sábado, 16 de janeiro de 2016

Sonho de uma noite de verão, conto RCF




(Publicado no jornal Correio Braziliense)

Estou na Rodoviária. A fila anda. Entro no ônibus. Não pego lugar para sentar. Mas estou acostumado a viver na vertical. Minha casa mesmo é tão pequena que só não durmo na vertical porque o homem foi feito para morrer a cada noite. E a gente não pode morrer e ser enterrado em pé. Vivo tanto de pé que, quando morrer, quem sabe, serei enterrado em pé. Há tanta gente no mundo que um dia ainda existirão os cemitérios para defuntos em pé.

O ônibus parte. Chega perto do Zoológico, ele desaparece.

No outro dia, monto minha barraca. Chamo a barraca de loja. Os camelôs formam um mercado. O mercado dos camelôs tem o alto-falante de suas vozes, as vitrines horizontais, o caixa sentado no banquinho e a loja de um só funcionário. Vendo de tudo: relógio, caneta, cd, dvd, mp3, e todo e qualquer objeto que fascina o cliente por ser pequeno e representar o mundo grande.

Escurece. Fecho minha loja. Vou até a Rodoviária. Tomo o ônibus. Desta vez passo o Zoológico. No Núcleo Bandeirantes, quase chegando nos motéis, o ônibus desaparece novamente.

Mais outro dia volto para montar minha loja de um só funcionário que sou eu mesmo. Sou eu mesmo, sim, senhor. Tenho um caixa na cabeça. Três por dois, desconto de dez ou vinte por cento, se levar cinco ganha brinde. No Setor Comercial Sul bate o coração de Brasília. Meu vizinho acha que o coração de Brasília se chama Rodoviária. É bem possível que uma cidade tenha dois corações. Uma cidade não é pessoa. Uma cidade tem vários corações. Mas não posso me perder do meu assunto. Então chega a hora de fechar minha loja, deixar as mercadorias com o vigilante. Dou a ele grana pra guardar meus badulaques no edifício onde é vigia.

Pego o ônibus. O bicho desce pela Asa Sul, Zoológico, Núcleo Bandeirante, e, quando vai pegar o Riacho Fundo, desaparece.

Volto no outro dia para o meu ponto. O mercado está agitado. Agitado porque alguém pegou a bolsa de uma madame, saiu correndo, veio polícia. Não gosto da palavra madame. Meu vizinho que já foi poeta e agora é só bêbado diz que madame é coisa do passado. Agora não há mais madame. Madame é coisa tão antiga quanto as perucas empoadas dos nobres do passado. Eu também tenho meu lustre. Eu escrevi esta frase “Eu também tenho o meu lustre” para mostrar que eu também tenho o meu lustre.

Eu estudei na vida. Não sei para que serve o estudo. O estudo só serve para embebedar meu vizinho. Se meu vizinho não soubesse tanto ele não beberia. Eu não bebo. Outra vez pego o ônibus na Rodoviária. Ele vai pela Asa Sul, toma a direção do Zoológico, Núcleo Bandeirante, Riacho Fundo, e, na entrada para Taguatinga Sul, o ônibus desaparece.

Mais outro dia no mercado de concreto. Anuncio com vigor os produtos. Tenho boa venda. Sinto leve torpor. Há bastante umidade por causa da chuva. Estamos em época de chuva. Durante a seca, o mercado se transforma em mercado persa no deserto. O asfalto fica a areia mais quente que conheço. Areia compacta, dura, escura. O Setor Comercial Sul se apresenta como deserto negro, agudo e vertical. O mundo vertical em que vivo. Até mesmo o sexo é vertical. Há uma mendiga mais limpinha. Quando quero sexo vertical, não vou pra casa antes do escurecer.

