sábado, 6 de maio de 2017

Vulcão, poema RCF


Vulcão na forja, Giorgi Vasari

Os vulcões têm sangue quente.
Os lençóis freáticos,
ao contrário, mostram
que nas terras antigas
corre sangue frio.
O homem traz dentro de si
o ódio de lava dos vulcões
ou o sangue frio dos répteis
escondidos.
Os raios, espadas de eletricidade,
são desembainhados nas nuvens.
O pior raio do homem
é quando ele se incinera.
O ódio, que é espada e raio,
o atravessa de cima a baixo,
o corpo galvanizado de fúria.
A tempestade não me interessa,
já tenho bastante lava dentro de mim.
Minha eletricidade
é uma espada que carrego comigo
para o trabalho, o shopping, o cinema.
Também tenho meu lençol freático.
Minhas lágrimas, que seriam
meu sangue frio,
são olhos d’água salgada.             


(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)                                                   

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Um homem é muito pouco 31


         

Resultado de imagem para vivian maier  Visito meu afilhado. Levo meu afilhado no zoológico e ele sabe o nome de todos os bichos. Certa vez a gente estava na Quinta da Boa Vista. Era no meio da semana. Aquilo foi erro meu. Não se visita local público no meio da semana. O lugar fica vazio e amplo. O lugar coloca a gente debaixo de microscópio. O local público como a Quinta da Boa Vista tem que ser visitado num domingo ou feriado. E a gente se misturar com pipoqueiros, vendedores de churrasquinho, os pobres que enchem as colinas e fazem piquenique e os visitantes do Museu Nacional e povo alegre e suburbano que passeia entre os bichos e aves. Não há como se esconder num lugar tão amplo. José Altino é o nome do meu afilhado. Antes, Vicentino não queria botar o nome do filho dele de Mundiano, mas depois queria apagar tudo da antiga vida dele em Angola. Até o sotaque Vicentino queria perder a fim de que a guerra que largou em Angola não continuasse no Brasil. José percebeu minha agitação e me fantasiou de bicho.

            Ele me disse Ninguém vem atrás da gente porque agora a gente é bicho e bicho ninguém anda atrás. E a gente saiu do zoológico em forma de cachorro e ninguém deu conta de que a gente fugia em forma de cachorro.

            Essa é a história que o menino contava para o pai e para a mãe, para Vicentino e para Ariana, que ambos acreditavam que a gente fugira do zoológico em forma de cachorro. Minha versão é diferente. Ninguém me perseguia. Não consegui prova de que alguém me perseguia a não ser minha imaginação. Mas Vicentino contava a história da metamorfose como se realmente tivesse acontecido. E tanto contou e tanto ouvi que chego a duvidar se não saí do zoológico em forma de cachorro. Eu tinha a curiosidade de saber qual era minha forma de cachorro. Em que raça de cachorro me transformara para sair do zoológico sem ser percebido. Mas isso José, o menino com inteligência prevista por Mundiano como incisiva, não soube explicar, embora José conhecesse todas as raças de cachorro, desde pastor alemão até galgo e rotweiller.


(do livro Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010)

quinta-feira, 4 de maio de 2017

O demônio do silêncio, poema RCF



A manhã é feminina ou masculina?
Certos dias a vagina da manhã se abre infravermelha
com seus raios de grandes lábios.
Outros dias são emasculados pela névoa
que catarata o falo do silêncio.
Dentro de casa,
a puerícia da luz fraca,
as paredes urinando umidade e descaso.
Aqui habita o demônio do silêncio
que queima mais que a palavra devassidão.


