quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Edificação da memória, poema RCF





Edificação da memória
o rés do chão do presente,
terra de chão batido,
solo gretado dos dias sem varanda,

                      o fero campo que de batalha
                      tem a foice e a enxada
                      o canto agrário do corte
                      no ritmado amansar da cana
                      no navegar nos campos vegetais
                      do trigo, do algodão e dos girassóis.


(imagem retirada da internet: wiki commons)

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Fiesta con salsa y sinfonía, poema RCF


 

Botero
 

 

 

 

Na recepção da Embaixada do Brasil,
estava el maestro Antonio Estévez
sentado en su silla, em Caracas, Venezuela,
porque precisava de pernas de pau
já que suas duas de carne
não lhe davam sustento e batuta.
Não podia caminhar el maestro
y se quedaba sólo sem que ninguém
com ele formasse dueto de conversa e outro som
que não fosse a música que nascia e morria em seus ouvidos.
Antonio, o Villa-Lobos de seu país,
era apenas um compositor sem poder
além de seus concertos.
E o Villa-Lobos venezuelano,
porque no tenia poder,
casi ciego en su vejez
ali ficou escondido do alarido
dos copos e brindes sem harmonia,
preso a sua música, a su silla prisioneira
alheia à noite, à maquiagem dos sorrisos
absorto em sua morte prematura,
segurando sua bengala à frente
como se fosse um leme ou guidão
ou cão espigado à espera que o dono deixasse
la silla y la fiesta e mergulhasse em seu mundo,
a caixa de música que era seu cérebro.

Olhei Antonio Estévez ,
el mago de la música,
y su cuerpo sudaba melodia.
Era meia-noite e a algaravia de chimbos
não deixava que se ouvisse
o som que do corpo partia
como a chama foge do fósforo.
Pensei no poder, na música, na velhice,
na solidão, na bengala e me ocorreu
que um homem passa muitos anos sentado
numa cadeira de cinco patas,
numa festa que o ignora
e só ouve palavras, cego e sem poder,
uma forma de desterro
em que se senta o exilado.



(Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)




 

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

O berrante, poema RCF





Na estrada ouve-se o berrante
mugindo seu corno de vaca
na maré da grama
trazendo dentro de si
a manada
como a concha traz o mar
no seu bucho de coral.

Berra o berrante
longo e triste
enquanto o boi,
berrante vivo,
caminha para sua sorte
como o homem que, cedo,
levanta-se para o dia.

Berra o berrante
na alma inquieta
dos vaqueiros
que lembram o choro denso
da manada dos homens
perdidos no descampado.

Berra o berrante,
o correio das notas graves,
um féretro de boi
que se enterra ao ar livre,
a própria carcaça servindo
de caixão.

Vai o homem, passa o boi,
vem o cavalo, late o cão,
vai escurecer nos ouvidos retorcidos
– o homem, como os bois,
se rendem à corneta de chifre,
é o lamento da vida
que flui na cornucópia de osso.

De osso é a alma do vaqueiro
– findo o ato do berrante
continua ele a ouvir
o brado silente
do mugido
como a cana na moenda.

Para quem muge o berrante
na ausência de boi e de manada?
O berrante na estrada
é farol de sons,
espectros de notas.
Ao fim do dia,
silenciado o berrante,
continua o som contínuo
a reverberar nos ouvidos
porque o berrante
antes que chamar o gado
anuncia na alma do homem
a noite densa que desaba
feito uma vaca na vala.

O berrante é o berro do homem
que ficou lá dentro preso
e pela goela e pelo chifre torto
é expulso como vômito,
quer fazer do avesso o homem.



(do livro Terrratreme, Brasília, Fundação Cultural do Distrito Federal, edição limitada, 1998)

imagem retirada da internet: luareberrante

domingo, 24 de janeiro de 2016

LÊDO IVO: CRÍTICA RCF



(Publicado na Revista Brasileira da ABL)



