sábado, 23 de julho de 2016

Fruto da paixão



A flor do maracujá é a flor da paixão.
A flor,
exposta à paixão dos olhos
e não ao amoroso da boca,
é fruto exibido.

Flor do maracujá –
vária e diversa – ,
flor utilitária
que fora de seu caule
murcha
como o homem sem a seiva da ambição.

Flor de fruto
fruto do fruto
beleza tímida
horária – vivendo apenas
seu tempo exato
no pé.
Fora dele, a flor da paixão,
passion fruit
ou
fruit de la pasion,
é o avesso de si
e se fecha, negando
aos outros a beleza
que apenas se nutre
e se mostra a si
mesma como a alma
que, embora bela,
não pode se expor sozinha.

Qual o tempo exato
para a fruta madurar?
Sob a bigorna do sol
moldada a ferro e fogo
ou sob a salmoura
dos dias nublados?
Cada fruta: seu forno,
seu tempo e sua temperatura
de andar madura
na cerâmica
do longe.
Ao longe a fruta é natureza morta,
pinceladas abstratas, traços exatos,
sem sabor, unidimensionais.




(Terratreme, 1997)

imagem retirada da internet: miró

 

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Imaginações violadas, poema RCF





O padeiro exerce o fermento
na alquimia do forno
que tudo assa: trigo e cotidiano.

Há fila de espantos
para comprar o alimento
que já está em nós:
rotina de existir todas as manhãs.

Há algo de bíblico
em meu ateísmo amanteigado
e no confuso café com leite
em que as matérias filosóficas
se reduziram, em minha mesa, a migalhas.

A imaginação é o grande padeiro,
de um lado me fermenta,
de outro me coloca em seu forno:
a combustão de existir.



(do livro Eterno passageiro, Varanda, 2004)


imagem retirada da internet: Igorkmarques

 

quinta-feira, 21 de julho de 2016

A bússola do relógio, poema RCF


 

 

 

 

Para que construir novo relógio?
Em vez do ponteiro
que é uma bússola
que mostra o corte em vez do norte
que aponta o só em vez do sul
que revela a peste em vez do leste
que acusa o fim em vez do oeste,
que se faça uma hora sem ponteiro
como se a bússola do tempo
não tremesse parada na solidão,
não desabrochasse o botão
da rosa de vento da morte
e, por fim, criasse o equívoco
de uma ampulheta de cintura cerrada,
em primeiro lugar venha o fim do minuto
e depois o que se segue é inútil segundo.








(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)



quarta-feira, 20 de julho de 2016

Aluguel, poema RCF





O que em mim mora e que me deixa imóvel
é este poema que se inquilina
e, de favor, ameaça, mas não sai.
Não há bisturi ou nada que o alcance.
Embora possa soltar-se a qualquer momento
expelido humor que de nós se expulsa,
ainda me faz crer que por mim é criado
quando, poema invasivo, sou dele escravo.
Quer também a mente junto tomar,
já que o corpo me tem subjugado,
corpo metástase de seu mal-estar.
Pensa por mim o que nunca pensei.
Por fim é dos meus nervos locatário,
poema tumescente entre as minhas vértebras.
Verso espesso onde me alongo,
reverso escasso que só me dá cansaço.
Este poema transverso
incha e dói à mente sutil
sem mão que o toque
sem cirurgia que o ameace.
Assim ando torto e doente
de tal poema incandescente
que me habita quando não o expulso
que não tem teto
quando quero retê-lo
em cada verso, canto ou porão.





(do livro A máquina das mãos. Rio: 7Letras, 2009)

imagem retirada da internet: fugindo da crítica, pere borrell

 

terça-feira, 19 de julho de 2016

Minha Foz não é do Iguaçu, poema RCF





A rotina muralha o dique das vontades.
Tudo comporta minha voracidade represada.
As hélices da liberdade
logo percebo são asas de borboleta,
lúbricas, mas aleatórias e divergentes.
O que me põe elétrico são as turbinas do sonho.
Em outros momentos, seco-me.
Desaba sobre mim o desânimo.
Não sinto nenhuma energia.
Só uma queda na seca.
Um arame de água
– o desconforto do abismo –
nada de mar vertical,
o drama de esperar
a catarata do tédio
as sete quedas da semana.



(do livro MEMÓRIA DOS PORCOS. Rio: 7Letras, 2012)

(Sete Quedas, de Reginaldo Pereira)

 

segunda-feira, 18 de julho de 2016

A Catedral, poema RCF



Muda, espalmada,
                  reiterativa como um terço
                  em cada hora, a Catedral é outra:
                  furtiva,
                  confessionária,
                  passante e pia.

