sábado, 8 de julho de 2017

O viúvo 18





O jardineiro vem uma vez por semana. Poda as árvores pequenas, corta a grama, limpa a varanda, trata das árvores frutíferas, arranca as ervas daninhas, enfim, trata o jardim com a necessária atenção de profissional. Mas não tem mãos delicadas para outras artes como as flores. As rosas acontecem. Simplesmente, acontecem.

Nascem não sei como, surgem uma manhã e lá ficam, depois desaparecem. Nunca mais voltam a nascer. Não há adubo, corte ou trato que dê jeito. E se as quaresmeiras, ipês ou buganvílias dão colorido, sopram seus ventos de folhas roxas, amarelas e violetas, é mais porque a natureza persiste, não descansa, ignora o homem e suas mãos toscas.

Nada é precipitado no jardim. Torna incurioso o fantasma de Lídia, com suas queixas descabidas e mortas.

E mais importante: o jardim manda-me o recado de que é preciso resistir contra as mãos inábeis dos homens. É preciso acreditar em algo. Ter idéias que é a maneira de dar fruto, porque não dar fruto é uma ação contrária à natureza.

Às vezes aborreço-me. Quero mandar o jardineiro embora. Acredito que seja luxo, desperdício, que não o mereço e, nesses momentos, me surge dúvida maior, não é mais o jardim que interessa, o jardim é subsidiário de outra emoção que também considero exagerada e perdulária, a de que, assim como o jardim, não mereço companheira, não mereço amigo, não mereço agrado dos alunos, que desperdiço a vida, seco como folha morta, não posso me dar prazer ou luxo de ter jardim, amor, amizade e outros sentimentos prazerosos, incompatíveis com o salário, o modo de viver, a paixão e a casa com jardim.

Logo olho para o jardineiro com outros olhos. Já não está ali o sujeito desajeitado que não sabe cuidar das plantas e flores. Ali está na minha frente a personificação do gasto que não posso cometer, do amor que não me permiti. O jardim lá está, indiferente às angústias.

Queira eu ou não, o jardim desorganiza-se, cria sua própria ordem e apenas surge silencioso, recluso, sem insistência.

            Meus pés não me merecem. Quando quis ser andarilho, o médico cortou a pretensão. Mas tenho persistido, porque o caminhar para mim é vital. Desconfiança de que o médico, assim como me condenou à imobilidade, me condene agora a outro tipo de imobilidade. Desconfiança do diagnóstico: O pensamento faz mal a você. Diagnóstico medonho. Mas como me impedir de pensar?

         Quer que eu evite os pensamentos mais elaborados, raciocínios delicados ou sofisticados que me levam à angústia, então há de cortar o mal pela raiz e neste caso o mal é o pensamento intelectual e a raiz o hábito de exercitá-lo.

         Volto ao pé – que do pé passei à cabeça –, meus pés são tortos, voltados para dentro, não manco, ninguém percebe o defeito. Só não posso dar grandes caminhadas. Assim como não posso abusar do pensamento, o que também me atrai. O primeiro me leva a dores musculares e até ósseas; o segundo me provoca a angústia infernal, dói-me a alma, que não tem ossos, dói-me o espírito que me abate e me deprime.
(O viúvo, Brasília, LGE, 20015)

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Lavoura humana, poema RCF


O homem é a praga do homem.
As máquinas da secura das fábricas
produzem o comércio das falhas.
Nenhuma lavoura o socorre,
nenhum plantio de gesto.
Meu corpo é fértil
e nele nascem folhagens febris.
Temo flores malditas
como comigo ninguém pode
ou maria vai com as outras.
Tive muitas marias sem vergonha, oh, sim, tive.
O inseticida do fácil pode apodrecer a aurora.
O errático tem suas nervuras,
seiva escura e amarga,
cipós de negação,
solo seco de certezas.


(de O difícil exercício das cinzas, 2014)

quinta-feira, 6 de julho de 2017

A guerra, poema RCF


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Cheguei a ter uma rosa dos ventos
que apenas floriu
nas cartas que jamais recebi.
Não posso negar que tenho a consistência
de um trem:
meu início pode ser meu fim
(basta que mude de lugar
a fornalha que arde meus loucos motivos).

