sexta-feira, 2 de junho de 2017

Pardo, poema RCF




Essa gente parda, miúda,
mais parda ainda na alma,
mistura-se com o gasto
da cidade: paredes, fumaça,
fuligem, zinco, asfalto,
e a tristeza que também é parda.

Eu, que sou pardo,
também sou de escrita
apenas sugestão
como sonho ou fracasso
que são coisas
que poderiam ter sido.

A derrota sempre é parda
porque se pensa que passa
por ela impune: coisas pardas
permanecem mais
que emoções vermelhas.

Pardo é meu dia,
pardas são minhas dores alheias
já que, além das minhas,
sofro pela descrença parda
do homem pardo da esquina.

imagem retirada da internet: lucien freud

terça-feira, 30 de maio de 2017

A doença do mundo, poema O dificil exercício das cinzas




Anda convalescente
e sua doença é o mundo.
Os sintomas de que sofre
do mal do mundo
aparecem no exame
de sangue dos jornais.
Os rins do mundo
urinam o cáustico
e as pedras do caminho.
Sua tosse é seca,
semiárida,
cheia de mandacarus,
zabumbas e mangues.
Há tempo de plantar o estado de sítio
e tempo de colheita dos  redemoinhos.
Seus pés de barro,
suas mãos pesadas,
seus dois braços esquerdos,
seus nervos de aço oxidáveis
sua cabeça mole,
tudo o impede
de se curar do mundo.

(de O difícil exercício das cinzas, 2014)
can dagarslani

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Quiromancia, poema RCF



 Xadrez no espelho photo xadrez-sozinho-espelho.jpg



As linhas da mão são
uma bola de cristal de carne
um tarô com dedos
um baralho com uma única carta.
As linhas da mão
não pintam nem bordam,
são mal traçadas linhas da vida.
As linhas da mão
seguem seus trilhos de pele
e dão a mão à palmatória:
costuram o futuro,
cosem o presente
e alinhavam o que não se pode pesar.


(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)


domingo, 28 de maio de 2017

Doador de tempo, poema RCF


 
Sou doador de tempo.
Uma vez ao ano, estiro o braço
e de mim colhem tempo.
O coração o bombeia
e sinto o tempo subir à cabeça.
Mas quase sempre
entre a nodosa manhã
e o início serpenteante da noite,
mantenho o tempo frio.
Meu tempo segue seu labirinto
que pensa antes apresá-lo no corpo
quando na verdade por ele é prisioneiro.
Meço a pressão:
alta realidade.

(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)