sábado, 1 de abril de 2017

Afogado, poema RCF



O mar, em sua ressaca,
vive em eterno vômito.
Cheio de algas e fantasia
devolve o que não lhe pertence.

E guarda em si o peixe
e o estômago embrulhado
e não devolve o navio naufragado
porque as embarcações
são árvores de ferro
que a tragédia plantou.
Em seus intestinos
de água em ebulição
só o náufrago ele rejeita
porque o náufrago
é uma outra caricatura mórbida
de um peixe
sem barbatana
de um peixe
sem guelra
o afogado é um corpo estranho
o afogado é, mesmo morto,
a presença da terra
na digestão salgada.

Tudo cabe no estômago
de água do oceano,
mas feroz e decidido
se recusa a digerir
o que é da terra
e não pertence ao desvario
piscoso das marés.

Assim também devolvo
o afogado que não pertence
à aquosa e uterina imaginação
de ânfora plena de liquens
e aflições de salitre
nada que não faça parte
do inconsciente marítimo
dos meus prazeres submersos.

 
 
(poema de A máquina das mãos, Rio de Janeiro: 7Letras, 2009)
 
 
imagem retirada da internet: trollada

sexta-feira, 31 de março de 2017

Baudrillard numa visita a Brasília, poema RCF



O filósofo, baixote,
rude, de mãos calosas de camponês,
não tinha medo de Vertigem Woof.
A conversa circular como o lago.

Depois o filósofo fumou
a balada existencial dos Gauloises.
Um filósofo deve queimar ideias.
O lago não respondia à superioridade francesa,
envolvido com seu solilóquio
de algemas e algas.


imagem retirada da internet: baudrillard

quinta-feira, 30 de março de 2017

Realidade, poema RCF



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A realidade nega consórcio e condomínio:
cada um é dono do seu desatino.
A realidade tem lá seu espelho
de água que narciso algum
ousa mirar com medo de não se ver.

A realidade só não acusa o inconsciente,
que é outra realidade dentro da realidade,
lá onde há algaravia desenfreada,
mundo de sombras mesmo ao meio-dia,
refúgio de cães danados, cela dos desesperados,
desejos da loucura, a razão sem razão.

A realidade tem realidade
que a própria realidade desconhece.

O sentimento sentadinho na cadeira dos réus.



(do livro A máquina das mãos, Rio de Janeiro: 7Letras, 2009)



O apetite dos mortos, novo romance RCF





(trecho do romance O apetite dos mortos, em que se conta a suspeita de o escritor Bernardo Elias ter assassinado, nos anos 40, a professora Miss Hogarth, norte-americana que, junto com a atriz hollywoodiana Joan Lowell, foi morar em Goiânia)



