sábado, 10 de setembro de 2016

Coração, poema RCF



Arte | Antonio Lee
Antonio Lee


Meu coração é um bicho
que coaxa dentro de mim
às vezes se acanha
outras dispara seu relógio de sangue.
Meu coração não sabe dançar:
quando começa seu descompasso
pisa no pé das minhas dores.
Ora late como cão
sem corpo ou rabo
ora lembra caixa vazia
um oco no sem jeito no peito.
Meu coração tem sua ginástica
corre mais que o dono
quando a hora é escassa.
Meu coração é um fole
que mal se enche
logo se esvazia.
Meu coração tem estômago fraco
não é bom da cabeça
tem mania de grandeza
quer ser melhor do que é,
embora saiba que, preso,
não tem pernas pro que der e vier.
Meu coração tem vocação militar
por isso marcha rubro
no mesmo lugar
como um recruta punido.


(do livro A máquina das mãos, Rio: 7Letras, 2009)



imagem retirada da internet: magritte

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Um homem é muito pouco - 8





E bem, ali estavam os três, Clemente, Yolanda e Aninha para fazer visita a Juliana. Clemente ficou impressionado com a casa. Não pelo luxo que não havia, Juliana era intelectual e não cuidava muito da casa. Havia livros e papéis por todos os cantos e os móveis pareciam estar fora de lugar por alguma razão desconhecida. E além do mais, em todas as partes havia cavalos de pau.

O marido de Juliana não gostava de ser chamado de marceneiro, acreditava que os móveis que fazia, muitos deles desenhados por ele mesmo, eram obra de arte. Copiava modelos ingleses, franceses e italianos, mas também impunha aos fregueses os traços do seu desenho, que poderia nunca chegar a ser grife, mas que lhe dava a paz de realizar trabalho artístico e não meramente mecânico e operário.

Mas a fascinação do marido de Juliana eram os cavalos. Então havia na sala em que foram recebidos cavalos de todos os tamanhos, pequeninos, médios, grandes. Clemente mesmo se sentou numa cadeira que tinha forma de cavalo. Do mesmo modo, Yolanda e Aninha também sentaram em cadeiras-cavalo, enquanto Juliana se estirava numa chaise-long, depois de recolher pratos jogados sobre a mesma, papéis espalhados em cima do sofá como se tivesse sido pega de surpresa e não ter convidados para o chá. Yolanda já estava acostumada com Juliana e com a casa de Juliana. Aninha sempre gostava de ir à casa de Juliana, que lhe parecia enorme casa de brinquedo que, lamentavelmente, só tinha o brinquedo do cavalo.

Quem estava incomodado era Clemente, que não se sentia à vontade sobre uma cadeira que era cavalo ou sobre um cavalo que era cadeira.

O marido de Juliana era um cavalo. Era um cavalo grande. Homem cinza. Todo ele era cinza. E ainda por cima fazia questão de se vestir de cinza. Horácio era o nome dele. Mas Horácio não é nome de cavalo. Horácio deveria ter nascido com o nome de cavalo. Ele levou Clemente para outra sala com pé-direito alto.

Lá havia outros cavalos. Era a “cocheira” de Horácio. Era ali que ele esculpia e guardava os cavalos, principalmente os cavalos maiores. Horácio devia se chamar Homero e tornar verdade a história do cavalo de Troia. Horácio era o único homem que Clemente conheceu que podia ter construído, nos tempos modernos, o cavalo de Troia. Horácio era um homem espichado, magro de tanto cavalgar seus cavalos, alimentando-se pouco e raramente. A cabeça de Horácio cobria-se de cabelos cinza, as crinas de Horácio comportavam o cinza. Horácio colocou Clemente num cavalo grande e ele também sentou num cavalo grande.

A impressão que Clemente reteve foi não que os cavalos fossem grandes, mas que os dois, Horácio e ele, haviam diminuído. Clemente se sentia um pouco criança, mas não se importava de se sentir um pouco criança. Os cavalos enormes, gigantes, de Troia, os cavalos grandes de Horácio eram estilizados, logo não se sentia cavalgando na madeira da oficina de Horácio. Coerente com os cavalos de pau, não havia capim no chão da oficina, ou melhor, o capim também era de madeira.