Contra todo o determinismo que deseja ver na obra de um poeta longevo uma cristalização de sua alocução, Lêdo Ivo vem mostrar saudável e renovadora mudança em sua expressão poética. Não é só o amadurecimento do estilo e de temática, mas a absorção de elementos da cultura, desde sua estréia até seu último livro, que o rodeia, assim como também de influências estéticas. Lêdo Ivo não passou indiferente aos movimentos estéticos. Há permanência longínqua – inclusive de estéticas que ele mesmo condenava como a de Oswald de Andrade – do poema ligeiro, da poesia marginal, dos haicais e outras manifestações poéticas. Exclui-se aqui, a não ser que me provem o contrário, a existência de um diálogo (diálogo não explícito, muito menos tácito, representa apenas a maneira de renovar-se dentro de sua perspectiva estética) com o concretismo (a não ser que se leia o poema “Ivo viu o povo” como influência concreta). Não digo que Lêdo Ivo modificou sua poética a ponto de escrever à maneira dessas expressões apontadas. O que ocorre é uma introjeção de elementos estéticos que estão sendo discutidos, o que mostra um poeta atento às transformações culturais. Àqueles que o crêem o poeta da Geração de 45 que ele o foi por cronologia, cega-se ao não observar o caráter multifacetário em sua poesia. É claro que permanecem estilo e “gramática poética” que lhe são próprios. Essa gramática poética é que tentaremos ver neste breve trabalho, mas sem esquecer da multiplicidade da manifestação da poética de Lêdo Ivo que o faz mutante e permanente, diverso e uno, vário e indivisível, poeta de seu tempo e poeta de sua própria expressão.
 Assis Brasil mostrou, de forma brilhante, o percurso poético e bibliográfico de Lêdo Ivo, um dos maiores poetas brasileiros, e nele se observa como a princípio o poeta foi bem recebido e todos vaticínios eram de uma carreira exitosa e meteórica. Cita, entre inúmeros outros, Antonio Candido, Álvaro Lins, Murilo Mendes, Jorge de Lima, Sérgio Buarque de Holanda e José Lins do Rego. Durante o percurso literário de Lêdo Ivo, algumas críticas apontavam sua prolixidade que, em verdade, é apenas uma maneira de se apresentar poeticamente como Whitman foi volumoso e até mesmo Carlos Drummond de Andrade incorreu na mesma tecla discursiva. O problema da extensão do verso não é a extensão do verso, mas sua vacuidade ou não. Em Lêdo Ivo, o que poderia ser defeito é virtude. Uma das suas inúmeras características é justamente ser um poeta caudaloso que tem a cada verso o que dizer. Muitos poetas são econômicos e não têm nada a expressar. Lêdo Ivo é um poeta fluvial, com muitos igarapés ainda não estudados, com muitos afluentes não explorados nem conhecidos. Outra característica que, dependendo do ângulo que se observe, pode ser positiva ou negativa, é o uso freqüente de elementos tradicionais da metáfora como céu, estrela, lua, mar, etc. Borges mostrou muito bem, em Esse ofício do verso, como uma imagem baseada em estrela pode ter mais de uma dezena de combinações e de significação. O símbolo em si não está gasto. Ainda se farão muitas poesias com os mesmos elementos, milenares, diga-se de passagem. Nesse sentido, Lêdo Ivo não peca por utilizá-lo, já que o faz de maneira original e, dentro do seu repertório mesmo, variando de acordo com a temática ou com o grau de expressividade.
 Outra questão levantada a respeito da produção poética de Lêdo Ivo é quanto a sua oposição aos poetas chamados de cerebrais. Entendo a expressão – e até mesmo já devo tê-la utilizada para as experiências formais dos poemas processos, concretos, práxis e outros, e quem sabe até mesmo para a poesia de dicção original de João Cabral de Melo Neto, companheiro de geração e de poesia de Lêdo Ivo –, mas quero descartá-la momentaneamente levado pela seguinte premissa: não há poesia que não seja cerebral. Toda poesia passa pela maquinação da lógica poética, mesmo aquela derramada, romântica, sentimental, sensória. A poesia é um ato lógico e concreto, repito, mesmo que sua expressão final seja a descrição de um momento ou de um sentimento. E, se poetas como Castro Alves, que costumavam datar sua produção a fim de mostrar gênio e improvisação, podem ser apontados como sensoriais, não há melhor exemplo de dialética e construção mental do que os próprios poemas do poeta baiano para que se observe a construção antes ruminada e o “pensamento” neles contidos. Em Lêdo Ivo, também há cerebralismo, no sentido em que usamos. Não há secura ou falta de inspiração. Não há carência estética ou falta de expressão, mascarada com a desfaçatez de ser cerebral. O acurado crítico e ficcionista Assis Brasil já tinha observado em seu livro A trajetória poética de Lêdo Ivo que o nosso poeta é um poeta de acumulação, mas essa acumulação, escreve ele, “decorre de uma escolha rigorosa do material que compõe o poema”. Assis Brasil faz essa observação justamente quando o poeta afirma que sua poesia é forjada no inconsciente e que já vem quase pronta, “já surge com toda a sua parafernália retórica e alcança o plano da consciência como um objeto verbal acabado ou semi-acabado, sujeito no máximo a alguns retoques.”
 Talvez seja esta conjugação de “cerebralismo” e de uma dicção robusta que levem os leitores hispano-americanos a se encantarem com a poesia de Lêdo Ivo. Tive a experiência, na Venezuela, de promover a publicação de uma coletânea de poemas seus. Já admirava o poeta, mas fui quase pressionado a fazê-la devido à curiosidade dos leitores que aportavam na biblioteca do Centro de Estudos Brasileiros procurando os livros de Lêdo Ivo. E, como a maioria não lia em português, saíam decepcionados. Creio que Lêdo Ivo tem uma semelhança com a poesia de tradição universal (Fausto Cunha apontou Heine, outros viram Rimbaud e Baudelaire, Corbière e Laforgue) e também de cunho latino-americano. Uma dicção de poetas seus contemporâneos que talvez só tenha lido depois, mesmo porque estavam produzindo no mesmo momento. Essa latino-americanidade, que não desejo explicitar em determinados poetas, porque pertencem a uma dicção mais larga e uma apreensão da realidade que mescla cotidiano com temas perenes, torna Lêdo Ivo um pouco estrangeiro na poesia brasileira e mais brasileiro junto à poesia universal. Não seria bom estar ao lado de Neruda, Nicolás Guillén, Lezama Lima, Octavio Paz, Mario Benedetti e de tantos outros que me escapam agora? Não, esta não é uma tentativa de desbrasileirar Lêdo Ivo, mas de querer entender o fascínio latino-americano pela poesia do poeta de Um brasileiro em Paris.
 Veremos aqui a permanência de determinadas constâncias na poesia de Lêdo Ivo. Ao mesmo tempo, essas recorrências mudarão de significado (como no caso do tema “mulher”) e serão contaminadas pelo espírito do tempo e da dialética interna do poeta – desta vez, o diálogo do poeta consigo. Este trabalho não abrange todas as obras de Lêdo Ivo. Elegemos alguns dos seus livros e neles buscamos linhas mestras como, por exemplo, a recorrência da imagem da escuridão-noite-lua. Observaremos como o poeta trabalha de maneira singular: a) a tensão que ele criou em sua poesia entre o eterno e o efêmero; b) a busca do absoluto e do sublime; c) a visão do alto, a leitura vertical que tudo tenta abranger; d) tentativa de reter a passagem do tempo; e) a mudança de visão sobre o poeta, antes visto como divino, agora corrompido; f) os paradoxos; g) sombra que se espalha em sua poesia, ora opondo-se, ora mesclando-se, e várias vezes, enganando o leitor com paradoxos sombrios.
 Em Ode e elegia, o espaço aberto do discurso de Lêdo não é apenas exposto na folha em branco. Longos versos, de dicção surreal ou confessional, apontam para uma leitura da realidade que se converte em descoberta. Ode e elegia dos descobrimentos – do corpo, da mulher paga, da mulher amada, da mulher desejada, das várias, distintas, múltiplas mulheres carnais e etéreas que o poeta visita com sua poesia. Ode e elegia aos poetas que lamentam o mundo perdido da infância e de um saber inato e poderoso: o mesmo poder da poesia que reinventa o mundo. É o poeta que se afirma pelas negações: “não cantarei, não quero ser...” e afirma a preponderância da imaginação e do poético: “Cantarei entretanto a imaginária janela aberta.” Ora, a janela aberta de Lêdo Ivo é a sua necessidade de comunicar-se com o mundo e ao mesmo tempo comunicar ao mundo suas descobertas, comunicar seu rito de iniciação erótica e também cognitiva e sua condição de poeta. O poeta para Ivo é aquele que desvela, “que liga todas as coisas” (Elegia). Há um mundo de vozes, perplexas e perdidas, que o poeta tenta aglutinar num rol de delírios e de declarações inflamadas contra o distúrbio e o desfeito: “Ele está sozinho como as jovens casadas/ nas noites em que seus maridos se ausentam. E sua festa/ é um canto solitário que vem da terra onde outrora ficaram/ como letras de indizível alfabeto, seus passos de menino [...] O poeta está sozinho, raro objeto ao alcance de todos”. (Elegia). É certo que há um acúmulo de imagens, dispersas e difusas como as coisas no mundo, como se o poeta tentasse agrupá-las de forma incansável e impossível, porque estão no mundo e são dispersas. Logo o poeta é um poeta de um mundo que ele deseja registrar, participar, dar-se, fazer-se presente, “raro objeto ao alcance de todos”, mas ao mesmo tempo as coisas fugidias, fugazes, intensas mas precárias se perdem no alarido dos fatos do mundo. Nos dois belos poemas finais de Ode e elegia, Ivo se iguala ao mundo: é pedra, é silêncio, é paisagem. O poeta agora não pode, ao aventar a hipótese de que não consegue – poeta ou filósofo – abarcar o mundo (e mais que abarcar, Lêdo Ivo quer reunir, proteger, resguardar as dores do mundo), explicar o que o cerca, difusamente, amplamente, dar sentido a tantas coisas e objetos que estão no mundo. O poeta, impossibilitado de manter-se cognitivamente ativo e distanciado do objeto de desespero, mescla-se agora com ele e torna-se o sono, a paisagem, a coisa em si, já não distante como objeto observado, mas as coisas como sujeito. Logo ao falar de si o poeta estará falando do mundo. Do mundo submerso que, contraditoriamente, ele pensa estar diante dos seus olhos, enquanto o objeto do mundo está em si, poeta das coisas doloridas e múltiplas. A multiplicidade em Ivo não é apenas numérica ou enumerativa. O múltiplo em Ode e elegia é a dispersão do todo não alcançável embora o poeta tente abarcá-lo. O múltiplo em Ivo é a tentativa de resolver as dores do mundo. O múltiplo em Ivo é o reconhecimento do poeta de sua incapacidade de resolver os problemas do mundo: a única coisa que pode fazer é entendê-las, solidarizar-se e transformar o objeto visto em tema do sujeito sofrido e angustiado.  No belo poema “Elegia fantástica”, o poeta exprime o desejo de amplitude e de sair de sua prisão. Em certa noite, o poeta vaga livre, aéreo, plaina sobre a cidade e os sofrimentos humanos, cumprimenta quem nunca existiu, bebe nas estrelas e se precipita “ao encontro do sol que não raiava”, sente-se miserável frente a operários, mulheres desamadas, solidão desenfreada, famílias confabulando, as pessoas que choram seus mortos indistintos, enquanto o poeta tentava flagrar e a tudo registrar. Este afã de Lêdo Ivo de tudo abranger cria no poeta uma frustração que ele só encontra refúgio na poesia onde pode inventar (ou reinventariar) mundos. Se o surreal percorre (interessante a citação que faz a Murilo Mendes como a querer repartir o mesmo mundo surreal da poesia) a poesia é porque ela melhor pode adequar-se ao absurdo da existência: “Certa noite, quando ninguém se comunicava ao encanto, ao som e à fuga / surpreendi uma mulher bebendo água num brinde às estrelas / e analisei o verão concentrado nas asas de um passarinho.” (Elegia fantástica).
 Já a noite, eterno símbolo do obscuro, do vago, do fantástico, do medo e da melancolia, aqui, em Acontecimento do soneto e Ode à noite, apresenta-se a reforçar o clima onírico. “Ó bem-amada filha da memória, / semelhante à Poesia que aos submersos países desafia!”. Essa alegoria da noite com suas evanescências e dubiedades mistura-se a outra característica como a tensão existente entre ao efêmero e o eterno (comum a boa parte da produção poética de Lêdo Ivo). Ao aproximar a noite à poesia, esta se torna não soturna, mas plena de elementos pouco solares, ou seja, ao contrário de uma poesia que se quer lúcida e límpida, descarnada, o verbo de Lêdo Ivo investe no mistério da vida, na complexidade das sombras, no potencial de uma imaginação transbordante (não é à toa que o poeta invoca Rimbaud: “Por um campo fantástico eu me vou / brutalmente pisando sobre flores / e nos meus ombros vai perdendo as cores / o paletó de Jean Arthur Rimbaud”). Ou no imaginário do fantástico: “Eu era fabuloso”, diz o poeta, “e o litoral / não permitiu que o canto da sereia nutrisse o meu amor de alegoria”. Neste poema, ora o poeta está em busca da Beleza, ora cooptado pela mesma Beleza, logo, em síntese dialética, o poeta é fabuloso, ingressa no reino do imaginário e da poesia plena, é iluminado, mas não segregado ou maldito.
O poeta investe no paradoxo, comum ao repertório da modernidade. O paradoxo vem sendo cada vez mais usado e sua explicação parece repousar no confronto de visões, no mundo dilacerado por modelos diversos, na ampliação de perspectivas e da descoberta freudiana dos vários “eus” que nos habita e, especialmente, ao poeta do século XX como Lêdo Ivo. A luta interior de Lêdo Ivo vai mais além: o poeta tenta libertar-se da pequenez deste bicho da terra tão pequeno. Investe – ora de maneira literal, ora de forma simbólica – na categoria do eterno. A luta entre o efêmero x eterno é ainda uma tensão oriunda do mal estar na modernidade e uma busca permanente de uma poesia que transcenda ao jogo verbal, à gratuidade dos temas ou à banalidade da poesia mais prosaica que, nos últimos anos do Modernismo, havia se vulgarizado e se tornado já um instrumento poético vanguardista sem poder de fogo.
 “Que somos nós senão a eternidade?” pergunta o poeta. O amor, a solidariedade e, principalmente, a poesia podem ejetar o poeta a uma condição que faça o albatroz baudelairiano alçar vôo e dar perenidade ao precário ser humano. Aqui, Lêdo Ivo elegeu o soneto. Junto com Vinicius de Moraes, mostra-se um exímio artesão, o mesmo ocorrendo com a Ode à noite, em que também utiliza rimas alternadas, com vigor e rigor poéticos que demonstram que o poeta sabe poetar seja em forma livre, seja em regime de vigilância controlada como é o proceder do soneto. Antes de colocá-lo numa fôrma, o soneto de Lêdo Ivo o leva a experiências verbais inusitadas e demonstram que o poeta da tensão existencial não está apenas no conflito eterno x efêmero, mas também no confronto amor e morte. É bom falar de amor e morte, porque Lêdo Ivo elegeu o amor e a mulher a amada como tema de vários poemas. E, como em Ode e elegia, poder-se-ia aproximá-lo (até mesmo para distanciá-los) de Álvares de Azevedo. Em Azevedo, a mulher carnal inexiste e tudo passa a ser projeção onírica (como na análise de Mário de Andrade). Em Lêdo Ivo, em outro século, a mulher é multifacetária e pode significar desde a aproximação com a beleza, que se iguala ao poeta, a outras simbologias de elevação ou degradação.
 “A vida é avara”, diz o poeta que deseja amadurecer e, entre o sofrimento e o amor, espera que a maturidade o faça mais humano no ato mesmo de amar. O verso está em Cântico, de 1949. Dividido entre vários corpos (a mulher amada, a primavera, o muro que envelhece, a invariabilidade do cotidiano), o poeta investe em si, acredita em si, contraponto a outras ofensivas contra o humano. Jamais veremos a vida que a vida oculta, parece nos dizer no poema “A linha d’água” que versa sobre o mar e diz que “jamais veremos o mar que o mar oculta”. Comparando a vida ao mar e aclarando que a vida poderia “prescindir de palavras”, o poema leva-nos a acreditar numa essência não alcançada pelo espaço da realidade. O real escamoteia a vibração vital, o que se oculta sub mare, e só o que temos da faina ingrata de “pescar” a vida é “um pouco de piedade, espelho partido e nada mais.” Ora, aqui temos a vida dita real, ou a realidade empírica, como um lamento, uma forma de desistência de apreender a verdade oculta, o homem além da sombra. Este primeiro sentimento de piedade não é piedade, mas impossibilidade. No segundo sentimento, o espelho partido torna-se a impossível reconstituição de uma realidade, já que platonicamente é o reflexo e, mais que reflexo, imperfeito. A busca do absoluto e do sublime, que é uma procura também como a procura da vida verdadeira, muitas vezes associada à ode à amada, leva o poeta a buscar nos elementos da natureza um aliado que possa realidade o inefável e revelar a poesia que, ao fim e ao cabo, também se confunde com a nobreza dos signos maiores de uma sublimação do viver poeticamente ou de poetar lamentando o prosaico do viver ordinário.
 O poeta ainda está preso ao corpo e ao descobrimento do fato amoroso. Não trata o tema amor com o registro de coisa passada ou de uma maneira densa. Há alegria, posse descompromissada e, principalmente, a oferta, por intermédio da mulher amada, a um conhecimento singular – e múltiplo: a realidade desvenda-se por meio do fato amoroso. O mar – emblematicamente identificado com o inconsciente ou outras manifestações de “profundeza” – no poema “Alta marinha” mostra-se de forma mítica. Engole tempo e figuras lendárias (falas), os passos (caminho e futuro), e a vida possível (península existencial e, ao contrário da idéia padrão de excrescência que promete a península, aqui se aponta o desnortear do poeta). Este poema bem representa a fase esta de que estamos falando de descoberta e assombro, ao mesmo tempo em que o amadurecimento o reafirma no mundo da realidade e das sensações poéticas.


