sábado, 19 de novembro de 2016

Para Nauro Machado, poema RCF



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Estranha poesia de outra ordem orgânica,
que se engendra no útero do tempo,
gera ervas de daninha botânica:
flor que ilumina tudo o que não é bento.

Em Nauro, a lúcida e melhor leitura,
poesia do poeta insular, pedra feita
verbo encarnado na carne dura
revela a rede-teia onde não se deita.

Porque em vez de algodão traz alfinete,
em vez de trinado a rima rouca,
barulho de aço contra aço sem azeite,

a poesia mais pura quanto mais louca.
Este o valor maior por nós incensado:
poema como búfalo não domado.



Nauro Machado é um dos maiores poetas brasileiros.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Tourada final, poema RCF
















Por que teu coração, bufante,
arvorou-se um dia em touro
e, menstruando a cada segundo,
escavou o fundo do teu peito?
Tu, que foste a casa,
obscuro e friável,
agora não passas de
uma cadeira no meio do corredor
que atrapalha a passagem.


(do livro A máquina das mãos, 2009)

imagem retirada da internet: vangogh


quinta-feira, 17 de novembro de 2016

O náufrago aéreo, poema RCF





Logo virá a noite
com seu casco
cobrir o corpo das marés.

Os aviões farejam na pista
o capim cinza do asfalto.
O aeroporto são luzes
gritando e soluçando
no espaço de um pouso
e de uma decolagem
– a vida entre aspas.
O display não dá
a hora do pouso final.

Embarco
e vou tão estrangeiro e íntimo
como a poltrona dos aviões.
Para nós que sobrevivemos
ao amigo suicida, ao louco
e ao que morreu na política,
a vida é o pasmo
de saber-se náufrago do ar.

(do livro Estrangeiro, Rio: Ed. Sette Letras, 1997)

Um homem é muito pouco 30


            A guerra piorou, Vicentino teve de deixar Luanda às pressas. Antes Altiva disse que ia com ele para o Rio de Janeiro. Vicentino foi morar perto da Cruz Vermelha e no apartamento não havia como enterrar ninguém porque a cova era rasa. Podia ladrilhar o chão que não havia possibilidade de enterrar o passado no chão do apartamento. Vicentino pensou que estava livre de Altiva, mas ela amaldiçoou e disse que o esprito dela ia encarnar em outra negra brasileira ou não.

            A princípio Vicentino foi trabalhar com mármore. Seu pai tinha negócio de marmoraria em Luanda e vendia muito para cemitério e piso de parede de banheiro dos colonos ricos brancos de Luanda. O sono perfurado de maldição de Altiva voltou aos poucos, mas ele não deixava de lembrar o terremoto da voz de Altiva, no baixo da sala, blasfemando e augurando desgraças brasileiras. Vicentino depois arranjou serviço na morgue e não era serviço de destripar defunto que não era médico nem tinha curso de coisa parecida. O trabalho era de escritório. Certa vez Vicentino baixou até o necrotério. Havia uma negra morta que lhe falou em linguagem de morto e com o mesmo tom de vulcão azulejado de Altiva. Ele se assustou e respondeu pra morta.

            Olha, eu gostava muito de Altiva, se pudesse eu fazia qual o príncipe português que mandou desenterrar a amada que uns crápulas da corte assassinaram para que ele não casasse com plebeia e colocou a gaja no trono para que reinasse como rainha morta ou morta rainha.

            Se pudesse desenterrava a negra Altiva de Castro e a punha na sala, vestida de roupa de mulher branca e não de roupa de mucama negra e a família dele viria e ela haveria de estar na sala, morta e vestida, sem voz vulcânica azulejada.

