sábado, 18 de fevereiro de 2017

Um homem é muito pouco 5



Resultado de imagem para vivian maier



Deus criara o cio das fêmeas e deu olfato aos machos. Clemente teria que aprender com outros de sua espécie a arte da conquista que já soubera em outros tempos, mas que a beleza e classe social de Yolanda o transformavam em bicho que bufa para conquistar, outros ainda esperneiam – talvez espernear não fosse o método mais correto –, há ainda outros que se mutilam – método muito doloroso –, alguns cantam, andam em roda como índios, emitem cheiros nauseabundos para humanos, há aqueles que abrem asas se têm asas.
Mas Clemente não precisou reaprender nada, porque a lei da atração é mais forte e os dois iam subindo a escada e ela se desequilibrou, ele a amparou e ela caiu nos braços de Clemente e quando viram estavam se beijando, se tocando, tirando a roupa um do outro, dentro do quarto de duzentas escotilhas de Clemente que teve de fechar as persianas que caíram desajeitadas e brutas para fazer noite o dia no quarto a fim de que não apenas não os vissem de fora, mas a penumbra diminuísse o pudor e ela pudesse ser plenamente fêmea e ele plenamente macho.
Durante os dias seguintes o quarto estava presente em toda a casa. A cozinha passou a ser quarto, as escadas passaram a ser quarto, a sala passou a ser quarto, o banheiro passou a ser quarto. E qualquer superfície virou cama, cama dura, cama de madeira, cama de azulejo, cama de chão. Isso porque nunca a empregada fora tão dispensada e fora tanto ao cinema levar a filha de Yolanda, a menina Aninha que sofria de gritos e convulsões e que nunca mais teve gritos e convulsões e como era época de férias escolares até mesmo uma viagem para o interior de Minas Yolanda preparou para que a empregada fizesse de dama de companhia que dama de companhia não mais existia, mas Yolanda, com seu linguajar de outro tempo e de outra classe, deu à empregada termo novo e função outra a fim de que ela pudesse mudar a arquitetura da casa da Tijuca e transformasse tudo em quarto e cama a fim de serenar o furor da espécie quando mistura paixão e sexo ou faz sexo com paixão ou se apaixona e faz tanto sexo que parece que o corpo que é único pode se exaurir de tanto amar e definhar de tanto gozo e felicidade.
Embora Arlindo tenha mandado recado para que Clemente fosse falar com ele, nenhum dos dois procurou o outro. Clemente achava que não devia procurar ninguém e se alguém tinha que procurar o outro era o capitão Vaz quem havia de se explicar. Mas Clemente não pensava mais em Arlindo nem também em Matilde e, se por acaso a memória fizesse das suas e lhe trouxesse imagem do passado dos dois, ele logo a expulsava com balançar de cabeça e muxoxo como se fosse algo físico, mosca ou vira-latas que se põe a correr com grito e palma. Mas o que Clemente não sabia é que o mundo da Marinha não é oceano, mas pequena lagoa onde todos se encontram. E muito menos Clemente sabia que havia outro mundo, o chamado mundo da política, que também fazia parte da mesma lagoa da Marinha. Clemente nunca dera bola para a política e muito menos agora que andava por parques de diversão, pela Quinta da Boa Vista, levando Aninha ao zoológico, ao cinema para ver musicais e comédias, indo ao restaurante com Yolanda, até mesmo ao baile na casa de uma amiga, onde Clemente se mostrou competente com os pés da mesma maneira que o era com as mãos.
A gente conhece pouco as mãos, pensou Clemente. E muito menos a escuridão. Na escuridão há gosto de sangue na boca. Outras vozes vindas não se sabe de onde gritavam em seu ouvido e não podia distinguir quem mais o acusava, quem mais o destratava. A casa tinha cheiro de suor e de fim. O cheiro de fim ele conhecera várias vezes. Ao lado dele estava o fim. O fim já não falava. O fim fora tão barbaramente torturado que, mesmo com médico mantendo-o vivo para que não morresse, o fim não pôde suportar mais a dor. Ele, Clemente, não sabia de seus limites. Há homens que pensam que têm muito limite e quando se defrontam com o seu limite percebem que já é tarde.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Aula de física, poema RCF





O pêndulo é suspenso pela dúvida
que transforma em dois o que é um.
O pêndulo e seus braços
que marcham sem sair do lugar.
Seguro à dúvida,
não sou dois nem um,
marcho parado,
sem conta que me dê jeito,
sem física que me conforme.



