sábado, 21 de janeiro de 2017

A fuga do risco


 

Por um caminho eu vinha
carregando nos olhos a dúvida
que faz aparecer e desaparecer
a realidade.
 
Por um obséquio do círculo,
que não deixa nada escapar,
a dúvida em seu trapézio
colocava óculos de grau
em fatos que não eram míopes
nem ao menos de perto se turvam.
 
Quero fugir do risco
que separa, como nas estradas,
os que vão e os que vêm,
um risco de mão dupla
que pode se tornar
um acidente dos sentidos.
 
 
 
( do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Vício de concreto







Uma cidade só deixa de ser hipótese
quando sua cartografia
estiver na retina de quem a habita.
Esta cidade cresceu em mim
como invasor que fez de baldio um terreno.
Um jogo de damas
que, em vez de comer pedras,
o tabuleiro se enche de peças.
Esta cidade – ou qualquer outra –
é uma pele de tambor que se estica.
Uma cidade, depois de crescer pras bordas,
é uma planta que para uma folha
nascer outra tem de apodrecer.
Por isso essas plantas do centro histórico
estão cheias de fungo.
Trago no bolso o eletrocardiograma
da cidade que é seu mapa.
Possuo mais cidades
que meus olhos podem reter.
Dentro de mim, as cidades
me habitam com sua voracidade
de ruas de pensamento pecaminoso,
de becos escuros do medo,
de viadutos suspensos
sem começo que o alimente
sem fim que o devore.
Uma cidade não se resume a um sonho
de cavernas unidas
sob o fogo do sol.
Nela, cada apartamento
tem seu rio particular
que existe nas torneiras
assim como o campo de concentração
que os bicos de gás
sugerem quando não alimentam
as esperanças de mesa.
A cidade é macerada
até seu suco gástrico
corroer as estruturas
e os nervos
– que também são estruturas –
dos homens.








(do livro A máquina das mãos, Rio, 7Letras, 2009)







imagem retirada da internet: escher

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

O embrulho, conto RCF (Manual de Tortura)