Os cavalos ficavam distantes um do outro e Horácio falava alto e espichado, falava magro e cinza. Clemente respondia no mesmo tom e altura.

Era uma conversa desencontrada e magra. Dois meninos se balançando em dois balanços numa praça, de vez em quando as vozes e os ouvidos se cruzavam, mas no resto ele falava uma coisa, mas Clemente não escutava, estava no alto, logo Clemente falava outra que ele não escutava, estava lá embaixo e vice-versa ou versa-vice, como o próprio Horácio gostava de dizer. O versa-vice para Horácio era a conversa secundária. Ele perguntou a Clemente o que ele fazia, Clemente lhe disse e ele confessou que gostaria de ter sido marinheiro, que quando criança pensava em entrar para a Marinha, mas depois tomou gosto de cavalos e no mar não havia cavalos e era besteira de chamar de cavalo-marinho o cavalo-marinho que era marinho mas não era cavalo.

Eu joguei todos os meus livros fora, ele gritou.

E por quê?

Os livros, como aconteceu com Dom Quixote, estavam me enlouquecendo. Eu não gosto de enlouquecer, ele completou.

Clemente não disse para ele que também não gostava de enlouquecer, aliás Clemente não conhecia ninguém que gostasse de enterro e de enlouquecer.

Não, Horário não se parecia com Dom Quixote, embora tivesse o rosto também espigado e cabelo com topete que alongava o rosto dele. Horácio era tão magro que Clemente via não somente as veias dos braços como também os feixes mínimos de tendões e músculos que seguram as carnes.

Sabe quanto custa um cavalo desses?, perguntou apontando para os cavalos em que estavam sentados. Quase um carro popular.

Clemente não sabia a razão de Horácio falar aquilo de os cavalos custarem os olhos da cara. Queria se valorizar, é claro. Mostrava seus laivos de artista e de artista plástico com exposição montada e cavalos vendidos. Clemente, não por maldade, e sim por ingenuidade, perguntou se Horário já vendera algum daqueles cavalos.

Alguns, poucos, respondeu com sinceridade Horácio.

Clemente gostou da sinceridade de Horácio. Se fosse homem rico, somente pela sinceridade de Horácio, compraria o cavalo que valia carro popular embora ninguém ainda tivesse pagado o preço de carro popular para um cavalo daqueles.

Você gosta de amêndoas?, perguntou de súbito Horácio, sem que nada que tivessem conversado antes levasse a tal pergunta.

Gosto, gosto de amêndoas. Clemente pensou que Horácio ia lhe oferecer amêndoas. Mas não. Feita a pergunta, se calou.

E um tempo depois disse: As amêndoas são muito boas.

Clemente não havia escutado direito e pediu que ele repetisse. E Horácio disse: As amêndoas são muito boas. Clemente balançou a cabeça afirmativamente. E pensou que talvez não estivesse ali em Botafogo, na casa de Juliana, conversando com o marido cinza dela, sentado num cavalo gigante, e sim que estava no sanatório em Bremen. Horácio explicou que aquele era seu método mnemônico para guardar os nomes das pessoas. De agora em diante, Clemente se chamaria “Clemente, o que gosta de amêndoas”. Ele, Horácio, já provara o método inclusive numa visita que o casal fizera a amigos dela em Santa Tereza. Horácio se prometeu que sairia de lá sabendo o nome de todos os amigos dela. Eram quase vinte pessoas. Horácio foi apresentado a todos e pediu que Juliana ao apresentá-lo lhe dissesse o nome. Na hora de partir, Horácio se despediu um por um pelo nome.

Boa noite, Otávio. Boa noite, dona Marina. Boa noite, seu Cláudio. Boa noite, seu Antonio Carlos. Horácio, ao ser apresentado, juntava o nome do sujeito ou da mulher com algo aleatório, como Otávio com piano, Mariana com fruta-pão e por aí vai.