                     O que as fadas desprezam
                     escondidas atrás da porta
                     será o oceano sem águas
                     ou a inocência transposta?
                     E onde se perde a península
                     da vida possível, indago
                     onde ficaram perdidas
                     as idéias de meus passos.


 Os sonetos amorosos revelam uma duplicidade – a mulher perto e distante, real e imaginária, forma pura ou sonho, vida ou elegia. O poeta tem mais conhecimento não só do corpo da mulher, mas sua relação é fugidia e feita de instante que se perpetuam.
 Há neste livro não propriamente uma narratividade, mas um pintar de cenas, geralmente envolvendo ar livre e mar. A cidade angustiante pouco aparece aqui, mas, sim, a paisagem marinha, a paisagem humana (mulher e, ao fundo, a marinha) e um despojamento de linguagem. Refiro-me ao poema “Josefa”. Esse motivo impressionista (já que os pintores do século XIX prefeririam levar seus cavaletes para pintar ao ar livre e sob a incidência da luz) leva o poeta a outras considerações – ou seja, Lêdo Ivo não é o pintor de paisagens, mas de paisagens em que se incluem as dores, as delícias e a poesia do mundo. Escreve ele no poema “As colegiais”:


                      Neste verão sem nuvens as moças passeiam.
                      São as doces colegiais
                      que andam de bicicleta e fitam os céus atômicos.
                      Os navios ancorados no jardim do colégio
                      querem partir para as salinas, mas ficam, enquanto
                      as moças sonham
                      vagabundagens, piqueniques virgilianos, colóquios,
                      conversas nas tardes longas sobre um tema
                      doméstico, danças, jogos, flertes e esporte na
                                                                                         manhã.
                     Sonhando, elas nasceram. Sonhando morrerão
                     enquanto, junto a seus corpos frágeis como salguei-
                     ros e ardentes como a respiração da noite,
                     a tarde nasce e emudece de espanto.
      
