sexta-feira, 12 de agosto de 2016

O sono e o lápis, poema RCF



A cordilheira do sono,
                 meus poros me olham,
                 olheira de pano,
                 o abismo do banheiro,
                 me dejeto,
                 espumo,
                 a corda bamba que segura o pijama,
                 estou sujo de mim, impuro,
                 cocheira dos instintos adormecidos,
                 só agora desenho o perigo de escrever a lápis:
                 risco de vida
                 que pode ser apagada.


  (do livro Andarilho, 7Letras, 2000)



imagem retirada da internet:escher

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Febre dos inocentes, poema RCF






A melhor febre do homem é fria.
O corpo se recusa a viver na vertical.
A respiração gosta de disciplina.
Os pesadelos diurnos têm carne e osso
e não podem fugir da realidade.
O homem não gosta dos pesadelos
de carne, osso e realidade.
Chega no trabalho, abre sua pasta
e de dentro dela sai seu pesadelo.
Carrega seu pesadelo pela cidade
como carrega seu pulmão.
Deram-lhe uma caixa para colocar
as vísceras e o pesadelo.
A caixa do pesadelo sobe muitos degraus
sem perder o fôlego.
O dia tem vários degraus.
Aprendeu as cinco declinações do latim
mas não aprendeu a declinar do mundo.

terça-feira, 9 de agosto de 2016