Ao sair da festa, Horácio estava se despedindo era do piano, da dona fruta-pão, do seu manteiga, da sua graminha, do seu novato, do doutor capacho, de dona língua grande. Horácio não gostava de associar traços físicos com o nome, para ele era o mais fácil de confundir. Nariz grande servia pra um bando de pessoas ali mesmo na festa.

O método que Horácio consagrara – embora não fosse inventado por ele – se estendia aos amigos de Juliana. Se Clemente era o que gostava de amêndoas, Alexandre era o sujeito que gostava de jogar pôquer. Horácio não gostava muito de Alexandre, pensava que ele dava em cima da mulher dele, o que não era de todo descabido.

Juliana era uma mulher muito bonita. O dinheiro do pai de Yolanda podia comprar qualquer miss, por isso não ia gastar tempo e dinheiro com uma secretária que recitava Le dormeur du val, de Rimbaud. Se fosse feia, poderia discorrer sobre toda a literatura francesa, de Rabelais a Flaubert, que não levaria nenhuma bicota na boca murcha.

O pai de Yolanda conhecia o mundo e o mundo era belo. O mundo não era belo para os pobres, mas o que o dinheiro que o pai de Yolanda comprava era belo. Era bela a literatura do pai de Yolanda, eram belas a mulher e a amante do pai de Yolanda, eram belas a casa e as viagens do pai de Yolanda, era bela a casa com piscina em Palmas de Mallorca, era imensa com quadras de tênis e uma cascata natural a mansão do pai no Alto da Boa Vista. Yolanda não conhecia tudo sobre o pai dela. Havia um lado que o dinheiro não comprava e que ele escondia da família.

O pai de Yolanda tinha muito a ver com o capitão Vaz. Não, não, nunca se encontraram e agora que o pai de Yolanda estava morto só se encontrariam na vida eterna, caso os dois acreditassem na vida eterna e, principalmente, se existisse a vida eterna. O pai de Yolanda foi procurado por um empresário paulista do grupo Ultragás e ele pensou que o empresário fosse convidá-lo para o pai de Yolanda fazer parte da companhia que estava de pernas bambas. Mas o negócio que empresário paulista propôs foi ser sócio do Brasil.

O senhor é um patriota, dr. Macedo.

É claro que sou.

Muito bem, venho lhe propor se associar ao Brasil.

Mas o Brasil não tem dono.

É aí que o senhor se engana, disse o empresário paulista. O país é de todos, mas há uma canalha que pensa que o país é deles e que eles vão tomar o Brasil só para eles.

Meu Deus, exclamou com verdadeira surpresa. O pai de Yolanda era o sujeito mais esperto e safado que se conhecia, mas às vezes deixava passar ingenuidade.

Depois dessa conversa no Golden Room do Copacabana Palace, o pai de Yolanda passou a contribuir para armar a repressão contra os comunistas que queriam o Brasil só pra eles. O que jamais o pai de Yolanda ia imaginar é que a amante querida e que ele cuidava como quem cuida da educação de filha na Suíça fosse casar com comunista que militara antes de conhecer a arte de esculpir cavalos.

Mas voltando à questão mnemônica de Horácio, o homem cinza que vinha a ser Horácio – o rosto apresentava-se macilento, viam-se os pomos da face e até mesmo os olhos apresentavam tonalidade cinza como de certos felinos – contou para Clemente que Juliana tinha um amigo chamado Alfredinho e que ele identificava Alfredinho como corretor da Bolsa. Certa vez chegou mesmo a misturar as coisas e perguntar a Alfredinho como iam as ações na Bolsa e que conselhos Alfredinho dava para quem, como ele inexperiente, quisesse se meter a aplicar na Bolsa e foi quando Alfredinho disse que não era corretor da Bolsa e que trabalhava numa imobiliária como corretor, não da Bolsa, mas de imóveis.



(Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010)

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Por que um homem é muito pouco, Edilson Dias Moura




Edilson Dias Moura
Crítico Literário, Mestre pela USP, Editor da revista Opinães.


