sábado, 14 de janeiro de 2017

O cavalo, poema RCF

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O cavalo,
            com seus músculos
                                      de corda,
                                      relincha
                                      ao pardo couro
                                      do pasto queimado.

A melhor cocheira
                                       é o prado
                                       onde a imensidão
                                       limita
                                                com os horizonte.
                                       O cavalo
                                       se apoia nas patas
                                       e
                                       na hipótese
                                       – o olhar gordo do cavalo
                                       averigua o relógio do tempo:
                                                       lento é o riacho
                                                       rápido o vento.

Eis que volto à fazenda
e em vez de cavalo
encontro um guindaste:
as patas de lagarta e o corpo de ferro.
O animal guindaste suspende
de uma vala o animal cavalo
que nela – vala – caiu.
Suspenso assim
é um bicho fora do seu habitat
não pertence ao gênero da terra
não é marinho,
mínimo,
mas aéreo, cavalo Mobil Oil
como nos letreiros da Texaco Company.

De cabo a raso,
o cavalo é um soldado
na infantaria do seu dono.
Nada comanda,
nem mesmo seu corpo.
Aprendeu na caserna da fazenda
a disciplina, o mando e a marcha.
O freio repuxa o instinto.
O relincho é um guincho
e essa diferença de sentinela
é apenas tristeza do bicho na tropa humana.

O cavalo – matutino – escova suas crinas no pente do vento.
Quem inventou o cavalo – besta de carga –
não foi a natureza e seu lombo
nem mesmo o furor utilitário
a essência nervosa da alma que prova
mas o gosto humano de servir-se do outro.



(do livro Estrangeiro. Rio: SetteLetras, 1997)















            

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Ecologia do corpo, poema RCF



 


 


 

Nesta terra devastada mais devastado é meu coração.
As aves que aqui gorjeiam são corvos de Poe.
Meu espanto é um cacto
e, ao desflorestamento dos meus desejos,
nada tenho de mim além da minha secura.
Aos poucos seria catástrofe e ninguém me plantará.

(do livro Memória dos porcos. 2012)






(foto:rdney smith)

