sexta-feira, 1 de julho de 2016

A noite sucede o dia, poema RCF




Sou pouco de muito me acabar
e esta dor que me atravessa
nasce não sei donde
e não se finda ao corpo findar.

Esta dor que só a mim me resta
não a compartilho com ninguém,
não por egoísmo que dor ninguém a quer,
mas para não ser alvo de mofa
ou ver-se mofado o corpo que o fado traz.

Aos outros sou são e cheio de vida,
cabelo ao vento e rosto corado de lida,
mas o deserto que me corrói,
a dor que me derrota e me erode
me faz grão o que antes era pedra
me torna vento e errático,
ou seja, sou agora o que antes na cara me batia.

Vivendo vou o que me resta
que a dor se fez de mim
como um braço necessário
e uma perna que nos move
e de tanto senti-la
quando não vem me pergunto
que fizeram de minha perna
ou de meu braço que mover não posso,
porque a dor tanto se agasalhou,
tanto se fez própria e minha,
que, em sua falta, me pergunto:
se não era a existência por si só
aquilo que antes me doía
tão natural como a noite sucede o dia.




(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)



(imagem retirada da internet: garciaplugado)



quarta-feira, 29 de junho de 2016

De como quase matei Carlos Drummond de Andrade



Certa vez entrei no elevador
e encontrei o poeta Carlos Drummond de Andrade.
Era no Palácio da Cultura,
na rua México, onde o poeta trabalhou
a vida inteira.
Só nós dois no elevador.
Silêncio.
Houve um espasmo poético,
um frio na barriga em verso livre,
a máquina do mundo da poesia
ali na caixa de ferro do elevador.
Fiquei pensando
que poderia matar o poeta CDA.
Ficaria famoso como ficou famoso
Lee Oswald por matar Kennedy.
Falariam de mim toda vez que
falassem de Drummond.
Mas não aconteceu nada. A porta
do elevador abriu, o poeta
publicou mais livros de poesia
e eu não matei CDA.Ah, ficaria famoso como
quem matou John Lennon.
Como era mesmo o nome dele?


(do livro O difícil exercício das cinzas)

terça-feira, 28 de junho de 2016

Exílio, poema RCF


 

 imagem | hreinn friöfinnsson

 

 
Quando nasci, me exilei.
Nascer foi uma guerra,
com sangue, suor e lágrimas.
A porta da rua
– minha fronteira –
faz de casa minha pátria.
Fora dela , vivo na ilegalidade.
Ao fim do dia, me tranco
no meu campo de refugiado.
Sei, contudo, que só estarei
em total privacidade na morte.
Estou farto de revistar
minha  alma clandestina.
Me contrabandeio
cada vez que passo
na aduana da rotina.
Tenho medo de que não carimbem
o visto de entrada na vida.
Amanhã lerei o jornal
– dossiê das violências –
que não traz o nada consta
da minha vazia existência.




(Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)


(foto: hreinn friöfinnsson)



 

segunda-feira, 27 de junho de 2016

O poema, RCF

1


O cata-feijão do alfabeto,
o mata-borrão dos erros iluminados,
a pétala dos acentos.

A palavra pende por uma linha
depois cai
- trapézio -
no emaranhado da teia do verso.

As palavras no pátio do verso,
como folhas mortas,
redemoinham
e, no ciclone do poema,
- cicuta -
o verso se desorienta
pelo corpo vazio da biruta.

Eis que súbito
- como a nudez repentina surpreende -
surge,
e ladra,
persegue meu calcanhar,
pedaço de papel no bolso com telefone ignorado,
o poema.

Ainda não perdeu a goma
das coisas novas;
é apenas sensação,
cinema de sombras,
hiato entre gesto e viver.


(do livro Andarilho, 7Letras, 2000)


imagem retirada da internet:almada negreiros

domingo, 26 de junho de 2016

Um homem é muito pouco 19






Queria também era anestesiar o pensamento. O álcool não anestesia o pensamento. A maconha e a cocaína também não anestesiam o pensamento. Em mim as drogas fazem o pensamento ficar com o nervo exposto, em carne viva. Em mim as drogas e a bebida fazem é mutilar meu pensamento. E meu pensamento mutilado pensa medo. Meu pensamento com droga não sobe nem desce. Meu pensamento com droga fica como elevador parado entre dois andares e um homem não pode viver com o pensamento parado entre dois andares. Não desgosto do dr. Máximo. Máximo é um homem minúsculo. Gosto das coisas minúsculas que não assustam a existência do mundo. E parecem sugerir que a delicadeza e o detalhe são como uma unha tão nobre e importante como as coisas grandes e que deblateram o tempo todo.

            Ainda há abandono e ruína no mesmo andar. Ou andar acima ou andar abaixo. Uma miséria vertical. Andei muito pelo mundo e conheci a desgraça horizontal. Aqui existe tudo em forma de risco. Um risco de cima abaixo. Há um monte de família. Uma delas: o garçom. O garçom é o tronco. A árvore do garçom só tem galho vadio. É um tronco que trabalha num restaurante perto. Os outros garçons trocam de roupa no trabalho.

            O garçom meu vizinho sai vestido de trabalho. A gente abre o elevador e o elevador está black-tie. Cada dia mais o terno cresce. É que ele murcha na sua função de tronco. A família pouco se dá, hum, hum, se ele adoece. As olheiras piores são as olheiras dos pulmões. Ele também não tem os pulmões vadios. O pulmão dele é operoso e um pulmão operoso que não descansa talvez logo adoeça.




(do livro Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010)