domingo, 3 de janeiro de 2016

Aos dezoito anos, poema RCF

radu belcin


Aos dezoito anos,
havia mais noite em meus dias,
aos dezoito, tropicalizei-me,
aos dezoito, fui recruta e recrutei,
aos dezoito, rock enrolei-me,
alberguei-me nas esquinas, onde a
cidade é mais cidade,
aos dezoito, pari desertos,
a periferia virou centro,
aos dezoito anos de idade,
vendi um jipe e comprei
um sol a pino para
aparafusar minha velocidade,
aos dezoito anos,
desde o começo namorei o fim,
li Whitman e Álvaro de Campos
e acreditei que uma máquina
triturava minhas manhãs,
as rodas dentadas na maçã
e o coração flamejante de coca-cola,
o sangue a 24 quadros por minuto,
uma roupa brilhante de futuro
e não perdi a ternura,
faca que se amola
sem nunca chegar a ter gume,
aos dezoito anos,
mimeografei meus dedos
e encarcerei-me na liberdade.



(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)