            Depois Vicentino trabalhou num restaurante como garçom. O que o povo não sabia é que Vicentino trabalhava em ofícios menores, mas tinha com ele boa quantia para montar negócio. Vicentino só esperava conhecer melhor o Rio de Janeiro e a maneira brasileira. Não havia guerra, os negros não eram perseguidos nem colonizados, não havia guerrilha, nem ódio. É muito complicado ter que viver com o coração furado. Vicentino começou a frequentar Copacabana para ver como funcionavam os bares e restaurantes. Numa noite, no calçadão, num bar cheio de turistas, Vicentino sentava sua tristeza angolana debaixo de um inútil guarda-sol quando se aproximou Ariana em forma de prostituta e, como ela disse, com voz de vulcão azulejado e a pele tão negra quanto a mais negra solidão.



(do romance Um homem é muito pouco. São Palo: Nankin, 2010)

GUERRA E PAZ, Tolstói






por Carlos Tavares


Vinte e cinco anos depois de publicar Guerra e paz (1863-1869), Liev Tolstói reelabora o seu pensamento cristão em O reino de Deus está em vós (1894) e conclui que as igrejas, "como sociedades afirmadoras de sua infalibilidade, são instituições anticristãs". A grande questão do tolstoísmo é conciliar a guerra com a liberdade, a justiça com a igualdade, a condição do mal com a violência, os direitos do homem e a servidão. Ainda na obra posterior ao romance em relevo — um dos ensaios sobre a fé e o cristianismo mais contundentes que o Bruxo de Iásnaia Poliana escreveu —, a indagação inquietadora sobre a Igreja e o seu papel na sociedade, que permeia todo o livro, está sempre em conexão com Guerra e paz, livro em que Tolstói reúne as principais linhas de suas teorias sobre guerra, casamento, religião, humanismo, sociedade e liberdade.



"Como conciliar a doutrina claramente expressa pelo Senhor e contida no coração de cada um de nós — perdão, humildade, amor a todos, amigos e inimigos — com a exigência da guerra e sua violência contra os nossos compatriotas e contra os estrangeiros?" Nessa reflexão, vemos uma evidente demonstração do que estava sendo forjado em Guerra e paz sobre seus conceitos teológicos e humanistas. Sobretudo se nos determo-nos na conversão do príncipe Pierre (provavelmente o personagem central da obra) quando esse resolve entrar na maçonaria e purificar sua alma. Só assim alcançaria a reforma moral estilhaçada aqui e ali, com recaídas e idas e vindas ao reino do bem. Senão, vejamos: "Purificando e corrigindo os nossos membros (da maçonaria), tentamos (...) corrigir toda a espécie humana, oferecendo a ela um exemplo de devoção e virtude (...) e assim tentamos, com todas as nossas forças, combater o mal que reina no mundo".



A sentença é de Smolianínov, o reitor da fraternidade à qual aderiu Pierre para mudar de vida. Nesse aspecto, aliás, o personagem muito se assemelha à figura do Grande Inquisidor, de Os irmãos Karamázov, de Dostoiévski. Mas a vida do príncipe ainda daria muitas voltas pelo universo da conversão ao longo de mais de 2,4 mil páginas, em que se revela a face frágil do homem perante as armadilhas da crença e do perdão, do amor e da certeza na reforma moral almejada. Para isso, internamente, nas hostes da ordem dos templários, ele teria de abdicar de muita coisa do mundo humano: teria de ser obediente, de ter bons costumes, amor à humanidade, coragem, generosidade e, o principal, aprender a amar a morte.



A conversão do príncipe Pierre Bezúkhov se dá a partir da página 732 do primeiro volume da bela edição da CosacNaify, em dois volumes, traduzida por Rubens Figueiredo, direto do russo. Mas, logo adiante, na página 781, Pierre volta São Petersburgo, a capital da farra imperial da Rússia, e cai na tentação da vida anterior, fútil e sem propósito maior regada a muita vodca, comida, vinho e mulheres. E reconhece que das sete virtudes pregadas pelo reitor, não possuía pendor pelo menos para três delas: ser um exemplo de vida moral, mudar os hábitos e amar a morte.