(do livro Eterno Passageiro, Ed. Varanda, Brasília, 2004)




imagem retirada da internet: chagall

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Imolação do poeta




A ferrugem se alimenta
daquilo que, findo,
também será o seu fim.

A vela é outra espécie
de combustão que se
consome enquanto vive.
Ou se consumindo
é que tem luz e vida.

O fogo se nutre
do que queima,
mas o fogo goza
com o fato de imolar-se
e, na imolação,
ter vida curta
embora brilhante.

O poeta também se alimenta
daquilo que o consome
e brilha por um instante
com o que se imola
e, se mais tarde não o reconhecem,
tudo será resto ferruginoso,
monte inútil de cinza,
pouco de cera sem pavio.



(do livro A máquina das mãos, 2009)

imagem retirada da internet: frida khalo

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Frio de dentro, poema RCF



Não sei se o frio está fora
ou se esfrio o que carrego
sem peso ou medida
mas que tem por hábito
perfurar sem ter agulha.
Carrego o frio úmido e seco.
Úmido quando goteja outro tipo de dor
que não dói no corpo
e seco ao extirpar o que acalenta.
Vou me tomando de agasalho e xarope.
O primeiro esquenta
o corpo que abriga
um frio sem estação;
o segundo, contudo,
não tem prescrição,
nem terapia,
não cura nem alivia
o frio da queda
para o qual não há
agasalho de riso
ou xarope de gozo.

(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)



terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

O homem e sua estatura, poema RCF


Que fita medirá meu tamaninho
admirado nas salas de cinema?
O medo se flexiona apenas na primeira
e minha pessoa.

Que métrica medirá meus versos
ou que metro me dirá
a forma, volume e dimensão
do pensamento inexato, da existência imprecisa,
dos sentimentos dúbios e do gosto duvidoso pelas baladas antigas?

O homem tem várias estaturas por dia.
E, na morte, dois pesos e duas medidas.
Medirá o caixão
e os anos da vida.
O peso da vida que se livrou
e o peso da morte que o encarcerou.
Mas a verdadeira medida do homem está em seu bolso:
na medalha de São Jorge, na chave do escritório,
no telefone anotado no guardanapo, no cartão de negócios:
o bolso mede o homem
estatura de miudezas
a culpa, o remorso, a heroicidade anônima
escondida, escura e de pano.

Que diâmetro tenho eu das minhas dúvidas?


(do livro Estrangeiro, Ed. 7Letras, Rio, 1997)

imagem retirada da internet: igorkmarques

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Queimada, poema RCF



A queimada
coloca a terra de cabeça
para baixo
deixando à mostra as raízes
retorcidas em seu gozo de fogo.

O fogo vai arando
               com sua foice de línguas,
               foice de lâmina mole
               mais cortante que fio da navalha.

O campo todo é plantação
de navalhas.
Estou só, perdidamente só,
olhos incandescidos,
na visão fervente do inferno na terra.

Olha bem, são as chamas sentinelas
que, esgalgadas,
vão se esmiuçando
na tropa vermelha
da terra arada
            pelos bois
           de morte e fúria
           que são a combustão
           do homem desesperado.

Tudo se amiúda
e cobrem a terra
a coivara
e as sementinhas
negras do nada
das cinzas.
Há silêncio
             e o crepitar atrasado
             do borralho
– é a terra que se asfixia
dos restos de si mesma
com a capa de chuva negra
que desveste
               quando deveria cobrir.




(do livro Terratreme, Fundação Cultural de Brasília, 1998)

imagem retirada da internet: frans krajcberg

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Raízes expostas, poema RCF





Matemática sem números,
álgebra sem cálculos,
tormento sem vento,
apenas o lamento
do vento no torno do dia.

Essa paralisia, voz que não escapa,
essa distonia, mão que não aperta,
é o fruto da terra crescendo pra dentro
como um tubérculo que afunda
no mar de terra.

Raízes expostas - são feridas da terra
no tecido seco depois das queimadas.
Secos também são os olhos camponeses
onde nada viceja.

Um dia o homem
é o gafanhoto e sua praga,
no outro é o semeador
que aplaca a chaga.




(do livro Terratreme, Fundação Cultural de Brasília, 1998)

imagem retirada da internet: diogo rivera