 Num processo de animização, o poeta “dialoga”, por exemplo, com o mar, a lua e os rochedos. No poema “Soneto das moças morenas”, lembrando mesmo “a rocha que chora” de Cláudio Manuel da Costa, Lêdo Ivo empreende seu imaginário na ativação do elemento inerte que se mesclará com os elementos vivos. A natureza não atua como cenário, mas é estrutural, inclui-se no poema e na emoção dos sujeitos (aqui, no caso, as moças) envolvidos no poema (veja-se também o poema “O reverso de hoje” e “O intervalo”, quando os “diálogos” são mais amplos).
 Um dos usos poéticos mais freqüente, associado à metáfora, é a imagem. E, no caso da poesia, a imagem por meio da linguagem. Essa recria a realidade. Ou, então, ela é a realidade em si. Em Lêdo Ivo, a poesia não trai esta fórmula poética. E o poeta a persegue em vários e diversos momentos. É a reafirmação da preponderância do mundo da poesia que, contudo, não é irreal ou ilusório, mas constituído pelo prosaico mundo circundante, embora termine – ou inicie – na visão poética pessoal de Lêdo Ivo. Ora, se o mundo é poesia e poesia é mundo, logo a realidade começa e finda na linguagem, fonte e foz da arte poética.


                        E se ela canta, devolvo
                        à terra a minha linguagem.
                        No ser que a informa, dissolvo-me.
                        E ela dorme, sendo imagem.
                                                                              (“A contemplação”)


 Em Linguagem, a poesia de Lêdo Ivo demonstra uma abrangência temática maior. O poeta, significativamente, afirma que tem “uma janela aberta sobre a Ásia”. Publicado em 1951, escrito depois do comprometido A rosa do povo, de Drummond, Lêdo aqui e ali apresenta uma assertiva de que também quer ser partícipe do mundo presente. Essa correspondência entre o universo engajado do poeta de Itabira e o jovem poeta alagoano está presente (até talvez somente presente) na primeira parte do livro. É nesta primeira parte, “A terra total”, que aparecem (a bem da verdade temas recorrentes a muitos poetas do mesmo período) as preocupações sociais, desejo de evasão (“A metade do século”), o terror presente da bomba atômica (“Soneto à pucela de Bikini”, perigo real mas que alimentou a imaginação escatológica da humanidade), e da solidariedade (“Canto grande”: “Meu coração... Bate por toda a humanidade / em verdade não estou só” ou “...assim me sinto, unido pelos ombros / às legiões dos homens sobre a terra”). Mas Lêdo Ivo tem sua singularidade e lá está a visão personalíssima de uma poeta ora social, ora surreal, com suas imagens desbordantes de absurdo (“Percebi, ouvindo sua música, / que nunca deixara de estar morto”), sua subjetividade que côa a realidade, ou melhor, tudo é visto pela subjetividade entranhada do poeta, o real visto pela palavra, a palavra criando a realidade (“Bebe, vida, na fonte das imagens, / que o tangível te explica”). No “Soneto do jogador”, Lêdo Ivo já observara que “o inferno desta vida não se explica”. Um poema em que o poeta diz estar sozinho e a vida é um jogo. A vida, para Lêdo Ivo, só pode ser apreendida pela magia do filtro verbal. Ao nomear o mundo, o poeta está criando o mundo. De certo modo, o poema, que traz algo de camoniano com o seu “tudo muda, tudo se transforma”, se tem um traço da poesia de Lêdo Ivo, por outro lado apresenta a face escura da sua lua poética, porque Lêdo também vê a vida de forma lúcida – quando se instaura o grande tema do livro: a Linguagem. Redentora, explicativa, reveladora, inicial, transformadora.  O livro não poderia ter outro título. Mas não só recriar a realidade e, sim, entendê-la. Não como espaço idealista, em que a subjetividade projeta solipcismos que não transpõem a barreira do ego. Não, Lêdo Ivo entende e recria a realidade (este fenômeno tão delicado e difícil de definir e que o poeta constantemente busca entender e explicar). Lêdo é o poeta que busca o que ninguém viu, o inusitado, a coisa nova, “ao que ninguém viu, aspiro”.


                             Não quero achar o que os outros perderam:
                             as moedas no chão, os guarda-chuvas
                            esquecidos nos ônibus, e a vida
                            deixada por engano sobre o asfalto.
                            Ao que ninguém viu, aspiro; ao que existiria
                            em forma de mar e árvore, se a natureza habitual não irrompesse
                            com suas sombras e cigarras e cascatas.
                            Quero o sonho e admiro o inédito...”
                                                                                                 (“O alvo”)



 A visão de altura e de contemplação de uma realidade abrangente permanece, mas o poeta persegue, não desde agora, seu compromisso com o real e o imediato (“O que os vivos vêem e não esquecem / o que todo homem lembra a vida inteira, / é o que estou vendo neste instante.”). A profusão de imagens mereceria um estudo mais aprofundado, observando-se as recorrências e decifrando o código poético de uma poesia densa e que foi (ainda é até hoje) colocado no saco comum da “geração de 45”. Se Lêdo Ivo tem uma faceta desta geração (até mesmo Drummond a teve com o livro Claro Enigma) como o uso das formas fixas (lembrar-se que se Cabral não usou o soneto, ele foi rigoroso com a metrificação dos seus poemas), afasta-se do estereótipo deste grupo ao lançar-se primorosamente numa poesia de cunho existencial e de grande expressividade poética na sua construção inusitada. Linguagem é um livro denso e percorre uma variedade temática de cunho existencial que poucos poetas conseguem manter não só na sua geração como aqueles que, em 1951, já haviam publicado e criado nome desde o Modernismo de 22. No ano seguinte, apareceria um dos livros mais complexos da poesia brasileira, influenciado pelas novas idéias de trabalho artesanal com a palavra dos poetas que começaram a publicar na década de 40: trata-se de Jorge de Lima, com seu Invenção de Orfeu. E Linguagem o antecede e não faz feio frente à odisséia do ser que é o livro de Jorge de Lima.
 Nos poemas das duas outras partes do livro Linguagem, Lêdo Ivo mantém a corda tesa de melhor expressão poética, só que agora introduz outros temas, mais telúricos, onde o papel da natureza é difuso, ora acolhe, ora revela, ora irmana, ora se torna surreal e odioso, fruto de tormentos. O poeta, muitas vezes será observador do fazer humano. O desejo de amplidão se afirma, como em “A largura da noite”. Amplitude que acusa também desejos soturnos de noites cosmogônicas que guiam o poeta. Noite que esconde, metáfora do desconhecido e do inconsciente, mas que para Lêdo Ivo é também o espaço poético da revelação. O amor, tema diversas vezes visitado, torna-se negação da morte (“Em meu amor, perdi-me para sempre / e, em palavras mudado, nada tenho / que sirva à fome de humano da morte.”). É neste país da linguagem que instaura a realidade que o poeta evoca a vida como sonho, exílio, terras suspensas, labirintos, horizontes e farsa. O tempo, que não é dos humanos, mas um erro de Deus, é o propulsor do amor e da morte. Vira e mexe o poeta, inquieto, procura uma maneira de estancar o tempo, imobilizar o momento, porque uma das facetas da poesia é o instante. Se a vida é um sonho e um exílio, o amor multifaceta-se como prisão, coisa fixa (estatuária), solidariedade (mãos dadas), horizonte de água e, ao mesmo tempo, opõe-se à coisa indefinida e inconsciente que é o oceano, figura de conturbação e de mistério. Em meio à busca de uma vida imaginada, de um amor carnal e ideal, de um amor libertário, o poeta está tomado pelo instante e pela fugacidade do tempo, logo pergunta pelo Absoluto – outra forma de expressão poética – e iguala-se a Deus na criação (“Fosse eu Deus, minha senhora, sem ontem, hoje ou amanhã...”).
 Quanto ao livro seguinte, de 1955, Um brasileiro em Paris e O rei da Europa, logo se percebe que no livro existe mais brasileiro que a França e que a Europa é sua consciência estrangeira, sua maneira de, contrastando paisagens e culturas, descobrir-se ainda mais Lêdo Ivo. O título Um brasileiro em Paris é o título do primeiro poema do livro, logo o volume não é o que aparenta: uma viagem, um roteiro poético turístico. E o jogo linguístico com Um americano em Paris é óbvio demais, a ponto deste resenhista quase recusá-lo a apontar. Contudo, apesar dessas falsas aparências, o título mostra uma vontade de desgarramento e de internacionalismo que pode se apresentar, por exemplo, na categoria da elevação e amplitude que, no fundo, representam fuga e, contraditoriamente, o desejo de tudo epistologicamente dominar. Interessante a visão do alto, ampla (poeta da amplitude que é Lêdo Ivo), aérea, superior e abrangente. Esta recusa vertical é trocada por uma vontade horizontal no poema “Um brasileiro em Paris”. Mas logo à frente, o poeta retorna a seu espectro do alto: “Subimos juntos ao mais alto da torre. Eis a cidade aos nossos pés, como um cão”.
 No que se refere ao lirismo amoroso, Lêdo Ivo quase sempre utiliza figuras da natureza para expressar o corpo amado. No poema “Na ópera”, por exemplo, o poeta iguala o corpo amado à natureza da palavra. Em tom jocoso e irônico, a brincadeira revela uma das principais características que vimos apontando: a recriação do mundo pelo verbo. Desta vez, o poeta o faz por intermédio do sexo, do amor. Logo, não só a dita realidade exterior e física é construída de linguagem, mas também o léxico amoroso. “Em Paris, sou linguagem”, diz o poeta no poema “Domingo no postal”.
 No longo poema “O rei da Europa”, que se constitui a segunda parte do livro, o poeta muda de tom. Ingressa no espaço da paródia. A ironia faz do poema uma elegia às avessas e o tom paródico a “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias, reafirma a brasilidade antes que o reino francês.