Angústia



Nesse sentido, o príncipe se aproxima muito da personalidade angustiada do próprio autor, que na juventude torrou boa parte da fortuna da família com bebidas e mulheres e viveu grande parte de sua trajetória na corda bamba da moral e do cinismo. Ao se dar conta das dificuldades que a nova vida de castidade e amor traria para ele, Pierre se dedica a praticar com ímpeto ao menos dois dos preceitos da entidade secreta: a generosidade e o amor ao próximo. Então parte, como Tolstói fez em vida, para a libertação dos servos de suas terras e a reforma social dos mujiques que preferissem continuar trabalhando para ele, oferecendo a oportunidade às famílias dos camponeses de ter uma vida melhor, com escola para os filhos, igrejas, mais lazer e menos trabalho, o que também não deu certo, porque, sem que soubesse, Pierre era roubado por seus administradores com a conivência dos próprios empregados. Na vida real, Tolstói conseguiu instaurar um sistema mais eficiente em Iásnaia Poliana adquirindo a confiança dos trabalhadores e promovendo uma verdadeira revolução educacional na propriedade herdada de seus pais.



Os titubeios do príncipe em relação à fé e à vida devassa refletem a agonia do próprio Liev, que em vida permaneceu sufocado a maior tempo pelo turbilhão de dúvidas que o massacravam em termos de religião, humanidade, amor, violência, o bem e o mal. É como se o escritor impusesse a seus personagens (não apenas de Guerra e paz) a dádiva da fé, a necessidade de limpeza da alma e a premência de abandonar vícios e vaidades em meio a uma tempestade de dúvidas e de tentações que rivalizam em iguais medidas com os desígnios divinos e a entrega absoluta de um homem novo, livre de culpa, o caminho do impossível.



Três personagens de destaque na obra — Pierre, Andrei e a princesa Mária — simbolizam os desejos humanitários do autor que melhor situou a fragilidade humana como essência espiritual e metafísica da espécie. Mas nem por isso Guerra e paz é uma obra conformista. A todo instante o narrador elabora reflexões sobre a necessidade de o povo se mobilizar em busca da liberdade e afirma — este é o eixo central de seu pensamento — que somente unidos os deserdados do império poderiam vencer o exército de Napoleão e os próprios representantes do poder da Rússia Imperial. No fim das 2.490 páginas do livro, o leitor se depara com uma constatação irrefutável: dois elementos fundamentais superaram as forças de Napoleão: as milícias populares russas, compostas de camponeses, fugitivos e outros civis e o frio intenso de 35º abaixo de zero.



Tolstói, em sua releitura da história, deixa claro que não foram as estratégias dos militares dos generais de Alexandre I ou a covardia de Napoleão (que fugiu para a França quando pressentiu que seu exército perdia o ânimo) após a invasão malsucedida de Moscou que venceram a guerra. Mas sim a força do povo, à qual o narrador faz menção em diversos trechos do primeiro volume pela voz de vários personagens, principalmente as dos príncipes Andrei e Pierre.



A guerra



Tudo isso se passa em uma Rússia (por que não uma Europa?) cindida entre o apoio absoluto a Napoleão, que se autoproclamara imperador, e a independência de seu povo, preconizada pelo czar Alexandre I, que reinou entre 1801 e 1825. Mas o próprio Alexandre recua na incondicionalidade do apoio às forças de Napoleão e vê que é chegada a hora de defender seu território. A Rússia havia perdido em 1805 a batalha de Austerlitz, com baixas consideráveis em seu exército e resolvera, ao lado da Áustria, se aliar à França. No entanto, muita água correria por debaixo das pontes que separavam o país de suas fronteiras, muitos acordos malogrados seriam desfeitos até a grande e sangrenta batalha de Borodinó, em 1812, quando as duas linhas de combate já estavam se digladiando há longos anos; Napoleão de um lado, com mais de 600 mil homens, e a Rússia de outro (com aliados), com 900 mil.



