sábado, 4 de março de 2017

Queda, poema RCF




Por que me perturba tanto
o alvoroço da imaginação
que, pombo sem asas, farfalha
dentro da gaiola improvável?
Pés imponderáveis navegam a ponte
entre a obsessão mole e a realidade dura.
O que existe entre uma e outra
é o único e obsessivo dente
que mastiga a carne pouca da razão,
suspensa por um ó de eletricidade e queda.

Todo ser é viagem incriada.
Sei que nenhum escape
é mais brutal que a realidade
e que não se pode arquivar a vida.

No livro-tombo,
inexatidão e inconsistência,
registro do pó,
sou apenas uma companhia limitada
que não se firma.

(de Eterno passageiro, Ed. Varanda, Brasília, 2004)
 
imagem retirada da internet: francis bacon

sexta-feira, 3 de março de 2017

Ronaldo Cagiano sobre O Viúvo no Rascunho

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Ronaldo Cagiano
A resistência a uma realidade claustrofóbica e delineada por uma solidão nostálgica constitui o pano de fundo do novo livro de Ronaldo Costa Fernandes, O viúvo, quinto romance desse escritor premiado, autor de poesia, contos e novelas, natural de São Luís (MA) e radicado em Brasília. O personagem central da obra é um professor universitário, sem nome e sem direção, recolhido em sua depressão e preso às suas lembranças desde a morte da mulher, Lídia, consumida por um câncer. No confronto entre o mundo plausível e o imaginário, ele tenta aliviar suas perdas e tristezas, num sucessivo acerto de contas com a vida que, na sua concepção, foi severa demais, privando-o de seu maior patrimônio: o amor.
A tentativa de interdição de sua melancolia esbarra na impossibilidade psicológica de fuga desse universo, porque a memória traz à tona o fantasma de Lídia reproduzido nos mínimos detalhes da casa, nos gestos cotidianos, na inviabilidade da vida lá fora, na presença da empregada que restou como única herança tangível, e com quem tenta um diálogo quase surdo, deprimente, incapaz de levá-lo ao apaziguamento. Em todos os momentos o que se constata é a ressonância de suas neuroses e delírios, que vão compondo um labirinto de angústias e tornando mais agressiva e mórbida a realidade. O desespero em que vive empana sua lucidez e decreta uma dor incurável, impondo um sem-rumo em tudo.
A vida exterior do personagem é a extensão de sua paranóia. Não conseguindo se desvencilhar de seus fantasmas domésticos, a vida prática emperra, não há lugar para novos contatos, seja na universidade ou em qualquer ambiente físico, mesmo quando surge Fernanda, aluna com quem inicia uma relação intelectual, que poderia funcionar como um escape ou sopro de renovação, mas logo faz ressurgir um antigo sentimento de culpa por uma traição à mulher. Isso porque tudo reverbera o inferno da sua casa, dos objetos, cheiros, vozes, etc., como projeção de seu cárcere interior: um homem perdido em seu labirinto existencial, sem um fio de Ariadne que o consiga trazer de volta à lucidez, à poesia, a respirar e reverter os vazios que o circundam.
A narrativa descontínua, que alterna imagens, metáforas e citações, assimilada por uma linguagem intimista, requintada e atraente, acaba por suscitar no leitor tamanho envolvimento, que o torna cúmplice das dores e tormentas do protagonista enclausurado, que não faz outra coisa senão decretar aos poucos seu indesviável destino, o derradeiro declínio pessoal. Ao deslindar seus pensamentos, num ritmo fragmentário, caótico e provocante, a narrativa nos remete aos bons momentos de Édouard Dujardin, em A canção dos loureiros, obra que inaugurou o monólogo interior e o fluxo de consciência, depois adotados por Joyce, em Ulisses.
O romance de Ronaldo Costa Fernandes, traz no bojo da linguagem o exorcismo dos fantasmas de um espírito conturbado pelas contingências da vida, sem o apelo escatológico das costumeiras tragédias, mas fiel ao crônico sofrimento humano, dentro daquela perspectiva que Marinetti anteviu na escritura dos futuristas, que consiste na "reprodução na obra de arte da simultaneidade dos estados da alma". Como atesta Ligia Cademartori, na apresentação da obra, este livro também homenageia a linguagem, que encontrou na forma o abrigo para a expressão de um desassossego.