Cheguei a crer-me medieval e encouraçado:
era apenas a Idade Média da adolescência.
Meu norte é fácil porque depende apenas
de um fonema: a morte.
Tenho nostalgias das pontes
e gosto da idéia de estar
suspenso entre duas margens.

Acordo sempre com a sensação
de não haver dormido.
E o sono, ao contrário da letargia,
tem sido apenas uma pitada errada
do sal da lucidez
que, exagerado,
maltrata antes que dá gosto.

Nenhuma arma
fere mais, mortal e decisiva,
como o fogo-fátuo das sensações.
Passo então o dia no mundo da lua:
Sou Jorge e o Dragão.




(Estrangeiro. Rio: 7Letras, 1997)




quarta-feira, 5 de julho de 2017

O viúvo 17


          

            Onde ficam as minhas portas da percepção? Nos olhos? Então se fecho os olhos, fecho as minhas portas da percepção? Não posso perceber as coisas de olhos fechados? E mais ainda: a percepção é visual? Tenho que ver as coisas para entendê-las? Onde está o poder da minha abstração? As coisas não existem como conceito, tenho de tocá-las? E se as portas da minha percepção estiverem no tato? Ou em órgão interno? Não precisarei ver as coisas para tê-las comigo. As coisas existem no mundo. Para obtê-las, para ter a percepção delas, não necessito de um olhar.
Essas considerações vieram a partir da minha leitura de As portas da percepção, de Huxley. Mas não li As portas da percepção há pouco tempo. Li já há alguns anos. E minha parceira perceptiva foi D. Benedita.
E voltaram as questões depois de um demorado desmaio. E uma dolorosa recuperação. Uma lenta, paulatina, arrastada e doída volta à realidade ou volta à percepção das coisas. Minha percepção não está nos olhos, embora Huxley fale de olhar para as coisas com novos olhos. Todos os livros de auto-ajuda falam em olhar as coisas com novos olhos. Parece anúncio de ótica. Ou coisa tibetana. Há algo de tibetano no livro de Huxley. Ele estava entusiasmado com a mescalina. Fizera experiências assistido por médicos, fazia aquelas maluquices como se já não fosse suficiente ter escrito o que tinha escrito. E não era só ele, porque a época pedia aquela nova sensibilidade e o relato com experiências com drogas já vinha desde o século de De Quincey e de Baudelaire e os artistas buscavam inusitadas formas de apreensão da realidade a fim de ficarem geniais e descobrirem zonas nãotocadasdamente.
Há algo de tibetano em D. Benedita. Mas ela desconhece que sua mente virgem, ainda não desbravada, só pode alcançar o conhecimento pleno se ela modificar-se e abrir suas portas da percepção. Onde estariam as portas da percepção de D. Benedita? Nos olhos fracos e míopes? nas pernas finas e bambas, no sexo desusado e desbeiçado pelo tempo?
O inglês relatava suas experiências alucinógenas com mescalina e propunha, entre inúmeras outras formas de experimentar o inusitado, que nos deitássemos no chão da sala. Tentei deitar no chão da sala para ver os móveis de outra perspectiva. Não descobri nada novo, nada me foi revelado, a sala aqui tomava outra figuração, mas não apresentava nenhuma descoberta espantosa.
Os objetos pequenos se escondem debaixo do sofá. Eu podia perder outros objetos pequenos debaixo do sofá: a pequena preguiça, o pequeno tédio, o pequeno orgulho. Não sou bobo de acreditar que Huxley falava de modo literal. Queria apenas que a gente visse o mundo de maneira distinta e não a rotineira e habitual.
Também meus objetos pequenos – oh eu não falava de modo literal. O orgulho mesmo é tão pouco, ínfimo, tamanho de botão que não sei se o perdi ou mesmo nunca o tive.
Tornei a deitar no chão da sala. Ali estava eu, estatelado, braços abertos, uma estrela humana, sem brilho, o teto sobre meu espanto. O espanto é a palavra de que mais gosto, ou melhor, o espanto é a matéria do incômodo e do meu descobrimento. Se algo não passa pelo meu espanto, não me afeta. O pasmo é que faz existir, o pasmo me dá sentido e conhecimento da realidade.
Em vez de tomar mescalina, eu tomo pasmo.
Havia poeira nos móveis, uma cadeira estava com o pé descascado e por aí vai. Não era isso que Huxley chamava de as portas da percepção.
Eu não ia reclamar com D. Benedita, dizer, olhe, deitei aqui pra ver o mundo de forma diferente e descobri que a senhora varre pelos caminhos, não limpa direito os móveis ou coisa parecida. Era uma mistura muito exótica e incompatível entre Huxley e sua mescalina e D. Benedita e seu pano úmido com lustra-móveis.
Nada de nova sensibilidade. Não houve pasmo, não houve descobrimento. De repente tudo sumiu. Anoiteceu na minha porta. Desmaiei. Quando abri os olhos, apareceu o carão velho e vincado de rugas de D. Benedita.
O que faz D. Benedita nas portas da minha percepção?
(do livro O viúvo. Brasília: LGE, 2005)

