sábado, 28 de janeiro de 2017

Lições, poema RCF



Existir é a prova dos nove.
Um dia me cansarei de ser
a nota dissonante
e abandonarei a lição de casa,
a lição da rua, a lição da vida,
oh, Deus,
todas as lições que nunca aprendi.
Lição se aprende com o corpo.
O corpo tem sua matéria,
sua disciplina, seu passar de ano.
A natureza ensina com galhos,
cada folha que cai é um ponto.
Por toda parte há as esquinas das vírgulas.
Tenho medo do abc das torrentes,
da aritmética das montanhas,
da História das minhas dores.
Minha dor é um fruto
que, amadurecido, não cai
e vai apodrecendo o galho,
o caule e a raiz tormentosa.


(do livro A máquina das mãos, 2009)

imagem retirada da internet: almada negreiros

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Os diabos, poema RCF








As cordas do redemoinho
sobem ao céu
tranças loucas
feito peão.

O lobo é o diabo do cordeiro
o capitão do seu sargento
o cachorro do gato
o inspetor do transgressor
na ciranda dos diabos e dos pobres
todos somos pobres diabos.

Os caboclos mascam fumo
sentam-se nas calçadas
das cidades do interior.
Os caboclos são pobres diabos.

No morse dos olhares
a cidade se move
e os bondes rangendo
os dentes
em São Francisco
ou Santa Tereza
são pobres diabos de ferro.

O diabo é que o rico
é diabo mas não é pobre.
E se tem um diabo
para o diabo rico
– que o pode fazer pobre diabo –
é a sua consciência,
seu espírito atormentado,
que empobrece o diabo rico
e o torna um pobre diabo.





(Estrangeiro, 1997)


imagem: sverrir thorolfsson

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

A lâmina do distúrbio, poema RCF


 



 

 
Que guerra é essa, em que se desconhece
o inimigo, nem quando virá, se é doce ou rude,
que rosto tem, se rosto há, onde se esconde,
quando nos afrontará e que armas usará,
se armas usa, ou se a luta outro método utilizará.

Que guerra é essa que se oferece à luz da pouca razão,
que me põe na arena de pluma da perda
e me escolhe a lâmina de distúrbio que me atravessará
sem que me destrua ou divida, embora seja vítima e trespassado
pela dor de existir sem existir os que em mim existiram
e em mim existirão e só com o tempo,
que tem navalha e laqueadura,
possa remediar o que remédio
algum cura, dá sossego ou faz viver.




(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)


quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Minha fraqueza é meu único talento, poema RCF


 Resultado de imagem para Robert Frank

 Sou apenas um homem
e um homem é muito pouco.
Quando era pequeno pensava
que a felicidade pertencia aos adultos.
Ou se desenvolvia como seios em moças
e pelos em rapazes.

Vivo nesta sombra de 40 graus.
Em mim, há sombras tão quentes
como me expor ao sol.
Que sombras projeto,
que grau de temperatura
têm minhas sombras?
O que me torna forte
é sucumbir às minhas fraquezas.
Sou uma sombra
do que projetei para minha vida:
sem profundidade, apenas silhueta,
sombra de sombra que me escurece
e me achata no chão ou muro,
onde me espicho
ou impedem a minha passagem.
Forma de existir apenas como espectro.
À noite, a sombra sai dos meus olhos
e se prega em volta de tudo:
em algum canto
desafinarei minha sorte.



(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)






terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Outubro, poema de Ronaldo Costa Fernandses




Odeio as geladeiras
que conservam corpos esquartejados;
as agendas que escrevem à mão o futuro.
Os cães daqui de casa latem para o sol
como os lobos para a lua.
Não são duas faces da mesma moeda,
mas as duas moedas da mesma face da vida.

Quero ser uno e dois,
aprender com a disciplina dos becos,
lá onde a saída é a entrada.
Quero ser estático e andarilho,
aprender com a disciplina dos rios
que se movem sem sair do lugar.



(do livro Eterno Passageiro, Ed. Varanda, Brasília, 2004)



imagem retirada da internet: francis bacon

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Um homem é muito pouco 24


      
Resultado de imagem para vivian maier

            A casa tem mais habitantes. 
            Está cheia de percevejos, baratas e outros insetos. 
            Nunca vi um percevejo. Se percevejo é bicho redondo de várias patas, já vi percevejo. A impressão que tenho é que estão dentro de mim. De noite me coço e não sei que família de bicho me ataca. Passei muito tempo inerte, paralisado, alimentando-me do sangue das sopas ralas. Não tenho os nervos abalados, não, tenho poucos nervos. E meus nervos estão cheios de percevejos.

            Eu contratara uma empregada que vinha aqui duas vezes por semana. D. Etiópia. Eu dizia pra ela que o nome dela era nome de país, ela ficava me olhando e talvez pensando que eu era meio gira. D. Etiópia é uma branca gorda e forte e não tem nada a ver com a Etiópia. Como a Itália, na Segunda Guerra Mundial, invadiu a Etiópia, numa ópera bufa, d. Etiópia podia muito bem ser filha de emigrante pobre italiano que deu o nome atravessado para a filha. Mas Etiópia não tinha nada de italiana, a não ser a gordura napolitana e a força mafiosa de suas mãos capaz de suspender um homem em cada mão. Depois não tive como pagar d. Etiópia e a casa foi sendo tomada pelos bichos. Toda minha louça está suja e engordurada na pia. As baratas se equilibram sobre o copo, outras sobre o cabo das panelas, outras até fizeram ninho no interior de uma lata aberta. As formigas passam por mim indiferentes e sem medo. As formigas não têm medo. Não há na fisiologia da formiga nenhuma glândula que excrete o medo. Se pudesse arrancava a minha glândula que secreta medo. Iria até o dentista e pediria ao dr. Máximo que me tirasse a glândula do medo e ele responderia que não era cirurgião, o que fazia era extrair dente e, além do mais, não queria se meter em minha vida, mas nunca tinha ouvido falar em extrair a tal glândula do medo. Dr. Máximo é tão velho que a glândula do medo dele deve ter secado. A loucura e a velhice devem entupir a glândula do medo. Só um sujeito com a idade de dr. Máximo ia até o puteiro de d. Sereja sem medo. E a razão era que a glândula do medo dele não excretava mais líquido nenhum.


(do livro Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010.)

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domingo, 22 de janeiro de 2017

O cativeiro da paixão



 

 

 

 

 

A paixão quando irrompe
salta madura como se o novilho
parisse o adulto de sua espécie.


Deseja a condenação do desejo,
a prisão perpétua do amor,
pois, sabe-se, a liberdade
é às vezes a real condenação
e a prisão liberta o que é cativo.


(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)