Certa vez o parceiro dela nos surpreendeu atrás da banca de revistas. Puxou estilete. Fez o gesto de que ia me degolar. Depois caiu de costas de tão bêbado. Os meninos cheiram cola. Os pivetes já levaram muita coisa minha. Pobre não devia roubar pobre. Se ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão, pobre que rouba pobre deveria ter cem anos de prisão. Os ônibus são obsessivos. Os ônibus têm a mesma rota. Meu drama se resume a não conseguir chegar em casa.

A Rodoviária bem que poderia também ser mercado. Mercado humano. Os homens e as mulheres sentem o cheiro de cansaço e lascívia. Os ônibus estão carregados de lascívia. A lascívia nos ônibus ocupa muito espaço.

Meu ônibus avança pela Asa Sul.

Dessa vez, creio, estou confiante, chegarei a meu destino. Meu vizinho não gosta que se fale a palavra destino. Ela lembra que em inglês há duas palavras para destino. Destiny e destination. Diabo de homem instruído. Que faz enfiado num buraco? O primeiro é o destino da pessoa. O segundo é o destino da pessoa. Meu vizinho explica. O primeiro é a vida que a gente tem, o fado, o futuro, a fortuna. O segundo é o lugar para aonde se vai. Não se pode confundir o lugar para aonde se vai com o destino maior da gente. O destino da gente está escrito na cabeça da gente. O lugar para aonde a gente vai está escrito na parte dianteira do ônibus.

Meu vizinho foi professor da Fundação. Hoje vive largado dos estudos. Ele diz que os estudos é que o largaram. Ele tenta ler, mas não consegue entender mais nada. A pinga se mostra máquina de fazer velho. Uma máquina de fazer velho gente nova. Meu vizinho é um velho novo. Ou um novo velho. Novelho, meu vizinho. Velhovo, meu vizinho. Ele não se importa. Ele gosta que eu brinque com as palavras. Meu vizinho não tem mais nada na vida além das palavras. Quando a última palavra se for, ele morrerá.

Faço o mesmo percurso, até que enfim chego no meu ponto, desço e aí tudo desaparece. Estrada, ônibus, parada.

No outro dia volto para minha loja. Minha loja não paga imposto. O único imposto que minha loja paga é pra vida. A vida cobra um imposto danado da gente. Vida sovina. A vida quer cada vez mais. Hoje o dia está chuvoso e quando o dia está chuvoso vendo bem guarda-chuva. Tudo barato. Minha vida barata. Como marmita com ovo, lingüiça e arroz. Eu mesmo preparei. Dei um pouco pro meu vizinho. O dia passa rápido. Faturei bastante. Meu destino não sei qual é, mas minha destinação não é mais em direção a Samambaia que vou. Quero mudar de vida.

O ônibus chega. Asa Sul, Zoológico, Núcleo Bandeirantes, Riacho Fundo, Samambaia e por aí vai. Tenho medo de que tudo desapareça de novo.

Estou no sonho de um sujeito que acorda sempre que vai chegar em casa. Ela acorda porque não quer chegar em casa. Não quer reconhecer o pesadelo que é trabalhar de camelô no Setor Comercial Sul, pegar o ônibus suado, viver em pé o dia e a noite, para morar num barraco de invasão.

Estou cansado de morar nos sonhos de pobre. Bem que eu podia amanhã, em vez de morar num sonho onde no final o ônibus desaparece, eu bem que poderia morar num lugar de bacana, num lugar que o sujeito sonhasse que pegava o carro de luxo, tomava a direção do Eixão e fosse até a mansão dele no Lago Norte. E lá ele podia desaparecer com a sogra com Alzheimer, a mulher que embagulhou, o filho porra-louca. E no outro dia eu podia estar no sonho dele e começar tudo de novo até ele chegar em casa no Lago Norte, colocar uma dose de uísque no copo e tudo desaparecer.

O que tenho que fazer para morar no sonho de outro homem? O que tenho de fazer para sair da miséria que é ser apenas morador no sonho de um sujeito que não quer dormir para não sonhar que é ele mesmo?

