sábado, 25 de março de 2017

Fleuma do sangue, poema RCF


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Onde estará o pensamento do sangue,
o temperamento da carne, a alegria dos pelos,

a melancolia dos vegetais – em mim
ou na capacidade das coisas de existir com humores?

 
 
(Eterno passageiro, Brasília: Ed. Varanda, 2004)
 
 

sexta-feira, 24 de março de 2017

Poema Francisco Costa Fernandes Sobrinho (1914-1960), meu pai




Veritas


 Se fosse pura, límpida a amizade
que revelaste um dia com teu beijo;
se te não fora simples leviandade,
porém virtude excelsa que desejo;

se, não da carne vil que em ti rebrade,
mas de peito pudico num lampejo,
partira a furibunda tempestade
dos arroubos de amor que ainda revejo;

não trocarias tão irrefletida
a paz do nosso amor, o ninho quente
pelos prazeres fúteis desta vida;

não furtarias a meu lábio ardente
a morna taça, em parte já bebida,
do amor fingido que teu peito sente.



São Luís, 1935

quinta-feira, 23 de março de 2017

Ficções, Jorge Luis Borges



                Em todo livro há uma longa peregrinação, que pode ser física, mental, metafísica, social, mundana ou psicológica. Os romances de formação geralmente levam os personagens (lembro Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister, de Goethe) para uma via-crúcis de lugares e experiências a fim de formar a personalidade adulta do protagonista que fornece nome ao livro. Em O ateneu, de Raul Pompéia, a experiência se dá intramuros e, embora o espaço romancesco esteja sitiado, a amplitude de ações e experiências empurra o personagem para uma transformação, de euforia à desilusão, da vida como infante ao desencanto da juventude madura. 

                Em Borges, essa peregrinação corresponde à busca do conhecimento. Uma das fascinações do escritor argentino, em Ficções, mostra o autor rendido às tramas do policial. Rudemente apresentado, o romance policial – de Simenon e Agatha Christie – busca revelar as motivações e modus operandi de um crime investigado. Diferentemente do romance noir americano, mais violento, o romance de Simenon, entre outros, é de cunho mental e fruto mais da elaboração que lembra a resolução de um quebra-cabeça. Borges utiliza muitas vezes o crime, físico. Há homicídios e mortes, espionagem e traição, espiões, heróis e pusilânimes, mas rigorosamente Borges coloca toda a trama e o personagem para perseguir um enigma e uma combinação de fatores intelectuais e livrescos, em que menos importa um cadáver que uma longa descrição do método erudito de desvendar um mistério por intermédio da hermenêutica de um livro (entre outros, “El jardín de senderos que se bifurcan”).

                O labirinto de Borges também é um labirinto linguístico. Não há jogo de palavras, mas um jogo em que faltam letras em livros a serem decifrados. O leitor está diante de uma construção hiperbólica em que o texto é construído e desconstruído diante dos seus olhos, levando-o a acompanhar o raciocínio do narrador em sua viagem cognoscitiva. “El libro circular es Dios”, escreve Borges em “La loteria en Babilonia”. Nessa busca pelo conhecimento, o leitor acaba envolvido num emaranhado de citações eruditas e de recorrências a textos duvidosos, outros de autoria reconhecida, mas ambos desembocam no mais volumoso torvelinho que nos confunde e nos carrega até um nível de uma compreensão da fragilidade humana ou “as complexidades del mal y del infortunio”, no dizer do narrador de “Tres versiones de Judas”.

                Livros, labirintos, jogo de espelhos, erudição, certo orientalismo (o orientalismo de Borges não é exotismo e/ou não está a serviço de uma mística espiritual como os livros de Herman Hesse, por exemplo; em Borges de Ficções, o que existe é mais um instrumento que o autor se vale para buscar o conhecimento que certamente será bem diferente da premissa inicial), reescritura da Bíblia e de certos livros, judaísmo, mundos paralelos, personagens saxões e nórdicos. Estes últimos nos remetem a certo distanciamento de Borges em relação ao narrado. O presente é a condenação: em “El fin”, o narrador acusa: “... a viver en el presente como los animales”. Da mesma maneira em que data a ação transcorrida em grande parte de seus contos em épocas remotas, distantes do presente, seja o século XIX, seja a Babilonia, seja o início do século em que viveu, Borges busca uma suspensão temporal, quase insinuando uma atemporalidade (ainda que situe em situações concretas como, por exemplo, 1939, para um conto escrito em 1943, a morte por fuzilamento em que o condenado reescreve de memória uma tradução que duraria um ano, cujo título é “El milagro secreto”).