Quem dera aula para meu pai em sua cidade foi um negro da Martinica. O homem, franzino, de pulmões fracos, viera trabalhar para o Lloyd e cuidava da carga e descarga de mercadorias e mantimentos no porto. Estudara em Lyon, tinha um francês sem sotaque martinicano, fumava cigarrilha, vestia-se como se estivesse na Europa, com roupas escuras e pesadas. Já o inglês era uma língua que meu pai tentou aprender sozinho e, embora fosse um excelente autodidata, não avançara muito além das primeiras lições. Por isso, a conversa entre ele e miss Evelyn Hogarth era toda em português. Miss Hogarth viera para a escola das freiras para dar aula de inglês. Era uma americana de Ohio que se mudara para Hollywood a fim de ser atriz. Depois de perambular por espetáculos de revista musical, pontas em filmes menores, desistiu do palco e veio atrás de Joan Lowell, que se mudou para Anápolis. Miss Hogarth era baixa, roliça, de cabelos negros e olhos azuis, a pele branquíssima, chamava meu pai de Mrs. Dick Brown e meu pai não entendia o porquê do apelido, sorria sem jeito, avaliava a roupa apertada de Miss Hogarth e, antes de saber que ela fora atriz, imaginava que miss Hogarth provinha de alguma congregação católica que abandonara depois do noviciado.
Não era a primeira nem seria a última americana a se mudar para a cidade goiana. Mary Martin, atriz de Chaplin, trabalhou com ele em A busca do ouro, comprou uma fazenda no interior e, embora não criasse nenhum animal, e muito menos plantasse uma couve, se considerava uma fazendeira. Não abandonou Hollywood. Pegava um avião no parco aeroporto de Goiânia, ia para o Rio, e trinta e sete horas depois, com escala em Manaus, no Panamá e Miami, estava em Nova York para se apresentar na Broadway. Acabada a temporada de show, retornava para o centro-oeste do país, na região que ela chamava de Promissed Land. Miss Hogarth perguntou para o meu pai, depois da aula, se ele podia ver uns papéis sobre a compra de um terreno.
– Tenho medo de que o dono não seja o dono da terra e que ele esteja vendendo o que já vendeu para outro.
E depois:
– O senhor me ajuda?
Meu pai levou para casa o contrato e não descobriu nada de anormal. De qualquer maneira no dia seguinte foi até a Junta Comercial perguntar sobre a idoneidade do proprietário do terreno, dono de uma grande loja comercial, passou no tabelião para conferir os papéis, e foi até a Prefeitura para ver se a área era pública. Muito se vendia na cidade nova, principalmente para os forasteiros, terrenos destinados aos órgãos de governo, praças, indústrias e comércios.
Como tudo para os americanos, o paraíso se referia também a dólar. Mary Martin mesmo dissera que pagava oitenta centavos de impostos para cada dólar que ganhava nos EUA. Aqui, não. Joan Lowell também gostava de dólar. Pegou milhares deles com Gary Grant para comprar terras em Goiás e nunca prestou contas ao ator. Meu pai foi visitar Joana com miss Hogarth. Sentaram no alpendre da fazenda, Joana serviu limonada, conversaram sobre Hollywood, meu pai sempre desconfiado de que as duas planejavam algum golpe. Naquela época ainda não se sabia que Joana ficara com o dinheiro de Gary Grant e miss Hogarth não fizera nada que a desabonasse, senão os vestidos justos e os shorts que usava em casa como na vez que meu pai foi lá devolver o contrato e tranquilizar a moça.
A varanda é o que salvava da canícula da cidade. Sentado na cadeira de vime na varanda do hotel, tomando cerveja, meu pai pensava que talvez seu tempo ali estivesse se esgotando. Bernardo chegou, puxou a cadeira, sentou-se.
– Notícias da guerra – e aproximou o jornal sobre a mesa a fim de que meu pai o alcançasse.
– Às vezes ouço o discurso de Hitler pela rádio.
– O senhor então sabe alemão.
– Não – respondeu meu pai pegando um cigarro. – Ouço o timbre, a modulação da voz, o tom, o diapasão.
O bigode de Bernardo, vasto, grosso, do século passado, ficou mais branco com a espuma da cerveja.
– O senhor me diga, seu Bernardo, o senhor conhece a professora miss Hogarth, do colégio das freiras?
– A bonitinha, a lourinha americana?
– Essa mesmo.
– Sei muito pouco – disse Bernardo Elias, alisando o paletó jaquetão de linho branco.
– O que faz uma americana vir pra cá e por que a madre superiora aprovou a doidinha dançarina dos filmes americanos para ser professora de inglês para as moças da sociedade?
– Quem dava aula de inglês no colégio era a Mirtinha, filha do Mafra, dono da madeireira. Ela foi estudar nos Estados Unidos, voltou e o colégio aproveitou a moça para dar aulas. Mas depois a Mirtinha se casou com um filho de senador e foi morar no Rio de Janeiro. Nessa época miss Hogarth já tinha ficado viúva, se assim a gente pode dizer, do rapaz que veio com ela de Hollywood. Muitos falam que ela veio para o Brasil porque era católica, tinha vocação de religiosa e queria renunciar ao mundo, mas a verdade é que veio acompanhando um rapaz americano, John Meyer, piloto de teco-teco. O avião do rapaz se espatifou lá pra os lados de Minas, ela ficou no Brasil, as freiras não tinham outra pessoa para dar aula de inglês.
– A moça agora é amiga do meu irmão.
– O senhor me desculpe, doutor, mas seu irmão gosta de mulher complicada.
– Coitado, justiça seja feita, desta vez ele não procurou confusão. Miss Hogarth é que o descobriu. Ela diz que os brasileiros são brutos, não sabem inglês e não têm modos para comer. Ela sente falta de teatro. Diz que mais importante que o cinema – para falar a verdade parece que a moça detesta cinema – é o teatro.  O teatro para ela é a arte mais importante. Ela diz que a ópera, por exemplo, que é um teatro cantado, tem música, pintura, arquitetura e literatura, é a expressão maior da arte.
– Uma cidade que está se construindo tem muitos operários. Ela não entende a arte do operariado.
– O senhor, pelo visto, dr. Bernardo, tem suas ideias soviéticas.
– Leia Gorki, doutor. Toda a sabedoria do mundo está lá nas páginas do russo.
– Ouvi falar que o senhor é a favor de que os pais não criem seus filhos. Que a criação é uma espécie de perpetuar a propriedade privada.
 – Sou a favor de o Estado criar os filhos. O Estado sabe melhor do que os pais educar crianças que no futuro, como adultos, pensem comunitariamente e não ajam com egoísmo, sentimentalismos e se aferrem a bens pessoais ou heranças ou qualquer apego a coisas materiais que não sirvam para criar o bem coletivo.