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

O viúvo, 5º capítulo

Vincent van Gogh [Public domain- Wikimedia Commons

Estava na casa da doutora quando escutei os gritos. Perguntei pra empregada o que era aquilo. A moça disse que não sabia. Não sei do que se trata. A casa aqui, continuou ela, é muito sossegada. Os pacientes são nervosos, mas nunca atacam, gritam ou fazem escândalo. O homem aí deve ser um estranho. Nunca vi ele aqui, disse ela. Olha como estou nervosa. E pegou minha mão e ia colocar no peito, mas recuei, era um gesto muito íntimo, geralmente as mulheres que fizeram isso comigo era para eu tocar os mamilos por cima da blusa, mas a empregada não tinha essa intenção e eu não podia me permitir abusar do nervosismo da mocinha para tocar os seios dela.
A casa tem dois andares. Desperdício. Ali moram apenas duas velhas. Uma, minha psicanalista; a outra, irmã dela. A irmã da minha psicanalista não faz nada na vida. Sempre cuidou da irmã, foi uma secretária, mas hoje nem mesmo cumpre as funções de secretária. Que vida besta. É apenas um vulto vestido de saia que vaga pela casa, dá ordens desconexas para a empregada – vai ao supermercado e compra mamão, a empregada vai e quando volta ela pergunta por que a empregada comprou mamão. Por que comprou mamão? A senhora mesmo pediu... Eu? Você pensa que me engana, que tô gagá, pensa?
O cabelo das duas me impressiona. Os homens se tornam carecas, mas as mulheres vão perdendo cabelo e fica aquela coisa rarefeita, que a gente vê o couro cabeludo quando fica contra a luz. Tenho a teoria de que as mulheres que perdem cabelo também perdem outras substâncias, então os músculos ficam ralos, geralmente são miúdas como minha psicanalista e perdem a força da voz, que saem fracas, tão fracas como as palavras suspiradas num segredo ao pé do ouvido.
Estou na garagem, transformada em consultório. O consultório de vozes encarceradas. Ali sim estão as vozes em seu estado primitivo, porque saem, mas não saem, ficam ali, depositadas, aéreas, esparsas, presas para sempre no ouvido da doutora. A garagem é um ventre de vozes, estão amortecidas, esperam que nós as busquemos, há um repertório também de outras vozes, viciadas, lidas, eruditas, que a doutora recolhe do ar, borboletas rebeldes, que se cruzam, formando outro bando de borboletas.
– Onde está o filho da puta?
– O senhor, por favor, se controle.
– A senhora tem parte da culpa em tudo isso.
– Culpa?
– Se desestimulasse o cretino, ele não ia atrás de minha mulher.
– O senhor está passando dos limites.
– Por que tinha que se meter na vida alheia?
– O senhor está falando de quê?
– Da senhora.
– Se o senhor não se retirar da minha casa, chamo a polícia.
            O nome dele é Manfredo. Esse sujeito me persegue há um bom tempo. Chame a polícia, chame – e tirou o celular do bolso – vamos, liga, liga. Tenho medo de enfrentá-lo porque é um brutamontes. Mas ele não tem certeza de que eu estou ali na casa. Onde está ele? Onde está ele? O sujeito que sabe onde está o desafeto não precisa ficar perguntando onde está o desgraçado que persegue. Encolho-me instintivamente, mas não vou cometer o ridículo de me esconder atrás de cortina ou me abaixar atrás da mesa. Ele não domina a planta da casa, por isso não sabe por onde ir. Sobe até o segundo andar, vasculha o escritório, entra na cozinha e não encontra nada. Jamais vai supor que estou na garagem. Porque é na garagem, transformada em consultório, que a doutora atende.
            Manfredo é judeu. Não conviveu com a família, não herdou hábitos judaicos ainda que tenha feito o bar mitzvah. Mas, mesmo assim, ele tem um pesadelo recorrente: está numa câmara de gás num campo de concentração. Não é fácil você viver com uma lembrança que não é sua, um passado que pertence a sua raça. Se fossem só os pesadelos, ele poderia se livrar deles ao acordar. Mas os pesadelos continuam durante o dia. Aterroriza-o a possibilidade de ser transformado num daqueles seres esquálidos que saem nas fotos e nos documentários sobre a Segunda Guerra. Oh, Deus, foi apenas um pesadelo. Os judeus aparecem em preto-e-branco, barba por fazer, uma barba desamparada, os ossos espetando a carne, que não é função dos ossos fazer parte da parte de fora do corpo. A fila descomunal e desumana, vigiada por cachorros, enfileirados para o absurdo do crime oficial, a foto mostrando os oficiais nazistas tão ferozes quanto seus cães.
            A geografia da casa cria ouvidos. Um homem não pode ser incompleto o tempo todo.
            No banho, me contou a mulher dele, a ameaça era o vapor que subia e se tornava o mesmo gás, passado de geração a geração, que por fim o alcançava, o mesmo gás carrasco, o Zyklon-B, cuspido das torneiras secas. As torneiras vaporizavam o terror. As torneiras expulsavam o genocídio, o crime industrial, a máquina de morte. O vapor do banheiro transformava o boxe num galpão, onde outros homens despidos se banhavam de fumaça.
            A mulher dele era bem mais nova. Não era judia. Não estava preocupada com aquilo que ensandecia o marido.
– Você está suando?
– São os gases.
– Onde você vê os gases?
– Os gases a gente não vê. Os gases a gente sente o cheiro.
– Não havia cheiro no Zyklon-B.
– Como você sabe disso?
– Eu não sei se li ou não li. O que importa é que é infernal viver com um homem que se sente perseguido por algo que nunca viveu.
Cantos, danças, músicas, homens abraçados, Manfredo apenas conhecia o mundo judeu nas festas, não freqüentava sinagoga, não rezava pela mesma Torá, não jejuava o mesmo festim de ritos, de dogmas, de manias, de proibições ancestrais. Por que os gases vinham perturbá-lo como lei divina, castigo do diabo antes que de Deus? Por que os vapores o perseguiam e ele se sentia na fila para o banho? A imaginação, sim, tinha dentes, abocanhava. Era isso que a mulher dele não compreendia. Só quem vive um pavor igual pode compreender o pavor do outro. Você é capaz de entender o horror, hein, me diga, é capaz de entender o horror?
            Sempre esteve fora das minhas cogitações existenciais o sofrimento dos judeus. A gente tem pena, é solidário, se revolta com os crimes dos nazistas. Mas é algo distante, não faz parte do cotidiano. Curioso como a vida nos coloca frente a realidades que nunca imaginamos presenciar. Jamais imaginei que teria que conviver com alguém que vivera os horrores da guerra, mesmo que essa guerra já tivesse acabado há mais de cinqüenta anos e que ele não tivesse ainda nascido quando ela acabou. Então, é capaz?

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Marcapasso das calçadas, poema de RCF





A penúria dos gestos suspensos,
a delicadeza do fio
– quantos gumes tem um fio? –,

                              roda a bicicleta,
                              imobilidade veloz,
                              zero que se repete ao infinito,
                              meu coração sofreia
                              no marcapasso das calçadas.


(Andarilho, 2000)

imagem retirada da internet: calçada de lisboa by themis aline

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Retratos londrinos, Charles Dickens

A delícia de ler Londres


O livro Retratos Londrinos ( Ed. Record, 306 páginas, R$ 35,00 ), de Charles Dickens, é fruto da experiência do jovem Dickens como jornalista. São 32 relatos, cujo tema é Londres. Mas a cidade ultrapassa sua condição de cenário. Ela pulsa, regurgita, polemiza, entristece, ri, revolta-se, chora, canta, esperneia, bufa, cansa-se, espraia-se e desdenha. As cidades vivem por intermédio de sua gente. A Londres de Dickens está dentro das pessoas tanto quanto as pessoas estão em Londres.