Estou na esquina. Se tivesse de escolher um homem honesto para cumprir esta missão, eu me escolheria. Tenho trinta anos, dois ternos, um par de sapatos e minha honestidade. Meu pai não deixou nenhum bem ao morrer. Ele me dizia: Filho, minha herança será a honestidade. Com a honestidade, reconheço, não se compra apartamento ou carro novo, mas tem-se a consciência tranqüila e isso não tem preço. Ele repetia: Isso não tem preço.
Estou aqui há mais de três horas. Faz um calor dos diabos. O sol não dá bola pra honestidade. Tanto faz ser honesto ou ladrão, se sua da mesma maneira.
Não sei o rosto do homem que recolherá o pacote. O sigilo é alma da missão. Pode ser qualquer um: a velha que passa, a mocinha de jeans, o velho de boné, o militar de farda entre os civis, o rapaz da prancha de surf.
Aprendi a controlar os instintos. Quase não me movo. Tomo ordinariamente pouco líquido. Um homem, para cumprir a missão, não pode ser vencido pelas partes baixas do corpo. Posso passar um dia sem urinar. O mesmo acontece com a comida. Preciso de um mínimo para me manter em pé. Até o sono. Um homem que dorme muito não pode cumprir a missão.
Disciplinei meu corpo. Um homem honesto precisa disciplinar o corpo. Tenho um orgulho que não reparto com ninguém. Se contasse, diriam, mentiroso. Controlo meus sonhos. Tenho consciência de que sonho e os dirijo. Um homem honesto tem que controlar até mesmo o inconsciente.
Que me interessa se posso parecer suspeito? Os transeuntes não dão bola para um homem parado numa esquina. Só os desocupados ou os comerciantes da rua dão conta de mim. Os vendedores – as lojas hoje em dia andam às moscas – vêm até a entrada da loja. São homens de gravata e camisa branca de manga curta. Não usam paletó. Não se precisa de paletó para vender geladeira, aspirador de pó, batedeira ou televisão.
Sou um homem bem vestido numa esquina. Um homem bem vestido numa esquina não desperta suspeitas. Percebo alguns desocupados. O camelô grita bugigangas. O mendigo pede dinheiro no sinal. É um falso mendigo. Numa sociedade justa não haverá mendigos. Numa sociedade justa não haverá nem mesmo a necessidade de que um sujeito como eu se poste na esquina.
Percebo outras coisas: há leve trottoir de duas mocinhas. Quem passa não percebe nada. É dia, a calçada cheia, talvez nem mesmo os vendedores percebam o que percebo. A honestidade às vezes nos torna ingênuos. Mas a minha honestidade não é apenas inata. Aprendi a cultivá-la como quem exercita músculo. A honestidade é elástica e pode tornar-se flácida. Ou aumentar o tônus.
Dois malandros tentam me roubar o pacote. O primeiro me pergunta algo. Quê? Outro vem por trás. Nada é mais criança em nós que a atenção. Reajo, luto. O sujeito mais manhoso é o baixinho. É forte como o diabo. Ninguém me ajuda. Abre-se um círculo, grito, esperneio, o pacote se rasga. A multidão assiste impassível. Pode até ser que tenham algum sentimento de revolta ou de solidariedade com os bandidos.
Os bandidos hoje estão em todas as partes. Certa vez fui empenhar as jóias de minha mulher. A fila se desorganizava. Vinha o guarda, escolhia um elemento. Servia de exemplo. Preferia as mulheres e os idosos. Batia impiedosamente. Quando desmaiava, dois seguranças levavam o desordeiro para dentro da agência. O guarda se afastava. Esperava o próximo levante. De longe, já sabia quem seria a vítima. Estivesse ela ou não fora da fila. Ao chegar a minha vez, empurrei o pacote. Na primeira oportunidade, o caixa me mordeu a mão. Gritei. Por fim, com muita dificuldade – e com os dedos intatos – consegui retirar minha mão.
Talvez o público esperasse ver sangue e, aí então, reagiria de outra maneira. Em vez de indiferença, ficariam exaltados. Uns contra mim; outros, a meu favor. Quem sabe não se moveriam de seus lugares, mas torceriam e xingariam como no boxe ou nas rinhas de galo. Esta luta que eu e meus desafetos travamos mais parece coisa de mulher. Há empurra-empurra, dentadas, unhadas. Aos poucos, o público se entendia e vai procurar outra contenda ou acidente. Algo que os atice e tire da rotina. Algo com sangue, porque as brigas e acidentes sem sangue não monótonas como filme com pouco enredo.
Por fim, uma alma vem me auxiliar. O homem atarracado, meio calvo, pele seca e amarelada, olhos fundos e sem brilho, vestindo terno surrado, grita-lhes algo. Os bandidos fogem. O embrulho permanece intacto em seu interior. Meu medo é de que se rompesse. Teria forçosamente de saber o conteúdo. Um homem honesto não deve conhecer o conteúdo dos pacotes.
Passei a noite e a manhã inteiras na esquina. Uma hora qualquer dessas aparecerá o sujeito que receberá a encomenda. Um sujeito que faz abordagem deve saber a hora certa. A esquina é esta. Estou seguro. Um homem honesto não pode abandonar o posto. Poderia muito bem ir para casa.
Do outro lado da rua, sujeito baixo, gordo e suarento chega à esquina. Está bem vestido. Debaixo do braço, o pacote. Deve ser também homem honesto. Não nos olhamos. Não sinto sede nem fome. Muito menos sono. Fui preparado para ser homem honesto. Os camelôs começam a aparecer, as lojas abrem. Algumas pessoas bafejam o ar frio da manhã. As pernas sempre atrasadas para o trabalho.
Nas duas outras esquinas aparecem homens bem vestidos, com belas gravatas, sapatos impecáveis. Todos os dois carregam pacotes. Já não estou só. Não me atacarão. Nem quero supor o que traz o pacote. O pecado não está apenas em cometê-lo. Pensar é uma forma de transgredir. Se controlo o sono e os pesadelos, tenho de aprender a controlar os pensamentos.


(imagem retirada da internet: rodney smith)

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Goya, poema RCF










Há um instante
entre o desejo do homem
e a fúria de Deus
que a luz falsa dos quadros
passa a ser a única capaz
de iluminar o destino verdadeiro.








(Estrangeiro, 1997)

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

A imaginação dos bastardos, RCF













Como serão os anjos na velhice?
Aqui onde a queda é ascensão
não duvido da existência
do hálito de Deus.
Somos as raízes mortas
cheirando a ferro,
respirando o incenso do monóxido de carbono.
As putas recolhem entre as pernas
a espécie sutil de réptil
seco da Johntex:
o pânico feito de elástico, músculo e noite.


(do livro Eterno passageiro, Ed. Varanda, 2004)

imagem retirada da internet: ascensão e queda

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

A famélica viagem do homem, poema RCF




 


O gado caminha seu destino,
mastigando o caminho
como um aspirador de grama.

O gado e seu sacrifício,
esquartejado na mesa,
a famélica viagem do homem
no pasto e antipasto
da carne que devora carne.

O gado é uma poesia mansa
e gorda que passeia sua morte.
Quem disse que a poesia está
na leveza e nas plumas?
A poesia bovina marcha 
a paciência e derrota
encarceradas na amplidão
dos pastos das horas,
a ruminação da entrega
pacífica à vida
ao ar comprimido
– mas dito livre –
das pradarias da servidão.


(O difícil exercício das cinzas. 2014)

domingo, 15 de janeiro de 2017

O rosto-poema RCF





Na sombra, os rostos têm todas as feições
porque nela cabe a imaginação cuja cara é uma deusa sem rosto.

Por isso te vejo em todas as sombras –
                                    sombras do quarto ou da noite.

Por isso estás também
                                   em minha mente
                                   que vive em permanente sombra.



(do livro Estrangeiro, 7Letras, 1997)
imagem retirada da internet