(e-book, Amazon)

quarta-feira, 29 de março de 2017

Um homem é muito pouco 16


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Além disso, acreditava que os cavalos de madeira de Horácio eram originais, alguns verdadeiras esculturas realistas, outros, disformes, vibrantes obras de arte impressionistas, abstratas e até mesmo surreais. A série dos horses de Horácio em que ele esculpira os cavalos chineses da dinastia Ming, com todos os aparatos e enfeites de sela e de vestimenta para a guerra eram tão vigorosos como os cavalos de apoio para as touradas, com seus adereços coloridos, pratas, chapas no dorso, elmos estranhos e estapafúrdios. Assim os dois artistas, colocados à margem do meio artístico do Rio, se completavam se admirando e trocando ideias e, principalmente, elogios, o que os reconfortavam para seguir adiante.
Na volta, a necessidade de ver Yolanda mostrou a Toninho Marcos que ele ainda mantinha um dos comportamentos mentais que o levou à dra. Nise da Silveira: a obsessão. Ela era parafuso que nunca acabava de se enroscar na madeira. A obsessão era ar viciado. A obsessão de Toninho Marcos estava nas palhetas e nas telas que pintava nos últimos dias cujo tema era sempre Yolanda: uma Mona Yolanda Lisa, uma Yolanda picassiana onde os olhos estavam no lugar da boca e a boca no lugar das orelhas, uma Yolanda abstrata que só Toninho Marcos via ali Yolanda, uma Yolanda a la Andy Warhol e principalmente uma Yolanda que não estava em tela alguma mas aparecia na tela da memória e do sonho, que são telas móveis e dissolutas, que crescem de tamanho e diminuem sem que passe a dor.
            Que língua falavam ali na casa de Juliana? Clemente conhecia várias línguas. Em todas elas havia a palavra amor. Só que na língua de Yolanda não havia mais a palavra amor. Ora, língua que não tenha a palavra amor é língua mais devastadora que língua que não tenha a palavra água. Estavam na sala, era mês de julho. Chovia. Fazia um frio de Bremen no outono e Clemente temia o frio de Bremen no outono.


(do livro Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010)

terça-feira, 28 de março de 2017

Considerações finais, poema RCF


 



Esse homem que se passa por mim,
veste meu terno, dirige meu carro
e assina documentos com meu nome,
desconheço quem seja.

Esse homem que se apresenta com meu nome,
se reveste de comiseração para chamar meu obséquio,
é uma fraude dos nervos e uma viagem sem retorno,
aquela que não vivi e sempre em mim
permaneceu como bicho que se incrusta
na pele ou a simbiose submarina
de rocha e sua concha, de arrecife e rêmora,
coisas que se agarram a outras para poderem viver
como um só elemento.

