sábado, 20 de agosto de 2016

Vida militar, poema RCF




radu belcin
 

 

O que o homem carrega em sua pasta
é mais que papéis: leva com ela a cabeça.
Cada órgão tem sua idade,
pode-se supor que um fígado seja adolescente,
enquanto o coração amadureceu.
As ideias também têm rugas
que são difíceis de maquiar.
Faz mal aos pulmões
quando se inspira compaixão.
O homem sai de casa acompanhado por tropa:
vão com ele seu medo, que tem alta patente,
um pouco à frente segue o futuro,
que vai mudando de farda,
do seu lado vai o fardo,
que é o grosso da tropa.
Arregimenta sua dor
camuflada de civilidade
e aquartelada pela caserna do trabalho.
Reformou-se da alegria
só espera a hora de dar baixa
no pelotão dos homens.
Só tem um superior:
o deserto que o faz mais raso
e a vida de quartel
onde não sai da guarita,
sentinela que é do inimigo
que o ronda
na noite deserta
ou na manhã que não nasce.                                                    

(de O difícil exercício das cinzas, 2014)

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Retrato do artista quando jovem, James Joyce




                Há um movimento circular, giratório, ao início do romance de Joyce, escrito entre 1904-1914, que permanece por várias páginas e leva ao leitor uma sensação de vertigem. Ao fugir do realismo, Joyce ingressa na narrativa do século XX onde predominará o fragmentário, o recorte, a dúvida antes que a onisciência e o personagem, como diria Zeraffa, engolfado por uma “miríades de sensações”, antes que descrição psicológica, coerente e linear do herói.
                Cabe bem aqui a afirmação de Forster: ”Gertrude Stein triturou e pulverizou seu relógio para dispersar seus fragmentos sobre o mundo como os membros de Osíris. Isto porque quis libertar o romance da tirania temporal, fazendo-lhe exprimir somente a vida dos valores.” Stephen Dedalus é puro papel sensível onde a fotografia do mundo vai sendo impressa. Logo não importam datas ou certa cronologia. Embora a narrativa avance desde a infância até a adolescência, não há explicação ou fixação de datas entre uma cena ou outra, o corte é abrupto e Joyce descreve a atuação do jovem Dedalus como se duas ações fossem contíguas e não houvesse intervalo entre elas.
                Joyce utiliza dois procedimentos, grosso modo, que são a narração pura e simples das ações dos personagens e, em vez da análise psicológica, aprofunda o perquirir do comportamento mental de Dedalus ou o seu estado de espírito. O grande drama do personagem adolescente é a luta do pecado dentro do espírito de formação católica e, mais ainda, jesuítica. As emoções tumultuadas do personagem fazem o autor suspender a ação e descrever as impressões do personagem, seja diante da casa da amada, seja no prostíbulo da cidade.
                “Queria pecar com alguém da sua espécie, forçar um outro ser a pecar com ele e exultar juntos no pecado. Sentia qualquer presença mover-se irresistivelmente para ele das trevas, uma presença sutil e murmurosa como uma torrente enchendo-o todo. O seu murmúrio alcançava seus ouvidos como o murmúrio de qualquer multidão em sono.”
                O clima de catolicismo exacerbado me incomoda (alguns dirão que a essência do livro é a discussão teológica, e eu aceito). O que me causa certo tédio não são as discussões teológicas, mas, por exemplo, a exaustiva, longa, desinteressante apresentação do retiro espiritual feita por membro do clero explicando (sem dialética) o que vem a ser aquele momento de religiosidade para os alunos que o ouvem. Não há criatividade, parece que Joyce copiou de algum catecismo as três páginas de lugares-comuns.
                O romance toma outro rumo, mais denso, original e ativo quando o personagem, instado a ser padre, reconhece sua mundanidade e sua opção pela vida não religiosa. O drama que antes era pueril, agora se torna mais adulto e o romance empina-se.
                Desagradam-me um pouco as mudanças de estilo, ou se quiserem, as mudanças de discurso. Há três modalidades de expressão que não se mesclam: uma mesma longa cena pode conter as três, separadas apenas por indicação de parágrafo. São elas: primeiro, as ações mais simples, quando o discurso se torna referencial como a ida ao colégio, as conversas, as descrições de paisagem (poucas). A segunda, num nível outro de construção, estão os pensamentos sobre cultura, feitos de forma mais clara, incluídas aí considerações concretas sobre a realidade do colégio, da vida familiar (observar que elas se tornam mais densas quanto mais o personagem passa da infância à juventude), mas de qualquer maneira são elaboradas como num ensaio. Nesta última podemos citar a seguinte passagem (para os brasileiros curiosa é passagem em que aparece a frase que será título do livro de Clarice Lispector, Perto do coração selvagem, sugerida pelo amigo Lúcio Cardoso):