terça-feira, 4 de julho de 2017

Queimada, poema RCF





A queimada
coloca a terra de cabeça
para baixo
deixando à mostra as raízes
retorcidas em seu gozo de fogo.

O fogo vai arando
com sua foice de línguas,
foice de lâmina mole
mais cortante que fio da navalha.

O campo todo é plantação
de navalhas.
Estou só, perdidamente só,
olhos incandescidos,
na visão fervente do inferno na terra.

Olha bem, são as chamas sentinelas
que, esgalgadas,
vão se esmiuçando
na tropa vermelha
da terra arada
pelos bois
de morte e fúria
que são a combustão
do homem desesperado.

Tudo se amiúda
e cobrem a terra
a coivara
e as sementinhas
negras do nada
das cinzas.
Há silêncio
e o crepitar atrasado
do borralho
– é a terra que se asfixia
dos restos de si mesma
com a capa de chuva negra
que desveste
quando deveria cobrir.


(do livro Terratreme, edição da Secretaria de Cultura do DF, prêmio Bolsa Brasília de Literatura, 1998)


segunda-feira, 3 de julho de 2017

Concreto, poema de RCF

miró





O imenso ventre roliço de ferro,
a batedeira cujas entranhas
são feitas de pedra e vômito de cimento,

ainda moles, no gestar do ato,
no desenho futuro da casa fixa,
este gesto não é o gesto de viver,

mas a sonolência dos impertinentes,
a insensatez das falésias que se abismam
ou o corte abrupto dos tratores

no exato ato de construir não mais a casa,
e, sim, a vida, cheia de cortes e abismos,
falésias ao café da manhã,

dormências de ventres roliços de pão e vazio,
as linhas da casa não projetada na própria vida
a casa aqui não é o útero,

além existem as estradas com suas curvas precipitadas,
desejos de abismos, vertigens de cimento e asco,
a imensidão do nada na batedeira

que mistura o risco de viver
e o traçado da casa que virá
ainda é apenas o projeto de vida,

sendo germinada no útero de ferro,
cimento, cascalho e náusea.

domingo, 2 de julho de 2017

A palafita dos desejos, poema RCF

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Amazonas de bolso
e sua pororoca de conflitos.
Os desejos são palafitas
que as águas – as águas
tudo desmancham – invadem
a precária madeira dos sonhos.
Dentro da bolsa traz
as salinas do amargo
e a cegueira da luz branca.
Tantos amores desperfeitos,
deslindos, desamáveis,
descarinhosos, desmeigos
e, ao final, desfeitos.
Dedica-se a cultivar
um curto horto de delicadeza
na jardineira do apartamento
onde brota uma solidão indolente.


