sábado, 24 de junho de 2017

Serial killer, poema RCF



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Ainda não nasceu de todo.
O pior é andar pela rua,
deserto, morto e tolo.
O que ainda não nasceu
corre o risco de sobreviver.
Só o homem é capaz
de inventar o mundo
e o fez à sua palavra
e dessemelhança.
Não se escapa
quando se persegue.
Serial killer, mata a cada manhã
o mesmo homem
que se preparou para ser.





(Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)







sexta-feira, 23 de junho de 2017

Mágoa subalterna, poema RCF




Minha mágoa boia
sobre a superfície
como uma gota de gordura
que, irresoluta, não se mistura
e nem se dissolve.
Minha mágoa é roda de moinho
como o sangue que não se cansa
de sair e voltar para o mesmo lugar.
Minha mágoa, que picota
a pele engelhada do ressentimento,
é insular
mas faz parte de outros arrependimentos:
ardiloso arquipélago:
as ilhas são barcos de remorso.
Não há iodo ou unguento
que cicatrize o que a mágoa abriu.


(do livro Memória dos Porcos. Rio: 7Letras, 2012)


quinta-feira, 22 de junho de 2017

O ônibus do corpo, poema RCF




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Todos os órgãos
trazem um cronômetro.
Alguns são apenas passageiros
conduzidos pelo ônibus do corpo.
Eles também têm sua rota,
suas paradas, sua quilometragem.
A pior tormenta
é aquela dos nervos:
a árvore da certeza desaba,
o rádio dos pensamentos emudece,
o quarto das emoções destelhado.
O nascimento é um minuto
de gozo dos pais.
Um jorrar de vida,
um frêmito líquido.
Viver, contudo, não é gozo,
mas, sim, descuido, frêmito seco,
o ciclo se fecha: o escuro pare o ponto final.

(do livro Memória dos porcos. 2012)

terça-feira, 20 de junho de 2017

Cláudio Manuel da Costa e Abgar Renault

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Estrangeiro foi Cláudio Manuel da Costa. Formado em Portugal, publicou lá seus primeiros livros. Não era sua terra natal. O estilo barroco, no qual se iniciou na literatura, dava sinais de cansaço. Era um cidadão entre dois mundos. De volta ao Brasil, vai enfurnar-se próximo a Vila Rica, hoje Ouro Preto. Cidadão cosmopolita, não encontra interlocutores para sua vasta cultura. O pequeno grupo com quem dialoga é o dos poucos magistrados que também estudaram fora ou fora nasceram como o poeta Tomás Antonio Gonzaga, do qual Cláudio foi uma espécie de mestre. Estrangeiro na Europa, porque brasileiro, estrangeiro no Brasil Colonial porque o meio, embora rico, era tacanho em matéria de cultura. Dirão que ali estavam pululando as ideias libertárias da Revolução Francesa. Nenhum momento da História do Brasil homens que escreveram a História escreveram também a melhor poesia da época. Cláudio Manuel da Costa é herói de dois mundos: o mundo da literatura e o mundo da História.

Cláudio escreveu, para mim, o que de melhor podia se escrever naquele momento no Brasil. Misturou o barroquismo que bebeu na Europa e trouxe ao Brasil. Ingressou na nova escola literária, o neoclassicismo, ainda com herança e restos da angústia barroca. A luta entre a forma límpida e tranquila e o tema desassossegado do amor criam um estranhamento que o difere do barroco de onde vinha e do neoclassicismo puro para onde caminhava. É dele versos de dilaceramento como o amor a duas mulheres e o desejo de romper o peito e lá encontrar dois corações. Do amante que de tanto esperar à beira do rio sua amada se transforma em pedra.

Cláudio foi dos inconfidentes o que mais se abateu. Tinha mais idade, envergonhou-se de participar de uma conjura. Nos Autos da Devassa, há relato de Tomás Antonio Gonzaga sair assoviando após dar declaração. Lembremos que boa parte de Marília de Dirceu foi escrito na prisão. Cláudio, não. Suicidou-se ou suicidaram-no. É estranho que três irmandades mandassem rezar missa pela alma de um suicida. Deixemos o século dezoito, o genial Cláudio Manuel da Costa e aterrizemos no século XX.

Abgar Renault não era estrangeiro. Sempre viveu à sombra da família mineira, árvore de copa frondosa. Aqui se ressalve que não há demérito, no caso da poesia, da vida do poeta ser revolucionária ou burocrática e apascentada.

Abgar Renault, antes de ser poeta édito, foi poeta silencioso e solipsista. Zeloso, como poucos, só irá publicar quando muitos estão em declínio. Abgar faz parte de outra família: a dos que começaram a publicar depois dos sessenta. É da família de Saramago, que, embora tenha publicado antes, apenas após os sessenta anos passará a produzir sua obra que o levará ao prêmio Nobel. É da família de Lampedusa, que produziu além de narrativas curtas, o genial O Leopardo, também sexagenário. Sua obra de iniciante édito, datada de 1958, é quando o poeta já se aproximava dos setenta anos.

