sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Mulheres-poema de Ronaldo Costa Fernandes

Fernando Botero
Fui o criado mudo
em cada cama que estive.
Busquei glórias
e só tive Marias.
Talvez meu erro seja maiúsculo.
As mulheres sempre tiveram
um corpo de vantagem sobre mim.
Rejeito a amplitude dos cantos.
Meus olhos se descontrolam
diante do remelexo das coisas fixas.
Perco-me buscando o esconderijo
das coisas reveladas.
Vivo escrevendo a duras penas
– a literatura não me satisfaz.
Pensei em Deus
– meu terço é sempre pela metade.
Que fiz de mim?
As mulheres sempre me puseram
a seus pés:
vale quanto pisa.


(do livro Andarilho, Rio, 7Letras, 2000)

imagem retirada da internet

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Os aniversários queimados na vela do tempo, poema RCF


 
Minha infância foi morar no calendário.
E me lembrei dos aniversários em família.
Os zepelins dos balões,
as velas do bolo
navegam na falsa calmaria.

O bruxuleio familiar escondia diferenças.
Todos se cumprimentavam
como bonecos de impulsão
– prestes a pular da caixa
onde estavam aprisionados.

Havia o risco de os parentes de papel
se amarrotarem no calor das discórdias
que nenhum refrigerante diminui.
Por fim as saudações de plástico
e o bolo cortado da distância.
Não escrevo para preencher o vazio,
mas para esvaziar-me.



(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)