quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Os aniversários queimados na vela do tempo, poema RCF


 
Minha infância foi morar no calendário.
E me lembrei dos aniversários em família.
Os zepelins dos balões,
as velas do bolo
navegam na falsa calmaria.

O bruxuleio familiar escondia diferenças.
Todos se cumprimentavam
como bonecos de impulsão
– prestes a pular da caixa
onde estavam aprisionados.

Havia o risco de os parentes de papel
se amarrotarem no calor das discórdias
que nenhum refrigerante diminui.
Por fim as saudações de plástico
e o bolo cortado da distância.
Não escrevo para preencher o vazio,
mas para esvaziar-me.



(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)