sábado, 2 de julho de 2016

Iracema, capítulo de Ideologia do personagem brasileiro


(trecho do livro A ideologia do personagem brasileiro, Ed. UnB, 2007, 1° capítulo)
(...) O roubo da sabedoria
Iracema conta a história da índia tabajara que se apaixona pelo português Martim. O lusitano é aliado dos pitiguaras, que lutam contra os franceses e seus aliados, os tupinambás e os já citados tabajaras. De qualquer forma, Iracema consegue que Martim seja apreciado pelo irmão, Caubi, e pelo pai, o pajé Araquém. Iracema foge com o português, abandonando sua tribo. Engravida. Martim, junto com o índio pitiguar Poti, luta e vence os inimigos. Iracema dá à luz um filho chamado Moacir, que simbolicamente seria o brasileiro, e que quer dizer em sua língua “filho do sofrimento”. Ao final, Iracema morre de tristeza e o pai branco leva o filho consigo. “O primeiro cearense, ainda no berço, emigrava da terra da pátria. Havia aí a predestinação de uma raça?”, pergunta, irônico, o narrador.

No contexto da história do livro, ressalte-se a filiação do personagem autóctone: é filha do sonho. Logo no início, quando Martim se torna hóspede do pai de Iracema, trava-se um diálogo curioso. Martim é cercado, na cabana de Araquém, por belas mulheres. Ele, contudo, faz questão da presença da amada. Iracema contesta que não “pode ser tua serva. É ela que guarda o segredo da jurema e o mistério do sonho. Sua mão fabrica para o Pajé a bebida de Tupã”. A jurema, segundo as anotações do próprio José de Alencar, “é fruto amargo que tem o efeito de haxixe, de produzir sonhos tão vivos e intensos que a pessoa sentia com delícias e como se fossem realidade as alucinações agradáveis da fantasia excitada pelo narcótico”. Iracema seria portadora da chave da imaginação. O Novo Mundo sempre foi identificado com o paraíso perdido, produzindo até mesmo no imaginário europeu a visão idílica do bom selvagem. Nesse país de sonho, fantasia, de extravagâncias imaginárias, de fabulosos mundos, a presença branca e européia de Martim representa a quebra da ingenuidade de um mundo perdido. Martim, ao fazer de Iracema sua prisioneira por meio do amor, impede que esta continue a preparar a beberagem que dá sonhos ao pajé. É como se Martim também usurpasse os poderes sobrenaturais do autóctone. Martim não apenas se miscigena gerando nova raça, ele rouba o fruto do sonho. Obviamente Alencar não faria essa leitura, nem era sua intenção macular o que para ele era fantasia perfeita, amigável, pacífica: a união das raças e a conquista do Novo Mundo. Em outra passagem, Irapuã, chefe dos guerreiros tabajaras, investe contra Martim, acusando-o de ofender Tupã, “roubando sua virgem, que guarda os sonhos da jurema”. Os sonhos da jurema eram uma dádiva. Sem ela, o pajé despenca de sua autoridade mística. Iracema traía não somente a tribo dos tabajaras, sua nacionalidade primeira, mas traía o imaginário de seu povo. Era algo muito mais sério e que o próprio Alencar não se dava conta, entretido que estava em traçar um retrato da formação do Brasil no minúsculo esmalte de sua lenda cearense.
Conta o fato de Iracema ser filha de Araquém, um pajé, e não de um cacique. Ela, portanto, é filha não de um chefe político – o cacique –, mas de chefe da sabedoria, do conhecimento, e detentor da autoridade que lhe dá o xamanismo: o místico. É um saber da tribo e, nesse sentido, um saber americano, nosso, brasileiro. O estrangeiro receia esse saber. Martim, escondido na caverna de Araquém, mantém diálogo com Iracema. Diz o branco, na parte XIII:

"– O chefe (Poti) não carece de ti: ele é filho das águas (diz Iracema); as águas o protegem. Mais tarde o estrangeiro escutará as falas do amigo.
– Iracema, é tempo que teu hóspede deixe a cabana do Pajé e os campos dos tabajaras. Ele não tem medo dos guerreiros de Irapuã, tem medo dos olhos das virgens de Tupã."

