sábado, 12 de agosto de 2017

Largo parto, Memória dos Porcos


rodney smith

Tudo o que pego parto
mesmo quando parto me pego
sendo outro que eu mesmo parto.

Por onde ando largo meus passos,
por onde passo ando ao largo,
por largo tempo meus passos não creem
que vão dar no Largo do cemitério
onde um dia largo meu último passo.




sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Marítimo, poema RCF

 Elina Brotherus's Baigneuse, Orage Montant'

                                  


Que velocidade marítima está em nós,
que Deus sabe de meus pecados
e tombadilhos
à espera de um
dedo de proa
que nos livre do
cais, do caos
e da desordem?

Que jardim marítimo planta
a rosa dos ventos
nesta naufragata
que avança alucinada e pura
e não me popa
destes diários desatinos
                                   de bordo?

Este mar não me salva-vida
me leva o Leme
faz do Rio um mar
e me naufraga na onda
das marés da moda.
Este o dilema, o fato mercante
que me assalta:
a bússola ou a vida?

                                   (do livro Estrangeiro, Rio, 7Letras, 1997)

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Picadeiro de ruínas, poema RCF


 Ilustração | Stamatis Laskos
Estou abandonado ao próprio eixo
que de mim me gira e me solta frouxo,
tudo escurece ao se perder o alvo,
um homem que esqueceu do seu agosto.
Morto me encontro vivo e vivo
me sinto falecido das faculdades
contra o açude da memória
que me transborda de passado.
Minha razão – cavalo esquivo –,
trota no picadeiro de dúvidas,
percebo o salto triplo
do erro: o nulo, o vago, o curvo.
O interruptor das pálpebras
desliga a realidade.



(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)




(imagem: Stamatis Laskos)

terça-feira, 8 de agosto de 2017

O homem e o talho, poema RCF


 

Alguma coisa vem e me talha.
Não é o talho de algo cortante,
objeto pontiagudo, diria um legista,
mas o talho de um leite
que é o princípio de uma desagregação
e, em certo sentido, de sentimentos talhados,
maneira de se sentir em regime de decomposição.

Sou então um homem talhado.
Talhado para o amor?
Talhado para determinada profissão?
Sem que a frase continue
– o talho é intransitivo.


E vou me fermentando por dentro
até que o que me corrompe
deixe de ser fluido e se torne sólido.
Tenho então outro órgão dentro de mim
que não é apêndice nem tem função,
a não ser a de me lembrar
que minhas incandescências
são contraditórias, sólidas e em forma de talho.



(O difícil exercício das cinzas, 2014)

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Variações sobre a sombra-2, poema RCF


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A sombra e seu exército


O cabo da penúria
que nos exercita nas barras da noite.
A hierarquia de nuanças,
a divisa de penumbras,
a artilharia de chumbo grosso dos pesadelos.

A sombra impõe sua marcha
feita de claro e escuro
e a companhia de si mesmo
que é a reprodução chapada
e sob os pés
da escuridão de nós mesmos.
O espelho de silhuetas
a refletir o perfil do acaso.

Depois, há um batalhão de equívocos,
a caserna de escusas e negaças,
o aquartelamento dos sentimentos
e o acampar de esconderijos.

Aqui nada escapa à patente das máculas,
tudo se curva à tropa dos desvios
e aos poucos se diluem
as inúteis trincheiras de luz.



(O difícil exercício das cinzas, 2014)