                           Tua terra tem palmeiras
                           onde canta o sabiá,
                           mas tem um amigo na alfândega
                           que vai desembaraçar
                           tua bagagem de volta:
                           aparelhos de jantar,
                           cadillac, geladeiras,
                           e outros caraminguás.
                          Não permita Deus que morras
                          sem que voltes para lá,
                          sem que o que compraste aqui
                          possas exibir por lá.


 A ironia aqui, corrosiva e demolidora, é o ato poético mais inteligente de comparar duas realidades opostas. Ao fazer a crítica do turista consumista e da realidade brasileira, Lêdo ingressa no grupo dos poetas que releram a “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias: Murilo Mendes, Oswald de Andrade, Drummond e outros mais. O lado mais “modernista” de 22 aparece aqui neste poeta que renegou o poema oswaldiano de 22. Num poema semi-engajado como “O rei da Europa”, Lêdo exercita vários tons: um deles é o da rejeição do poder (o rei ou classe dominante) e mescla de forma equilibrada e deslumbrante o mundo europeu com seus marcos (Dior, praça Vendôme, Pigalle, Bois du Bologne), o mundo do excedente com o mundo do precário e do escasso. Em determinado trecho, universaliza-se: o mundo frio do pós-guerra (“teu refúgio antiaéreo”)  com a banalidade cruel do cotidiano: o silvo do metrô:


                       Imóvel no teu refúgio
                       no teu abrigo antiaéreo,
                       não desconfias que o mundo
                       é um caso muito sério
                       e este barulho que escutas
                       não é tranquilizador
                       embora ele se confunda
                       com o silvo do metrô.




 A “visão turística” não existe nos poemas. É uma Europa cruel e trágica, dividida em classes. O poeta tem a visão de um pequeno inferno cotidiano, como, por exemplo, a boca do metrô que “mastiga multidões”. É uma tentativa de absorver a verdadeira ville de Paris, longe das delícias curiosas e superficiais do turista. De repente, a cidade mesmo é posta em segundo plano e Lêdo Ivo parece nos falar de todas cidades onde florescem a iniqüidade, dos dissabores cotidianos, o conflito social e as mazelas íntimas humanas. O Sena é menos importante que o “rio humano”, matéria do poema, que inclui reflexão sobre o destino do homem, além de sua dolorosa, social e metafísica existência na terra. Por fim, o poema extrapola o círculo parisiense – inclui Rio, Nova York, Moscou, Londres, grandes metrópoles – e, parodiando Castro Alves, pergunta “Deus, em que mundo é que estás? / Em que estrela tu te escondes?” Estrangeiro é o mundo com sua diversidade. O movimento do poema é amplo, geral e universal – nele tudo cabe: principalmente as dores do mundo. Utilizando frases, ditos, formas lingüísticas coletivas do imaginário brasileiro como “Caranguejo só é peixe na vazante da maré”, Lêdo reafirma seu desconcerto do mundo a que ele, muito finamente, chamou de “fábula”.
 Quanto à Estação Central, o poeta envereda pelo engajamento muito sedutor na época em que os poemas são escritos. Publicado em 1964, o livro vive o momento agitado dos CPCs da UNE, a tentativa de levar a poesia a um número maior de pessoas e torná-la popular, conceito que induziu Ferreira Gullar a escrever poema de cordel e a realçar o tom político de poetas retóricos como Tiago de Mello. Era uma armadilha poética facilmente compreensível em virtude do momento político – e estético – pelo qual o Brasil passava. Iniciando o livro com o extraordinário “Ivo viu o povo”, poema de contenção, tão pouco adjetivado como a “Canção do exílio”, Lêdo dá início a uma série de poemas de cunho nitidamente popular e de fácil leitura, o que muitas vezes não alcança a beleza, concisão e expressividade do poema inicial. Nesta primeira parte, intitulada “A cartilha”, existem três poemas que fogem ao espectro do social explícito, mas que se enquadram perfeitamente na órbita da estrutura poética que o autor vinha perseguindo. O primeiro deles é o belo poema sobre o fantasma do pai, da não-reconciliação, da “velha dívida anotada numa álgebra de cinza”. A impossível reconciliação, num poema que ao final é rememorativo, se reafirma duramente quando o poeta lê nos olhos mortos do pai “o intangível legado de teu duro amor sem lágrimas.” Poema curioso, porque Lêdo pouco se revelou nostálgico ou navegou nas águas profundas da infância que já deu inúmeros poemas em poesias de todas as línguas. Aqui, a infância não é o lugar do paraíso perdido, mas a dureza da morte, a imutável permanência do desamor, o anti-Casimiro de Abreu e sua infância deliqüescente. Outra discordância do clima político são os poemas “Estação de tratamento” e “A vida é bela”. O primeiro mostra o que se tornou recorrente na poesia moderna e que Lêdo maneja magistralmente: a incompletude do poema. Ou seja, o poema se interrompe como se ainda tivesse mais coisa a dizer e o leitor é impelido a “ler” a continuidade não escrita. Poema sobre o mistério de viver, mistura de natureza e objeto urbano, ambos apontando para a sinalização, a vida estancada como algo subreptício e sujo.



                          A gaivota
                          sobrevoa
                          o semáforo.
                          Nenhum rumor de água.
                          Nenhum frêmito de alga.
                          Apenas os esgotos
                          lançam no leve oceano
                          o sigilo da vida.


 O político explícito dos anos 1960 se apresenta, na segunda parte, intitulada “América”, de forma crítica ao capitalismo, à vida massificada, uma América que produz riqueza material e pobreza espiritual. É o mesmo horror de Garcia Lorca em O poeta em Nova York e seu mundo mecanizado, embora em Lorca haja mais surrealismo – um surrealismo social e de horror. E Lêdo, que vinha de imagens desconcertantes e surreais dos seus outros livros, aqui ameniza o surreal, mas não abre mão de imagens grotescas extraordinárias como supor um carnaval de clowns em Boston, apenas ocorrida em sua imaginação transbordante.
 O certo é que a linguagem se torna mais direta, o tom coloquial predomina e a narratividade impera (vide “As velhinhas de Chicago”). Nada disso diminui seu teor poético – outros poetas altamente narrativos são Drummond, Cabral e Vinícius de Moraes. Alguns poemas sobre a América, contudo, fogem ao tom denunciatório e o poeta revisita as formas de renomear a natureza e a cidade edificada. O poeta é tomado por uma energia vital e contempla e vê uma “refeita” San Francisco sob, agora, o signo do vital e da exuberância.