Um dos pilares da destruição do exército de Napoleão — além das forças populares e do clima de inverno, como aconteceu na Segunda Guerra Mundial, em Stalingrado — foi a posição do general Mikhail Illarionóvich Kutúzov, acusado, injustamente, segundo Tolstói, de covardia, e de ter abandonado Moscou ao saque e à pilhagem pelos soldados franceses que, famintos, com poucas armas, sofrendo com o frio, invadiram a capital e queimaram seus palácios, catedrais, ruas e seus casarios, ícones e obras de arte, mataram e estupraram promovendo o maior incêndio da história da guerra em uma cidade que era a base militar e administrativa do império.



Kutúzov, enquanto os franceses se esbaldavam em uma Moscou semidestruída, segurava suas forças às margens dos rios Kaluga e Mosková, a cerca de 100km da cidade, de onde dava para ver as torres da igrejas e dos palácios arderem em chamas. De fato, era meio incompreensível que os combatentes russos ficassem de braços cruzados assistindo o avanço das tropas francesas sobre a cidade-símbolo do Império. Mas a verdade, como explica o autor em diversos capítulos que se alternam com a história e a ficção — e em que promove reflexões histórico-filosóficas sobre as razões da guerra — é que Kutúzov, além de ter ordenado a evacuação de Moscou, antes da invasão, e aguardasse o melhor momento de atacar, estava certo da vitória: "Os franceses vieram sem ser convidados e vão voltar do mesmo jeito".



O desfecho, no inverno de 1812, foi trágico para as forças de Napoleão. O general russo dera ordem de ataque e os franceses não suportaram o frio de 35º graus abaixo de zero, a fome, a falta de ânimo. Dos 610 mil homens que Napoleão levou para invadir a Rússia, voltaram com ele para a França apenas 10 mil. Kutúzov tinha razão, embora os historiadores da época permanecessem criticando sua postura. No fim do banho de sangue, Pierre conclui que "a guerra é o assassinato, os instrumentos da guerra são a espionagem, a traição, o extermínio dos habitantes, a pilhagem de seus bens, a fraude, a mentira, chamadas de astúcias militares" (página 1618 do segundo volume).



O amor



A montagem deste romance desconcertante, profundo, inquietador e monumental é uma das novidades para a época apresentadas por Tolstói, que subverteu as formas corriqueiras de escrever e instituiu a liberdade narrativa do deslocamento de foco narrativo, inserção de hipertextos, de monólogos interiores, de ensaios políticos e filosóficos sobre a guerra, a religião e o amor, além de dar maior autonomia ao narrador em terceira pessoa. Este se confunde muitas vezes com um dos personagens da obra, ao interferir na trama, na primeira pessoa, com reflexões e análises sobre a postura de cada um dos que se acham no centro da narrativa.



Considerando-se esses aspectos linguísticos e semânticos, não há nada mais moderno em produções literárias da época do que Guerra e paz. O próprio Flaubert, contemporâneo de Tolstói, quando leu o livro, disse, atônito, "ora, mas ele filosofa demais". Isso sem deixar de dar a Tolstói o mérito merecido de grande demiurgo da história recente e da ficção. Tolstói compõe o seu painel sobre as guerras napoleônicas — num período que vai de 1805 a 1820 — dispondo os capítulos de forma intercalada, entre aqueles que falam das ações de guerra e aqueles que se detêm na história de cada personagem enredados com paixões fracassadas e casamentos frustrados. Nesse sentido, é onde ele elabora suas ideias sobre a figura feminina, que considera fútil e interesseira, as razões do amor, o ideal socialista, a religião, a fé e a maldade humana.



Basicamente, ele concentra em Natacha (futura mulher de Pierre), a princesa Mária, Andrei e Pierre, seus modelos humanos mais profundos, em que resume suas trajetórias de ascensão e queda em meio ao turbilhão da guerra e das perdas como reflexos das próprias batalhas em campo. Trava-se, no interior das mansões e dos palácios, uma guerra silenciosa e antecipadamente perdida, entre os casais que se confrontam ante a traição, a promessa, o medo do fim do amor, a dúvida, a loucura da rejeição.



