quinta-feira, 17 de novembro de 2016

O náufrago aéreo, poema RCF





Logo virá a noite
com seu casco
cobrir o corpo das marés.

Os aviões farejam na pista
o capim cinza do asfalto.
O aeroporto são luzes
gritando e soluçando
no espaço de um pouso
e de uma decolagem
– a vida entre aspas.
O display não dá
a hora do pouso final.

Embarco
e vou tão estrangeiro e íntimo
como a poltrona dos aviões.
Para nós que sobrevivemos
ao amigo suicida, ao louco
e ao que morreu na política,
a vida é o pasmo
de saber-se náufrago do ar.

(do livro Estrangeiro, Rio: Ed. Sette Letras, 1997)

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