                       A morte não era nem palavra.
                       sob o sol frio, tudo era vida
                       de veias e valvas.
                      Como então não me sentir eterno
                       se toda a baía fervilhava
                      de pássaros e águas?


Na terceira parte, “Chegamento do varão”, o filho do pai severo se transforma o pai de um menino. Essa transmutação de paternidades é também transmutação poética: a lição agora não é mais política, mas existencial. Impõe-se a pedagogia da paternidade e o poeta mira o mundo em volta que seu filho herdará. O filho é um soldado, inscrito civilmente no cartório e na vida, e deve ser educado para servir. E ser educado para a descoberta da vida plena. A vida aqui não é mais subreptícia e assemelha-se ao esgoto que flui escondido e sujo. Mas aventura, viagem, renúncia, luta, amor. O poeta deseja que o filho seja não somente “praça mas também meu irmão. / Meu filho varão.” Nesse poema está contida a lição do poeta social e, prospectivamente, o poeta vislumbra o mundo futuro que, na verdade, é o mundo seu contemporâneo. Se há um campo semântico ligado à militarização – praça, soldado, disciplina, servidão – ao mesmo tempo é um poema de comemoração e de euforia em relação à vida. Whitman ressaltava o trabalhador saudável, quase como décadas e século mais tarde, o furor do canto socialista realçará. Whitman, gráfico, também era operário. Nesse mesmo tom de convocatória, guardadas as diferenças de época e de estilo, Whitman e Lêdo Ivo se irmanam na vitória da vida.
Aqui (no poema “O zumbido junto ao berço”), a vida toma o mesmo tom subreptício de outros poemas, mas, embora suja, ela também desvela e revela, e a mistura de simbologia positiva e negativa, como a vida, mesclam-se: mangue e coqueiros. Intermediário homem, entre as idades do pai na infância e do filho no futuro, o poeta, desbordante e feérico, despeja metáforas de natureza e expõe a natureza de suas metáforas neste poema: a tensão entre pólos conflitantes, a vida bela e pestilenta (“o dia belíssimo e pestilencial”).
Há em Lêdo Ivo, a tentativa de reter a passagem do tempo e das coisas. Além disso, sua perspectiva de registrar um universo amplo como, por exemplo, a agitação de uma cidade, as atividades humanas, o atrito dos desejos, o espectro amplo das manifestações da natureza humana e da natureza física. São vários poemas em que o poeta se empenha em, engenhosamente, abarcar o maior número possível de movimentos, atividades, manifestações e ações ou atos assemelhados. Tal atividade corresponde ao que apontamos de sua visão “do alto” e “vertical”. Eu diria: a horizontalidade de uma visão ampla vertical. Veja-se esta enumeração abundante no poema “A travessia do dia” e negue-se a abrangência universal do poeta, ou melhor, a tentativa de abraçar o todo, de a palavra resgatar a atividade humana e todo e qualquer tipo de natureza:


                            Sob céus de estrôncio
                            os dois atravessam
                            terraços de juta,
                            rios de estafetas,
                           passagens de nível,
                           cílios de alcachofra,
                           viadutos de fel,
                           geisers, telegramas,
                           canais burocráticos,
                           setas, frigoríficos,
                           hectares de acônito,
                           fanais plutocráticos,
                           negros manequins,
                           horas de eucatex,
                           cones de produtos
                           manufaturados,
                           bosques de linóleo [...]


A enumeração é maior e mais profunda já que não inclui apenas atividades reais, mas poeticamente conjunções paradoxais ou inexistentes como “cílios de alcachofra, viadutos de fel, horas de eucatex, etc” para expressar uma variedade de desumanização, de reificação tão ao gosto de Adorno e uma modernização predatória como os seus “bosques de linóleo”. Enumeração que continua em sua série, agora foneticamente assemelhados, mas que verdadeiramente fazem par, um par desconexo à primeira leitura, embora logo perceptível como na dupla “narina/latrina”:


                  E pálidos cruzam
                  sob o céu sereno
                  onde astros se ocultam
                  o mundo de urina
                  angina batina
                  doutrina chacina
                  narina latrina
                  neblina piscina
                  ruína rapina
                  vitrina morfina
                  vacina e propina
                  orvalho e mentira.


Desta vez, a poesia foi monetarizada (“A vida é moeda / de cara e coroa, / de câmbio e conversa”). O poeta a reduziu a sua esfera material e menos humana. E, embora queira minimizá-la, sabe o peso de sua gravidade. Restringe-a sob o ponto de vista do usuário da vida que só a enxerga do ponto de vista mais mesquinho. Belo poema em que mistura o social e a visão dantesca da sociedade. Outra mescla se oferece: em “Confidência do sonhador a seu filho no berço”, o que dispara é uma paternidade que se confunde com uma responsabilidade social. Embora exista o tom e teor engajado, o poeta também se engaja no compromisso com o filho que se confunde com o compromisso social e, mais amplamente, com o compromisso com o vital. A vitalidade do sonho e do concerto comunitário, a vitalidade daquele que gera, desde filhos à utopia, desde compromissos ao sonho.
Essa tensão entre paternidades, o desejo de redescobrir o mundo no varão herdeiro, o mundo mercantilizado e massificado, a divisão de classes, a presença dolorosa do social, tudo envolve Estação Central numa visão ao mesmo tempo desiludida e otimista (“a vida é solidão e convivência”). Solidão doída porque sempre há uma vigilância de outros homens ou de máquinas apuradas, e a convivência larga, múltipla e coletiva não nos salva. Ao contrário, somos condenados ao degredo do coletivo e à solidariedade da solidão – nunca o homem, social e metafísico, está só. Contudo, o que mais forte se afirma é, como no último poema do livro, a mensagem solar de um futuro de “fervor e claridade” que o varão inaugura.
O diálogo permanece não só entre o poeta e a natureza, mas entre o poeta e as atividades que uma linguagem outra poderia distanciar, como no poema “O ferrador de cavalos”.


                   Em que língua falarei
                   ao ferrador de cavalos?
                  Por que, na minha língua
                  de assombro e vogal,
                  só falo a mim mesmo
                 – ao meu nada e ao meu tudo –
                 e nem sequer disponho
                do gesto dos mudos?


Contudo, o poeta quer irmanar-se até na faina do homem rude por meio da linguagem (“Empunhando o martelo / ele me conta histórias / de cravos perdidos / e cavalos mancos), essa que o afasta do irmão pouco letrado, embora lhe conte histórias de cravos perdidos e cavalos mancos.
Inicialmente, uma mistura de homem e de objetos de transformação da natureza – aí incluídos desde utensílios como enxadas até o cavalo –, o poeta interage como o universo simbólico que o campo produz, e não propriamente assume uma poesia de caráter campestre. “No galpão guardamos as enxadas enferrujadas [..] / No depósito escuro onde repousam escorpiões / está a chave que não abre nenhuma porta.” A natureza soturna (e noturna) dos poemas expõe o lado mais inconsciente, o medo ancestral, as entranhas das sombras, a imaginação demoníaca que se esconde no escuro. A noite – pesada, densa, onipresente – representa os instintos escondidos, os recônditos animais interiores que se projetam na natureza de claro/escuro, de obscuridade, de “ventania que exacerba os faisões” como timbre de uma paisagem não desolada, mas assolada por símbolos e metáforas do homem e sua natureza.


