sábado, 15 de julho de 2017

O animal barbado, poema RCF




Este animal que se rasura
como quem raspa a orelha do porco
para a feijoada de fim de semana,
este animal feroz e matutino,
como um auto-retrato,
com seus olhos 3 x 4 ,
observa a paisagem da janela
e do outro lado do vidro
está ele mesmo,
é ele a paisagem que envelhece
cada vez que a frequenta.
Este homem ao espelho,
gilete de martírios e angústias violáceas,
barbeia seu minuto e sua morte,
exasperada e afiada servidão,
a consciência espumosa da pequena guilhotina.




(do livro Eterno passageiro. Brasília: Varanda, 2004)


(imagem internet: francis bacon)

sexta-feira, 14 de julho de 2017

União civil de afetos e maneiras, poema RCF



 Resultado de imagem para stanislav plutenko
Ah, eu prometo nunca mais me abandonar,
ouvirei minhas queixas
e prometerei não me tratar mal.
Serei sempre atento comigo,
viajarei  junto comigo
a lugares novos e exóticos
e, nas fotos, sorrirei comigo
para que, no futuro, meus filhos
vejam que sempre estive
acompanhado de mim.
Estarei comigo, na alegria e na dor,
na bonança e na pobreza,
na saúde ou na doença,
e serei, por fim, fiel a mim
até que a morte nos junte
definitivamente ao nada.


(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Variações sobre a sombra-1, poema RCF


Imagem | Yang Cao
Deus, dá-me uma sombra
que não esconda, mas revele
o escuro que anda em mim.
Há sombras que germinam na luz;
outras sobrevivem sem que nenhuma luz
faça parir seu duplo de silhueta.
Estas existem não como projeção,
mas a sombra em si
como se a sombra fosse a projeção
de uma sombra imaginária
de uma luz suposta e irrreal.
Há sombras que nascem sombras
e sombras morrerão.
Nenhuma sombra é igual a outra.
Há sombra mentira.
Há sombra enxuta,
há sombra ausente
e sombra de sombra.
As sombras estão nos meus olhos
ou nas coisas?
Esta é a prisão das sombras
de onde não se pode fugir
nem se abrigar.
A sombra expulsa
de seu útero escuro
a placenta de silhuetas.
Flores de sombras
com seu mal escuro
e pétalas de indizível fogo.
A lua mesmo é uma sombra
que mal ilumina.
O que existe depois da sombra
é um espaço negro em que cabem
o pesadelo, o medo, o fulgor negado
e a infinita dor das sombras.
E por ser sombra
naufraga no escuro
que é a água que a mantém
sobre a superfície da sombra.
Há sombra que sobe pelo homem
e sombra que não é falta de luz
nem a projeção de um homem
que já é sombra de si mesmo.

(de O difícil exercício das cinzas, 2014)
Yang Cao

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Estado alterado da razão-poema RCF






Quando ando em Paris no meu bairro
quando corro e não saio do lugar
quando chego em casa no trabalho
quando choro meus mortos
que ainda estão vivos
quando tiro o pino da granada
da fruta de conde
é
que meu verso está na minha frente.


(do livro Estrangeiro, Rio, 7Letras, 1997)



terça-feira, 11 de julho de 2017

A floresta de éter, poema RCF


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É preciso arar as vontades.
O solo seco da má fortuna
não germina as janelas.
Não há plantação de portas,
nem o semear de rumores.
Habitar o campo de casa
e encontrar em cada armário
a vegetação de roupas.


Não se necessita de água
para que a semente do silêncio
brote em meio ao capinzal de ruídos.


(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)

segunda-feira, 10 de julho de 2017

O amor traduzido, poema RCF


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Visitei a casa do ciúme,
onde se supõe que cada sombra
esconde encontros lúbricos
atrás de portas que se multiplicam
como espelhos postos um diante do outro.
Pensei em gestos ensandecidos:
enforcamento por pasmo,
o arsênico da fome,
o gás do flagrante.

Vesti-me de todas as maneiras,
deixei o cabelo crescer;
cortei o cabelo,
usei bigode e fiz curso noturno.
Li poemas de Shakespeare,
no original,
porque o amor
é de difícil tradução.



(poema reescrito do livro de estreia Estrangeiro, Rio, Sette Letras, 1997)

domingo, 9 de julho de 2017

As águas represadas, poema RCF

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Águas paradas das represas,
jacarés dormindo,
ursos hibernando,
é a fúria contida
no curral das águas.

Quando as águas se soltam
no espetáculo espumoso de ira
das comportas abertas,
libertam-se os cavalos selvagens
desenfreados em sua fuga úmida,
corcéis desabando na cachoeira livre.
As águas correm
aparentemente libertas
para outra vez se aprisionarem
– cavalos bravos mas domesticados
pelas margens do rio
até encontrarem outra represa,
que os acurrala
ou darem com os burros n´água
na imensidão anônima dos oceanos
que não distingue tipo de água
salgando tudo na igualdade
                                     dos mares.


(Terratreme, 1997)