Publicado no fim de 2010, começo de 2011, pela Nankin, Um homem é muito pouco revela mais do que se espera sobre nosso tempo. Ao transformar em simbólico, representativo, o usual e imperceptível, e até mesmo o repugnante, em literatura, o romance nos leva, contra o pano de fundo de nossa memória, ao reconhecimento dos muitos de nossos pseudovalores ético-morais, produtos do consumo-capitalista e do marketing, de uma estrutura sociomental reificante; contudo, não num sentido de denúncia social, mas em termos de elaboração estética literária. A surpresa é tal que aquelas primeiras elucubrações iniciais, dos prêmios principalmente, se dissolvem completamente sob o prazer da decodificação literária.

(...) Clemente reconheceu o homem que o assaltara. O coração agitou-se. Olhou para o pescoço e o cordão de ouro dele estava no pescoço do homem. Clemente avançou no pescoço do homem, arrancou o cordão. O cordão na mão lhe devolveu as forças e suas pernas rejuvenesceram trinta anos. As pernas também pensam. E o que as pernas pensaram naquele momento é que não deveriam ficar ali paradas. As pernas servem para sustentar o sujeito como pilotis, mas também servem para transformar a parte de cima do corpo em um tronco leve. (...) A metade de baixo corresponde às pernas e quando as pernas viram máquina de correr então a parte de cima é apenas um busto que é levado por uma carreta ligeira. (FERNANDES, p. 13, 2010)

Diante da ousadia do texto, percebemos que o romancista não traz na bagagem apenas alguns romances, alguns prêmios, mas sim certa compreensão da arte e da prática literária bastante surpreendente perto de tudo que nos tem sido apresentado nos últimos anos, seja por grandes ou pequenas editoras. Por meio de uma escrita muito particular e de um modo de descrever e de compor próprios, vai-se revelando a atualidade desse romance pouco a pouco.

Combinando elementos inusitados do modelo automatizado do mundo com o modo de funcionamento do raciocínio de seus personagens, suas manias, anseios etc., o autor surpreende-nos com o desenvolvimento de uma narrativa constituída de elementos que não se deixam analisar classicamente: já não se trata apenas da reificação e sua ação nas atitudes mentais, embaralhando valores mercantis e qualidades humanas; mas sim de um esgotamento do sentido humano das coisas, do sentido de fragmentação, inclusive do sentido de homem, menos que um “mineral” na vida quando destituído de um papel social. Algo só verificável em contraste com os valores de nosso próprio tempo e suas demandas, sob o fetiche dos avanços tecnológicos e da vida informatizada.

Conta-se, em determinada altura, quando se reúne a família de Eurico para comemorar o aniversário da mãe, que um de seus irmãos morrera ainda menino. Desde então, a mãe permanentemente o esperava. Para aliviar a dor dessa ausência, os familiares passam a inventar uma biografia: “foi ao colégio, fez faculdade, agora o menino morto tinha casado e ainda não tinha filho” (FERNANDES, 2010, p. 258). Eurico é relojoeiro, e desde o início desta parte do romance nos habituamos a uma espécie de assimilação da consciência, do mundo e do próprio personagem, pelos mecanismos do relógio e suas dimensões maquinal e temporal. E é nesta reunião de família, em torno da mãe numa cadeira de rodas, que encontramos uma das mais belas passagens desse romance:

Um pouco da tristeza de Eurico é que não podia fazer a felicidade da mãe. A mãe perdera os rolamentos há muito tempo. Tinha gente na família que dizia que a mãe começou a atrasar as ideias quando morreu o menino morto. E traçavam o percurso de atrasos das ideias da mãe. Lembra a viagem à Bahia? Lembra quando a mãe esqueceu onde morava? Lembra quando a mãe... e davam corda no relógio da memória a lembrar fato e datas em que a mãe se perdera de si à procura do menino morto. (FERNANDES, 2010: p. 259)

Sucede a esta passagem magnífica o elo com a primeira parte do romance, quando Clemente procura recuperar o cordão de ouro que lhe furtaram e, ao arrancá-lo do pescoço do suposto ladrão, suas pernas rejuvenescem trinta anos. Adriano, filho de Eurico, apaixonado da prima a dançar twist, observando as pernas da prima, compara a juventude e velhice da seguinte forma: “As pernas mortas eram o começo de o homem virar mineral. As pernas minerais da avó, por exemplo, já diminuída da cabeça, a transformava num busto que se recusava a deixar a vida.” (FERNANDES, 2010: p. 261).



quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Empório de cenas, poema RCF


 

 

 

Um inventário de cenas
do passado estão penduradas
no empório da memória,
mas não quero buscar
o instante perdido
no balcão dos anos
– não há tempo,
apenas o presente
que é um trem sem parada.

