sábado, 6 de agosto de 2016

Os mortos falam ao telefone, conto RCF


Fui atravessar a Avenida Rio Branco, um carro me pegou. A última lembrança que tenho era eu estirado no asfalto. Do asfalto à cama, há um intervalo de meses em coma. Nesse ínterim, estava cercado de parentes e amigos. Com o passar do tempo, cada um foi cuidar de seus negócios e, hoje, me encontro vítima de poucas visitas. Minha mulher, mãe de dois filhos meus, mora em Santa Catarina. Vêm, permanecem poucas horas, voltam para casa. Uma tia velha que me trazia doces – gosto principalmente de doces cristalizados – morreu. Só não estou sozinho no mundo porque tenho as vozes.

Não, não são vozes interiores, como as vozes que os malucos ouvem. Aqui também há malucos. Há malucos em todos os lugares. Minhas vozes são vozes limpas. E não estão dentro de mim. Elas estão fora, bem fora. São vozes de mortos.

É engraçado como a voz de morto pode ser metálica. O que me incomoda é que, de tanto ouvi-las, já sei o que dirão e, por isso, se tornam monocórdias. Se são roucas, vivem sempre roucas. Se são finas, repetem sempre as mesmas modulações agudas.

Não há muita distração para um cara que está deitado na cama. Olhar o teto, conversar com as enfermeiras. A higiene do hospital é boa. Sou limpo por enfermeiros. Prefiro os homens. É que as mulheres têm pudores. Elas podem dizer que não, que são profissionais e coisa e tal, mas na hora de pegar no pau ou limpar o cu, fazem com rapidez e violência como se quisessem mostrar que um órgão genital e um órgão excretor são como as outras partes do corpo.

 Se tivesse visita, o tempo passaria mais rápido. Talvez fosse melhor eu estar na enfermaria. Lá, teria de conviver com toda espécie de gente. Mas prefiro como estou. Na enfermaria, eu teria que ouvir um bando de besteira, mazela de todo tipo – os doentes adoram falar de doença – quando não fosse escutar as mesmas histórias, porque a grande maioria é velha e a maior doença dos velhos são as reminiscências.

Fui advogado de grandes empresas como a Light e a Petrobrás, até abrir meu escritório e fazer fortuna.

         De início não tive idéia nenhuma, oh, não, tudo começou quando minha mãe morreu e, sem poder me locomover, não fui ao enterro.

         Chamei os técnicos de som. Me cobraram uma nota. Todos me cobram caro. Todos sabem que tenho dinheiro. O dinheiro não cura minha doença, mas me dá as vozes. Pago uma baba pelas vozes. Pensam que não? Tentem fazer o que faço. Guardar as vozes. Tentem.

         Ouço meu padrasto. Morreu. Me preveni. Não fui pego de surpresa como aconteceu com minha mãe. Tenho a voz do meu padrasto. Foi a primeira vez que consegui. Minha mãe, oh, minha mãe, naquela época nem eu estava doente nem pensava ter as vozes. As vozes dos mortos não deixam de me assombrar. O diálogo entre morto e vivo é diálogo desigual. Posso falar o que me der na telha. Do outro lado da linha, o morto repete seu texto decorado como fala de teatro.

         Agora mandei gravar minha voz. Mas não haverá ninguém para me ouvir, discutir banalidades. Não sei para que servirá minha voz gravada – é como se mandasse congelar minha cabeça para quando descobrissem a cura da minha doença. Meu destino é o congelamento. Minhas pernas e braços, de tanto ficar deitado, já foram congelados.

         Penso nas cabeças decepadas do grupo de Lampião. A imagem grotesca e deformada das cabeças sujas, cabelos sebentos, dentes desarranjados, barbas cheias de areia da caatinga. Meu museu de vozes também são cabeças decepadas. Uma reunião de vozes sujas, de vozes toscas embora tecnológicas, um enxoval de delitos, de erros, de cometimentos, de desusos. Há vozes de tio, de primos, de amigos, de parentes longínquos.

         Mas tenho que parar com isso. Outro dia, contra a minha vontade e desejo de não ver ninguém, de não conviver com ninguém, veio até o quarto um sujeito que não conheço e me ofereceu, por quantia ordinária, soma ridícula – não sabem como as vozes são valiosas –, a voz do pai dele, a voz gravada do pai moribundo, não custaria muito.