Nunca antes traduzido no Brasil, Retratos londrinos ( Sketches by Boz em inglês; o Boz do título é como Dickens assinava suas crônicas ) cria a contemporaneidade das obras feitas com a pena da qualidade. Não importa se essa Londres não existe mais. Importa a maneira singular de um autor vê-la, antes como “repórter” ficcional para depois se tornar um ficcionista repórter de seu tempo.

Neste livro de estréia de Dickens, o que chama atenção é a visão romanesca do autor. O romance é a arte da palavra que mais se aproxima da amplitude épica ( Lukács ). O escritor inglês aqui quis dar uma amplíssima visão da sociedade londrina. Uma visão majestosa, superior, de um semi-deus narrativo, cujos olhos tudo alcança e cuja percepção tudo comenta.

Uma leitura deliciosa, porque os relatos são fragmentos de um romance nunca escrito. São experimentações de um jovem narrador que se prepara para a empreitada de narrar o romance que viria com David Copperfield e Oliver Twist. É antes o narrador treinando a voz romanesca que a voz de um cronista medíocre. Por isso o livro encanta como um romance – o romance de Londres. Sem personagem principal e sem trama, mas recheado por personagens secundários, cenas cotidianas, observações da alma londrina.

Dickens discorre sobre viagens de carruagem, “ônibus” puxado a cavalo, a disputa oratória entre clérigos ou entre mocinhas que promovem obras beneficentes. O autor não quer pegar apenas os tipos londrinos, mas quer entender a alma da cidade: o lado ritualístico e caricatural do Parlamento, a classe média, os confrontos sociais, o amanhecer e o anoitecer da cidade, logradouros, pontes, lugares que se transformam, uma Londres que não existe mais. Aqui e ali, o jovem Dickens deixa escapar, ao lado de uma ironia feroz e um delicioso humor, a tristeza dos brechós. É reincidente, três ou quatro retratos tratam de casa de penhores ou de sebos. É o passado que insiste em permanecer no presente.

No universo dos sebos está o magistral texto “Reflexões em Monmouth Street”, onde as roupas, sapatos e outros artigos de vestuário são preenchidos por gente e tomam vida. É de um colorido tão moderno, animação vibrátil e forte concepção visual que nos leva a crer que, invertendo a equação, o cinema, embora arte dramática, deve sobejamente à literatura.

Sempre advoguei que a cidade merece ser tratada na ficção como um personagem, ou seja, é um elemento estético dentro da narrativa. Logo, segue as regras da verossimilhança que ocorre dentro das estruturas da obra e não em correspondência com a realidade exterior. Aqui gostaria de diferenciar o que parece ser uno: verossimilhança e verossimilitude. O que ocorre aqui em Retratos londrinos, de Dickens, é a “verossimilitude”, ou seja, um manejo não-ficcional da narrativa. São a crônica, o ensaio, a prosa jornalística. A verossimilhança tem o papel de criar o efeito do real. A “verossimilitude”, para mim, afasta-se um pouco da verossimilhança e passa a ser, numa linguagem não romanesca, mas científica, uma apreensão “verdadeira” do real. Mas esta apreensão do “real”, mesmo que não seja ficcionalizável, também implica uma transcodificação da realidade, já que passamos do código do empírico para o código da palavra.

Enfim, estamos diante de uma obra fascinante, que se pode ler modernamente como um romance fragmentado, um grande painel ou jogo de espelhos urbanos. No prefácio à primeira edição da obra, Dickens compara seu livro a um aeronauta que empreende seu primeiro vôo de balão. Fique seguro o leitor que, embora o veículo seja um misto de aventura e perigo, nada há a temer aqui, a não ser a altura vertiginosa da prosa do próprio Dickens.



imagem retirada da internet:

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Lições de voo, poema RCF




Os pássaros minam a imobilidade do azul,
sob a luz do sol que os encapa.
Vagueiam em sua rota no céu,
que não tem caminho nem trilha
pois todo voo logo anula a estrada.
O homem deveria deixar de ser
fazedor de caminhos,
aprender a não prover estrada,
sem pista que o eleve,
a apagar a rota tão logo desenhada,
a borrar o que foi feito,
sem rumo que o defina.


(do livro Memória dos porcos. 2012)

domingo, 8 de janeiro de 2017

Poema Manoel Caetano Bandeira de Mello (1918-2008)



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A vida é absurda e absurdo
é dela o sentimento que me assalta,
e quanto mais lhe alguma trama urdo
o seu entendimento mais me falta.
Ao rumor do mistério sempre surdo,
qual se um outro oceano de onda em alta
pairasse sobre a terra onde me aturdo
no plano de onde a mente nunca salta.
Ah, quanto desejava virlumbrar-te,
ó vida, que me prendes na cadeia
deste tempo que passa sem que o sinta;
quem dera, por algum segredo de arte,
ao menos deslindasse em tua teia
o fio dessa linha nunca extinta.