O médico prescreve:
eliminar o passado
duas vezes ao dia.
Leio a bula:
Composição: 1984 mg
de presente fraturado.

O remédio me extirpará
o apêndice da infância,
que só serve para inflamar.
Deixei de ser o que sou
faz muito tempo e me felicitarão
por me desfazer da vesícula
dos tortos e angustiados.
Terei a anestesia das marchas:
cinco para a frente
e nenhuma marcha a ré.                                       



(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)



 (foto:vivian maier)

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Horas tortas, poema RCF


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Aqui a lâmpada me vigia
com seu grande olho branco.
Pingam os minutos na torneira das horas.
O relógio é bússola
cujo norte é o próximo segundo.
Tudo me olha e controla
até mesmo a imagem no espelho
que passa de lá para cá
e sinto minha ausência
que não se fixa e não me olha.

E então busco o sono,
mas a insônia, prima da solidão,
segura minhas pálpebras abertas
com as pinças do sol da meia-noite.
A solidão escorre pelas paredes brancas
e um fio de silêncio cai do teto.



(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)


segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Tattoo, poema RCF






As tatuagens são grafites
na pele que só desaparecem
na morte, onde a parede murcha,
o muro apodrece, e o tattoo
migra para a alma,
que tem outra espécie de grafite,
as cicatrizes das perguntas
que logo desaparecem
– algum cretino vem e sopra
a chama da vela e deixa escuro
o que era inquieto e bruxuleante.

As tatuagens na alma
têm sua tabuada do medo,
lá onde um e um nunca serão dois,
porque nela não existe soma,
apenas a subtração dos vestígios.
As tatuagens da minha alma são feitas do desassossego do linho,
que, mesmo engomado, não suporta pressão,
tem a engenharia das obras abandonadas
que por sua vez são uma espécie de tattoo sobre a pele do tempo
e à incúria de Deus que não gosta das cidades.

Todo meu corpo é devoluto,
terra grilada ou invasão,
Meu muro é minha pele lúcida
que vai se esburacando
e meu contrato é com a imaginação
e se alguma certidão tenho
é a certidão de nascimento do fim.


(do livro Memórias dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)

Paulo Paniago comenta Memória dos Porcos


Retrato de uma dama com livro, s/d
Andrea Appiani (Milão, Itália, 1754 – 1817)

o poeta ronaldo costa fernandes lança terça (22) à noite, no carpe diem, o livro memória dos porcos.

em geral introspectivo, o escritor também desafora, sabe que o mundo merece melhoras.

ao comentar as linhas tortas que deus escolhe para escrever certo, ele aponta:

                                                   deus deveria ter um caderno
                                                  de caligrafia para melhorar a letra.

tem outras coisas geniais por lá, mas essa aí bastou para me tirar o fôlego. me proponho a colaborar com a vaquinha que forneça a deus uma caneta-tinteiro.

(do blog Desaforismos)