Prisioneiro do medo
Há uma similaridade de atmosferas nos romances de Dujardin e Costa Fernandes. Enquanto naquele, o personagem se apresenta nas primeiras linhas, extravasando seu pensamento em meio à desordem de seu ambiente para declarar depois o cortejo à mulher amada ("sob o caos das aparências entre as durações e os lugares, na ilusão das coisas que se engendram e que se concebem, um entre outros, um como outros, distinto dos outros, semelhante aos outros, um mesmo e um a mais, do infinito de possíveis existências, surjo..."), o professor delirante, penumbrista e agônico de O viúvo despeja um fluxo hemorrágico e disparatado de reflexões, a fratura da própria consciência que emana de sua introspecção para denunciar a estupidez da vida negada a partir do desaparecimento da esposa ("O espanto é a palavra que mais gosto, ou melhor, o espanto é a matéria do incômodo e do meu descobrimento... O pasmo é que me faz existir, o pasmo me dá sentido e conhecimento da realidade..." ou "Eu mesmo me sinto inconstruído"). Sintoma do transbordamento do eu e da instauração do ceticismo como profissão de fé, em contraponto ao protagonista de Dujardin, que simboliza a esperança. Ambos, porém, se utilizaram do discurso confessional para dar fluência ao mesmo caudal de inquietações afetivas.
Com ausência consumada de Lídia, surge o contraponto da empregada Benedita, estabelecendo um elo de ligação com o passado ou um pretexto para perenizar a imagem da finada, e que se interpõe como uma espécie de trampolim para os mergulhos delirantes do professor. Ela consegue esticar a vida desse protagonista que já declarou sua falência espiritual, psicológica e amorosa e não vê mais saídas. Dividindo com ela e o jardineiro um espaço que era da mulher, ambos contribuem para impedir sua libertação daquele espectro quase kafkiano, de autocondenação e mutilações sucessivas. No fundo são anteparos inconscientes, que o impedem de enfrentar a realidade, porque ele prefere retroalimentar suas neuras a enfrentar os seus sonhos, o mundo novo depois de Lídia, pois ainda é prisioneiro do "medo que o maltrata e corrói".
O viúvo é um romance candente, profundamente humano e crítico, uma obra-prima da prosa contemporânea brasileira, verdadeira tessitura que toca em valores tão exíguos na sociedade pós-moderna, utilitarista e suscetível a tantos fetiches, que tem levado o homem a ilhar-se, tanto socialmente quanto de si mesmo. Um livro para ser celebrado, sobretudo quando vivemos uma crise generalizada de valores em nosso país (moral, ética, estética, criativa e social), porque toca em feridas e acende um novo farol sob o terrível pântano em que estamos embebidos e lança um olhar ao mesmo tempo cirúrgico e poético sobre a nossa condição.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Sou animal pacífico, poema RCF


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Sou animal pacífico
mas não doméstico,
selvagem e rústico,
mas sem garras e peçonha.
Só a mim me causo dano,
só a mim rujo, ladro,
arranho, avanço e bico.

Não há necessidade de predador
para quem vive acossado.
Não tenho habitat.
Sou um bicho de pena,
um bicho de culpa,
um bicho de desencanto,
não preciso que me cacem
já me basto como caçador.


(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)




quarta-feira, 1 de março de 2017

Noturno, poema RCF





Os quadros telecinam-se,
os sofás divãneiam-se,
as janelas agitam asas de dobradiça,
o cinema de sombras do abajur
e o movimento dos objetos em suas caixas,
em surdina,
no esconderijo dos estojos,
arregimentam-se em cólicas.

( do livro Andarilho, 2000)


imagem retirada da internet: van gogh

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Bola de gude, poema RCF



O jogo de bola de gude
com sua constelação de estrelas redondas,
cada buraco negro
era uma galáxia
que engolia
sob o sequestro da gravidade
a estrela que tinha entre os dedos.
O menino mirava o jogo
e a vida era o jogo.
Difícil era acertar
o rumo da vida,
que é outro tipo de estrela redonda,
pois se recusa a entrar
nas casas que a esperam.
E o que resta é ficar
trombando, bola com bola,
casa ou búlica,
e o eterno choque de cabeças que rolam.

(ilustração: "Bola de meia, bola de gude", de Gabriel Ferreira, 2007)

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

O homem olha o Mondego, poema RCF

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Alguns rios me banham: Bacanga e Anil.
Meu corpo está cheio de rios:
minhas veias são rios vermelhos
que desembocam no mar do meu coração.
Os rios se instalam em mim
e em mim me danam, lanhando
por dentro meu corpo, linfáticos e
cheio de incertezas, onde habitam
passado e história, dor e escuridão.
Há rios em mim que desconheço
sua foz, sua embocadura,
de onde nascem, para onde vão.
O pior rio é o da mente
que flui sem margens,
desordenado e com várias águas,
águas desiguais e turvas.
Há rios em mim que nunca supus ter.
Meu pensamento é um rio seco
mas pleno de correnteza e afogamento.




(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Ciúme, poema RCF



Os relógios de goma arábica,
os telefones sem bocal,
os risos ao longe – de que falariam eles?

                                  os papéis amassados das dúvidas,
                                  o silêncio das escutas.



(Andarilho, 2000)