O estrangeiro não teme a filha de Araquém, mas o que se esconde atrás dos olhos – conhecimento, sapiência – da filha de Tupã – deus do sonho e do telúrico. É o medo do conhecimento da nova terra, do novo espaço visitado. Alencar não intuiu o conflito, o choque de visões, o contraste de perspectivas e a dualidade das Histórias. Aqui são duas Histórias que se encontram – e se fecundam apenas nos olhos românticos de Alencar. Mas se Alencar não intuiu o conflito, apressou-se em apresentar a solução distensa da miscigenação compactuada e não fruto da anulação do outro. A história de Iracema é a história do não, é a história da recusa, da perda de identidade e da conquista pela supremacia cultural. Por isso Martim teme mais o saber da filha de Tupã que o tacape do inimigo.

O mito torna-se realidade
A história da literatura já viu aparecer personagens que tomaram vida própria, como Dom Quixote, Dom Juan, Madame Bovary e outros. Foram a complexidade dos personagens e o simbólico que cada um carregava, como projeção social, que deram a essas figuras de papel densidade desconhecida em outras expressões artísticas. A ficção escrita tinha o poder de imprimir no público personagens que eram projeções do imaginário coletivo. É curioso como figuras do romance – narrativa complexa e culta – tinham atingido a esfera do comum social. As figuras de Dom Juan e de Dom Quixote fazem parte do aparato metafórico do povo, ainda que a grande maioria desconheça Cervantes e, mais ainda, Tirso de Molina, em cuja peça pela primeira vez apareceu, na Espanha do século XVII, o personagem sedutor e irresponsável . O caso de Iracema é diverso. Ainda que se possa argumentar que o personagem de José de Alencar logrou certo alcance, jamais se poderia comparar o alcance de personagens como os anteriormente citados com Iracema. Os personagens como Madame Bovary, Dom Quixote e Dom Juan não só se fixaram na mente dos leitores como se criaram certos adjetivos que foram incorporados à linguagem corrente culta como bovarismo, quixotesco e donjuanismo. O que não ocorre com Iracema, mesmo restrito ao território brasileiro. O processo de criação de Iracema, para José de Alencar, comparando-se ao dos mitos literários aqui citados, é justamente o contrário. Cervantes, Tirso de Molina e Flaubert produziram personagens com grande densidade que vinham de encontro a um vazio ou expectativa da psique coletiva. Eles foram apropriados pelo imaginário do leitor porque representavam comportamentos míticos e arquetípicos, grosso modo, a loucura, a vaidade e a traição. Todos os três são muito mais complexos. Em Dom Quixote estão presentes outros elementos: a luta entre Davi e Golias, o sonho exacerbado contra a realidade medíocre. Em Dom Juan, a vacuidade humana, o narcisismo, a utilização da mulher (ou do outro). Em Madame Bovary, o cotidiano sufocante, a ausência de perspectiva, o papel da mulher na sociedade burguesa, a necessidade do sonho. E muitos outros mais. Essa possibilidade enorme de simbologia também é propícia para que o mito literário se espalhe e se fixe na sociedade, já que acolhe e representa vários anseios ali sublimados. Com Iracema, há um processo inverso. Há um esvaziamento. O autor não parte da complexidade da personagem. Ele se apropria da forma vazia do mito e tenta preenchê-lo com sua história de amor. Dessa maneira, Iracema é um personagem que serve a uma idéia e não a várias idéias que surgem baseadas na referencialidade excessiva e múltipla do personagem. O personagem recebe uma exterioridade e não projeta uma interioridade.

O projeto ideológico (...) continua...
(fim do trecho selecionado)

pgs 22 e 23 de A ideologia do personagem brasileiro

imagens retiradas da internet

sexta-feira, 1 de julho de 2016

A noite sucede o dia, poema RCF




Sou pouco de muito me acabar
e esta dor que me atravessa
nasce não sei donde
e não se finda ao corpo findar.

Esta dor que só a mim me resta
não a compartilho com ninguém,
não por egoísmo que dor ninguém a quer,
mas para não ser alvo de mofa
ou ver-se mofado o corpo que o fado traz.

Aos outros sou são e cheio de vida,
cabelo ao vento e rosto corado de lida,
mas o deserto que me corrói,
a dor que me derrota e me erode
me faz grão o que antes era pedra
me torna vento e errático,
ou seja, sou agora o que antes na cara me batia.

Vivendo vou o que me resta
que a dor se fez de mim
como um braço necessário
e uma perna que nos move
e de tanto senti-la
quando não vem me pergunto
que fizeram de minha perna
ou de meu braço que mover não posso,
porque a dor tanto se agasalhou,
tanto se fez própria e minha,
que, em sua falta, me pergunto:
se não era a existência por si só
aquilo que antes me doía
tão natural como a noite sucede o dia.