(do livro Eterno passageiro, 2004, Varanda)

imagem retirada da internet

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Tens apenas meia hora para inventar o furor, poema RCF





tens apenas meia hora para inventar o furor

teu jardim é pródigo de ventos
                                     sustos uterinos
enveredas pelo abismo
                                     das desculpas úmidas

tu te recolhes à rotunda do medo
                                 atrás de cada porta se revela
gestos incompletos
na esperança do aperto
de mão que nunca virá
                              porque nunca foi tentado

enfurnada na cafua
                            onde tremes
e receias a mudez
nuvens e desastres de colete amarelo
                            te mostram
que o silêncio está em ti
e não pode ser fracionado
                           ou diminuído
como o coração
que não se amputa

parca e inexata
                         avanças pela manhã líquida
as manhãs são sempre femininas
                         os cachorros
vadeiam o mal estar do mundo

cresce a dívida
que não contraíste
                        com o agiota
que nem ao menos conheces

buscas então
                      o esconderijo
mais aviltante
para apaziguar
o desejo dos torpes
e afundar
no madrigal do fim
                               
                                                                

(Andarilho, 2000)




imagem retirada da internet: solitaryangel

terça-feira, 2 de maio de 2017

A festa camponesa, poema RCF


Resultado de imagem para diego rivera

A neblina granulada
artrites do carro de boi
amarras da feira livre
minúscula roda-gigante
            caboclo mágico
            prestidigitação do copo:
            sumiço de dois dedos
            de cachaça
            soluços luminosos dos
                              vaga-lumes
                             dentes sujos da sanfona
                             o galo rouco
                             copas de crista baixa
                             alto-falante fanho
rabeca de pouca corda
como boca de um só dente
repente lento
abc do cantor analfabeto
visão do cego
lusco-fusco dos olhares
onde termina o couro da alpargata
onde começa o couro do pé?
ruas descalças
raízes aéreas
frutas sobre a mesa
natureza morta viva
                curto-circuito dos busca-pés
                varal de bandeirolas
                            circo quadrado
                            pão de forma de rapadura
                            camponês chinês:
                                     relógio de pilha
                                     no braço sem pulso.


(do livro Terratreme, Fundação Cultural de Brasilia, 1998)


imagem retirada da internet: dicavalcanti

segunda-feira, 1 de maio de 2017

O gavião, RCF




O primeiro golpe
a vítima do gavião
sofre com a luneta
dos olhos espichados.
Depois a dor da presa
na algema das garras
e, por fim, o bisturi
do bico.

O gavião sabe
que a surpresa
é a mestra das armadilhas
e que, nela,
se esconde a guilhotina do susto.

O gavião usa
relógio.
O relógio do gavião
não tem ponteiros:
não há atraso
nem adiantado.
A morte é pontual
como um relógio enguiçado.

O gavião desafia
sua própria sombra
a qual nunca pode alcançar
e voa em círculos
na esperança de que ela,
por cansaço,
tema e, temendo,
comece a se esgarçar.

imagem retirada da internet: miró

domingo, 30 de abril de 2017

Memória dos Porcos, por Hildeberto Barbosa Filho


 Evangelho pelo avesso

 Hildeberto Barbosa Filho

 Publicado no jornal Contraponto (João Pessoa, PR) e O Estado do Maranhão.