Nas histórias pessoais desses personagens estão os embriões de modelos humanos esculpidos pelo gênio russo em muitas de suas obras posteriores, como A morte de Ivan Illítch, A sonata Kreutzer, Khadji-Murát (ver o personagem Thiókin), Padre Sérgio. Ao se encerrar essa viagem de infinitas possibilidades de reflexão sobre a vida, vê-se que a obra em questão permanece mais do que atual, em termos de exegese da essência humana e da visão de guerra que o homem contemporâneo ainda exibe em sua trajetória de vida.




De Liev Tolstói. Tradução de Rubens Figueiredo. Edição especial em dois volumes. CosacNaify, 2.536 páginas. R$ 198.


(imagens retiradas da internet)

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Vietnã, poema de Wislawa Szymborska


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Mulher, como você se chama? – Não sei.
Quando você nasceu, de onde você vem? – Nao sei.
Para que cavou uma toca na terra? – Não sei.
Desde quanto está aqui escondida? – Não sei.
Por que mordeu o meu dedo anular? – Não sei.
Não sabe que não vamos te fazer nenhum mal? – Não sei.
De que lado você está? – Não sei.
É a guerra, você tem que escolher. – Não sei.
Esses são teus filhos? – São.




(Poemas, Wislawa Szymborska. São Paulo: Cia das Letras, 2011. Tradução de Regina Przybycien)


terça-feira, 15 de novembro de 2016

O fazedor de fragmentos, O difícil exercício das cinzas



O facho da lanterna é um filete de luz
que desafia a ordem da noite.
Um vaga-lume espichado de luz contínua,
um bicho iluminado em suas entranhas,
que aponta para um longo dedo de luz artificial.
E como não é elétrico, o facho é uma invenção
das pilhas dos olhos que também se espicham
num terceiro olho de ciclope noturno.
O facho de luz se revela: é um facho de surpresa
e busca, ninguém acende uma lanterna
para fazer o dia como a luz elétrica
fornece um solzinho particular. 
 
A lanterna traz o facho do medo,
é um dia de bolso e, principalmente, o facho mostra
a precariedade do dono,
a luz presa na mão,
a luz que escapa da mão,
a luz que nos reduz à condição menos humana,
há menos carne e matéria e tudo é recortado
um álbum de fotografia de objetos
ou um pesadelo de fragmentos.


(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Solilóquio, poema de Ronaldo Costa Fernandes




Com quantos ferros
se faz uma manhã?

Pernas mecânicas,
bocas mecânicas,
o mundo mecânico dos elevadores
e da depressão.

Os objetos pendem como frutas
– os objetos também amadurecem –,
a seiva dos ferros e madeiras.

A sala precisa ser podada
– que jardineiro extirpará as ervas daninhas do sofá?

A tosse do motor de popa
– onde estão os barcos
na umidade dos prédios?

Os peixes nadam na clorofila das venezianas.




(do livro Andarilho, Rio, 7Letras, 2000)

 
 