Esse homem que vai ao meu trabalho,
cumprimenta meus colegas e senta-se à minha mesa,
rouba meu tempo sem remorsos ou renúncia,
devorado que está pela voracidade das horas,
inconformado com o serrote do tempo
e o horror de existir entre quatro paredes,
ser pago para escalar o martírio
dos minutos que são degraus
que não se sabe se subimos ou descemos,
quando o expediente finda
como animal que para existir
deve alimentar-se do próprio corpo
e, logo, não haverá corpo,
pois o corpo morto não será alimento do corpo,
mas pasto para outros minúsculos corpos.

Esse homem que entra no supermercado,
graceja numa loja de eletrônicos,
desconhece o perímetro dos acidentes,
a fratura dos erros, o desvio que toda reta
induz, a amargura da servidão da vida
que se impõe necessária e impeditiva,
pois não há como evitar ser humano,
o que é difícil e inexato como a pontaria
dos míopes ou respirar dentro de uma placenta
que, rompida, nos coloca na rota perigosa da vida.





(Memória dos Porcos, Rio: 7Letras, 2012)

(foto: rodney smith)


segunda-feira, 27 de março de 2017

A máquina das mãos por Hildeberto Barbosa Filho


by Igor K Marques

Na fatura do poema há os que se encaminham pelas veredas do puro hermetismo, fazendo dos versos um modelo de linguagem cifrada, quase inacessível à leitura mediana dos que freqüentam o território da poesia. De outra parte, há os que se valem de um trovar claro, não raro linear, centrado numa transparência cuja visibilidade da mensagem paradoxalmente obstrui o fluxo das ambivalências estéticas. Mas há, também, os que sabem tocar o exato limite entre a falta e o excesso, evitando a obscuridade dita inventiva por um lado e, por outro, a facilidade expressiva, logrando, assim, na cartografia poética, o equilibrado encontro de forma e fundo, de linguagem e conteúdo, de estilo e temática.
Observando os poemas de A máquina das mãos, do maranhense radicado em Brasília, Ronaldo Costa Fernandes, devo situá-lo nessa terceira via, considerando a persistência deste traço desde os livros anteriores: Estrangeiro (1997); Terratreme (1998); Andarilho (2000) e Eterno passageiro (2004).
Quero crer que em A máquina das mãos permanece e se acentua a tensão do olhar poético diante da realidade que o cerca, constituindo-se, portanto, uma captação lírica em que pensamento e emoção, à maneira do melhor Pessoa, se fundem num inconsúltil modo de dizer típico da apreensão sem complacência, cética, irônica, corrosiva... Veja-se bem: a apreensão que se elabora pela percepção poética não prescinde dos recorrentes paradoxos responsáveis, a seu turno, pela desautomatização do olhar; mas, noutra clave, não prescinde da função crítica, ou melhor, metalingüística, perante os artefatos da linguagem, resultando daí todo um processo técnico-literário de desconstrução estilística em perfeita sintonia com a pluralidade das motivações desse discurso poético.
É preciso ver, contudo, que a desconstrução estilística, em Ronaldo Costa Fernandes, não se assemelha aos metaludismos em que tanto se comprazem certos segmentos da poesia brasileira contemporânea. A desclicherização, por exemplo, presente em alguns títulos de poemas (“Tormenta dos caminhos”, “Delito corpo”, ”A bela da noite” e “Um para todos”, entre outros) e em muitos versos, como que corresponde ao desconforto e ao pasmo da visão lírica, de sua vez, atenta a pormenores, a sutilezas, a coisas, fatos e sensações normalmente invisíveis e impensáveis, apesar do nutriente concreto com que se manifesta.
Não são poucos os versos em que essa nota lancinante, esse conflito seminal, essa tensão pulsiva, esse sabor acre e trivial da vida se entremostram em sua lúcida verdade e em sua estética beleza. Vejamos alguns: “(...) As correntezas são outro / caminho de água / dentro da água”, em “Tormenta dos caminhos”; “O único crime que cometi foi a vida”, em “Delito corpo”; “(...) a verdadeira roupa / é a veste dos vermes – são eternos”, em “Demônios de Bosch”; “(...) Luto comigo / que é uma luta desigual”, em “Luto”; “(...) Estou cansado de pisar na minha sombra”, em “Danação”; “Não existe a noite, / apenas o escuro que me ilumina”, em “A bela da noite”; “(...) Minha ordem não tem progresso”, em “Bandeira”; “(...) As margens são Penélope sem tapete”, em “À margem”, e “(...) deve haver um cemitério de fatos, / lá, onde todas as coisas – esquecidas ou não - / perduram e se repetem”, em “La invención de Morel”.
Poderia citar muitos outros versos, pois é denso o repertório conceitual e imagético dessa poesia onde o dado metafísico e transcendente, já assinalado por alguns críticos, não se transmuta em mero exercício aforismático ou filosofante. Os elementos cotidianos da existência, com seus materiais sólidos e concretos, tendem a eliminar o foco da frouxa abstração, tornando-a algo palpável, pesar de pura cosa mentale, de criação simbólica, de procedimento estético. Tantos poemas parecem brotar desse princípio condutor, o que, sem denegar a consciência do fazer, convoca, em especial, a poesia de Ronaldo Costa Fernandes, para o paradigma do dizer. Paradigma que se cristaliza, por exemplo, sobretudo na tonalidade do coloquial-irônico a que se refere T. S. Eliot, falando de Corbiére e Laforgue, com um poeta como o pernambucano Alberto da Cunha Melo e, noutra perspectiva, na linhagem de estilo mesclado entre o grotesco e o sublime de um poeta do naipe de Lêdo Ivo.
Para se ter idéia do que estou pensando, leiam-se, particularmente, os poemas “Poema para o suicida”, “Férias”, Às putas, “Lições”, “Vício de concreto”, “Aluguel”, “Em torno de uma imagem de Derrida antes de sua morte”, “1984”, “Poema para Fernando Mendes Vianna morto”, “Samuel Rawet” e “Rodoviária”. Leia-se principalmente este, “Churrasco”:

Da minha janela, vejo fornos crematórios.
As pequenas chaminés se sucedem como um i sem pingo.
Da fumaça que lhe escapa
há humor de tédio, carne e sal grosso.
Durante a semana os campos de concentração,
que são quintais,
se mantêm vazios e sem prisioneiros
além das árvores inúteis
que parem sem que ninguém as olhe.

Nos fins de semana,
começa o sacrifício de bois e rins
e a fumaça se evola, em suas cólicas
cinzas, a passagem das horas,
o riso grotesco dos feriados,
o ritual de queima e álcool,
a embriaguez da vida
cuja ressaca é a morte.

É este é o modo de compor de Ronaldo Costa Fernandes: lírico, de lirismo irônico, dotado daquele sentimento trágico da vida; lirismo à Drummond, corrosivo. Realista e alusivo em seus símiles surpreendentes, em suas metáforas feitas de aço e luar, em seus contrastes verbais carregados de impurezas e epifanias.
Ficcionista, ensaísta, mas sobretudo poeta, se focarmos o poeta como o demiurgo da linguagem, como o que guarda, vigia e zela suas formas, movimentos e possibilidades, Ronaldo Costa Fernandes tem lugar merecido, fora dos modismos experimentais e do facilitário confessional-subjetivo, isto é, no espaço da genuína poesia brasileira.





Hildeberto Barbosa Filho, natural da Paraíba, é poeta, professor universitário e crítico literário.

domingo, 26 de março de 2017

Ventre frio, poema RCF


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O galo no meu jardim é uma planta de penas,
move sua crista em flor na inquietude verde.
As frutas azedam a existência pendurada.

A geladeira agasalha fragmentos dispersos de vida.
Uma coxa de galinha, meia garrafa de suco,
carne gelada do não,
ali, no ventre iluminado e frio,
a vida se dá nos pêssegos cortados
como fetos em conserva.

(Eterno passageiro, 2004)