sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

O vento marítimo dos edifícios, poema RCF


Ilustração | Jorge Roa

 

 

 

 

 

De meus cabelos sopram os ventos mais agudos,
as  cordilheiras mansas e as planícies do homem.
De tal sorte, estou com os ossos oxidados
que, ao sair de casa,
não posso suportar o vento marítimo dos edifícios.


Ando pela rua torta,
o corpo cheio de musgos
e as pernas cobertas de sacrifícios.
De tal monta é meu teorema
que me penitencio na igreja de prata
que pende do meu pescoço.


Os porteiros escoltam as cargas e descargas
de gente miúda que alisa as calçadas
ou toma corpo na fauna dos carros
ou floresce na estufa dos homens nos ônibus.


Mundo desfeito de inutilidades,
cozido na salsa do mormaço, a cuspir prédios,
descaso e a puerícia dos cadáveres.

Roço a existência.




(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)




imagem: Jorge roa

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Um homem é muito pouco 38





Meu primo tinha virado um desconhecido dele mesmo. Fui com minha tia nos hospitais, nas delegacias e no Instituto Médico Legal. O corpo do meu primo era tão pouco que não estava em lugar nenhum. Nunca mais minha tia viu o filho. O filho partiu da mesma maneira que parti da vida de Alice. Sem dar motivo. A gente não precisa de motivo para viver. Mas a existência do corpo morto do meu primo daria a minha tia motivo para ela enterrá-lo em pensamento. Era mais fácil e menos doloroso ter cova no pensamento do que ter ausência onde cabe tudo. Logo eu, cometedor de ausências, recriminava meu primo por não dar o corpo morto dele à vista dela para que minha tia pudesse sair do ônibus, em pé, calorento, ruidoso, de percurso lento e demorado em que ela embarcara fazia anos e nunca mais sairia dele.

Não podia conversar com minha tia, portava muitas vozes dentro dela. Conversava com o corpo morto do filho, conversava com as vizinhas de ônibus, conversava com ela mesma que era a conversa mais demorada e dolorosa. Dolorosa porque ela não tinha respostas para as perguntas que se fazia. Era um diálogo desencontrado e múltiplo como os passageiros demorados e suarentos dos ônibus. Ando com o sentimento índio e carnavalesco de que não pertenço também a casa e à vida de minha tia. Gostaria de ir embora, apertar a mão de um desconhecido e ser levado a um baile do qual nunca mais me lembrarei. A mão do desconhecido nunca mais saiu da minha mão. Por isso ando com as mãos quase cerradas pela rua. Algo ou alguém me segura as mãos e me leva a destinos falsos como um menino fantasiado de índio. Da fantasia me lembro. Sempre lembro das fantasias. Quem sabe dentro de anos lembrarei da fantasia que hoje porto e ninguém percebe, só minha tia que tem pensamento e sensação para corpos que não são mais corpos?
 
 
(do romance Um homem é muito pouco. São Paulo, Nankin: 2010)