– Sei que o senhor coleciona vozes.

Tenho que parar com isso, cessar a avidez, minha percepção da fixidez de uma sonoridade que não existe mais, porque as palavras se perdem, são fabricações humanas aéreas e vazias. Faz frio e não tenho quem me cubra. Não vou chamar nenhuma enfermeira. O telefone me comunica não com o mundo dos vivos nem mesmo com o mundo dos mortos. Agora que mandei gravar minha voz, pego o telefone e me ouço. Do outro lado da linha, sou como um estranho. Não acredito mais em nada, nem mesmo nas vozes que não me distraem mais, cada qual falando seu texto, sem ouvir o que o outro diz, o vazio das vozes, talvez tudo se resuma a isso, talvez minha voz seja apenas uma gravação unívoca a que chamo vida.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Vertigem das baixezas, poema RCF




Os alpinistas escalam a morte.
Também sei o perigo do cume,
mesmo sem me deslocar,
sei o alpinismo dos olhares submersos
que me fazem perder o pino.



(Eterno passageiro, 2004)




imagem retirada da internet: vicente do rêgo monteiro

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Prescrição médica, poema RCF







É preciso que o homem
chore três vezes ao dia.
Não é necessário que saia lágrima.
O importante é que o choro
se faça como o sol se faz
para os cegos que só o sentem
pelos mil olhos dos poros abertos.

É preciso que não se enxuguem
essas lágrimas: não há lenço
que as alcance, nem olhos vermelhos
que os delate.
Três vezes ao dia
como o dia é divido
em manhã, tarde e noite.
Não há de buscar o medicamento
em farmácia, de laboratório ou de manipulação,
alopata, homeopática ou fitoterápica,
pois não é algo que se tome,
injete ou passe na pele.
É preciso que o homem busque o santo graal do amor
e se multiplique como matriosca.
É preciso que chore porque é uma terapia coronária:
o choro é anticoagulante,
faz baixar a pressão do mundo.
E por fim à noite quando os choros são mais escuros
lave a alma encardida de engano
e sonhe que chora
para no sonho acabar com a desesperança
que é uma torneira aberta de onde não sai água.




(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)





segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Travessuras da menina má e O paraíso na outra esquina, de Vargas Llosa