É certo que Abgar foi poeta desde sempre. Conviveu e respirou poesia com o grupo modernista de Minas Gerais. Grupo histórico de Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava, Murilo Mendes e tantos outros mais. E foi poeta ao recriar em suas traduções impecáveis dos poetas ingleses, norte-americanos, franceses, espanhóis e alemães uma visão da poesia tão própria e particular que o fez mais que tradutor, fez-se criador de poesia alheia. As traduções que fez dos poemas shakespearianos é digna de nota.

Embora tenha publicado tardiamente, Abgar, como se pode observar em sua Obra poética, reunida pela editora Record, escrevia no silêncio, no ineditismo do livro, mas na segura rota dos poetas que sabem que constroem uma obra permanente. Talvez seja por isso que tanto demorou a aparecer em livro. Ainda que seu primeiro livro, A lápide sob a lua, seja de 1968, podem-se observar vários poemas dos anos quarenta e cinqüenta. O próprio poema de abertura do livro de que falo é datado de 1950. O poema chama-se Prefácio de desculpas e é uma espécie de confissão e profissão de fé. Nele explica porque se transformou em poeta, o que é ser poeta e pede licença para os companheiros a fim de que ingresse no universo privilegiado da poesia. Começa com um “Perdoai-me a soberba de haver-me sonhado vosso irmão” e termina de maneira melancólica e desesperançada, a poesia lhe dói e não encontra eco nem amanhã. Sabe-se que em 1923, já tinha um livro intitulado Poemas antigos, que são poemas ao molde das cantigas de amor medieval, com seu português antigo, a forma cortês e temas obviamente amorosos. Livro que parece permanecer inédito até ser recolhido no já citado Obra Poética, de 1990.

Por sua poesia ter demorado a aparecer em livro é que Abgar Renault pode já surgir maduro e podar ainda no nascedouro aquelas poesias que a pressa em editar muitas vezes faz os poetas, ao reunir suas obras, retirar um ou outro poema ou simplesmente renegar as obras iniciais.

Poeta da busca, de imagens surreais, de construções inusitadas na formação do par substantivo/adjetivo, utilizando-se de imagens recorrentes de sombra e ecos simbolistas atualizados, Abgar Renault se aproxima de Cláudio Manuel da Costa em sua busca existencial e na difícil arte de viver, conciliando uma percepção sensível e aguda da realidade com a exaustiva cotidianidade que o retira da reflexão e do fazer poético. Seus temas não são prosaicos. Abgar Renault, antes de publicar seu primeiro livro, em 1968, opta por temas nobres e eternos como a solidão, o amor, a inquietação metafísica e o mal-estar no mundo. Neste seu primeiro livro, A lápide sob a lua, Renault utiliza o prosaico e se aproxima do modernismo inicial.

Há em Abgar Renault uma sombria configuração de si mesmo. O curioso é que homem tão devotado às causas públicas, tenha se mostrado um poeta intimista, atormentado e “transeunte do fim” como se classifica. Mais curioso é ver como coloca o Outro em sua poesia, principalmente a mulher, vista de forma luminosa, distante, solar e quase incompreensível. Falei em causas públicas e tenho que fazer um breve itinerário do poeta pela vida da burocracia. Abgar Renault teve altos cargos públicos e foi objeto de inúmeras honrarias. Resumirei, buscarei talvez as mais importantes: foi Ministro do Tribunal de Contas da União e Ministro de Educação e Cultura, representante do Brasil na Unesco em diversos momentos na área de Educação, membro de várias Academias, entre elas, a Brasileira de Letras e esta que nos acolhe. As honrarias foram muitas, entre outras, a Legião de Honra da França, Grande Oficial da Ordem de Rio Branco e a inglesa Commander of British Empire.

A obra de Abgar Renault, logo, é uma obra de antologia. De uma estranha antologia, da qual não conhecemos os outros poemas, os excluídos, porque nunca estiveram publicados. O poeta, escrevendo desde cedo, foi selecionando sua antologia pessoal sem que viesse a lume qualquer dos poemas que porventura negou. É uma estratégia estética, diriam uns; é uma idiossincrasia, modo pessoal de encarar a vida e a arte, diriam outros. O resultado, contudo, é essa bela e compacta reunião de poemas, densamente povoada pelos anos e pelo silêncio.