imagem retirada da internet: dalí

O sonho do celta, Mario Vargas Llosa


Ronaldo Costa Fernandes


A pujança narrativa de Vargas Llosa nos impressiona sempre, mesmo em romances com menor poder de sedução que, no passado, nos frustrou ao prometer o que não cumpriu. Desde a primeira leitura de A casa verde, ainda nos anos 60, acompanhei a trajetória do prêmio Nobel que já em La ciudad y los perros (A cidade e os cachorros, traduzido no Brasil, inicialmente, com o desconcertante título de Batismo de fogo) explodiu não apenas como fenômeno de venda, mas também um dos mestres do boom da literatura hispano-americana. Entre tanto fantástico, realismo mágico e o maravilhoso, surgia um realista a la Faulkner, ludicamente trabalhando o espaço e o tempo, as vozes narrativas e os enredos e incluindo o humor que, naqueles anos politizados, não tinha o status de grande literatura.
Volto então a ler Vargas Llosa em O sonho do celta, no original, editado pela espanhola Alfaguarra, e me surge o temor de rever algumas temáticas já encarquilhadas e que não faziam mais parte do repertório da literatura hispano-americana. O sonho do celta tem algumas características da literatura do próprio Llosa e outros traços que parecem permanentes na narrativa de língua espanhola feita nas Américas. Do velho Llosa lá estão a selva de A casa verde, o ambiente constrangedor, o jogo especular de opor dois mundos: o mundo civilizado e o mundo brutal da realidade latino-americana. Da literatura neorrealista da América espanhola estão os temas como a selva x mundo civilizado, a selva vencendo o homem civilizado ou derrotando-o com seu meio animal e primitivo, temática que serviu muito bem para Romulo Gallegos ou para Horacio Quiroga, e a denúncia social da exploração do homem pelo homem, de quando o próprio Llosa namorou o comunismo.

Depois, temi ver em O sonho do celta, uma biografia romanceada. As biografias romanceadas geralmente não obtêm bom resultado. Os biógrafos não são romancistas e acabam estragando um bom tema. Com Llosa, o romance não correria este perigo, embora ele, nas primeiras páginas, estivesse um pouco emperrado. Num romance, o narrador não coloca uma frase como: “em 13 de janeiro de 1904”, que cabe à biografia e à História e não à ficção (que talvez diria “naquela manhã nublada”) e à história.
O sonho do celta relata a vida de Roger Casement, um irlandês que, em nome da Inglaterra, cumpre missões diplomáticas no Congo Belga, no Brasil, no Peru, é sagrado Sir e, no fim da vida, torna-se um apaixonado nacionalista que luta pela causa da liberdade do seu país, é preso e condenado à morte. A primeira parte da aventura de Roger, passada na África, é uma enumeração cronológica das atrocidades cometidas pelos colonizadores europeus que, em nome da civilização, seviciam, maltratam, humilham, açoitam e matam os negros. Fruto talvez da pesquisa – e com pouca vivência africana –, Llosa se repete mudando apenas os crimes ou os nomes dos crimes, da violência e dos atos bárbaros.
Llosa, contudo, só passa a crescer como o velho narrador que conhecemos quando o cenário é o trópico, seu país natal, Peru, e sua cidade amazônica, Iquitos, onde Casement é mandado pelo governo inglês para uma auditoria numa empresa anglo-peruana que, para extrair o látex, trata desumanamente os indígenas. Preso ainda a sua pesquisa e fiel à biografia de Roger Casement, Llosa sente-se mais à vontade e seguro do tema que narra. É aí então que o personagem se desgarra da História e o pulso narrativo de Llosa retorna com vigor até mesmo, ou principalmente, ao contar as relações homossexuais do personagem e sua luta para uma Irlanda independente.
Aqui também ocorre o fenômeno já observado em outros romances de Llosa, principalmente em O paraíso na outra esquina. Em ambos, a utopia é um dos temas centrais, o cenário primordial é a Europa, cenário e campo de confronto de ideias. E os personagens principais têm vínculo com o Peru, assim Casement vai lutar pelos direitos humanos na selva amazônica peruana e a avó materna de Gauguin, a protomarxista Flora, irá abraçar o socialismo, discursar em meetings, tornando-se uma grande figura do movimento operário internacional. Logo se percebe que o vínculo entre a brava personagem e o Peru de Llosa vem a ser o nascimento burguês de Flora na bela e vulcânica cidade de Arequipa, empoleirada nos Andes.