                Outra forma de enxergar a busca do conhecimento em Ficções é observar como Borges maneja a erudição, o mistério, a proposição do enigma livresco e cultural, a criação – também literária – de novos mundos escondidos em enciclopédias, que são em última análise, a coleta de todo o possível conhecimento. No conto “La secta del Fénix”, o narrador apresenta a seita que cultua o Segredo (“el secreto”). Ao final, depois de apontar que os seguidores mais novos desconfiam de que não haja nenhum segredo a ser revelado, Borges afirma que “alguien no ha vacilado en afirmar que ya es instintivo”. Borges então iguala o processo humano, desnudo do uso discriminatório da razão, o conhecimento feito apenas pela via erudita e mental, com a hipótese de que se pode chegar ao Enigma e ao Segredo por intermédio da sensibilidade e do instinto humanos.  (RCF)

quarta-feira, 22 de março de 2017

O ciclope eletrônico: o farol, poema RCF




O ciclope de alvenaria brilha seu único olho
para as naves que são pescadas
pela luz em seu flerte com o mar.

O ciclope não tem Ninguém que o perturbe,
nada que lhe fure o olho da odisseia
e o desembriague da cabeça que roda.

O ciclope eletrônico
criou outros olhos de vidro
a fim de os navios
com seu corpo de casco
não navegar sobre pedras
que não é caminho de navios.

Há tempos que meus olhos de vidro,
sem rumo e escuros, nada enxergam
na noite dos dias e temo a lâmina
das pedras escondidas pela vida
que querem a todo instante cortar
meu casco e criar tumba salgada no cotidiano
que não tem um único olho a me orientar.


(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)

terça-feira, 21 de março de 2017

Plástica, poema RCF


can dagarslani

A única plástica que me serve
não é na face, mas nas lágrimas.
Quero um rosto sem lágrimas, doutor.
Retirar a glândula que produz
a lágrima dos mortos.
Meus mortos surgem no trânsito,
no banho, no banco, no trabalho.
Os mortos não deviam vir ao trabalho.
Choraria em seco.
Um rosto seco, um rosto plástico,
um rosto cirúrgico.
E sem saber por que não podem
sair do cárcere seco em que os pus,
renasceriam na caixa imaginária,
que é a memória,
em outra forma que não fosse líquida.




(Memória dos porcos, Rio: 7Letras, 2012)

segunda-feira, 20 de março de 2017

O viúvo, capítulo 16


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            Há muito que desconheço a relação entre minha voz e o que ela diz. Às vezes acredito que falo coisas que são independentes. Que as palavras já estão dentro de mim, que basta abrir a boca para que elas saiam, sem esforço. As palavras seriam independentes. Um apêndice, um órgão autônomo. Ou uma digestão malfeita. Ou ainda algo que é secretado como um hormônio que a mente não controla.

            Sempre me pautei pelo bom senso. O bom senso é a norma do viver, nem gordo nem magro, nem alto nem baixo. O bom senso é claro seria o mediano e o mediano é o medíocre. Minhas palavras são medíocres como o branco. Minhas palavras enfim são brancas. Mas me pagam por elas. Pelas palavras ditas. Poucas vezes ganhei pela palavra impressa.

            A palavra escrita também é um hormônio. Sinto como ela se espalha pelo cérebro como um remédio que anestesia os circuitos nervosos. A palavra escrita tem circuitos curtos.

            Guardo comigo, como quem guarda uma tara, a origem das minhas palavras. As pessoas se enfadam se você fala de si mesmo. As pessoas se enfadam muito mais se você fala que suas palavras estão no mesmo campo da serotonina, da dopamina ou da nora-adrenalina.

            Às vezes minha palavra sofre de carência. De menos. De não secreção. Fica seca, não há líquido, não há circuito nervoso, muito menos curto. Então me afundo numa ausência que lembra braço amputado, metade do pulmão arrancado, próstata extirpada, fratura craniana.