domingo, 4 de setembro de 2016

Jó, romance de um homem simples, de Joseph Roth

A DIÁSPORA QUE ESTÁ EM NÓS


Joseph Roth





Ronaldo Costa Fernandes



A diáspora está por trás de toda literatura feita por judeus sobre temática judia, seja de maneira explícita, seja de maneira implícita. No caso de Joseph Roth, sua literatura contém todos os elementos da literatura de cunho judaico, sem perder a modernidade e ser um dos grandes livros da literatura de língua alemã. E mais ainda quando sua história é uma declarada paródia à bíblica história de Jó que desafiou Deus. Jó não é o único personagem da Bíblia a ser testado por Deus. Deus gosta de colocar seus filhos mais amados numa provação que chega ao limite do desespero. Não é diferente aqui com esse Jó russo e judeu, chamado Mendel Singer, que emigra de um vilarejo pobre da Rússia, onde é simplório professor, para os Estados Unidos, para se tornar pária. Sua recompensa virá ao final, depois de sofrer provação e blasfemar severamente.
Jó, romance de um homem simples é tradicional em sua forma de apresentação linear e contínua, tendo um só narrador onisciente. Mas a aparente fábula e paródia de Roth tem tanto vigor narrativo e sua construção em ritmo trepidante, emocional e direta carrega muito da modernidade de outros seus contemporâneos. O livro, dizem alguns críticos, se insere entre as grandes narrativas do princípio do século XX.
Joseph Roth (1894-1939) nasceu em Brody, cidade que integrava o Império Austro-Húngaro, hoje pertencente à Ucrânia. Jornalista de êxito, dedicou-se à literatura no final dos anos vinte. Tem outras narrativas, entre elas o romance A marcha de Radetzky. A Cia das Letras publicou, em 2006, Berlim, em sua série de jornalismo literário. Em 1933, emigra para a França onde irá falecer no final da mesma década. Querem colocá-lo entre os renovadores da literatura moderna, mas Joseph Roth é um grande narrador, excelente romancista, um dos grandes mestres do século XX, mas não se enquadra na tropa vanguardista de Proust, Kafka e Joyce, em que querem alistá-lo.
Jó, romance de um homem simples trabalha também com um dos elementos primordiais das antigas narrativas: a metamorfose. Não a metamorfose fantástica, mas a transformação inesperada e a surpresa a partir da transformação. Muito utilizada nas narrativas até o romantismo, a transformação radical, não a lenta maturação psicológica do personagem ou a mudança de comportamento, deixa no romance um traço da tradição – laica e religiosa – que permeia a história de escrita por Roth.
Não são poucos os que criticam a América como lugar de sonho e de degradação, das perdas dos valores fundamentais. América é a fuga e o mal, Deus e o Diabo. O país da oportunidade e da propalada igualdade social é aquele que manda o filho de Mendel para morrer na guerra por uma pátria que supostamente não é a dele. Mendel Singer é mais que um imigrante judeu: Singer é a desilusão com o mundo da terra prometida. América não é Canaã
Um espírito de fábula moderna permeia o romance e o insere na tradição das narrativas moralistas. São moralistas os escritores ingleses e franceses do séc. XVIII: Stern, Fielding, na Inglaterra, e, na França, Diderot e Voltaire. Embora todos esses citados tenham influenciado o nosso Machado e sejam irônicos, o caráter moralista da fábula de Roth não é isento de outro tipo de ironia: a ironia ácida, o destino visto como trapaça irônica. Não há sarcasmo nem humour, mas o que o povo chama de ironia do destino. A fábula de Roth, como toda fábula, também torna o particular coletivo. O drama de Mendel Singer não é só o drama individual, mas o drama de seu povo. Roth amplia a condição humana. E Jó passa a ser todo o povo sofrido e perseguido.
Nesse sentido mais amplo, diria que a fábula explícita de Roth torna-se um dos paradigmas do romance moderno. O romance moderno é uma fábula moralista em que é elidido o segundo elemento de comparação. Moralistas são os escritores modernos na medida em que não querem apenas deliciar seu público leitor (falo dos escritores sérios e não autores de outro gênero e espécie), mas ao transgredir estética e tematicamente estão apontando para uma degradação social. E, mesmo quando são autores intimistas ou solipsistas, a moralidade está em rejeitar a massificação e condená-la por rejeitar o humanismo. O mergulho na subjetividade não é alienação, mas o recurso para buscar no fundo do homem sua humanidade última como quem recolhe água barrenta do fundo de um poço vazio. Mas Jó, romance de um homem simples é garantia de emoção e beleza, de uma história rica de encantamento como nas fábulas antigas e que agradará a leitor comum e a leitor exigente, pois Roth tem a magia de um povo milenar cujas narrativas já seduziram todo gênero de público.


imagem retirada da internet: joseph roth