                      Eis a dádiva da noite:
                      fenda, cova, gruta, porta
                      casto pássaro sem canto
                      cisterna oculta no bosque
                      concha perdida na praia
                      viva natureza-morta.
                      Um corredor de coral
                      matriz e canal de mangue
                      trilha, sebe, valva, furna
                      voluta cheia de adornos
                      desfiladeiro da tarde
                      tumba de sol e corola
                      sereno da madrugada.
                                                            (“A recompensa”)


No poema “Os dois caminhos”, o poeta reconhece a duplicidade da existência. O duplo, personagem por demais usado na prosa de Borges e que remete a Poe e a seu William Wilson, penetra na esfera poética aqui: o poeta tem seu duplo. E, como nos contos de Borges e Poe, os duplos servem para o confronto. Esta poesia de “silêncio e grito”, de “luz que é escuridão”, mostra não apenas o enfrentamento dialético dos contrários existentes no homem e na natureza, mas aponta para a tensão de uma existência em que dois pólos inerentes ao homem o conformam. Outra vez, o poeta se utiliza da natureza exterior para explicar a natureza interior do homem: “Eram dois os caminhos. / Indo por um deles / encontrei meu irmão / com uma arma na mão [...] Os dois caminhos eram / um único caminho / e eu era ao mesmo tempo / eu e meu irmão.”
A noite não apenas apresenta a escuridão literal, mas coisas, objetos e sentimentos que estão obscuros ou recônditos na alma como, por exemplo, no poema “O amigo”. Nesse, há um relato de uma amizade e simpatia que só se realizará depois da morte. Só depois da morte o poeta poderá ficar “em teu silêncio e solidão / de homem morto e abandonado”. A noite aqui se mostra como a morte, um dos seus disfarces. E a solidariedade não é solar, mas silenciosa e póstuma. Uma amizade que resultará não da agitação da vida, mas da memória que o poeta tem do morto e da solidariedade que declara ao agora “amigo” sepultado.


Embora seja teu amigo
não nos encontraremos nunca.
Jamais verás a minha sombra
quando eu caminhar ao teu lado
nem ouvirás minhas palavras
se um dia eu te gritar bem alto.
Só no momento em que morreres
é que irei ao teu encontro.
E para sempre ficarei
em teu silêncio e solidão
de homem morto e abandonado.


Há, inclusive, neste livro, temas por demais atuais como a devastação e a ação predatória do homem em relação à natureza. Logo esta natureza que a acolhe, rejeita, enfim interage com o homem, torna-se vítima. Isso já em 1982, a visão de contemporaneidade e evolução mostra que o poeta está atendo à vida pulsante, como no poema “Imagem do deserto”, em que diz: “Mas fomos nós que derrubamos as flores e secamos os rios. / Este deserto já foi nosso reino.” Há certo desencanto, inclusive com a atividade do poeta que antes era vista como de origem divina e redentora. Agora a moeda tem azinhavre (“O dinheiro dos poetas”), o poeta não detém nenhuma riqueza, vive seu pesadelo no mundo do capital e a moeda que lhe cabe “o tempo condenou a não ser pão”. Uma continuidade neste livro é a revolta do poeta contra o capitalismo que o revolta ou desdenha da atividade do poeta e sua identificação com as coisas prosaicas e com o povo, que “é eterno”. Como em “A uma máquina de lavar roupa”, os temas prosaicos se mesclam a questões existenciais, metafísicas ou religiosas. Essa religião, contudo, é apenas um manto não-sacrílego, mas índice de uma comoção política de existir, ali, em que máquinas de lavar se assemelham à purificação de atos impuros, de pecadilhos. A máquina de lavar, símbolo do mundo mercantilizado e mecanizado, cumpre a função de água-benta.


O branco mais branco do mundo
unge-me com a sua santidade
e inocência.
Posso pecar de novo, mentir, arrojar-me
na noite que fulge entre o Cristo taciturno
e o meio clitóris.


É interessante o verso “Todas as palavras são moedas perdidas” porque aí está inclusa a visão conceitual do poeta em relação à palavra se mercantilizar, a vida se tornar mercadoria, e a poesia perder sua força primitiva de expressão e ser somente algo de valor, mas perdido, esquecido, escondido. A poesia seria algo cujo valor monetário não depende de sua base financeira, mas é uma moeda. O que é uma moeda? Um valor simbólico e que tem valor de troca. Logo, o poeta detém algo simbólico que vale no mundo das trocas, mas que perde, se esconde, não se deixa valer. A visão de Deus, mesclada à natureza, aparece e mostra o poeta, se não religioso, com o espírito insuflado de uma existência superior e divina. Deus é tudo e, sendo tudo, é vida. E a vida é feita de elementos ordinários, cotidiano, silêncio, mata, pântano, grão de trigo, usina nuclear, etc. Ao inserir esta temática de fundo – diria místico e não religioso – o poeta torna mundano uma atitude divina. O poeta desconstrói a idéia de um Deus inatingível e coloca-o nos lugares mais inesperados como a exaltar a presença “divina” do cotidiano e desmistificar um Deus austero. Diria que há pouco cristianismo, se igualamos às expressões poéticas dos poetas católicos Murilo Mendes e Jorge de Lima. Aqui, não é um Deus transcendental, mas um Deus mediatizado pela realidade circundante. Carlos Montemayor afirmara:


“[Lêdo Ivo] é solitário, mas panteísta, protéico; é elegíaco, mas não se dói do agora em que morre; é poeta, mas menos em seus versos que na alegria de seus versos, alegria de sua voz; não em seu canto, mas na euforia do canto. Religioso, panteísta, porém sem fronteiras nem territórios proibidos, volta a ser um poeta que canta a tribo.”


Lêdo persegue a posição ora privilegiada, ora atônita, do poeta no mundo moderno. São vários poemas que atravessam diversos títulos em que o poeta se indaga de sua condição, se fragiliza, se nega, outra vez enaltece e se diferencia. Em qualquer dos casos, há uma tentativa de esboçar uma poética. Seja na solidão do poeta, seja em sua busca do inefável. Contudo, observado que a poética sairá de sua prática do homem urbano do século XX, Lêdo Ivo busca (cognição poética) entender a condição do ser poeta em seu tempo.
Em Mar oceano, o poeta está carregado de si mesmo, cheio de metáforas e de memórias, de imagens e de passado, de poesia e de elementos prosaicos. Neste livro, em que Lêdo Ivo inclui partes modernas da realidade – buraco negro, guerra nas estrelas, loja pornô –, há certa precariedade da relação do poeta com o mundo sensível e visível, a vida parece “caminhar a seu lado”, e não dentro dele. Essa dialética entre mundo interior e mundo exterior é um dos conflitos existentes. E até mesmo a poesia, que o poeta afirma ser sua bagagem nas viagens (poesia e memória), o poeta se rende ao indizível.


A poesia é um segredo
feito de êxtase e medo
que não confia a ninguém
– nem a mim mesmo.


Ainda no mesmo livro, a relação homem x Deus é acrescentada por uma descrença no divino. Torna Deus prosaico como no poema “O Turista” (aliás, Deus é um turista), mostra desencanto com a humanidade (ao lado o poema “Os irmãos do metrô”, aponta justamente para uma solidariedade uterina e de ferro das grandes cidades) e outra vez deseja apenas existir igualando-se à vida simples e sem Deus. “O céu está cheio de imprecações. / Invejo as gaivotas / que bicam a água cinzenta / – as gaivotas que não precisam de Deus”.
Não é novidade na poesia de Lêdo Ivo ser o poeta aquele que transforma a realidade em arte inefável: “eu lhes devolvi [às flores] a vida”. Mas, agora, há uma sutil e pequena diferença. Não só o poeta produz “sua” realidade: o poeta não desdenha da realidade, mesmo de matéria plástica, mas a sublima a ponto de ser imortal. Nos dois poemas “A lição de Turner” e “A devolução” está a representação existente no ato que, para o poeta, é mais real que a própria realidade. Essa, que foi fonte de reprodução, seja do verso, como em “A lição de Turner”, seja nas flores industriais, no poema “A devolução”, aponta para uma realidade que só existe porque o pintor pinta ou o poeta toca as rosas e as faz “escapar de sua maldição industrial [...] alcançando a beleza dos seres vivos”. Esta recriação e não a realidade em si mesma já apareceu diversas vezes proteicamente metamorfoseada em figuras da natureza ou até mesmo na idealidade da mulher.
Essa apreensão da realidade (aliás, como todo processo de representação na arte) não é simples. A realidade não passa diretamente para o campo estético – existe a intermediação do “ver”. O olhar que apreende é um dos vértices do triângulo. O pensamento – o ponto de vista subjetivo é a grande realidade e esta realidade passa pelos filtros do pensamento e da palavra, no caso da literatura – logo se torna a realidade primeira e última da literatura. Lêdo Ivo explicita seu processo de apreensão do real que vem a ser o processo normal de apreensão da realidade.


Ó meu caro Descartes,
tua certeza é dúvida
oculta nas tulipas
abertas para a noite
de sol e sacramento.
Todos nós somos sombras.
Nosso existir é um sonho
que sonha o pensamento
entre os plátanos verdes.


