sábado, 10 de dezembro de 2016

A intimidade das coisas no mundo


sverrir thorolfsson

Há as intimidades viscerais
como o lápis e o dedo,
o cão e a coleira,
o pente e seu cabelo
e a morte e seus vermes.
Há intimidades que são prolongações
como ainda o lápis e a mão
– o lápis seria um só dedo
que escreve ou o sexto dedo de grafite –,
a bengala e o cego
que enxerga por uma terceira perna;
a pedra e o estilingue
que lança a primeira
num voo mecânico e lembra
que o avião também é uma pedra
lançada por um bodoque
de tecnologia e querosene.


Mas a intimidade maior
está no homem e suas pernas
que o levam aonde quer chegar.
Mais íntimo do homem
é o seu desejo,
que é íntimo do seu corpo
e mais íntimo ainda do espírito,
mas o desejo leva o homem a enxergar,
a desenhar sua profissão,
a arrumar-se ao espelho da modéstia,
a lançar-se no voo livre,
lograr o sonho, íntimo dos destinos desfeitos.        


(O difícil exercício das cinzas. 2014)              

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Espreita, poema RCF


 


Na cama, ouvimos gotejar o silêncio.
Entre lençóis apenas se escuta
o barulho de luzes
acendendo a noite.
As ruas caminham
com seus passos de paralelepípedos
assustados com a chuva,
o corpo curvado da ladeira
para se esquivar da acupuntura
das agulhas molhadas.
O quarto sobrevive à queixa
e esperamos, indóceis, o silêncio escurecer.




 (do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012.)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Da imprevisibilidade dos pesos de papel




Gosto de pesos de papel
e da impermanência na permanência.
O maço de papel se eriça e não se move,
seus ombros suportam o peso.
Os pesos de papel, aquário imobilizado,
em vez de peixes,
traçam a permanência do mudo.
Minhas folhas escritas
caem no outono da janela aberta.
Não posso mudar a estação
do ano, do rádio, do metrô,
da minha estada na ferrovia
– por onde vou o ferro
cria uma estrada de renúncias,
paralelas onde descarrilo
o peso dos anos.
Tudo é impermanente
mesmo os cristais aprisionados
no peso do mundo.
Talvez a abóbada celeste
seja o peso dos dias
e estejamos todos nós
cristalizados e permanentes
na silhueta das coisas.
Sem perspectiva de alumbramento,
os desenhos do tédio
murcham a impermanência.
Os olhos são dois pesos
de cristalino espanto
e, contudo, fixos, têm a leveza
da anatomia do sonho.



(O difícil exercício das cinzas. 2014)

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Carta para a mãe, poema RCF




Por que me deste dois pés de esponja,
se sabias que o caminho era pantanoso?
Por que me deste este desequilíbrio,
este perigo de alto mar ao atravessar a rua?
Esta saliva de areia,
este estômago que digere a si próprio
este nervo exposto,
esta memória feita de cobogós?
Por que me fizeste
com estatura pequena,
eu, que tenho um metro e oitenta?
Por que não terminaste meu rosto
que só tem um lado
e, por isso, não posso dar a outra face?

(A máquina das mãos, 2009)

Poema para o suicida, RCF


I

Os exames de sangue
não dizem quantos ml. de ruína
podem acusar o suicida.
O suicídio é quando
o lençol freático das veias
sobe ao leito da pele em punho cortado.

Nunca está atrasado o suicida
pois não há atraso
para a hora aziaga.
Tem em seu relógio
uma bomba
anda sempre afogado
cada rua ou avenida
(anda sempre de pé nos parapeitos)
é a aleia principal do cemitério
dos vivos em que é obrigado
a naufragar a cada manhã.

Se Narciso morreu
se adorando
não se suicidou.
O suicídio é olhar
o lago e ver o fundo
sem ver seu rosto.

O homem não escolhe o suicídio
o suicídio é que o escolhe.
Vê a magreza da alma,
a vida que não é sonho,
o pôr do sol cheio de espinhos
e aí decide nele se alojar.

Suicídio é o cano de escape
com que respiramos,
a fuga para dentro de si
como o peixe que pula
para a prisão do ar livre.

II

Os suicidas – os suicidas
que me perdoem, se tento
entendê-los – quando não
deixam bilhete, falam
escrevem através do corpo,
do corte, do ar envenenado,
do alçapão, da fruta madura
em que se tornaram. O bilhete
final pode até ser escrito,
mas está melhor inscrito
no corpo que sofre a demissão
da mente, esta que já morreu
antes, esta que enforcou o
pensamento, inalou a ideia
mórbida a ideia do fim.
Que outro alfabeto também
usam os suicidas? Além
da carta, lançam a última
frase pelo voo cego dos
verbos na voz passiva, pelo
ponto final, pelo adjetivo
abstrato do gás, pela letra
pela letra retorcida da corda.

(A máquina das mãos, 2009)

imagem retirada da internet: chagall

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Fuga, poema RCF




Quem inventou a medida do palmo
queria ter o mundo em suas mãos.

As palmas me causam horror:
o ato vazio de nada pegar.

Tudo no rio me remete
à fuga: o escorrer quase cismático

 
(do livro A máquina das mãos, Rio, 7Letras, 2009)
 
imagem retirda da internet: otto dix

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Timbales, poema RCF

Resultado de imagem para Annie Leibovitz


O poeta não gosta dos papéis que não escrevem.
Não gosta dos formulários onde nenhuma poesia é possível.
O poeta rejeita os escaninhos porque nos escaninhos
não é possível escrever a palavra nunca.

O poeta gosta é da folha em branco
porque sabe que os poemas já estão escritos na folha em branco.
O poeta escreve a ponta de faca, o lápis tem gume
e a folha se abre na gordura branca da carne exposta.

A fila serpenteia e o poeta olha as cabeças como timbales
de onde saem notas.
O poeta sonha com a folha em branco
onde estão escondidas as palavras.


domingo, 4 de dezembro de 2016

Os canhões do silêncio, José Chagas





Resultado de imagem para Robert Frank







Aqui eu sou um pastor de luas
acompanho o crescer e o minguar de todas
sei as que a noite escolhe
para o seu alimento de poesia
e as que fornecem o mais puro leite de sonho

O que bebo de lua todas as vezes
dá para minha embriaguez mensal

Aqui o silêncio é história visível
porque o luar se faz memória branca
sobre o quanto de vida cabemos nós
em meses

                As luas contam meus dias
                medem meu tempo
                marcam todas as fases
                de minha solidão

O silêncio é maior quando elas o banham
e ele parece entrar limpo pelos olhos
como uma verdade posta no ar
para explicar a noite

               As luas são muitas porque
               nenhuma lua é a mesma lua
               quando volta a sua face
               para as coisas do mundo









(trecho interrompido do longo poema - todo um livro - com uma só temática em que o pano de fundo é a cidade de São Luís. José Chagas é um dos grandes poetas brasileiros e seu livro Os Canhões do Silêncio, uma obra-prima da literatura brasileira.)