            A palavra, a minha palavra, fica assim fraturada. Por dias não há conserto, nada que a engesse, amoleça, costure, opere ou extirpe. Minha palavra então sofre de desvios, de trânsito, de incômodo por não saber onde se encontra. Outros órgãos falam. As mãos, que são falastronas por natureza. A cabeça, que gosta de sublinhar e pontuar. O corpo mesmo, amplo, musculoso, de voz grave.

            Nasci para repetir o pensamento alheio. Queria ter meu próprio pensamento, mas o pensamento dos outros é mais forte.

            Com o pensamento dos outros consigo comer, vestir e ter uma casa para morar. É forte o pensamento dos outros.

           

também em e-book


( O viúvo. Brasília: LGE, 2005)


domingo, 19 de março de 2017

Cantiga de ninar, poema RCF






Uma cantiga de ninar
me tira o sono.
O coração que tu me deste
era vidro e se quebrou,
o amor que tu me tinhas
era circular igual anel
e não me deixava fuga
como ciranda de pesadelo.
Terezinha de Jesus
me deu vários tombos
e ainda pago pensão.
Lá na minha infância havia um bosque,
onde o anjo se escondeu
para não ser guarda de mim.
Todos os bois de cara preta
mugem no matadouro da noite.
O boi não precisa me pegar,
antes dele os anos
adormeceram meus sonhos
e me fizeram a careta do malogro.


(do livro Memória dos porcos, 2012)


(foto:vivan maier)

Capítulo 11 de O viúvo

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Meus olhos agora são de papel. Gosto da idéia de pensar em meus olhos como papel. Passei a vida inteira lendo, não tenho nada contra o cristalino, a retina, veias e músculos se transformarem em papel. Há realidade bastante no barco pregado na parede. É um Portugal de papel. O norte de Portugal transmuda-se nas janelas absurdas de Magritte. Fixo meus olhos ali. Meus olhos não navegam, mas enchem-se de maresia. Meu alheamento também tem cheiro – de mim.

            Ali está o porto, precário, diminuto, de pedra, antigo. É um pequeno píer de uma vila. Lá no fundo estão os casarios gregos da vila portuguesa. Não há gente. O barco mesmo posa sua fisionomia de madeira para a foto.

            O casario é branco e sobe encostas. Cada casa é um degrau branco. E as janelinhas, mais parecem escotilhas em terra seca, nos miram abertas ao sol quente e atlântico. Há uma secura ancestral na foto, embora em primeiro plano esteja o mar. Há também enorme doçura, uma doçura tão compacta e palatável que a sinto nos lábios, na língua mesma seca. E não o salgado da água que vejo. Só a maresia cheira; o casario adoça minha boca aberta.

A mesa é meu cais. Em volta dela, discutem. Por que discutem um processo se pescadores cuidam de separar os peixes, abrir-lhes o bucho, destripá-los, escamá-los? onde o processo cabe neste mundo de guelras, barbatanas e água salgada? O processo não é náutico, mas é salgado. Nele cabem as escamas, nele estão as escamas que devem ser separadas do corpo do bicho de papel. Como o barco da foto, que parece balançar ao sabor das minúsculas ondulações da água, oscilo sob uma onda sonora.

            A foto está um pouco amarelada. Eu mesmo também perco a cor. Queria um espelho. Meu rosto decomposto e azul como o rosto do meu pai. Logo, contudo uma paz vilareja volta a me invadir. Receio que a paz, como a luz fugitiva, também escape de mim. Não terei mãos, nada que possa conter, segurar, prender, colocar em caixa, a paz que se escama.

            Uma inexistente onda, saída da foto, me balança. Agora não tenho dúvida: estou no porto de pedra e não em volta da mesa. Chego a sentir enjôo, a sensação ondulatória, o piso mole das águas ou o piso desequilibrado das embarcações.

            Aquele Portugal de papel me saca da mesa de modo arrebatador. O único elemento agora da foto de casarios brancos e do cais antigo sou eu. O que se fixa na minha mente não é a foto, mas a reunião que passa a ser apenas uma fotografia. Estão todos imobilizados. O barulho que ouço não são as vozes deles. É o barulho do mar. O rumor grande e atlântico do mar aberto.

(disponível também em e-book)