(imagem retirada da internet: João Câmara)

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Pessoa é mais amado no Brasil, Inês Pedrosa

A escritora Inês Pedrosa.
 
 
A diretora da Casa Fernando Pessoa, Inês Pedrosa, afirmou hoje, dia em que se assinalam 78 anos desde a morte do poeta, que Pessoa tem mais força no Brasil do que em qualquer outro país, durante a estada em São Paulo para participar num debate sobre escrita.

"Fernando Pessoa é mais amado no Brasil do que em qualquer outro lugar do mundo, inclusive Portugal", disse Pedrosa à agência Lusa, por telefone.
De acordo com a escritora, não há dados estatísticos para apoiar esta opinião, mas a experiência à frente da Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, mostrou que mais de 60 por cento dos visitantes são brasileiros.
Outros sinais do interesse dos brasileiros pelo poeta, são as ligações recebidas do Brasil pela Casa a cada dois anos, de pessoas que agendam as férias para o período do congresso sobre Fernando Pessoa, afirmou Pedrosa.
Além disso, há constantes contactos de companhias brasileiras de teatro que realizam adaptações sobre a obra do poeta, disse a escritora.
"Em Portugal, sinto que a sombra de Pessoa é tão forte que alguns poetas querem afastá-la, percebendo que ela os obscurece. Em 1985, na época do 50.º aniversário do morte do poeta, surgiu até o bordão 'tanto Pessoa já enjoa', o que não aconteceria no Brasil", afirmou.


(fonte: Diário de Notícias)

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Beira-mar, poema RCF








O menino olha extasiado a maré encolher-se.
O que era água agora é lamaçal cinza
e os homens bonecos de barro sem pernas
caranguejam atrás de sua imagem e semelhança
– e alguma lata de conserva
que se finge de baiacu de alumínio.
O menino vê o Rio Anil ser engolido pela maré.
Para onde foi tanta água?
O menino também é uma maré vazia perplexidade
vento soprando mangue maré vagueza.
O mangue esponja em seu bolo fecal.
Tarde, tarde, o menino olha a tarde,
o fenômeno é reversível,
maré retrátil,
ele sabe que, como a vida,
amanhã voltará a acontecer.



(do livro Eterno passageiro. Brasília: Varanda, 2004)

 

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

O incêndio, conto RCF


As crianças nasceram grandes. Ficam na sala, olhares fixos, braços pendidos. As crianças falam dentro da minha cabeça. Às vezes ouço elas mesmo no trabalho.

Não podia ter um trabalho mais ordinário. Fui gari, com emprego garantido por concurso, mas fui expulso por roubo. Não, não fui eu quem roubou. Sumiram do depósito algumas peças, principalmente vassouras. Havia um desgraçado qualquer que roubava vassouras para revender. Não sei como me envolveram no caso, de repente estava no olho da rua.

Agora estou nessa firma de limpeza. Me mandaram para cá. Não reclamo, pobre não pode reclamar, se tivessem mandado pro inferno, ia deixar o inferno limpinho. Aqui não é o inferno, mas bem que tem ligação com ele. Meu trabalho aqui é limpar o necrotério. A parte de cima, que tem escritório e recepção, é moleza. O duro mesmo é limpar as salas de autópsia. Varrer do chão o resto dos cadáveres. É ver os bichos lá estendidos. Recolher os sacos de lixo com bando de fígado, vesícula, pedaço de coração, linha pra costurar defunto, o diabo a quatro num lixo que vai ser queimado. A gente usa luva. Mas mesmo usando luva a impressão que tenho é que toco naquelas partes mortas e que aquelas partes mortas me infeccionam. Tem gente que morre de tiro, mas tem morto que está ali porque desconfiam de doença contagiosa. Um dos médicos já morreu porque tocou no cadáver sem luva, adoeceu, quando a gente deu conta quem estava na mesa era o médico que não fazia uma semana estava em pé, diante de outro cadáver, na mesma mesa em que agora estava estendido.

