sábado, 15 de outubro de 2016

O deserto, poema RCF






E vai o deserto comendo terra fértil
alargando sua plantação de grãos,
seu pasto de areia,
sua colonização de secos,
seu plantio de nada.
Na vastidão igual do arenoso,
erosão das águas e do vento,
o deserto – qual mercúrio no rio –
vai tomando o espírito
e cobre de areia tudo:
os móveis, a louça, as roupas
– bate nas janelas
com seu ô de casa
farinhento
e, por fim, atinge o ânimo
que se esmirra, granula-se,
erode e avança a cada dia
dois palmos de vazio
que é a medida do pasmo
e o metro dos absenteístas.




(do livro Terratreme, Brasília, Secretaria de Cultura do DF, 1998)


 

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