quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Edificação da memória, poema RCF





Edificação da memória
o rés do chão do presente,
terra de chão batido,
solo gretado dos dias sem varanda,

                      o fero campo que de batalha
                      tem a foice e a enxada
                      o canto agrário do corte
                      no ritmado amansar da cana
                      no navegar nos campos vegetais
                      do trigo, do algodão e dos girassóis.


(imagem retirada da internet: wiki commons)

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Fiesta con salsa y sinfonía, poema RCF


 

Botero
 

 

 

 

Na recepção da Embaixada do Brasil,
estava el maestro Antonio Estévez
sentado en su silla, em Caracas, Venezuela,
porque precisava de pernas de pau
já que suas duas de carne
não lhe davam sustento e batuta.
Não podia caminhar el maestro
y se quedaba sólo sem que ninguém
com ele formasse dueto de conversa e outro som
que não fosse a música que nascia e morria em seus ouvidos.
Antonio, o Villa-Lobos de seu país,
era apenas um compositor sem poder
além de seus concertos.
E o Villa-Lobos venezuelano,
porque no tenia poder,
casi ciego en su vejez
ali ficou escondido do alarido
dos copos e brindes sem harmonia,
preso a sua música, a su silla prisioneira
alheia à noite, à maquiagem dos sorrisos
absorto em sua morte prematura,
segurando sua bengala à frente
como se fosse um leme ou guidão
ou cão espigado à espera que o dono deixasse
la silla y la fiesta e mergulhasse em seu mundo,
a caixa de música que era seu cérebro.

Olhei Antonio Estévez ,
el mago de la música,
y su cuerpo sudaba melodia.
Era meia-noite e a algaravia de chimbos
não deixava que se ouvisse
o som que do corpo partia
como a chama foge do fósforo.
Pensei no poder, na música, na velhice,
na solidão, na bengala e me ocorreu
que um homem passa muitos anos sentado
numa cadeira de cinco patas,
numa festa que o ignora
e só ouve palavras, cego e sem poder,
uma forma de desterro
em que se senta o exilado.



(Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)




 

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

O berrante, poema RCF





Na estrada ouve-se o berrante
mugindo seu corno de vaca
na maré da grama
trazendo dentro de si
a manada
como a concha traz o mar
no seu bucho de coral.

Berra o berrante
longo e triste
enquanto o boi,
berrante vivo,
caminha para sua sorte
como o homem que, cedo,
levanta-se para o dia.

Berra o berrante
na alma inquieta
dos vaqueiros
que lembram o choro denso
da manada dos homens
perdidos no descampado.

Berra o berrante,
o correio das notas graves,
um féretro de boi
que se enterra ao ar livre,
a própria carcaça servindo
de caixão.

Vai o homem, passa o boi,
vem o cavalo, late o cão,
vai escurecer nos ouvidos retorcidos
– o homem, como os bois,
se rendem à corneta de chifre,
é o lamento da vida
que flui na cornucópia de osso.

De osso é a alma do vaqueiro
– findo o ato do berrante
continua ele a ouvir
o brado silente
do mugido
como a cana na moenda.

Para quem muge o berrante
na ausência de boi e de manada?
O berrante na estrada
é farol de sons,
espectros de notas.
Ao fim do dia,
silenciado o berrante,
continua o som contínuo
a reverberar nos ouvidos
porque o berrante
antes que chamar o gado
anuncia na alma do homem
a noite densa que desaba
feito uma vaca na vala.

O berrante é o berro do homem
que ficou lá dentro preso
e pela goela e pelo chifre torto
é expulso como vômito,
quer fazer do avesso o homem.



(do livro Terrratreme, Brasília, Fundação Cultural do Distrito Federal, edição limitada, 1998)

imagem retirada da internet: luareberrante