(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)



(imagem retirada da internet: garciaplugado)



quarta-feira, 29 de junho de 2016

De como quase matei Carlos Drummond de Andrade



Certa vez entrei no elevador
e encontrei o poeta Carlos Drummond de Andrade.
Era no Palácio da Cultura,
na rua México, onde o poeta trabalhou
a vida inteira.
Só nós dois no elevador.
Silêncio.
Houve um espasmo poético,
um frio na barriga em verso livre,
a máquina do mundo da poesia
ali na caixa de ferro do elevador.
Fiquei pensando
que poderia matar o poeta CDA.
Ficaria famoso como ficou famoso
Lee Oswald por matar Kennedy.
Falariam de mim toda vez que
falassem de Drummond.
Mas não aconteceu nada. A porta
do elevador abriu, o poeta
publicou mais livros de poesia
e eu não matei CDA.Ah, ficaria famoso como
quem matou John Lennon.
Como era mesmo o nome dele?


(do livro O difícil exercício das cinzas)

terça-feira, 28 de junho de 2016

Exílio, poema RCF


 

 imagem | hreinn friöfinnsson

 

 
Quando nasci, me exilei.
Nascer foi uma guerra,
com sangue, suor e lágrimas.
A porta da rua
– minha fronteira –
faz de casa minha pátria.
Fora dela , vivo na ilegalidade.
Ao fim do dia, me tranco
no meu campo de refugiado.
Sei, contudo, que só estarei
em total privacidade na morte.
Estou farto de revistar
minha  alma clandestina.
Me contrabandeio
cada vez que passo
na aduana da rotina.
Tenho medo de que não carimbem
o visto de entrada na vida.
Amanhã lerei o jornal
– dossiê das violências –
que não traz o nada consta
da minha vazia existência.




(Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)


(foto: hreinn friöfinnsson)



 

segunda-feira, 27 de junho de 2016

O poema, RCF

1


O cata-feijão do alfabeto,
o mata-borrão dos erros iluminados,
a pétala dos acentos.

A palavra pende por uma linha
depois cai
- trapézio -
no emaranhado da teia do verso.

As palavras no pátio do verso,
como folhas mortas,
redemoinham
e, no ciclone do poema,
- cicuta -
o verso se desorienta
pelo corpo vazio da biruta.

Eis que súbito
- como a nudez repentina surpreende -
surge,
e ladra,
persegue meu calcanhar,
pedaço de papel no bolso com telefone ignorado,
o poema.

Ainda não perdeu a goma
das coisas novas;
é apenas sensação,
cinema de sombras,
hiato entre gesto e viver.


(do livro Andarilho, 7Letras, 2000)


imagem retirada da internet:almada negreiros

domingo, 26 de junho de 2016

Um homem é muito pouco 19






Queria também era anestesiar o pensamento. O álcool não anestesia o pensamento. A maconha e a cocaína também não anestesiam o pensamento. Em mim as drogas fazem o pensamento ficar com o nervo exposto, em carne viva. Em mim as drogas e a bebida fazem é mutilar meu pensamento. E meu pensamento mutilado pensa medo. Meu pensamento com droga não sobe nem desce. Meu pensamento com droga fica como elevador parado entre dois andares e um homem não pode viver com o pensamento parado entre dois andares. Não desgosto do dr. Máximo. Máximo é um homem minúsculo. Gosto das coisas minúsculas que não assustam a existência do mundo. E parecem sugerir que a delicadeza e o detalhe são como uma unha tão nobre e importante como as coisas grandes e que deblateram o tempo todo.

            Ainda há abandono e ruína no mesmo andar. Ou andar acima ou andar abaixo. Uma miséria vertical. Andei muito pelo mundo e conheci a desgraça horizontal. Aqui existe tudo em forma de risco. Um risco de cima abaixo. Há um monte de família. Uma delas: o garçom. O garçom é o tronco. A árvore do garçom só tem galho vadio. É um tronco que trabalha num restaurante perto. Os outros garçons trocam de roupa no trabalho.

            O garçom meu vizinho sai vestido de trabalho. A gente abre o elevador e o elevador está black-tie. Cada dia mais o terno cresce. É que ele murcha na sua função de tronco. A família pouco se dá, hum, hum, se ele adoece. As olheiras piores são as olheiras dos pulmões. Ele também não tem os pulmões vadios. O pulmão dele é operoso e um pulmão operoso que não descansa talvez logo adoeça.




(do livro Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010)