“Ele estava longe de tudo e de todos, sozinho. Ele estava desligado de tudo, feliz, perto do coração selvagem da vida. Estava sozinho, e era jovem, cheio de vontade, e tinha um coração selvagem.”

                E a terceira refere-se a uma expressão mais nebulosa, típica do impressionismo pelo qual Virginia Woolf advogava, inclusive aproximando a narrativa à pintura, perguntando-se porque a prosa não podia ser prenhe de descrições da desorganizada vida mental submetida às impressões da realidade como nos quadros dos franceses do fim do século XIX. (RCF)


quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Cansaço dos buquês, poema RCF








Memória dos porcos (capa dura)



De carro ou a pé,
foge da bifurcação que é uma forquilha
que lhe atira a primeira pedra.
Pedestre,
não tem mais nenhuma ânsia de pé.
Queria andar de quatro,
quatro pés no chão,
quatro mãos na terra,
quatro dimensões do medo,
quatro estações florescem no cérebro.
Veraneia devaneios,
hiberna sentimentos,
no outono, caem folhas de papel,
floresce seu desgosto
– um buquê de mágoas
que não murcham.



(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)










quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Raízes expostas, poema RCF




Matemática sem números,
álgebra sem cálculos,
tormento sem vento,
apenas o lamento
do vento no torno do dia.

Essa paralisia, voz que não escapa,
essa distonia, mão que não aperta,
é o fruto da terra crescendo pra dentro
como um tubérculo que afunda
no mar de terra.

Raízes expostas - são feridas da terra
no tecido seco depois das queimadas.
Secos também são os olhos camponeses
onde nada viceja.

Um dia o homem
é o gafanhoto e sua praga,
no outro é o semeador
que aplaca a chaga.


(do livro Terratreme, Fundação Cultural de Brasília, 1998)


imagem : portinari

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Cera da manhã, poema RCF







Eis que a mãe
surge pela manhã.
Traz o tempo nas veias.
Sentada e imóvel,
ela é a melhor fotografia
tridimensional de si própria.
Tem medo de que
quem esteja ali sentada
seja inflamável
por ser uma cópia de cera.

A mãe o chama
e se incandesce.
É conversa que se consome
e bruxuleia,
ora pavio lúcido,
ora a cera do esquecimento.
Tem medo de que ela se esqueça
dele e, assim, ceráceo e ardente,
enrijecerá a infância,
serão últimos os primeiros passos
e morrerá vivo na memória
da mãe que o perdeu
dentro de seu labirinto
feito de museu e cera.



(imagem retirada da internet:tredalert)

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Código postal, poema RCF


.



Faz tempo que me mudei.
Às vezes mudo e não falo nada a ninguém.
Nada me endereça.
Sou destinatário de todas as entregas equivocadas.

Não gosto de mergulhar em mim.
O sal do pensamento é grosso.
No fundo sou um sujeito que não dá pé.
Por isso cada mergulho é um naufrágio.
E não faz bem à saúde
naufragar todos os dias.




Memória dos Porcos, 2012

foto: rodney smith