herói em conflito com a sociedade e, acrescentaria, consigo. O grande drama da pós-modernidade não é apenas a angústia de uma sociedade pragmática que exclui aqueles que não se adaptam a ela ou não se deixam subjugar a uma existência passiva num ambiente de pressão e confronto. O grande drama parece ser a incompatibilidade do sujeito fragmentado e múltiplo, em confronto consigo mesmo, sendo ele o algoz e a vítima. Deste ponto de vista, Um homem é muito pouco é uma tentativa de retratar o refúgio último do homem não mais como refúgio da individualidade, mas como a individualidade cindida.

Há determinados temas que me perseguem e outros aos quais persigo. O ambiente dos anos 70 do século passado era um desses temas que eu procurava escrever sobre eles e não conseguia. Houve necessidade de um distanciamento temporal – e penso até que espacial – a fim de que pudesse retornar a ele de forma que não afetasse o ficcional. Vivi nove anos na Venezuela, dirigindo o Centro de Estudos Brasileiros, ligado à Embaixada do Brasil. Tentei várias vezes ambientar histórias e tramas em Caracas e tudo me soou falso. Escreverei um dia algo que tenha como cenário a cidade de Caracas? Todos nós sabemos que uma ambiência é mais que um cenário. Ele também compõe a trama e, em certos momentos, até mesmo protagoniza a história. Por fim pude voltar aos anos 70 e escrever sobre ele, colocar meus personagens em espaços conhecidos e vivenciados.

Certa vez numa entrevista a poeta Angélica Torres observou que meus personagens muitas vezes são pessoas que sofrem certa marginalidade em nome de valores éticos. Ela se referia ao meu livro de contos Manual de tortura, em que a maioria dos personagens é posta à margem da sociedade sem necessariamente serem marginais, transgressores ou bandidos. Eram personagens de vida pequena, refugos humanos, como chamou o crítico José Neres, sofredores da discriminação ou isolados por opção embora na maioria dos casos o que ocorria era sucumbir à pressão social. Tentei transladar essas opiniões sobre meu único livrinho de contos, depois de concluído o romance, para os personagens de Um homem é muito pouco e percebo que reproduzi alguns comportamentos que já lá estavam latentes no livro de narrativas curtas. Estaria eu procedendo a um comportamento de composição do personagem sem haver me dado conta?

Escrevi Um homem é muito pouco entre exatamente 31 de maio de 2008 a 14 de abril de 2009, incluindo aí quinze agoniados dias que a família decidiu viajar para Nova York. Eu tinha medo de perder o ritmo e não conseguir mais escrever da mesma maneira que vinha escrevendo. Uma página e meia por dia, em espaço um, que terminava virando uma só página. A parte escrita fora foi justamente do convívio dos primos Adriano e Sérgio e a morte deste na terceira parte do romance. Escrevi loucamente no voo de ida, com parada em Maiquetia, na Venezuela, para pegar outro voo e a viagem sair mais em conta. Era justamente a passagem de ano. Escrevi no voo para a Venezuela, escrevi em Maiquetia e escrevi no voo para Nova York. Eu precisava mostrar a mim mesmo que tudo estava bem e que não tinha perdido o pulso da história nem o ritmo do romance.


imagem retirada da internet: francis bacon, foto josé varella

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Largo parto, Memória dos Porcos


rodney smith
 

 
Tudo o que pego parto
mesmo quando parto me pego
sendo outro que eu mesmo parto.

Por onde ando largo meus passos,
por onde passo ando ao largo,
por largo tempo meus passos não creem
que vão dar no Largo do cemitério
onde um dia largo meu último passo.




 

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

O lugar onde não estou, poema RCF








Longo como vigiar as horas.
O caminho com sua
barba comprida de capim.
Muitas vezes meu corpo
não me é contemporâneo.
A que horas acordam
as plantas?
As plantas dormem
em pé como cavalos.
Tenho apenas
o artesanato dos dias.
E, convenhamos, é muito pouco.
Prefiro as belezas subterrâneas
que estão na arqueologia da pele.
A despensa cheia de fome enlatada.
Meu estoque de fugas está no fim.


(do livro O difícil exercício das cinzas.  Rio, 7Letras, 2014)

O animal barbado, poema RCF




Este animal que se rasura
como quem raspa a orelha do porco
para a feijoada de fim de semana,
este animal feroz e matutino,
como um auto-retrato,
com seus olhos 3 x 4 ,
observa a paisagem da janela
e do outro lado do vidro
está ele mesmo,
é ele a paisagem que envelhece
cada vez que a frequenta.
Este homem ao espelho,
gilete de martírios e angústias violáceas,
barbeia seu minuto e sua morte,
exasperada e afiada servidão,
a consciência espumosa da pequena guilhotina.