Mas aqui há a diferença de que há sombras no pensamento. Embora aparentemente límpida e de fácil leitura, o poeta aponta para uma leitura sombria de sua realidade apreendida. E mais ainda, resgatando o “la vida es sueño”, de Calderón de la Barca, o poeta aqui acrescenta que este pensamento sombrio é uma outra apreensão da realidade do pensamento, ou seja, a realidade não é apreendida através de uma triangulação, mas de uma forma quadrangular: a realidade x realidade sombria do pensamento x o pensamento que pensa o sonho x a poesia ou a palavra poética.
Nesse Mar oceano Lêdo utiliza vários poemas em prosa. Uma prosa seca, acusatória, tendo como tema as pequenas misérias da cidade e da existência. Um grito de socorro à civilização que perece, a um mundo decadente que não se dá conta de sua existência errática e desumana. Os elementos da vida mais ordinária se inserem nos poemas, alguns descritivos em suas enumerações de desgraças: mictórios, botequins decadentes, lagos imundos, praças abomináveis, aeroportos cheios, outdoors dilacerados...
A morte ronda os poemas e nada vale nada. Tudo precário e instantâneo. Lêdo se atualiza, submerge no mundo das “maravilhas” tecnológicas que é outra espécie de morte, como diria Baudrillard. O poeta que busca o inefável, agora quer a eternidade, pois o que o rodeia não o satisfaz, diminui-o, transforma-o em coisa. A morte é tema recorrente mesmo que ela seja não a eternidade do poema que permanece, mas a vulgar “promessa de eternidade” como sinônimo de duração num mundo de coisas efêmeras.
Valeria a pena estudar com mais profundidade a relação do poeta com a religiosidade e Deus – recorrente em sua poesia. Num dos poemas de Mar oceano, Lêdo escreve que Deus está escondido dentro dele “precisamente no lugar onde jamais conseguirei alcançá-lo”. Desse modo, Deus não apenas interage com o prosaico, mas também faz parte integrante da fisiologia e, mais ainda, da psique do poeta. O poeta não quer ser Deus, não. O poeta não alcança o divino que se esconde dentro dele.
Os poemas em prosa – quase um desabafo –, sem descurar do elemento poético, levam o poeta a uma confissão sofrida de sua condição e de sua busca que está em si mesmo: “Evidentemente, nada me espera lá em cima. Eu sou o próprio esperado, o conviva de nenhum banquete, o visitante de si mesmo.” Nesse sentido, a geografia – tempo e espaço – desaparece, assim como a referência ao Outro ou ao Tu, que renegará em outro poema. Neste poema “A escada”, que lembra a vida (“Foi na infância que comecei a subir esta escada...”), o caminho de ascensão é para a solidão, nessa “bizarra construção”.
Deus, tornado prosaico, também pode ser cruel e devotar-se aos insetos mais cotidianos e asquerosos como formigas, corujas, ratos e morcegos, enquanto que rebaixa o homem-poeta, divergente na categoria dos eleitos pelo divino. O poeta incomoda só por existir. “Reconheço ser um intruso, um invasor de terras. / Estou aqui de passagem e à espera do dia”, escreve o poeta em “O invasor de terras”. A visão de que é apenas um ser secundário da natureza, desmistifica aquela posição inicial de Lêdo Ivo como um ser especial. O espírito predador do homem o deixa escala abaixo dos ratos e dos morcegos e o coloca como invasor incômodo do planeta.
Claro e sombra enchem os poemas de Crepúsculo Civil. Ao lado do sentimento de perda, do efêmero, do que flui e não se recupera, existe um inequívoco sentimento de que as coisas verdadeiras não podem ser ditas e o poeta mergulha num mundo de sombra e segredo, raras vezes surge a luz e a revelação e, assim mesmo em raros momentos, o poeta, como no poema “O animal enxotado”, diz que “saio e transformo a claridade em sombra”. Como é típico da pós-modernidade, a tentativa infrutífera de fixar o momento, também ocorre em Lêdo Ivo. Basta ver o poema “Palha dourada”: “Somos tudo o que se esvai: a sombra, o grito, o amor, a fumaça”. Mas não é só o registro da fugacidade, a mesma fugacidade do tempo que Anacreonte acusara. Lêdo Ivo trabalha também com o resgate excepcional do tempo que flui e não se pode recuperar. Ao contrário da poesia feminina de hoje e do registro do instante, Lêdo Ivo instaura um elemento que recompõe o mero registro da fluidez. Aqui a mão dourada (“e a tua mão / pousa afinal, palha dourada, na minha mão”), não mão simples ou fluida, mas mão transcendental e de áurea importância, recupera e ultrapassa o instante fugidio.
É interessante também, no jogo de luz e sombra, perceber que o poeta acusa uma luz sombria dentro de nós. Nada há exterior – abole-se momentaneamente o Outro (“O outro lado do rio é aqui mesmo”) e não se comunga com a natureza, pois a natureza escura está dentro de nós: “...a noite vem e usurpa a nossa treva”. Raios e relâmpagos (imagens recorrentes) demonstram a revelação do instante, brusco, sem epifania, claridade que revela momentaneamente e se apaga. Durante o livro todo, a recorrência a essas imagens se ligam à precariedade da existência e do homem e, embora haja luz e revelação, essa logo se desfaz.
Em Curral de Peixe, há certo tom de desamparo e desesperança. O poeta que cria, no início da aventura poética, render a realidade pelo inefável da poesia, observa a decadência de pessoas, coisas e fatos. O tempo é a matéria que arruína e amesquinha. O poeta deixa escapar um melancólico olhar pela decadência dos homens e das coisas. Nada o entusiasma mais. Está desiludido com a feérica exposição do mundo exuberante. E a morte passa a ser tema recorrente. “Algo ficará para sempre oculto”, escreve o poeta. O que estão ocultos talvez sejam o mistério e a busca do poeta, ao mesmo tempo ocultos são o caminho e a estratégia para alcançar a pesada carga da realidade.
A presença da morte subalterna outros temas. Agora Lêdo Ivo está mais cônscio da efemeridade das coisas e da noite negra da morte. Deus é outra vez tornado prosaico – mas é um ente que se pergunta sobre a morte. O grito avassalador do perigo de perecer, elemento da natureza, semente e verme, coloca o poeta não diante do dilema de ser ou não ser, mas da imponderável sombra que se aproxima suspeita e colossal a ponto de fazer Deus duvidar de sua eternidade. Parece que o poeta, mesmo se indagando, desiste, fatigado do périplo entre gato e rato, luz e sombra, vida e morte, um a perseguir o outro, ambos esgueirando-se do fim silencioso. Quanto mais avança, “ira, cansaço e desesperanças” permeiam a poesia do alagoano. “A vida será sempre cilada”, escreve o poeta olhando o mundo exterior com desconfiança, medo e desencantamento. A presença virginal ou salvadora da poesia dos primeiros livros já se dissolveu na grande do mal-estar-no-mundo. Embora, não se há de negar, a brecha da invencível crença no homem apenas se vislumbra nas sombras.
O desencanto se alastra para o amor que, segundo o poeta, “não é nada diante da morte” (“O nevoeiro”). Não é travessia, é o limite e “além do amor não há nada” (“Porto de Pedras”). Ao contrário, da expectativa do poeta como jovem artista, agora nem o amor é porto seguro. Permanece, dúbia e contraditoriamente, uma atitude de conflito não resolvido, porque lá no fundo, o amor ainda é algo que pode ser reconstruído. Lêdo Ivo, como bom poeta da modernidade, se vale do paradoxo que, no século XX, tomou ares de temática perene a elucidar a grande contradição da vida moderna e mesmo o paradoxo humanista de o homem viver num mundo que o despersonaliza. Toda a angústia moderna e pós-moderna, relativa ao oxímoro da vida mecanizada e massificada, é manter-se íntegro num universo que o fraciona. “Toda liberdade é cárcere” é um verso a mais de Lêdo Ivo a provar a aflição de ver-se pouco e uno e demasiadamente humano.


Ronaldo Costa Fernandes