           São Clemente de Alexandria, citando Heráclito, escreve: “O porco tira seu prazer da lama e do esterco”. Com raras exceções, a imagem do porco, nas diversas mitografias, encerra um conteúdo negativo associado às ideias de devoração, luxúria, ignorância, egoísmo, enfim, toda uma simbologia disfórica que tende a representar o lado obscuro, perverso e abjeto das coisas, conforme as informações preciosas do Dicionário de símbolos, de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant.
            Creio que não me engano, neste breve comentário crítico, se vincular semanticamente o título Memória dos porcos (7 Letras, 2012), do mais recente livro de poemas de Ronaldo Costa Fernandes, a esse arrazoado de noções e conceitos, símbolos e temas, que lastreiam seu discurso poético.
            Há, na sua poesia, uma tensão permanente entre o eu lírico - ensimesmado, irônico, reflexivo -, e a realidade, em sua formulação contraditória, ameaçadora, injusta e violenta. Não se tem, contudo, uma voz meramente de denúncia que instrumentalize a palavra poética a serviço das “boas causas” e das “boas intenções”, precisamente porque o contexto, tecido pela operação textual, transmite um “saber”, ou melhor, uma imagem, que ultrapassa os limites desse ou daquele contexto histórico particular, embora não se devam excluir os apelos sintomáticos do modelo social degradante no qual está imerso o eu poético. Modelo que um Zigmunt Baumann resume muito bem como “modernidade líquida”.
            Citemos alguns versos. Logo no segundo poema, “Espiral dos caminhos”, diz o poeta: “Deus deveria ter um caderno / de caligrafia para melhorar a letra”. Isto é, deveria..., mas não tem. Nem Deus, no seu poder absoluto (absoluto?), parece dar conta dos “caminhos espiralados / os caminhos sem chão, / as retas que não levam a lucidez”. Em “Minha foz do Iguaçu”, vê-se o aproveitamento, diria, pelo avesso, de uma imagem aquática, nesta sequência de versos: “Um arame de água / - o desconforto do abismo - / nada de mar vertical, / o drama de esperar / a catarata do tédio / as sete quedas da semana”. Logo em seguida, no texto “Código postal”, arremata o eu lírico: “No fundo sou um sujeito que não dá pé. / Por isso cada mergulho é um naufrágio. / E não faz bem à saúde / naufragar todos os dias”.
            Partindo, assim, do inadiável desconforto de existir e da necessidade poética de pesar os elementos da vida, Ronaldo Costa Fernandes como que faz de sua dicção lírica um contrapeso estético e filosófico à gula da esterilidade, a esse sorvedouro de miasmas morais, enfim, a essa memória suína e decadente da sociedade contemporânea.
            À desconstrução dos conceitos e das experiências, das convenções e das ideologias, evidentemente sob a gramática da linguagem poética, também passa pelo toque concreto e pelo arranjo formal e estilístico perante as camadas do signo. Dito de outra maneira, os ingredientes externos, isto é, os fatores reais (assuntos, temas e motivos), são reduzidos estruturalmente no poema enquanto dados internos, resultantes, portanto, da singularidade da elaboração discursiva.
            Um verso, como o já citado “as sete quedas da semana”, legitima o que estou dizendo. Mas vejamos outros: “Aprendeu as cinco declinações do latim / mas não aprendeu a declinar do mundo” (p. 20); “Não fui criado para ser multidão. / Já tenho dentro de mim bastante gente. / Meus olhos têm vários crepúsculos por dia” (p. 21); “(...) o vasto latifúndio de sementes perdidas / fazem o verdadeiro silo do homem” (p. 50); “(...) nenhuma catástrofe é maior / que acordar a beleza” (p. 80); e “A vida – na vida só há ida, / não há retorno no que me torno” (p. 92).
            No posfácio de A máquina das mãos, coletânea de 2009, destaquei este traço formal e linguístico na poética de Ronaldo, para acentuar o fato de que no poema não só importa o conteúdo temático; importa sobretudo o como este conteúdo temático se apresenta e se resolve no âmbito concreto da linguagem, pois é da relação orgânica entre forma e fundo que brota a beleza e a verdade da poesia.
            Não esqueço ainda a célebre parábola bíblica das “pérolas aos porcos”, naquele sentido de enunciar verdades aos ignaros e aos estúpidos, porque quer me parecer que essa Memória dos porcos, ironicamente, constitui um evangelho pelo avesso, isto é, a boa nova da arte como um desafio à esclerose e à vulgaridade do mundo atual.
            À corrupção dos valores e aos fundamentalismos ideológicos a poesia comparece com seus caminhos possíveis e com suas alternativas surpreendentes. Com mais este lançamento, Ronaldo Costa Fernandes, maranhense radicado em Brasília, dá continuidade a essa sugestão que se esboça e se cristaliza em obras anteriores, como Estrangeiro (1997), Terratreme (1998), Andarilho (2000) e Eterno passageiro (2004).  

 Hildeberto Barbosa Filho é crítico literário, professor da UFPR, poeta  e ensaísta. Um dos grandes nomes da poesia contemporânea, acaba de publicar sua Poesia Reunida.