(do livro Eterno passageiro. Brasília: Varanda, 2004)


(imagem internet: francis bacon)
 

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Um homem é muito pouco, por Lourival Serejo

O ROMANCE DE RONALDO
Jornal "O Estado do Maranhão"




Acabei de ler o último romance de Ronaldo Costa Fernandes, com este título instigante: “Um homem é muito pouco” (São Paulo: Nankin, 2010). Antes, já havia lido “O viúvo” (Brasília: LGE, 2005), um romance muito elogiado pela crítica, mas cuja leitura não me causou o impacto desta obra ora comentada. Aliás, elogios o autor já vem recebendo há muito tempo, inclusive de forma objetiva, ao vencer vários concursos literários, como foi o caso do almejado prêmio “Casa de las Américas”, pelo romance “O morto solidário”, que ainda não li.
O desafio da leitura de “Um homem é muito pouco” começa pelo número de páginas: 487. Para a pressa em que vivemos, é um número considerado elevado. Só o prestígio do autor pode tornar esse detalhe irrelevante, como é o caso de Ronaldo. À minha frente estou com o propósito de ler o “2666”, de Roberto Bolaño, com 852 páginas. Por enquanto estou marcando corrida.
O romance de Ronaldo Costa Fernandes compõe-se de quatro partes, com uma sucessão de histórias distintas que se interligam em alguns pontos. Aliás, esse entrelaçamento de destinos é a tônica notável do romance. Adianto que a terceira parte arrebatou com mais intensidade minha preferência.
O leitor deve saber que vai encontrar um romance moderno e maduro, que não segue o clássico encadeamento de começo, meio e fim, com os personagens permanentes que desembocam num final esperado no círculo de suas expectativas.
Milan Kundera, em seu livro “A arte do romance”, lembra que o romance não examina a realidade, mas a existência, como um campo das possibilidades humanas. A meu ver é este o catálogo que Ronaldo oferece ao tratar da história dos personagens que desfilam no romance. São as possibilidades que surgem em razão das ações do homem, das relações familiares conflituosas, dos anseios e sonhos recalcados, dos condicionamentos e, até mesmo, do absurdo do cotidiano.
Trata-se de um romance escrito por um professor de literatura, pleno de todas as técnicas da escrita, fatores que poderiam retirar a leveza do estilo e provocar uma reação negativa no leitor. Mas nada disso ocorre, pois o estilo é leve e me fez lembrar alguma coisa como mastigação. O autor fica remoendo o fato, indo e vindo, repetindo, fixando, o que torna agradável a leitura e faz o leitor viver a realidade que a ficção pretende criar. São frequentes passagens como esta: “Nunca vi Alice tão solar, nítida e límpida. Eu via Alice através de um olho só. Era o olho que com lente de aumento se avalia a joia. Que joia era Alice? Alice não era joia alguma, pois joia é um fetiche da mercadoria como ela mesma disse. Alice era submarina. Gosta das mulheres submarinas. Nossa conversa era toda debaixo d´água. Eu abria a boca e da boca não saía nem um som. Ela abria a boca e da boca de Alice não saía nenhum som. Nós só precisávamos das borbulhas para nos entender.”
Apesar de Ronaldo ser maranhense de São Luís e morar em Brasília, as histórias que tecem o romance se passam no Rio de Janeiro, cidade que, pelas descrições minuciosas dos lugares, deve fazer parte, também, da vida do autor como fazia parte da vida do narrador da segunda parte do romance: “Não posso fugir do Rio de Janeiro porque o Rio de Janeiro está em mim como fígado ou rim. Não posso viver sem o fígado, não posso viver sem o rim”.
Como já disse anteriormente “Um homem é muito pouco” revela a maturidade de um escritor que não faz romance pela primeira vez, que já teve testada e aprovada sua competência como romancista.
Quanto ao título do livro, se o leitor não encontrar a resposta após o término das suas 487 páginas, só perguntando ao autor que detém a chave dessa inspiração. Umberto Eco, ao explicar as origens do processo de criação de “O nome da Rosa” disse que um título deve confundir ideias, nunca discipliná-las.
Com certeza posso dizer que tantas páginas ainda me deixaram a sensação de que foram muito poucas para o que ainda se desejava saber sobre certos personagens.

imagem retirada da internet: magritte

domingo, 3 de janeiro de 2016

Aos dezoito anos, poema RCF

radu belcin


Aos dezoito anos,
havia mais noite em meus dias,
aos dezoito, tropicalizei-me,
aos dezoito, fui recruta e recrutei,
aos dezoito, rock enrolei-me,
alberguei-me nas esquinas, onde a
cidade é mais cidade,
aos dezoito, pari desertos,
a periferia virou centro,
aos dezoito anos de idade,
vendi um jipe e comprei
um sol a pino para
aparafusar minha velocidade,
aos dezoito anos,
desde o começo namorei o fim,
li Whitman e Álvaro de Campos
e acreditei que uma máquina
triturava minhas manhãs,
as rodas dentadas na maçã
e o coração flamejante de coca-cola,
o sangue a 24 quadros por minuto,
uma roupa brilhante de futuro
e não perdi a ternura,
faca que se amola
sem nunca chegar a ter gume,
aos dezoito anos,
mimeografei meus dedos
e encarcerei-me na liberdade.



(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)