sábado, 18 de junho de 2016

Cineterra, poema RCF







Tiros de celulóide,
blushes de martírios,
na tela a terra - ocre - explode granadina
e surge a esfinge
- medusa a 24 quadros por segundo -
                     México Insurgente

e desafia:
assiste-me ou te devoro.



(imagem retirada da internet: filme México Insurgente)

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Um homem é muito pouco 22








            Não gosto de nada eletrônico, as máquinas de jogo me deixam confuso. Minhas mãos são máquinas, meus pés são máquinas, meu corpo todo é máquina. Meus sonhos são meu videogame. Jogo quando durmo e jogo também quando não durmo. Se abstraio a rua e estou no bar do Vicentino posso jogar com a realidade. A realidade é um videogame mais lento e mais perigoso. O mundo mesmo parece a tela de televisão. Soube de um sujeito que morreu de ver tanta televisão. Ficou preso numa cela e não se alimentava. Morreu balbuciando frases de seriados, de desenhos animados, de programa de auditório. A causa mortis foi infarto e falência dos órgãos. Para mim, se eu fosse o médico, colocava como causa mortis overimagem ou assinaria o óbito como falência da realidade. 
            O sujeito morreu de quê?, perguntariam.
            De falência de realidade e infarto de imagem. 
           Já tenho bastante imagem dentro de mim. Não preciso procurar mais imagem fora de mim. Por isso penso em ir para uma cidade do interior e viver lá como matuto. E quando precisar de cidade, aciono minhas imagens de cidade e fico dormindo. O diabo é que ninguém se esconde em cidade do interior. No interior você aparece mais e há muitos olhos nas cidades pequenas. As cidades pequenas devem sofrer de visão exorbitada.
        As pessoas acompanham a vida das outras pessoas, tudo se vê, tudo se confere. Não poderia viver numa cidade que tem mais olhos que habitantes. Alto Mandubinha, população: cinco mil habitantes, número de olhos: vinte mil. A impressão que tenho nas cidades do interior é que até os cachorros e os bois me olham com curiosidade. Um cachorro de rua de cidade grande não dá bola para ninguém. Mas um cachorro de cidade pequena tem mais olhos do que os dois olhos de cachorro. Uma vaca de cidade pequena tem mais olhos que os dois olhos olhando um para um lado e outro para o outro. Todo mundo gostaria de ter olhos que olham um para um lado e um para outro. Todo mundo gostaria de ter mais olhos. De substituir perna quebrada, de trocar de nariz, de ter outra boca e coisas desse tipo. É a mentalidade de videogame que existe no homem mesmo antes de existir videogame.





(do livro Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010)

Entrevista You Tube-Trajetória Literária

quinta-feira, 16 de junho de 2016

O tempo na lapela, poema RCF






Certa vez um pedaço de tempo
feito floco de neve
– fiapo de algodão doce
que se desfaz à lambida do toque –
caiu no meu casaco e não se dissolveu.
Permaneci com o tempo na lapela.
Me dei conta de que o pedaço de tempo
– corrosivo e nada friável –
que carregava na lapela
em vez de desaparecer
insistia em crescer
até me tomar o corpo todo
como o reconhecimento do erro
que é uma febre que não cede
ou a lembrança incômoda,
cão que nos segue
e ameaça nos morder a memória.




(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)



(imagem: anne liori)

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Espiral dos caminhos, poema RCF








Haveria um santo dos caminhos
que fizesse reto o que Deus gosta de entortar.
Deus deveria ter um caderno
de caligrafia para melhorar a letra.
Os caminhos que são linhas tortas
corrompem a emoção.
O peso dos outros é sempre
desigual, inumano e cheira a culpa.
Os caminhos emanam cheiro de futuro.
O ódio, o amor, o riso.
Tudo tem seu cheiro e sua medida.
Um metro de ódio,
uma dose de amor,
uma talagada de riso.
Aqui estão os caminhos espiralados,
os caminhos sem chão,
as retas que não levam à lucidez.


(do livro Memória dos Porcos. Rio: Ed. 7Letras, 2012)
(imagem: radu belcin)