Por tanta convivência e enorme presença de Drummond na poesia brasileira, Abgar Renault, em A outra face da lua, de 1983, traz a influência do poeta de Itabira. Do mesmo humanismo, da dicção do homem em perplexidade, desamparado, do mesmo homem frente ao enigma e ao claro e escuro que Mário Chamie apontou numa análise que coloca Abgar Renault entre Gregório de Matos e Drummond. Mas, apesar da influência, observa-se um poeta singular e ímpar, capaz de reinventar a poesia e criar belezas com simplicidade como em “No alto da montanha”. Diz Abgar Renault, “Já não sinto saudade de mais nada, a não ser do começo da escalada, quando o azul era azul de azul sem fim e Deus criava de novo o mundo em mim.” Ali estão o tempo que passa, a ruína, o homem comum sem amparo, o cidadão perdido no labirinto da grande cidade e, no caso de Abgar Renault, homem que viajou o mundo ao contrário do poeta de A rosa do povo, o homem não só perdido na metrópole mas urbe et orbi.

Já em 1971, publica Sofotulafai, um poema só. O tema do poema é a linguagem, o ato de escrever e a literatura. É um poema longo, com pequenas inserções em inglês e francês, onde revela amor à escrita. “Se a palavra acabasse, um dia, a vida seria despojada de existência”, diz Abgar Renault. Um poema original, com experiências verbais próprias, como, por exemplo, o dos jogos de palavras de Álvaro de Campos ou do cubo-futurismo russo.

É nos sonetos que Abgar Renault consegue melhor resultado a meu ver. Não percebo influência e a construção verbal cresce com inusitadas e encantadoras imagens. A fôrma exata do soneto poderia diluir o vigor do verso, cegar o corte da faca, mas o que encontramos é um poeta que consegue, na concisão de catorze versos, eleger temas de angústia, a passagem do tempo, o efêmero da vida, o abatimento frente à vida difícil, a permanente solidão, o Outro distante, o impossível diálogo, o cansaço da busca. No livro Cristal refratário, mantido inédito por Abgar e só publicado na já citada Poesia Reunida, esta afirmação toma maior vulto. Não que antes não aparecera, apenas aqui se reacende e se afirma.

Em Íntimo Poço, Abgar Renault investe na interlocução, procura em vão o Outro, o aqui há o deslumbramento e medo da descoberta de um ser além dele mesmo – obscuro e recôndito como Abgar Renault buscou ser em sua vida de poeta. As imagens desconcertantes e surreais, a desilusão com o homem e a vida, as metáforas de dor e desamparo criam um clima de desesperança e de grandeza do ser humano perdido num mundo de aparências. A recorrência à palavra poço, que dá título ao livro, não contraria a assertiva. Neste e em outros livros, há de se perguntar se esse tu que o poeta indica e persegue não será ele mesmo, o poeta, e não o Outro, ou seja, aqui teríamos uma interlocução entre o poeta que se dirige a si mesmo como se fosse um outro.

Poeta em surdina, o próprio Abgar Renault define o ato de escrever e sua maneira de encarar a literatura. Diz ele num poema:

“Para que escrever, se eu jamais acontecerei num verso?
Para que escrever, se a verde luz infinita
jamais se reverá no espelho de nenhuma das minhas palavras?
Para que escrever, se meus olhos orvalham, neste preciso momento, esta clara tinta cheia de tantas caladas cousas?
Para que escrever tantas sílabas de sal e terra,
se nenhum grão de terra e sal responderá?”

No livro Thanatos, como o nome mesmo indica, Abgar se rende à temática da morte, que ele, observa-se nos poemas, acredita próxima e só virá aos 90 anos. Drummond viu em Abgar Renault um incurável pessimista. Mas reconhece que, diz Drummond, “o pessimismo, não há dúvida, é um grande gerador de poesia”.

domingo, 18 de junho de 2017

Considerações sobre a vizinhança, RCF


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De quem somos vizinhos?
Mais do que senhor da vacuidade
que mora em frente à dúvida,
somos vizinhos da indefinição das portas
dos elevadores que não se abrem.
Vizinhos das luzes a interrogar o passado,
o quadro sem tela da janela.
Do inquieto permanecer
das coisas em repouso.
Do rumor dos móveis
e da carnagem das paredes.
Somos vizinhos dos rostos anônimos,
principalmente o que vemos ao nos barbear.
As escadas são duas faces do mesmo degrau,
tanto ascende quanto nos leva
ao rés do chão.
Somos vizinhos dos prudentes
e dos pudicos com suas higienes da vida,
o medo de ser contaminado pelos sujos humores,
a aderência do fim, o apelo esponjoso do remorso,
a imundície da liberdade,
afundar-se na lama dos desejos
ou nos dejetos do pensamento.
E aí vem a mania de limpeza:
lavar as mãos 
o Poncio Pilatos dos nossos erros
a crucificação da culpa
a nos pregar as mãos
nos jatos das pias.