imagens retiradas da internet

domingo, 13 de novembro de 2016

Clarice Lispector, uma biografia, de Benjamin Moser



A primeira vez que vi Clarice Lispector foi no verão de 1971. Três rapazes e uma moça decidiram publicar um volumezinho de poemas iniciais chamado Canto aberto. A moça era a poeta e compositora Denise Emmer e os rapazes o poeta e ator Sérgio Fonta, Paulo Gurgel Valente e eu. Estávamos na Prudente de Morais, na bilheteria àquela hora dispensável e amigável do Teatro Ipanema. Tony Ramos leria os poemas de Denise. Os de Sérgio Fonta caberiam ao ator e dono do teatro Rubens Correa (Sérgio acaba de publicar a biografia desse grande ator do teatro brasileiro); de Paulo Valente, os poemas seriam lidos por Claudio Cavalcanti. Os meus por Mário Lago. Alguém me bateu no ombro e escutei a voz do Paulo: “Ronaldo, quero te apresentar minha mãe”. A mãe do Paulo era Clarice Lispector.

Vi uma senhora – para mim, aos dezoito anos, uma senhora – vestida de preto, com batom vermelhíssimo e que me estendeu a mão mais para beijá-la que para o aperto. Sem jeito, apertei a mão que não inclinara. Ela deixou escapar um longínquo sorriso e um olhar que até hoje não esqueço. Tudo isso me voltou ao ler a biografia de Clarice, escrita por Benjamim Moser, e publicada pela Cosacnaif.

Mais tarde, quando Clarice começa a ser publicada pela editora Artenova, de Álvaro Pacheco, via-a duas ou três vezes. Não me arriscava a chegar perto dela. Era o tempo em que publicou Onde estivestes de noite ou Via crucis do corpo, se não me engano. O editor não ficou bem na foto na biografia de Moser: os autores não recebiam os direitos autorais e Clarice chegou a ser vítima de um parecer sobre suas traduções em que a parecerista acusava-a de modificar “o significado das palavras e mesmo inversão do sentido das frases”. O mais cruel para mim era ver um despreparado jornalista que se fazia de assistente do editor desconhecer o talento e a grandeza de quem lhe levava as traduções. Pobre Clarice.

O livro Clarice, uma biografia, de Benjamin Moser, é excelente. Começa com os lugares-comuns que conhecemos sobre Clarice e pensei comigo que ia ler algo que já conhecia de sobeja, quando o autor interrompe e, num corte, leva o leitor até a Ucrânia dos antepassados de Clarice. Numa pesquisa rigorosa e inteligente, o autor nos conduz a um mundo obscuro, faminto e desumano da perseguição aos judeus e da fuga dos Lispector até o Novo Mundo, em Maceió e depois Recife. Para mim, é a melhor parte da biografia, pois mais ou menos sempre sabemos algo da personalidade e, pelos livros, temos uma visão muito idiossincrática da autora de Perto do coração selvagem.


É comum nas biografias os autores utilizarem o texto do biografado para dar suporte a determinadas fases da sua vida. Desta maneira, geralmente ficam a meio caminho entre encontrar indícios que comprovem suas afirmativas ou fazer crítica literária. Moser muito inteligentemente utiliza o texto de Clarice, principalmente aqueles mais biográficos e que parece não haver discordância, para apoiar sua análise. Envereda um pouco pela crítica literária – o que é saudável –, quase sempre se apoiando também na repercussão que os textos tiveram à sua época. Todo cuidado é pouco, contudo, para que não se misture o processo criativo que tem sua autonomia e a vida dos biografados.

Moser consegue criar um clima de curiosidade e revela-se exímio pesquisador, desvelando para o leitor uma Clarice Lispector de corpo inteiro: a paixão segundo C.L. Não é à toa que o livro teve uma vendagem expressiva. Algumas considerações sobre Água Viva me pareceram exageradas, mas respeito a visão e a análise do biógrafo. O certo é que o livro é fascinante e mostra uma grandeza à altura que está perto do coração selvagem de Clarice Lispector. (RCF)