Ronaldo Costa Fernandes



A versatilidade é uma característica de dom Mario Vargas Llosa: já passeou pela comicidade de Tia Júlia e o escrevinhador, envolveu-se no romance policial de Quem matou Palomino Molero?, mergulhou no fluxo de consciência de um adolescente no seu romance inicial A cidade e os cachorros e entendeu o mundo mágico e trágico dos ambientes hostis como a selva peruana em A casa verde e O falador. Em O paraíso na outra esquina, há dois mundos selvagens que seus personagens frequentam. O primeiro é o mundo supostamente paradisíaco em que se enfurna o pintor Gauguin para fugir da sociedade dita civilizada, europeia, a fim de desvendar novas formas viscerais de arte. O segundo é o mundo “selvagem” da sociedade francesa, principalmente entre patrões e operários, onde a sonhadora e libertária Flora Tristán, avó de Gauguin, luta bravamente para expor suas idéias e sofre os contratempos dos donos do capital e dos conservadores.
O vigoroso em Mário Vargas Llosa é que não perde o rigor de sua narrativa nem tem medo de enveredar por experiências formais. Em O paraíso na outra esquina, começa alternando dois tempos, um que corresponde a Flora Tristán e a primeira metade do século XIX, quando florescem as idéias do socialismo utópico de Saint-Simon, Fourier, Étienne Cabet e outros, e um tempo que corresponde a Gauguin e a segunda metade do século XIX. Até quase a metade do livro, as duas narrativas seguem paralelas quando se mesclam os dois tempos, muito bem delineados, mas expostos na narrativa de forma combinada. Mais tarde, já sabemos tratar-se de avó politicamente revolucionária e neto artisticamente revolucionário. Llosa se dá ao luxo de misturar outros dois tempos, o de Marselha, onze anos mais tarde, com o tempo em que Flora passara com sua família peruana em Arequipa em busca de parte de uma herança que lhe poderia dar sossego e segurança contra o vingativo ex-marido. Mais à frente, retoma os capítulos à parte (um de Flora, outro de Gauguin). Raras narrativas de autores de grande vendagem ainda têm coragem de aventurar-se num relato mais ousado. Louve-se Vargas Llosa neste livro pela audácia que ainda o mantém tão jovem literariamente e, sem medo de arriscar, aumenta ainda mais seu público leitor mais exigente. Num momento que a literatura brasileira vive de minguados relatos elevados à condição de grande prosa, devemos nos render aos encantos de Llosa e, para os que escrevem, vê-lo como fonte permanente de renovação.
O paraíso na outra esquina é um romance sobre dois libertários e sonhadores num século onde homens escreviam sobre sociedades utópicas. Hoje, que perdemos o poder de sonhar sociedades igualitárias como no século XIX ou pegar em armas por elas como no século XX, os personagens verdadeiros de Llosa, Gauguin e sua avó Flora, apontam para uma história de liberdade. Nenhum dos dois encontra o paraíso na outra esquina (mote de uma brincadeira infantil), mas dele estiveram perto e por isso pagaram seu preço. Para tanto, dedicaram suas vidas e o melhor de seus pensamentos e de suas ações (Flora Tristán) e a mais pura e divina estética (Gauguin). Llosa parece nos lembrar que o sonho e a liberdade ainda permanecem, neste início de século de ceticismo, e que, sim, podem estar na outra esquina.
Como na maioria dos romances ditos históricos, O paraíso na outra esquina leva o leitor a acreditar que, além de desfrutar esteticamente uma obra de arte, estará “aprendendo” sobre dois personagens históricos. É certo que Flora e seu neto Gauguin fascinam a imaginação dos leitores e que também o leitor – embora não seja essa a função da literatura – acaba “aprendendo” algo sobre os dois personagens. Interessante observar que, à diferença dos romances de Vargas Llosa dos anos 60 e 70, agora o homossexualismo toma outra tonalidade na narrativa, ocupa boa parte da sexualidade sofrida de Flora Tristán e mostra um lado feminino deste pintor que dizia “ter nariz quebrado de inca”, numa cena idílica no paraíso tropical e nada pacífico de Papeete.
O personagem de Flora Tristán é mais rígido e as cenas se repetem com mudanças apenas de ambientes e personagens, já que sua história é a narração incansável de seus tropeços nos encontros clandestinos com operários e camponeses para divulgar suas idéias socialistas contidas no livro que publicou, em 1843, intitulado A União Operária. Diferente do personagem Gauguin, mais angustiado e mais denso. Não há dúvida que O paraíso na outra esquina é um dos grandes livros de Vargas Llosa na sua fornida e consistente bibliografia.
Aqui, avó e neto são frutos de traumas, passam por transformações radicais (Gauguin nunca havia feito nenhum desenho antes de se encontrar com um colega na agência que trabalhava como Corretor da Bolsa: “Até os trinta anos creio não ter desenhado nem um bonequinho. Os artistas me pareciam uns boêmios, uns maricas. Eu os desprezava. Quando deixei a Marinha, no final da guerra, não sabia o que fazer da vida. Mas a única coisa que não me passava pela cabeça era ser pintor”, disse Gauguin, refletindo sobre seu passado, no fim da vida, numa ilha mais afastada ainda da capital do Taiti.), consomem seus corpos e suas saúdes em nome da humanidade e da arte.