A gente já se acostumou a ver defunto. A gente se acostuma com tudo. Moro na periferia, num bairro que não pode ser chamado de bairro, é uma invasão. Tem um bando de malandro por lá. Eu quase virava malandro. A vida te leva a ser bandido. Não tenho raiva de bandido, eu até que entendo eles. Pois bem, agora não há mais surpresa e medo. Mas a primeira vez que vi um bandido lá da invasão em cima da mesa do necrotério, meu coração disparou. Era como se eu estivesse ali. A gente mora vizinho ao crime. O crime está na nossa porta. Às vezes até dentro de casa. Se você pegar as famílias da invasão você vai ver que em cada família você encontra um bandido. Aqui em casa não há bandido, mas podia haver.

Deus meu, nunca mais me esquecerei da cena. O Magro deitado lá na mesa, o rosto estraçalhado, não precisa nem de autópsia nem ser médico para dizer a causa mortis do malandro. Com o tempo, a gente aprende umas palavras com os médicos e com os assistentes. Eu não gosto de falar palavras que aprendo no necrotério lá onde moro, porque não quero parecer pernóstico. O pessoal fala presunto, nós falamos o falecido, o melhor é quando algum advogado fala o de cujo, aí é de doer. Os evangélicos também dizem o falecido. Os evangélicos são mais espertos porque lêem a Bíblia. Eu não acho fácil ler a Bíblia, porque tem um monte de palavras difíceis. Acho até mesmo que muito evangélico lá da invasão fala as palavras, mas não sabe o que significam. Pobre mora em outro país, com outras leis, outro povo, outra língua. O diabo é a gente trabalhar de dia no país dos outros e de noite ir dormir no país da gente.

Não tenho memória do meu tato. Só percebo que tenho mãos quando elas seguram o cabo da vassoura, agarram o pano úmido e cáustico. Meu suor é cáustico. Os cadáveres não só cheiram à morte, também exalam outros vapores – soda cáustica, raticida, álcool, cloro.

Por isso eu grito: Sai daí, Maria. Sai daí. Ela não me ouve. Uma mulher inerte, gigantesca, peitos imensos. Nada em Maria é resto. Seca, dura, olhar de pedra. Não me acaricia. A carícia tem um nome desajeitado. O modo de ser de Maria é de silêncio das coisas mecânicas. Uma vitrola quebrada, um rádio sem pilha. Agora o fogo deve ter outras manias, embora a única função dele seja desinventar. O fogo também é memória que se apaga. O fogo tem mania de negar o mundo. O fogo não é morte, o sol é um fogo, logo, se pode inventar o dia, o fogo não pode ser a noite dos homens. E ninguém dentro da casa ruge, ninguém dentro da casa geme. Só gemem a madeira, os vidros – o olho vidro de Maria podia gemer –, os vidros se quebram, só o fogo reclama com ruído, raiva, dor e chiado de quem morde o ar.

Tudo pega fogo, o inferno é brutal. O inferno não tem nome. Meu medo é de que eu pegue fogo por dentro. Aí minha memória vira cinza e permanecerei eternamente com o cheiro de fumaça. Há muito que tudo era cinza. Posso fazer outra Maria e outras duas crianças. O pior fogo queima sem se ver e não há água que apague. As chamas estão no chão do necrotério, as chamas estão nos ônibus, meus olhos estão cansados – incendiados – de pânico e perversão.

Maria agora é apenas um resto. Ou menos que um resto. As crianças não sentiram nada. As crianças nunca sentiram nada. Dois bonecos de pano não sentem nada, além de uma existência de algodão, mudez e imobilidade. Não pense que há morbidez na companhia de bonecos. Fiz eles para me dar companhia. Um homem precisa de família.