(O difícil exercício das cinzas, 2014)

A máquina das mãos por Euler Belém


Um livro para chamar de grande



Li, antes, o prosador. Tão complexo quanto Kafka e Beckett (Raymond Carver? Quem sabe). Minimalista, às vezes. A palavra instigante tem sido castigada pelos “críticos cientistas”, porque revela o leitor impressionista, o que sou. Portanto, como não estou entre os críticos cientistas, os anatomistas do texto, posso dizer que a prosa de Ronaldo Costa Fernandes é instigante. Por quê? Porque um texto puxa o outro. Queremos ver como o autor resolve o conto seguinte. Mas tal não ocorre tão-somente com o prosador. O poeta, que eu conhecia menos, ou nada, é surpreendente. Recomendo vivamente “A Máquina das Mãos” (Editora 7 Letras, 102 páginas).
Costa Fernandes é poeta moderno, só não é modernoso, e dialoga, de igual para igual, com a tradição, inclusive a filosófica. Não há o mínimo desleixo. Há rigor. Palavras devorando palavras certas nos lugares certos.
O que ele arranca da doença (câncer) de Jacques Derrida (o Jacques Dá ou Desce, segundo José Guilherme Merquior) é, deixado o que é triste de lado, até divertido, cômico. Poderíamos chamar o poema de “Aula de anatomia”, com um quê de grego e, mesmo (exageremos), surreal, mas o autor preferiu “Em torno a uma imagem de Derrida pouco antes de sua morte”.
Transcrevo o poema para mostrar a mestria cadenciada de Costa Fernandes: “Recuso a voz verde de Derrida,/os olhos de estanho,/a pele ausente que pode rasgar-se,/plumagem de pássaro último./O câncer está prestes a mudar sua pele/— esta, a plumagem de gesso envelhecido,/a pele de terno com que se veste o morto./Cada vez que respira,/a marreta do matadouro miúdo/ameaça o cérebro filósofo./Carrega consigo o pequeno cadáver/de fígado, rim ou pulmão/que morreu antes dele./Logo sairá do cinema da morte./Entramos numa grande sessão de cinema/que dura vinte, cinqüenta ou setenta/anos e, de súbito, em vez de as luzes/acenderem, tudo se apaga.” Pois é: Derrida somos nós. Hoje ou amanhã. A vida é a grande (curta, às vezes) sessão de cinema.
Nas lápides dos cemitérios deveria constar: “Amou [muito ou pouco, dependendo do sujeito] e odiou” [idem]. O homem ama e odeia às vezes na mesma proporção. Mas há os cultores da blasfêmia, talvez todos nós. Recomendo, pois, a leitura de “Tormenta dos caminhos”: “A blasfêmia se alimenta/de criadouro de ouvidos./O maldizer engorda em cativeiro,/até que se abra a gaiola/e o burburinho inche/seu papo amarelo de intriga.//Não há como arbitrar o limo./A língua tem lá suas escamas./Os cabelos das ondas/necessitam de cachos para espumar./As correntezas são outro/caminho de água/dentro da água.//Preciso de faca para escamar,/de secura para fugir do limo,/de imaginação para ser/um caminho entre caminhos”. Deixo os achados, múltiplos, para os leitores, mas como deixar de mencionar “os cabelos das ondas necessitam de cachos para espumar” ou “as correntezas são outro caminho de água dentro da água”?
Costa Fernandes homenageia, num poeta curto, “Samuel Rawet”, o escritor judeu que “assombrou” Brasília: “A angústia judia e imigrante de Rawet,/que vivia apenas em seu gueto de Sobradinho./Rawet morreu lendo, em sua cadeira de balanço,/e lá ficou três putrefatos dias./O gueto de Rawet era sua cadeira de balanço,/ o menor gueto do mundo”. A cadeira era mesmo seu gueto, mas havia outro, o interior, no qual Rawet certamente se livrava do exterior, o contato com os “muito” normais. Nós, os normais paranóicos.
É difícil, senão impossível, descobrir uma poema ruim neste livro de Costa Fernandes, o que prova, decerto, a seleção rigorosa de um poeta rigoroso, sua secura da elaboração não esmaece o vigor das sensações apuradas. A forma como usa as palavras para observar e descrever as coisas, a vida, o comportamento é um espetáculo à parte. Os poetas dizem aquilo que gostaríamos de dizer, mas não temos (as) palavras.


Euler Belém (Jornal Opção)