Já no romance Travessuras da menina má parece haver dois livros: um brega e outro que resgata o velho Vargas Llosa. O primeiro corresponde ao amor bissexto e bizarro do solteirão – estranho homem que não tem outra relação na vida e só se dedica a esperar a chegada intermitente da mulher que ama – Ricardo Somocurcio, tradutor da Unesco, peruano de nascimento. Não é à toa que a personagem da “menina má”, como Ricardo chama sua amante, reiteradamente o critica e o classifica de brega quando faz suas inúmeras e aborrecidas declarações sentimentalóides de amor. “Eu adorava essas orelhas e queria cortá-las, embalsamá-las e levá-las comigo pelo mundo afora, no bolso do meu casaco mais próximo do coração. – Vamos, disse ela, continue com suas breguices, seu cafona.”
Este livro dentro do livro (não falo de metaliteratura, mas de verdade de uma escritura tão diversa uma da outra que parecem ser dois livros), o caso de amor entre Ricardo, que é o narrador, e a peruanita que foi guerrilheira, amante de milionário, envolveu-se com a máfia japonesa, é de um lugar-comum irritante, recheado de cenas de sexo também convencionais. Em certos momentos, chega-se a pensar que não é gratuito o fato de estar entre os livros mais vendidos no Brasil e já ter chegado à terceira edição em tempo muito curto desde o seu lançamento em língua espanhola. Quando Llosa se esquece deste tema central do livro e escreve sobre a crônica dos anos 60, 70 e 80, embora de maneira rápida e abrangente, o narrador torna-se denso e conciso. O “cronista” somente dá pinceladas, o que faz muito bem, porque o livro é um romance e não um ensaio. Mas aquele que espera abrangência maior e profundidade de análise (que também poderia estar no romance) irá se decepcionar. Na verdade, o próprio comportamento dos personagens e a descrição do pequeno ambiente talvez informem mais do que o jornalístico panorama das épocas (afinal são três décadas turbulentas e complexas) feito em tom solene e, ao mesmo tempo, leve.
Este outro “livro” conta a vida ordinária do tradutor e suas dificuldades de relacionamento, as notícias que chegam do Peru, a relação com o anódino Salomón, mas brilhante tradutor, que questiona a profissão (“profissão de fantasmas”). É um “livro” que toma outro tom, mais generoso, forte e sedutor. O caso de amor e as travessuras da menina má, que, na verdade, são o fulcro do romance, diminuem o vigor narrativo e torna-o frouxo, quando não desinteressante e previsível. O que me sugere uma imagem malévola, como se Llosa se dissesse “preciso escrever um livro acessível e de fácil leitura, logo a trama e a linguagem devem ser diluídas no caldo ralo da subliteratura”, enquanto o mesmo Llosa, numa autocrítica, se alertasse, “mas não posso deixar de manter pulso narrativo e fazer de meu livro um livro de um escritor medíocre, afinal tenho um nome a zelar”. Existem então, em Travessuras da menina má, o mestre do romance que nos deu Conversa na Catedral e o escritor que quer alcançar o grande público por razões pessoais que só ele deve conhecer. De maneira surpreendente, a partir da metade do livro, a breguice desaparece e a relação entre a menina má e o menino bom (como ela o chamava) passa a ter um tom de drama e, em vez da pouco crível mulher de um criador riquíssimo de cavalo e de amante de um mafioso japonês, ela passa a ser uma criatura frágil e doente, depois de pretensamente presa e estuprada na Nigéria. Aí o livro embica e desenvolve-se seguro e envolvente. Até mesmo o sexo deixa de ser convencional. Só que já é um pouco tarde, fica o início formando a parte manca do livro.
A diferença de qualidade entre O paraíso na outra esquina e Travessuras da menina má é grande. Neste último, Llosa não se permite nenhuma aventura mais extravagante com a linguagem e mantém uma estrutura linear e sem surpresas. A angústia profunda e turvada de personagens à margem da sociedade como Flora Tristán e Gauguin aqui se apresenta de forma branda, deslocada, às vezes até mesmo inverossímil.
Há ligação entre os livros: o exílio físico e existencial. Ricardo e a menina má, Gauguin e sua avó. Com os três primeiros, o exílio é inclusive geográfico: França e Taiti. No caso de Flora, o exílio é ser rechaçada até mesmo dentro do movimento socialista, já que não são todos que a aceitam. De qualquer forma, o eixo central dos quatros personagens nos dois romances é o Peru. Agora, de forma inversa, mais presente em Ricardo, na menina má, em Flora e, menos, em Gauguin.
Outra ligação é o fato de os dois livros tratarem de amor. Travessuras da menina má trabalha com o amor tradicional, heterossexual, encontros e desencontros de um homem e uma mulher. O paraíso na outra esquina opta por um amor desmedido (Flora Tristán) pela justiça social, pela igualdade entre os homens, pelo amor incomensurável pela humanidade e também um amor pela arte (Gauguin) que ultrapassa a busca estética, tornando-se mais uma frenética procura de uma expressão artística que exprima o ser verdadeiro, inconsciente e selvagem que nos habita.

imagem retirada da internet: gauguin

domingo, 31 de julho de 2016

Lição de desastre, poema RCF




Pode o verão dizer orfandades?
No quadro-negro,
o risco é meu equilíbrio.
O enxame dos segundos
varíola minha lições de desastre.
Não sou insular,
sou arquipélago,