A luz da Catedral de Brasília
                 não é luz mística.
                São caldeiras:
                as fornalhas das máquinas,
                o pequeno inferno
                dos pecadores
                que ilumina cada igreja.

Assim, crua,
               na linha dissidente
              do horizonte,
              a Catedral não é obra de arquitetura
              nem templo
              nem casa de oração.

A Catedral, na Esplanada dos Ministérios,
             é apenas repartição pública,
             prédio burocrático,
             Sé das almas expedientes.


(do livro Estrangeiro, 1997)

imagem retirada da internet: catedral de brasília

domingo, 17 de julho de 2016

Um homem é muito pouco 12


 
 
 
 
 
Dias depois, Mateus se arrependeu de não ter ido ao enterro judeu de Menuhim no Caju, mas não conseguia se levantar da cama. Clemente não foi visitar o amigo, não desejava se encontrar com o passado. A gente tem que viver pelos cantos e andar se esgueirando pelas ruas porque é muito difícil você viver sem encontrar o passado. O passado está em todo canto e a toda hora lembra você que sim ele é passado e que você tem que conviver com ele. Ou então o passado prega peça e quando você vê está diante do passado, você, que tanto evitou o passado. Mas quando se pode prever que a gente vai encontrar o passado, como é o caso, por exemplo, de Clemente que, caso vá visitar o amigo Mateus, vai dar de cara com o passado que é a irmã dele Matilde, então o melhor é evitar encontrar o passado.

Quem foi ao enterro judeu de Menuhim ficou espantado com a mistura de gente que foi velar o homem. Estavam presentes gente da comunidade israelita, gente da bandidagem que também tem seu afeto e sua maneira de demonstrar pêsames, gente simples que não se sabia seu Menuhim, armênio e joalheiro, ajudava e a parentada toda que havia crescido desordenada e múltipla em vários estados do Brasil.

A loja do seu Menuhim poderia ter sido investigada pela polícia. Ali existia toda espécie de transgressão e poderia fornecer o nome de muita gente do crime que era freguês do velho armênio. Existia um livro ensebado de capa escura onde Menuhim escrevia o nome de quem lhe vendera a joia, a quantia paga e a possível origem. Mas ninguém deu nada pelo livro de capa escura de Menuhim. A mulher dele recolheu as peças, vendeu-as, passou o ponto e mandou dar faxina vigorosa e definitiva no negócio de joalheria do velho Menuhim e o caderno de capa escura acabou no lixo junto com outras porcarias que não interessavam à polícia.

Menuhim era um corpo como outro corpo qualquer. Mas a mente de Menuhim era mente privilegiada que a vida torceu para o crime, enquanto se fosse empregada a inteligência para o fabrico de joias, ele seria o designer mais famoso e admirado. Mas Menuhim não queria saber da fama. Gostava de saber que estava envolvido em algo perigoso, que tirava a vida das pessoas como pequeno deus perverso.

Agora estava ali, não entre duas portas, mas entre quatro paredes de madeira, só e abandonado, a mente criminosa desligada como se desliga a luz ao acabar o expediente. Outra perversão de Menuhim era gostar das mocinhas pobres, mulatinhas, de subúrbio, malcheirosas, sujas, mal alimentadas que ele, vira e mexe, e tome vira e mexe, engravidava e nascia um sarará a quem ele dava nome judeu e pensão por mês, embora não perfilhasse e negasse a paternidade a quem visse o menino na loja, um Menuhim condensado e mais escuro, esperto como expatriado, ladino como o velho armênio.

A mulher de Menuhim de vez em quando recebia a visita do filho e da mãe do menino a pedir para que a velha armênia mulher de Menuhim continuasse a pagar comida, roupa e escola do menino e a velha armênia mulher de Menuhim já nem brigava mais, nem saía pela rua a gritar palavrões em português, em iídiche e em armênio, expulsando as amantes do marido que ele deixou entre os bens restantes e testamentários. Agora pegava o telefone e ligava para o advogado e punha a menina escura e já com outros filhos de outros homens na linha e o advogado falava alguma coisa tão convincente ou ameaçadora que elas desligavam o telefone, davam adeus e iam embora carregando o menino pendurado pelo braço e aos safanões como se o garoto meio judeu armênio, meio brasileiro de Franco da Rocha ou do Jacarezinho fosse culpado pela penúria da mãe.
 
 
(Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010)